“Annie John”, de Jamaica Kinkaid (1983)

Jamaica Kinkaid é o pseudónimo da escritora Elaine Potter Richardson, nascida em 1949 na ilha de Antígua e Barbuda. Aos 17 anos, deixou a sua ilha natal e emigrou para Nova Iorque. Acabou por se tornou colaboradora da revista New Yorker e este “Annie John” foi o seu romance de estreia.

É um pequeno livro que se lê de uma penada e que nos deixa tristes por acabar, ao contrário de muitos calhamaços que agora se escrevem e que não precisavam de ser tão densos e longos.

O livro, quem sabe autobiográfico, conta-nos a história de uma menina, Anni John, que vive numa ilha caribenha com o pai, um homem já velho, e a mãe, muito mais nova que ele e com quem Annie tem uma relação muito próxima – relação que se vai modificando à medida que ela cresce.

Todo o livro é delicioso e escolho este pedaço como podia escolher outro qualquer:

“Passámos pelo consultório do médico que disse três vezes à minha mãe que eu não precisava de óculos e que lhe recomendou que, se eu sentisse que tinha a vista fraca, tomasse um copo de sumo de cenoura por dia, para a fortalecer. Isto aconteceu quando eu tinha oito anos. todos os dias, no intervalo, corria para o portão da escola, onde a minha mãe me esperava com um copo de sumo de cenoura acabadas de ralar e espremer; depois de beber, corria outra vez para me juntar às minhas colegas. Bem sabia que não tinha problema nenhum nos olhos, mas tinha lido recentemente, no The Schoolgirl’s Own Annual, uma história cuja heroína, uma rapariga poucos anos mais velha do que eu, me impressionara tanto com o modo como estava sempre a endireitar os óculos pequenos e redondos, com armação de tartaruga, que senti que precisava de ter uns óculos iguais”.

Recomendo!

“A Idade do Vício”, de Deepti Kapoor (2023)

Poucas informações se obtêm sobre esta escritora indiana que, neste momento, vive em Portugal. Consigo perceber que cresceu no norte da Índia e que trabalhou como jornalista durante algum tempo. Este livro, publicado em 2023, é o seu segundo romance – e que romance.

São 646 páginas com todos os ingredientes para fazer um grande filme de aventuras ou uma série de televisão – e parece que os direitos do livro foram comprados por uma produtora subsidiária da Disney.

A história deste calhamaço gira em torno de Ajai e de Sunny. Ajai é um miúdo pobre, cuja mãe acaba por vender a uns ricalhaços, depois de ficar viúva. Depois de muitas atribulações, Ajai vai tornar-se o servo de Sunny, o filho de um grande senhor do Uttar Pradesh, que enriqueceu graças à especulação.

Por um lado, vemos a luta que Sunny trava consigo próprio, tentando agradar ao pai, mas nunca conseguindo. Por outro, vemos a luta de Ajai que, ao mesmo tempo que se quer manter fiel a Sunny, se vê sempre subjugado por ele.

Lê-se com um grande livro de aventuras…

“A Mercearia do Mundo”, direção de Singaravélou e Venayre (2022)

Ora aqui está um livro muito curioso que, ao longo de quase 500 páginas, elenca numeras comidas e bebidas que, de algum modo, são icónicas de determinados lugares do Mundo.

E a escolha é muito diversificada, desde o vinho do Porto ao hambúrguer, passando pelo attiéké, o parmesão, o guacamole, o húmus e muitos mais.

Cada entrada desta espécie de dicionário tem o seu autor e não ocupa mais do que duas ou três páginas.

Algumas curiosidades:  

Acerca do caril: “Esta mistura de especiarias em pó transforma-se, assim, numa mercadoria para exportação: ao regressar a Inglaterra, os nababos – nome dado aos britânicos que tinham vivido e trabalhado na Índia – saudosos dos sabores indianos, são dela grandes consumidores.”

