Expresso – 50 anos

Foi há 50 anos que o Expresso saiu pela primeira vez.

Não há dúvida que, na altura, foi aquilo a que se chama uma pedrada no charco. Era um jornal diferente de todos os que existiam, moderno e arrojado. Lembro-me de ler, com entusiasmo, as colunas de Miller Guerra e de Sá Carneiro, tentando perceber, nas entrelinhas o que eles, de facto, insinuavam.

O República já fazia parte do meu dia-a-dia, e o Expresso veio juntar-se-lhe. Com o prec, o República finou-se. O Expresso, pelo contrário, foi-se fortalecendo e continuei a comprá-lo todas as semanas. Era leitura para o todo o fim de semana.

Nos últimos anos, no entanto, o Expresso já não é o que foi. É um jornal cada vez mais encostado, com um director que não esconde a sua simpatia pelos liberais, e com canais directos para o Palácio de Belém. Continuo a comprá-lo, mais por hábito do que por prazer. Folheio rapidamente o corpo do jornal, raramente me detendo num artigo. Começo a ler o editorial do director, irrito-me e desisto. Começo a ler a opinião do Miguel Sousa Tavares e acho que já li aquilo há uns tempos. A opinião dos colunistas habituais também não traz nada de novo. Em resumo, o corpo do jornal vai para a reciclagem em três tempos. Fica a Revista que ainda consegue despertar-me algum interesse. Não falho as Palavras Cruzadas!

De qualquer modo, parabéns ao Expresso.

Coisas da democracia

Três notícias na edição de hoje de o Público, fazem-nos pensar um pouco sobre o valor das democracias.

Em Portugal, a nova secretária de estado do Tesouro foi demitida depois de ter recebido meio milhão de euros de indemnização por ter sido despedida da TAP.

Faltavam-lhe dois anos de contrato, tal como a Fernando Santos, o selecionador nacional de futebol que, no entanto, recebeu 3,5 milhões de indemnização.

Percebe-se a diferença: Santos ganhou um campeonato da Europa, enquanto Alexandra Reis, a secretária de Estado, não ganhou coisa nenhuma – a não ser a tal indemnização.

Nos Estados Unidos, o congressista republicano George Santos admitiu que mentiu sobre a sua formação académica e o seu histórico profissional durante a campanha para as eleições intercalares de novembro.

Santos é adepto de Trump e afirmou que não é criminoso; acrescentou: “o meu pecado foi ter enfeitado o meu currículo. Peço desculpa. Fazemos coisas estúpidas na vida”. Mesmo assim, pretende tomar posse como congressista.

Em Israel, o Parlamento aprovou duas leis que poderão permitir que os políticos passem a ter um poder quase absoluto e em que as mulheres, homossexuais, estrangeiros, ou até judeus não ortodoxos, possam perder direitos.

Um dessas alterações torna possível que políticos condenados por crimes graves como corrupção, possam ser ministros.

São coisas da democracia – o pior regime político, mas o único que é aceitável…

Os jornalistas passaram de conferentes a entendedores

Aqui há uns tempos era frequente os jornalistas da rádio e da televisão, dizerem coisas como estas:

* “Vamos agora conferir como decorreu a reunião de hoje do Conselho de ministros”.

* “Hoje foi mais um dia de greve dos trabalhadores da Transtejo; junto do representante do sindicato, o nosso repórter vai conferir a adesão à paralisação…”

Portanto, os jornalistas conferiam. Eram conferentes.

Mas os tempos mudaram e agora, ouvimos os mesmos jornalistas a dizerem:

* Vamos agora tentar perceber como decorreu a reunião de hoje do Conselho de ministros”.

* “Hoje foi mais um dia de greve dos trabalhadores da Transtejo; junto do representante do sindicato, o nosso repórter vai tentar perceber a adesão a esta greve”

Ou seja: os jornalistas da rádio e televisão, deixaram de ser conferentes, para passaram a ser entendedores.

