“The Father”, de Florian Zeller (2020)

Anthony Hopkins (83 anos), ganhou o óscar para melhor interpretação e é bem merecido, mas Olivia Colman não lhe fica atrás.

“The Father” é a adaptação cinematográfica da peça de teatro, “Le Pére”, da autoria do realizador do filme, Florian Zeller, peça que ganhou diversos prémios.

O filme mostra-nos como Anthony (Anthony Hopkins), um homem que já ultrapassou os 80 anos e que gosta de ópera, vai perdendo a memória, ficando cada vez mais confuso, com alucinações auditivas e alguns lampejos de delírio.

A pouco e pouco, confunde uma das suas cuidadoras com a sua filha mais nova, que terá morrido num acidente, por vezes, não tem bem a certeza se aquela é mesmo a sua outra filha (Olivia Colman), pensa que continua a viver no seu apartamento, pensa que lhe querem roubar o relógio, confunde as refeições, etc. Hopkins é excelente, criando um Alzheimer muito convincente e Olivia Colman faz um papel muito contido, de uma filha que não sabe o que há de fazer com a demência do pai.

“Nomadland”, de Chloe Zhao (2020)

A localidade de Empire, no Nevada, existia graças à mina de gipsita (gesso) e à empresa que procedia à sua extracção. Todas as casas pertenciam à empresa e Empire chegou a ter 750 habitantes, uma piscina, escola, e até aeroporto. A partir de 2008, com a crise económica, a construção civil deixou de precisar de tanto pladur e a empresa foi à falência; a maior parte dos empregados e respectivas famílias abandonou a cidade, que se transformou numa cidade-fantasma em 2011.

Francis McDormand interpreta o papel de Fern, a viúva de um trabalhador da mina que, depois da morte do marido e da falência da empresa, decide meter-se na sua carrinha e partir, tonando-se uma nómada – como ela diz, não é uma “homeless”, é uma “houseless”.Ao longo de quase duas horas vamos acompanhando Fern e conhecendo alguns dos nómadas que vivem em caravanas e carrinhas, de cidade em cidade, aproveitando trabalhos sazonais. Fern trabalha na Amazon, na altura do Natal, quando as encomendas aumentam, mas também num parque de caravanas nas badlands, num restaurante de fast food, ou na apanha da beterraba, no Nebraska.É um filme comovente e profundo e as pequenas conversas que Fern vai tendo com alguns nómadas (que não são actores), falam-nos da vida, da solidão, da morte, das coisas boas da vida, da liberdade, da memória.Gostei da fotografia e da música e a interpretação de Frances McDormand é excelente.Um filme elegante e maduro da realizadora chinesa Chloe Zhao, que só tem 29 anos.

After Life, de Ricky Gervais (2019-2020)

Gervais encontrou, nesta série, o tom certo para “brincar com coisas sérias”.

Uma imagem com animal, exterior, sentado, mamíferoDescrição gerada automaticamenteAfter Life é uma série de apenas 12 episódios, divididos em duas temporadas, e que nos conta a história de um redactor de um jornal de província, Tony, que perdeu a mulher há pouco tempo, vítima de cancro. Tony está deprimido, suicida e, uma vez que acha que perdeu tudo na vida, diz e faz o que lhe apetece, sem remorsos, acabando por espalhar azedume à sua volta – mas com muita graça.

Ricky Gervais é um Tony convincente, sempre de rosto fechado, só sorrindo quando, de algum modo, goza com os seus estranhos colegas do jornal.

A série decorre numa vila de província, com as suas figuras estranhas, o carteiro, a prostituta, a cuidadora do Lar, o psiquiatra (talvez a personagem menos conseguida, porque demasiado caricaturada).

Gostámos muito.

“Ozark”, de Bill Dubuque (2017-2020)

Terminámos hoje o visionamento de Ozark, uma série da Netflix.

São três temporadas, cada uma com 10 episódios de uma hora e picos. Uma quarta e última temporada está quase pronta.

Ozark conta a história de um conselheiro financeiro de Chicago (Marty Byrde), que se muda com a mulher e os dois filhos para Ozark, depois do seu sócio ser assassinado pelo cartel mexicano dirigido por Navarro.

Byrde lava dinheiro para Navarro e acaba por envolver a mulher, Wendy, e os dois filhos, Charlotte e Jonah.

Marty Byrde é interpretado por um excelente Jason Bateman, que raramente se ri ao longo dos 30 episódios, consegue quase sempre manter a calma perante todas as adversidades, mesmo quando está quase a ser morto por vários tipos de diversas proveniências, quase sempre entalado entre o FBI, o cartel e vários mafiosos locais.

Wendy, interpretada por Laura Linney, a pouco e pouco vai entrando no negócio e, às tantas, parece querer rivalizar com o marido em manobras e artimanhas.