A propósito da baunilha: “A vanilina é uma molécula que está presente tanto na verdadeira baunilha como nos produtos de síntese com aroma de baunilha, e apenas algumas máquinas conseguem distinguir a diferença entre as duas. (…) o castóreo – a secreção das glândulas anais do castor – foi utilizado para obter um aroma de baunilha mais em conta para os produtores. (…) Mais recentemente, a cientista japonesa Mayu Yamamoto conseguiu produzir uma fragrância de baunilha a partir de estrume de vaca.”

Sobre a malagueta: “Esta substância (a capsaicina, que existe na malagueta) é também o principal ingrediente do Pepper-spray (erradamente traduzido por gás-pimenta, uma vez que o spray é feito com extracto de malagueta e não com pimenta, e esta não possui capsaicina).”

Sobre a charcutaria: “A Armour, em Chicago, é a maior fábrica de charcutaria do mundo, em 1900. Mais de 50 milhões de porcos são, então, processados todos os anos pelos matadouros dos Estados Unidos, que concentram 40 por cento dos porcos do planeta”

Sobre o spam: “Apesar do sucesso, o spam continua a ser objecto de troça. Em 1970, um famoso sketch dos Monty Python põe em cena dois clientes de um restaurante que só serve pratos de spam, incluindo um lagosta à Thermidor, com camarões ao molho mornay, servida à moda provençal, com chalotas e beringelas, guarnecida com patê de trufas, regada com aguardente e servida com ovo estrelado e spam (…). A palvara spam é dita 132 vezes em dois minutos.”

Sobre a pimenta: “A pimenta é também muito usada na medicina chinesa. É um remédio valioso para dores de estômago, problemas renais ou, misturada com rabanete, para crises epilépticas.”

Sobre o whisky: “valorizado, num primeiro momento, pelas suas virtudes medicinais, detalhadas cuidadosamente nas Crónicas, de Holinshed (1577): «Tomado com moderação, retarda o envelhecimento, fortalece a juventude, facilita a digestão,… afasta a melancolia, ilumina o coração, alivia a mente, restaura o ardor… Para dizer a verdade, é um licor soberano, se tomado de forma razoável»”

Sobre a carne de cão: “O fragmento 22 do Huang Di nei jing su wen – mcompilação médica atribuída ao mítico imperador Amarelo, que terá vivido no III milénio a.C. – aconselha, no caso de doença cardíaca, a ingestão de alimentos ácidos: feijão, ameixa, cebolinho e carne de cão”. O livro termina com um postfácio de Francisco José Viegas que sublinha a influência da nossa História em muitos dos alimentos listados, sobretudo graças aos navegadores

“Refúgio no Tempo”, de Gueorgui Gospodinov (2020)

Gospodinov nasceu na Bulgária em 1968 e com este livro venceu o International Booker Prize de 2023. Foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

Como o título do livro indica, o tema deste romance é o tempo, o tempo passado, sobretudo o tempo passado.

Recheado de grandes ideias, apetece-me citar muitos trechos do livro.

Gospodinov viveu, durante alguns anos, na ditadura comunista, com todo o seu folclore. Com as devidas e enormes diferenças, ao ler certas partes deste livro, lembro-me do nosso tempo sob o regime salazar-caetano, a viver neste pequeno país isolado, com uma língua que poucos falam na Europa:

“(…) estávamos a conversar à vontade, tirando proveito do privilégio de falarmos uma língua menor, da tranquilidade de sabermos que ninguém nos percebia enquanto dizíamos mal de tudo. (…) para um búlgaro, queixar-se é como alar do tempo.”

E as similitudes entre a Bulgária e Portugal continuam…

“(…) simplesmente, os anos 60, como aliás acontecia com tudo no nosso país, chegaram à Bulgária com dez anos de atraso.”

A primeira grande ideia deste livro é esta: criar uma clínica para doentes com Alzheimer, em que cada andar corresponde a uma década, onde são recriadas as memórias. Desse modo, um doente que tenha crescido na década de 60, será integrado num espaço onde essa década é recriada, de modo a refrescar a sua memória doente.