E para entenderem melhor o que se passa passaram a ter a ajuda permanente dos comentadores.

Todos os canais de televisão têm os seus comentadores para questões relacionadas com a guerra, a inflação, a corrupção, os casos dos tribunais, o futebol, as crises políticas, as alterações climáticas e tudo e tudo.

Quer isto dizer que, afinal, os jornalistas não entenderam nada e precisam dos comentadores para perceberem o que se passa.

Por isso, mesmo que confiram e tentem perceber o que se passou na reunião de hoje do Conselho de ministros, precisam da ajuda de um comentador para compreenderem mesmo o que se passou.

Há qualquer coisa no curso de comunicação social que está a falhar…

“O Feiticeiro de Oz” pelo TIL

Parabéns ao Teatro Infantil de Lisboa (TIL) por esta produção de “O Feiticeiro de Oz”!

As nossas netas (10, 7 e 5 anos) adoraram. O texto de Ana Saragoça é uma adaptação muito boa do livro de Frank Baum, está bem esgalhado e é muito divertido.

Parabéns a Quim Tó, responsável pela música e pela direção musical, a João Cachulo pelo desenho de luz, a Kim Cachopo pela excelente cenografia, a Ana Sabino e Pessoa Júnior pelos figurinos e parabéns, claro, aos intérpretes: Bia Guimarães, Henrique Macedo, Kim Cachopo, Marta Lys, Miguel Vasques, Paulo Neto e Tiago Almeida.

foi uma tarde bem passada no Teatro Armando Cortez.

“HIstórias Bizarras”, de Olga Tokarczuk (2008)

A Cavalo de Ferro continua a publicação desta escritora polaca, vencedora do Prémio Nobel em 2019.

Como o nome indica, este livro, editado já há 14 anos, contém um conjunto de histórias estranhas.

Como diz a contracapa: “um médico escocês do século XVII, ao serviço do rei da Polónia, descobre uma estranha raça de crianças verdes. Uma família de quatro mulheres idênticas, que se podem ligar e desligar, vê a sua rotina ser perturbada pelo aparecimento de dois vizinhos. Um mundo onde impera o uso do metal mantém a sua ordem graças ao sacrifício de um misterioso semideus com mais de trezentos anos. Uma mãe deixa uma estranha herança de vários frascos de conserva ao aseu filho preguiçoso”.

São, de facto, histórias bizarras, umas mais bem conseguidas do que outras.

Apesar de serem histórias em que impera o lirismo próprio de Tokarczuck, prefiro os seus romances.

Outros livros de OPlga Tokarczuk: “Casa do Dia, Casa de Noite“; Outrora e Outros Tempos; Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos; Viagens;

“Os Anos”, de Annie Ernaux (2008)

Annie Ernaux terá concluído este livro quando tinha 66 anos, após a sua aposentação. Já nas páginas finais deste livro, escreve:

“De um dia para o outro, as aulas redigidas, as notas de leitura para as preparar, deixavam de ter qualquer utilidade. Por falta de uso, os conceitos antes adquiridos para explicar os textos apagavam-se nela – e quando procurava em vão o nome de uma figura de estilo, era obrigada a confessar, como a sua mãe fazia a propósito de uma flor da qual lhe escapava o nome, «já soube»”.

E mais à frente:

“Já lhe acontece, quando tenta lembrar-se das colegas do liceu na montanha, onde deu aulas durante dois anos, ver algumas silhuetas, rostos, por vezes até com extrema precisão, mas é-lhe impossível «dar nome». Desespera para tentar encontrar o nome que falta, para fazer coincidir uma pessoa com um nome, como se conciliam duas metades separadas.”

Como eu a compreendo! Passa-se o mesmo quando vejo na rua um ex-doente meu, que reconheço imediatamente, mas cujo nome se perdeu algures no espaço e no tempo, ou quando tento lembrar-me do nome de um medicamento ou até de um síndroma.