Destaque ainda para Ruth (Jluia Garner), uma miúda local que começa a trabalhar para Byrde e que se envolve cada vez mais nos negócios e nas suas desgraças e Marlene (Lisa Emery), uma sessentona local, dona de um vasto terreno onde cultiva papoilas para o fabrico de heroína e que se torna sócia de Byrde, mas sempre com a ameaça de o trair.

Toda a série envolve momentos de grande tensão e violência latente, a fotografia é óptima, sempre sombria e, logo a partir do terceiro episódio, estamos com a impressão de que Marty Byrde vai ser assassinado por alguém.

Não vai – pelo menos, até ao fim da terceira temporada…

Meet Vincent Van Gogh

Montaram uma enorme tenda no Terreiro das Missas, mesmo em frente ao Palácio de Belém, mas o ilustre inquilino não está lá. Marcelo decidiu colocar-se em quarentena voluntária na sua casa; há alguns dias, recebeu, em Belém, alunos de algumas turmas de uma escola de Felgueiras e, dias depois, soube-se que um desses alunos testou positivo para o novo coronavírus.

Como bom hipocondríaco, Marcelo recolheu-se a casa, até porque, tendo já feito um cateterismo, é um doente de risco.

Voltando à Exposição… não é uma coisa absolutamente espectacular e imperdível, mas não há dúvida que Meet Vincent Van Gogh é uma maneira inovadora de tomar contacto com a vida e obra do pintor.

Ao longo de várias salas, vamos percorrendo alguns locais por onde Van Gogh passou e viveu, um café, o quarto, o hospital psiquiátrico.

Podemos sentar-nos e tentar desenhar, como ele desenhou, sentir as camadas de tinta dos seus óleos, em reproduções 3D, entrar no seu quarto e tirar uma foto – aliás, tirar muitas fotos. Diversos écrans permitem-nos estudar algumas das suas pinturas e as técnicas que ele usou. As cartas que Van Gogh trocou com o irmão Theodor servem de pano de fundo à sua biografia

No final, um painel junta diversas homenagens ao pintor e um outro, muito maior, junta reproduções de todas as suas obras.

Vale a pena visitar.

“Parasitas”, de Bong Joon-ho (2019)

Não costumo ligar muito ao facto de um determinado filme ganhar o Óscar; já enfiei alguns barretes com filmes vencedores do prémio do melhor filme.

Desta vez, no entanto, fiquei curioso.

Quando o filme estreou, não lhe dei a devida atenção (aquele preconceito: filme coreano? deve ser uma seca…).

O facto de ter ganho o óscar, no entanto, acabou por me despertar a curiosidade.

Acresce o facto do Pedro ter dito que o viu três vezes – e eu confio no gosto cinematográfico do meu filho.

Mesmo assim, se, por qualquer motivo, eu não tivesse ido ver o filme, o facto do palerma do Trump ter dito, num comício, que não percebia por que raio é que “Parasitas” ganhou o óscar, teria sido suficiente para eu ir a correr vê-lo.

É um grande filme – atrevo-me a dizer, Tarantino style, com as devidas e enormes diferenças, a começar por ser feito por coreanos.

O filme conta-nos a história de uma família de pai, mãe, filho e filha, todos desempregados e a viver numa cave de um bairro muito degradado.

Um amigo do filho arranja-lhe um trabalho: dar explicações de inglês a uma adolescente, filha de um casal bem instalado na vida, com casa desenhada por arquitecto famoso, com governanta e tudo.

O rapaz é um sucesso como explicador e, com manhas e artimanhas, toda a sua família acaba a trabalhar para os ricalhaços: a sua irmã, como professora de arte, o pai, como motorista e a mãe, como governanta.

O filme está cheio de situações hilariantes, diálogos e cenas bizarras. Lembrei-me do Tarantino por causa desses diálogos, digamos, deslocados (o rapaz diz, como alguma frequência, “isto é muito metafórico!”) e por algumas cenas, como aquela em que a governanta e o marido dançam, ao som de um disco de um cantor italiano dos anos 70.

O final, é apoteótico, com quatro mortes e uma lição de moral.

Muito bom!

“A Rainy Day in New York”, de Woody Allen (2019)

Woody Allen nunca desilude. Os seus filmes são todos iguais, e todos diferentes. Claro que já não há aquela surpresa que causaram “Annie Hall” ou “Manhattan”, mas há sempre uma história bem contada, com diálogos inteligentes, algumas boas piadas e muito romantismo, sem ser piegas.