Gospodinov sublinha que a nossa memória vive muito dos cheiros:

“É notório, de facto, que nem sequer temos nomes para os cheiros. Deus ou Adão não fizeram o seu trabalho até ao fim. Não é como com as cores, por exemplo, onde temos o vermelho, azul, amarelo, violeta… Mão nos foi dada a capacidade de designar directamente os odores. É sempre através de comparações, sempre com descrições. Cheira a violetas, a torradas, a algas, a gato morto…”

Na tal clínica para doentes de Alzheimer…

“No andar de cima instalaram-se os anos 50. Eli era o reino de Elvis Presley, de Fats Domino, Dizzy Gillespie, Miles Davis, onde se podia ouvir toda aquela maravilhosa mistura de jazz, rock and rol, pop, bem como o sinfónico, mas já fora de moda, Frank Sinatra. Ali estavam Intriga Internacional, Hitchcock, cary Grant, As Noite de Cabíria, Fellini, Mastroianni, Brigitte Bardot, Dior…

(…) O corredor entre o Ocidente e o Leste estava dividido a meio por uma “cortina de ferro”, um portão de madeira maciça que estava sempre fechado à chave e que só o pessoal autorizado podia atravessar. (…) Em dado momento, verificou-se uma tentativa de evasão. Um homem do corredor Leste, tentou passar por cima do «muro», mas acabou por cair e partiu uma perna”

Mas a clínica para doentes que estão a perder a memória é apenas uma das ideias deste livro. O tempo, a passagem do tempo, é o fio condutor do romance.

“Que grande roubo é a vida (e o tempo), não é? (…) Mas aquele ladrão, a vida ou o tempo, chega e tira-te tudo – a memória, o coração, o ouvido, a coisa que tu sabes. Nem escolhe, leva tudo o que encontra. Como se isso não chegasse, ainda goza contigo. Faz com que o teu peito fique flácido, o teu rabo escanzelado, as tuas costas tortas, o teu cabelo ralo e pintalgado de branco, enche os teus ouvidos de pêlos, espalha sinais pelo corpo todo, manchas de velhice nas mãos e na cara, faz com que digas disparates, e que fiques calado, como um imbecil sem memória, porque te roubou todas as palavras.”

O autor demonstra uma grande mágoa pelo seu país, sobretudo pelo domínio comunista e pelo modo como o povo o aceitou.

“Se há ainda alguma coisa capaz de salvar o país de todo o kitsch que lhe cai em cima, disse para mim próprio, será sem dúvida a preguiça. A preguiça e o desleixo. (…) Em países preguiçosos e desleixados, nem o kitsch nem o mal se podem aguentar por muito tempo, porque também exigem esmero e manutenção.”

Outra grande ideia do livro: cada país da Europa vai organizar um referendo para decidir em que década quer passar a viver, uma década que tenha sido feliz, em que tudo tenha corrido bem.

Aqui está a ideia do autor no que respeita a Portugal que, em búlgaro, se diz «portukal»:

“Portugal, por analogia, após um regime longo e frio que acabou com a Revolução dos Cravos, iria escolher os meados dos anos 70 para um novo início enquanto ainda se mantinha viva a embriaguez de 1974. Mas também enquanto se mantinha ainda fresca a recordação do Estado Novo, de Salazar e do seu sucessor Caetano, uma recordação que se podia incluir na infelicidade de ser português.”

O livro de Gospodinov é muito rico e vale cada uma das suas 290 páginas. Recomendo vivamente.

“Um LUgar para Mungo”, de Douglas Stuart (2023)

Com “Shuggie Bain”, Douglas Stuart venceu o Booker Prize de 2020. Este novo livro tem o mesmo pano de fundo: os bairros sociais de Glasgow, a violência entre protestantes e católicos, o desemprego, o alcoolismo, a pobreza.

“Young Mungo” conta a história de um jovem de 15 anos, cujo pai morreu há vários anos e que vive num bairro social com a mãe alcoólica, uma irmã que o apoia e um irmão mais velho, violento, que quer fazer dele um homem. Mas Mungo é diferente do irmão e não compreende a necessidade de tanta violência; apesar de a mãe se ausentar de casa por longos períodos, regressando sempre alcoolizada, Mungo sente um grande carinho por ele.

Mungo conhece James, um miúdo católico, que se entretém a criar pombos. Apaixonam-se, mas é impossível demonstrar amor por alguém do mesmo sexo num bairro como aquele e a relação entre os dois vai ser difícil.