Este livro de Annie Ernaux é uma espécie de diário; são pequenos fragmentos que contam pequenos episódios a partir de uma foto, ou de uma notícia de jornal, ou de um filme, de uma canção, de um jingle comercial. Começa nos anos 40, pouco depois da Segunda Guerra e vai caminhando ao longo dos anos (daí o titulo do livro), até 2006.

Logo na página 31, escreve:

“Não se deitava nada fora. Os baldes da noite serviam de estrume no jardim, o esterco apanhado na rua depois de passar um cavalo servia de adubo para os vasos das flores, o jornal servia para embrulhar legumes, secar por dentro os sapatos molhados, limpar o rabo na casa de banho.”

Mais à frente, página 40:

“O sexo era a grande suspeição no seio da sociedade, que via sinais dele por todo o lado: os decotes, as saias travadas, o verniz vermelho das unhas, a roupa interior preta, o biquíni, a mistura de sexos, a obscuridade das salas de cinema, as casas de banho públicas, os músculos do Tarzan, as mulheres que fumam e traçam a perna, o gesto de passar a mão pelos cabelos na sala de aula, etc.”

E muito mais à frente, como último exemplo do modo como Ernaux escreve este “diário” (página 140):

Os filhos, sobretudo os rapazes, dificilmente largavam o ninho familiar, o frigorífico cheio, a roupa lavada, o ruído de fundo das coisas da infância. Faziam amor, com todo o à-vontade, no quarto ao lado do nosso. Instalavam-se numa juventude longa e duradoura, o mundo parecia não estar à sua espera. E nós, alimentando-os, continuando a cuidar deles, tínhamos a sensação de estarmos a viver, sem rutura, no mesmo tempo de sempre.”

Sem nunca se referir a ela própria especificamente, mas sim a um conjunto de pessoas que poderão ser a sua geração, Ernaux vai referindo os acontecimentos da política, a eleição de Mitterand, depois de Chirac, depois de Sarkozy, a evolução da tecnologia até ao telemóveis e os computadores, as modas, os programas de televisão, as canções, não esquecendo praticamente nada de importante, a não ser, talvez, o 25 de Abril – já que fala na queda da ditadura grega, por exemplo.

É um livro muito interessante, que foi finalista do Man Booker Internacional de 2009, e que poderia ainda ser mais interessante se não fosse “tão francês”, uma vez que a autora refere nomes de apresentadores de televisão e respectivos programas e outros acontecimentos (guerras da Indochina e da Argélia) que dizem respeito apenas aos franceses. Vale a pena ler.

“Tudo é Possível”, de Elizabeth Strout (2017)

Este é o terceiro livro da série Lucy Barton, da autoria de Elizabeth Strout.

Começámos pelo fim, “Oh William”, de 2021 e, como o livro nos despertou curiosidade, lemos o primeiro da série, “O Meu Nome é Lucy Barton”, de 2016.

Se nos outros dois livros desta série, Lucy Barton, a escritora que veio de uma família extremamente pobre, é a narradora, neste “Tudo é Possível”, ficamos a conhecer as histórias de outras personagens que Barton refere nos seus livros.

São histórias simples de pessoas simples e Lucy Barton surge apenas como personagem periférica dessas histórias.

Dos três livros, este pareceu-me o menos interessante…

“O Acontecimento”, de Annie Ernaux (2000)

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Annie Ernaux. Claro que o facto de esta escritora francesa , nascida na Normandia em 1940, ter ganho o Nobel deste ano, me despertou a curiosidade – sobretudo depois de ter lido uma entrevista sua que veio publicada no Expresso.

Comecei por ler este “O Acontecimento”, publicado há 22 anos. É um livrinho que se lê num par de horas porque não chega às 90 páginas.

Ernaux, que afirma que todos os seus livros são biográficos, tem a coragem de contar como, em 1963, se submeteu a um aborto clandestino, que a fez sentir-se humilhada, abandonada e em risco de vida. Afinal, ela era uma estudante universitária e, no entanto, no que respeita ao problema que enfrentava, tanto fazia.