Desta vez, Allen escolheu novamente New York como cenário de fundo, embora o filme se passe, quase todo, em interiores. Imagino que fazer cenas tendo, como pano de fundo, a Brooklyn Bridge, o Empire State, o East River, a Broadway, deveria sair muito caro – portanto, temos a cena final no Central Park e já vamos com sorte.

Gatsby (Timothée Chalamet) é um jovem universitário que gosta muito de Manhattan e leva a sua namorada, Ashleigh (Elle Fanning) para um fim de semana em que lhe deveria mostrar a cidade. Ela vai fazer uma entrevista de uma hora a um realizador de cinema famoso, para ser publicada no jornal da Faculdade.

Só que, além da entrevista, ela se vê envolvida em diversas peripécias relacionadas com a fauna do cinema, acabando no apartamento de um actor mais ou menos famoso, e ele deambula pela cidade, sempre debaixo de uma chuva copiosa e, como vê todos os seus planos falhados, acaba por contratar uma prostituta para se fazer passar pela sua namorada numa festa organizada pela mãe dele.

E há, ainda, a irmã mais nova de uma antiga namorada de Gatsby.

Gostei de ver estes actores muito jovens; Timothée Chalamet tem todos os tiques de Woody Allen (por que será?).

Hora e meia de entretenimento garantido.

Exposição de Miguel Palma no CCB

Chama-se “(Ainda) O Moderno Desconforto” e mostra muitas obras deste artista-performer, nascido em Lisboa há 55 anos.

Para um leigo como eu, a Exposição reúne uma série de engenhocas (não digo geringonças, porque o termo está estafado) muito curiosas.

Logo à entrada, temos uma ambulância verdadeira; olhando lá para dentro, como os mirones fazem nos acidentes, podemos ver o simulacro de um acidente, com automóveis miniatura; mais à frente, um tanque de guerra projecta uma série de imagens coladas aleatoriamente. Depois, nas duas salas da Exposição, encontramos diversas peças que merecem referência.

Ao acaso, falo na mesa de pingue-pongue com buracos que parecem ter sido causados por obuses, ou a barra de ferro com um pequeno televisor na extremidade, onde podemos ver uma ginasta romena evoluindo na barra olímpica (a peça chama-se Barra Comaneci!).

A ironia aliada à tecnologia. Mas há muito mais: uma máquina que tritura diversos electrodomésticos, um Google Plane que, na sua base, tem o céu estampado e que, em cima, tem fotos da Terra, e ainda a viatura em que o autor se fez transportar há uns anos e que é um verdadeiro bólide feito à mão (na foto).

Gostei e recomendo.

As Obras Completas de W. Shakespeare em 97 minutos

No Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa, assistimos a esta peça de 1987, da autoria de Adam Long, Daniel Singer e Jess Borgeson, encenada por António Pires e interpretada por Pedro Pernas, Ruben Madureira e Telmo Ramalho.

Esta peça esteve muito tempo em cena no S. Luiz e eu sempre senti curiosidade em vê-la, mas, por uma razão ou outra, nunca se proporcionou.

Quando vi um cartaz na rua a anunciar a sua reposição, comprei os bilhetes on line e fomos hoje vê-la.

Divertimo-nos à grande.

A peça está muito bem esgalhada e os actores são óptimos. As soluções cénicas são excelentes e a participação do público acaba por criar uma empatia com os actores. A parte final, com o Hamlet a ser resumido em menos de um minuto e, depois, a ser declamada de trás para a frente, é hilariante.

Claro que o texto é excelente, mas a performance dos três actores não lhe fica atrás. E são todos igualmente bons.

“Dor e Glória”, de Almodovar (2019)

Almodovar continua a ser um dos meus realizadores preferidos e, mais uma vez, não me desiludiu.

Dor e Glória conta-nos a história de Salvador Mallo (um contido e excelente Antonio Banderas), um realizador sexagenário, com muito sucesso, que há alguns anos que não produz nada, sobretudo desde que foi operado à coluna lombar, mas, sobretudo, desde que a sua mãe morreu.

Salvador está deprimido e sofre de dor crónica, tomando diversos analgésicos opióides. Vive só, num apartamento luxuoso e passa os dias sem fazer nada.

A cinemateca decide fazer uma sessão especial com um filme que ele realizou há 30 anos, numa versão recuperada e convida-o para comentar a projecção do filme. Salvador hesita e decide entrar em contacto com o actor que protagonizou esse filme. Deixaram de se falar após a estreia do filme porque Salvador nunca perdoou a Alberto Crespo (outro excelente Asier Etxeandia) o facto de este continuar a consumir heroína durante as filmagens.

Ao longo do filme, Salvador vai recordando momentos da sua infância, pobre e dura, e o modo como a sua mãe (Penelope Cruz), conseguiu levar para a frente a sua educação.

E não digo mais nada.

Cinco estrelas, porque não há mais.