Entretanto, a mãe de Mungo, desconfiando da homossexualidade do filho, envia-o para um fim de semana de pescaria com dois homens, pedindo-lhes que façam dele um homem como deve ser, mas a coisa não vai correr nada bem.

Lê-se com agrado, mas gostei mais do anterior livro de Stuart.

“Uma História das Mulheres em 101 Objectos”, de Annabelle Hirsch (2022)

A autora nasceu em 1986 e trabalha como jornalista freelancer. Decidiu escrever este curioso livro (420 páginas) em que descreve 101 objectos de certo modo relacionados com a mulher e a sua relação com a sociedade.

Os textos estão organizados por ordem cronológica, começando com o osso do fémur sarado, datado de cerca de 30 mil anos antes de Cristo e terminando com uma madeixa de cabelo cortada por homenagem à jovem morta pela polícia iraniana por não usar o véu de modo “adequado”.

Sendo 101 objectos, os textos são muito diversos, uns mais interessantes que outros, mas, no geral, dão uma boa ideia da luta que as mulheres foram desenvolvendo no sentido de se tornarem cada vez mais livres e independentes (claro que, em certas sociedades, essa luta não lhes valeu de quase nada…).

De entre as muitas curiosidades que estes textos nos desvendam, aqui fica uma, no texto sobre o bidé:

“Porém, esta ligação feminina com o bidé parece não ter existido em todo o lado – nem toda a gente sabia como o utilizar, nem com que finalidade. Reza a história que, quando um enviado francês, à semelhança do que se fazia nas festas francesas, ofereceu um bidé a uma senhora romana, foi lá que ela lhe serviu o peixe na refeição seguinte.”

No texto sobre a Litografia L’ Ávenir:

“Como dia a socialista e feminista Flora Tristan, avó de Paul Gaughin, em 1843: «Mesmo o homem mais oprimido encontra um ser para oprimir: a sua mulher. ela é o proletariado do proletariado». Com esta constatação, nascia o feminismo, que estendia a mão ao socialismo emergente para lutarem contra um sistema de poder injusto, o capitalismo patriarcal”.

E, finalmente, este naco que faz parte do texto sobre o chocolate de rádio:

“A casa, localizada em Cottbus, tinha no seu sortido vários chocolates com uma pitada de rádio – chocolate para beber, barras de chocolate, pequenos snacks (…). Concretamente, «o segredo do seu efeito rápido e penetrante baseia-se no facto de o rádio integrado no chocolate de alta qualidade chegar rapidamente à corrente sanguínea e, assim, a todos os órgãos, ao sistema nervoso central, às glândulas, aos nervos e às últimas ramificações das células». (…) A partir do início do século, quase tudo era enriquecido com rádio, desde os cremes faciais às pastas de dentes, aos batons, aos pós de arroz e ao champô. Havia supositórios de rádio para aumentar a «potência sexual», o radio-active eye applicator – uma espécie de óculos radioactivos que supostamente curavam dores de cabeça e problemas de visão – as pessoas eram aconselhadas a beber água com rádio (os copos e as garrafas especialmente fabricados para o efeito ainda hoje aparecem, de vez em quando, nas lixeiras alemãs) e eram oferecidos banhos de rádio nas termas para tratar o reumatismo, as dores nas articulações e outras queixas semelhantes.”

Mais um livro curioso que vale a pena ler.

“A Fraude”, de Zadie Smith (2023)

Desta escritora britânica, com raízes na Jamaica, já li “Dentes Brancos”, “Swing Time”, “O Homem dos Autógrafos” e “Uma Questão de Beleza”.

Este novo livro é completamente diferente dos anteriores. Trata-se de um romance histórico, embora Zadie Smith consigo escrevê-lo como se fosse uma história actual.

Embora o livro se baseie “vagamente” na vida do escritor William Harrison Ainsworth (1805-1882), contemporâneo de Charles Dickens, de quem era amigo, a protagonista do livro é a sua prima, Eliza Touchet.