Embora nunca tenhamos passado por nada de semelhante, sabemos muito bem o que era, uma década depois, continuar a basear a anticoncepção no famoso método Ogino e não ter ninguém que nos informasse melhor.

Annie Ernaux descreve os factos numa linguagem simples, mas emotiva e consegue transmitir-nos a angústia por que passou nesses tempos.

Vou já iniciar a leitura de mais um livro desta escritora francesa.

O Coiso e a tradutora dos livros de Olga Tokarczuk

Deparei-me com este simpático comentário no Coiso:

“Sou a tradutora de Olga Tokarczuk e queria felicitá-lo pelas publicações que tem feito sobre os livros da escritora polaca. Espero que nunca deixe de o fazer. Saiu no Expresso um artigo meu onde menciono o seu blogue – uma forma de reconhecimento pelo seu trabalho. Parabéns!”

A Revista do Expresso estava ainda à espera de ser lida, mas fui logo buscá-la e encontrei um texto escrito pela tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz, onde ela refere:

“A boa recepção de Olga Tokarczuk em Portugal pode ser analisada à luz do conceito de fidelidade, porque entre os agentes do processo. editor, tradutor e leitor – se desenvolveu um relacionamento profícuo, manifesto no facto de os livros da escritora nobelizada serem simultaneamente best-sellers e long-sellers, bem como no facto de terem surgido no ciberespaço blogues literários (por exemplo, “Palavras Sublinhadas” e “O Coiso – aqui desde 1999”) que dissertam sobre os seus sucessivos livros, elogiando o carácter inovador da sua estrutura narrativa, a escrita fluida repleta de passagens memoráveis e pensamentos aforísticos, as personagens inesquecíveis e os enredos imaginativos, bem como a imprevisibilidade do desenrolar dos acontecimentos.”

Teresa Fernandes traduz os livros de Tokarczuk do polaco para português e percebe-se, pelo que diz neste texto, que o faz com prazer porque, também ela, deve ser (é certamente) uma fã da escritora polaca.

Quanto ao facto de O Coiso ser um blogue literário, não diria tanto… limito-me a escrever meia dúzia de opiniões sobre os livros que vou lendo.

“A Mulher de Cabelo Ruivo”, de Orhan Pamuk (2016)

Dez anos depois de receber o Prémio Nobel, Pamuk publicou este livro que gira todo em torno do mito de Édipo e da lenda de Shahnameh. Enquanto naquele é o filho que mata o pai, nesta lenda oriental, é o pai que mata o filho.

O livro está dividido em três partes; nas duas primeiras, o narrador é Cem, que, em jovem, antes de entrar para a Faculdade, esteve a ajudar um mestre a escavar um poço, em busca de água. Durante esse mês em que esteve a ajudar nas escavações, Cem conheceu uma mulher de cabelo ruivo, dez anos mais velha, com a qual acabou por se envolver sexualmente. Ela era actriz e representava uma cena do Shahnameh que fazia a assistência chorar.

Entretanto, a escavação acabou mal: quando o mestre escavava no fundo do poço, Cem deixou cair o balde em cima dele, pensou tê-lo matado e abandonou o local, sem o socorrer.

Mais tarde, Cem tornou-se um grande empresário da construção civil. Casado e sem filhos, passou os seus tempos livres a viajar pelo mundo com a mulher, procurando livros, pinturas, esculturas, que tivessem a ver com o mito de Édipo. No auge do seu sucesso como empresário, decidiu comprar os terrenos onde estava o poço que ajudou a escavar e acabaria por descobrir que, afinal, tinha um filho.

Como diz o Evening Standart na contracapa: “uma intensa parábola política que nos diz muito sobre a Turquia actual”.

Sinceramente, não me entusiasmou muito…

Outro livro de Pamuk: O Museu da Inocência (2008)