A Sra. Touchet é uma mulher que se interessa pela justiça, pela literatura, pelo abolicionismo, pelas mulheres do primo, por quem tem uma paixão não completamente correspondida (William só se interessa pelos seus romances, já que publicou mais de 40) – e sendo assim, tão interessada, o julgamento do chamado Caso Tichborne vai ocupar-lhe muito do seu tempo. Neste caso, um carniceiro da classe baixa na Austrália, afirma ser o legítimo herdeiro de um património substancial, fazendo-se passar pelo filho (alegadamente morto) de uma rica senhora. Para dar o toque que Smith gosta, Andrew Bogle cresceu como escravo na Jamaica, mas vai tornar-se testemunha importante no caso.

Temos assim dois temas que percorrem este calhamaço de 530 páginas: a vida da Sr. Touchet e do seu primo e o caso Tichborne.

“A Mais Breve História de Israel e da Palestina”, de Michael Scott-Baumann (2021)

Scott-Baumann é mestre pela School of Oriental and African Studies de Londres e trabalhou como voluntário para o Israeli Committee Against House Demolitions, tendo realizado trabalho de campo na Cisjordânia. Não sei se este currículo será prova de independência, mas, ao ler o livro, pareceu-me que sim.

De um modo conciso e muito claro, o autor descreve os principais acontecimentos, as guerras, os acordos, o papel da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da ONU nesta guerra sem fim, começando pelas origens do conflito (a Segunda Guerra Mundial e o Mandato britânico) e indo por ali fora até aos dias de hoje. E, apesar do livro ter sido editado em 2021, o autor acrescentou um epílogo para falar do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 e da retaliação israelita.

Se já tinha uma opinião formada sobre este conflito, a leitura do livro reforçou-a: Israel está a proceder ao paulatino extermínio dos palestinianos e Netanyahu é um dos piores líderes israelitas dos últimos tempos.

Muitos dos acontecimentos descritos no livro são bem conhecidos, mas assim lidos, cronologicamente, dão uma ideia muito mais firme do conflito. Mas também coisas que desconhecia, como esta:

“Netanyahu sabia que podia desafiar o presidente norte-americano (Obama) e não pagar qualquer preço político, devido à força do lobby de Israel nos Estados Unidos, constituído, sobretudo, por judeus e pelos muito mais numerosos cristãos evangélicos (muitos destes últimos creem que a segunda vinda de Cristo só acontecerá quando todos os judeus tiverem regressado à Terra de Israel – isto é, à terra bíblica, que incluía a Judeia e a Samaria).”

Se Trump for reeleito em novembro, a vida dos palestinianos só poderá piorar…

“Paradaise”, de Fernanda Melchor (2021)

Depois de “Temporada de Furacões”, em 2017, esta escritora mexicana publicou, em 2021, “Paradaise”. O estilo é o mesmo, a enxurrada de obscenidades, também. Neste livro, de pouco mais de cem páginas, Polo, um adolescente sem eira nem beira, é empregado de um condomínio fechado chamado Paradise (pronunciar Paradaise). A sua vida é uma merda e só pensa em embebedar-se para se esquecer do que tem de enfrentar na sua casa, uma mãe que pouco lhe liga e uma prima, que talvez tenha engravidado. Estabelece amizade com um gordo, Franco, que está obcecado por uma das habitantes do condomínio. É uma mulher atraente, com formas generosas, casada e mãe de filhos, o que não impede o gordo de ter sonhos eróticos com ela.

Esta ligação entre Polo e o gordo vai correr mal, está-se mesmo a ver.

“A verga de Franco palpitava e da ponta brotava uma tira de leite que se enredava entre os seus dedos adormecidos, dedos que de repente já não eram a cona apertada da senhora Marián ou o seu cu franzido mas só os seus dedos de gordo, sujos de gordura e de queijo em pó.”

Fernanda Melchor não tem problema em usar linguagem o mais gráfica possível, bem traduzida, na minha opinião, pela dupla de tradutores, Cristina Rodrigues e Artur Guerra.

“Era óbvio que o tipo nunca tinha estado com uma mulher, que nunca tinha metido a sua pichazinha punheteira numa cona, e por isso é que estava obcecado em meter a tranca na única gaja que lhe sorria e falava com ele com boa vontade, sem mostrar desprezo perante a visão das suas banhas e das suas borbulhas de púbere.”

Para quem, como eu, já tinha lido a anterior novela de Melchor, esta já não foi grande novidade.

“O Mundo Livre”, de Louis Menand (2022)

Que grande empreitada foi a leitura deste calhamaço! São 1106 páginas, das quais, 967 são de texto propriamente dito e as restantes, de notas.

Menand, nascido em Nova Iorque em 1952, é um crítico, ensaísta e pensador, colaborador da New Yorker, professor de Harvard e vencedor de um Pullitzer, em 2002.

Este livro – editado agora pela Elsinore e traduzido por Paulo Tavares e Sara Felício – livro que foi finalista do National Book Award, fala-nos da arte e do pensamento durante a Guerra Fria, com especial incidência na Música, Literatura, Pintura, Crítica, Cinema, Filosofia, entre outros temas. Claro que os Estados Unidos e os seus intelectuais são os mais citados, mas o autor também nos fala da Europa.

Todos os grandes nomes da arte e do pensamento do mundo ocidental figuram no livro.

Aprendi muito com ele e poderia citar muitos exemplos. Escolhi apenas estes (e já são bastantes):

Sobre George Kennan, página 26:

“Kennan (historiador norte-americano, cujos escritos inspiraram a Doutrina Truman) acreditava que a forma de governo pouco tinha que ver com a qualidade de vida de uma nação, admirando as autocracias conservadoras, como a Áustria antes da guerra e Portugal sob o regime de Salazar. «A democracia, como os americanos a entendem, não é necessariamente o futuro de toda a humanidade», escreveu ele em 1985”.

Sobre George Orwell, página 64:

“Orwell… Era um socialista cujas críticas aos socialistas – «toda aquela triste tribo de mulheres de sentimentos elevados, pessoas que usavam sandálias e bebedores de sumo de fruta com barba que vinham a correr aos magotes em direcção ao cheiro do ‘progresso’ como moscas varejeiras atraídas por um gato morto», como descreveu alguns deles – podiam ser tão mordazes como as de qualquer membro do Partido Conservador”.

Sobre a diferença entre os Estados Unidos e a Europa, no que respeita à educação, página 395:

“Em 1955, enquanto 84% dos americanos em idade de frequência do ensino secundário estavam na escola, o número para a Europa Ocidental situava-se nos 16%. Em Itália, em 1951, apenas 10% de toda a população possuía mais do que a instrução primária; em 1961, o número era de 15%. No Reino Unido, uma nação com um perfil económico genericamente comparável com os Estados Unidos, cerca de 17% dos jovens entre os 15 e os 18 anos eram estudantes a tempo inteiro em 1955. Em 1957, apenas 9% dos britânicos com 17 anos ainda andavam na escola.”

Sobre os Beatles, página 417:

“Quando os Beatles apareceram para a primeira sessão (Georges) Martin, com o intuito de os envolver no processo, levou-os à sala de controlo para que ouvissem uma gravação. «Se houver algo de que não gostem, digam-me», transmitiu-lhes ele. «Bom, para começar», disse George, «não gosto da tua gravata».”

Página 424:

“A longevidade da banda poderá ser atribuída ao puro talento na escrita de canções, que parece ter evoluído à medida que a base dos seus fãs foi envelhecendo. Na prática, os Beatles compuseram num leque de estilos invulgarmente amplo. O Álbum Branco (oficialmente, The Beatles), lançado em novembro de 1968 e o trabalho que a banda considerou o seu último esforço de grupo completo, é uma mistura de quase doze géneros musicais, desde o folk rock até ao blues, passando pela surf music, pelo heavy metal e pelo ska. No entanto, a banda conseguia fazer todas as canções que tocava soarem como uma canção dos Beatles.”

Página 440:

“Pela primeira vez, todas as faixas (de A Hard Day’s Night) eram composições dos Beatles, e o surpreendente acorde de abertura da música que dá título ao álbum anunciava uma nova atenção à musicalidade. Esse acorde, tocado nas três guitarras (a de Harrison era uma guitarra de doze cordas), mais a bateria, com Martin ao piano, e normalmente identificado como um sol de sétima com uma nona acrescentada e uma quarta suspensa, mas não há consenso sobre que notas são exctamente tocadas e em que instrumento”.

Sobre Henry Miller, página 505:

“Tal significava que o livro estava sujeito a um número incerto de acusações locais e, no final, houve quase 60 casos em torno de Trópico de Câncer por todo o país. Como passara a ser do conhecimento geral, tudo o que a polícia tinha de fazer era entrar numa livraria, pegar num exemplar do livro e abri-lo na página cinco, onde apareciam as palavras «mandrilarei todos os refegos da tua cona», e podia apreender todos os exemplares”.

Sobre a segregação racial nos Estados Unidos, página 512:

“Em julho, o embaixador das Nações Unidas da antiga colónia francesa do Chade, Adam Malick Sow, encontrava-se em viagem entre Nova Iorque e Washington quando parou para beber café num restaurante em Maryland, o Bonnie Brae, e recusaram servi-lo. O mesmo acontecera a três outros diplomatas africanos na mesma estrada, a Route 40, mas o embaixador Sow queixou-se pessoalmente a Kennedy e o governador de Maryland, J. Millard Tawes, teve de apresentar um pedido de desculpas público. Kennedy quisera fazer desaparecer o problema – «Não podes simplesmente dizer aos africanos para não andarem na Route 40?», perguntou ele a Wofford. «Diz aos embaixadores que não aconselho que vão de carro de Nova Iorque até Washington». Kennedy, evidentemente, ia de avião.”

Sobre o poema O Uivo, de Alan Ginsberg, julgado por obscenidade, página 645:

“Os elementos da acusação tentaram relembrar ao juiz os casos de palavras obscenas no poema, pedindo a Schorer (o editor) que os justificasse. Questionaram-no, por exemplo, acerca deste verso: «O mundo é santo! A alma é sagrada! A pele é sagarda! O nariz é sagrado! A língua e o caralho e a mão e o olho do cu sagrados!» Qual era o valor literário de tais palavras?”

Sobre a discriminação das mulheres nos Estados Unidos, página 726:

“Não obstante, de acordo com vários indicadores, as mulheres americanas estavam numa situação pior em 1963 do que em 1945 ou até em 1920. Em 1920, 20% dos diplomas de doutoramento tinham sido atribuídos a mulheres; em 1963, apenas 38%. A idade média do primeiro casamento foi baixando: quase metade de todas as mulheres que casaram em 1963 eram adolescentes. Entre 1940 e 1960, a taxa de natalidade de um quarto filho triplicou”.

Uma curiosidade do cinema francês, durante a guerra, na página 871:

“A estrela de Os Rapazes da Geral (Les Enfants du paradis), Arletty, foi condenada a uma pena de prisão por «colaboracionismo horizontal» com um oficial da Luftwaffe. (Arletty teve uma forma de expressar a sua falta de arrependimento: «o meu coração pertence a França, mas o meu rabo pertence ao mundo inteiro»)”

Sobre a guerra do Vietname, na página 913:

“Quando o envolvimento activo americano terminou, já os Estados Unidos tinham lançado o triplo de toneladas de bombas sobre o Vietname do Norte, um país do tamanho do Illinois, do que as lançadas pelos Aliados em toda a Segunda Guerra Mundial.”

E na página 915:

“A missão militar americana foi catastrófica a vários níveis. A idade média dos militares americanos no Vietname era de 19 anos. (Na Segunda Guerra Mundial, situara-se nos 26 anos). em 1970, cerca de 60 mil drogavam-se, com ópio ou heroína, e foram registados mais de 800 incidentes de fragging – oficiais feridos ou mortos pelos próprios soldados. Meio milhão de veteranos sofriam de perturbação de stress post-traumático, uma proporção superior à de qualquer uma das duas guerras mundiais.”

Lemos este livro todo de enfiada, mas ele também pode ser útil como consulta. Uma empreitada que nos ajudou a esclarecer muitas dúvidas e nos deu a conhecer muitos pormenores relacionados com a História contemporânea.