“Não Mais Amores”, de Javier Marias (2012)

Javier Marias (Madrid, 1951) reuniu neste volume todos os seus contos.

Diz o próprio que “o que aqui se oferece acabe por ser a totalidade aceite e aceitável da minha contribuição para o género. Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa”.

O autor sofrerá de falsa modéstia.

Para ser sincero, os contos de Javier Marias não me entusiasmaram.

Um tradutor metido em sarilhos durante a rodagem de um filme com Elvis Presley podia ser um bom princípio para um conto. Uma mulher que lê para um fantasma, também. Uma aspirante a actriz porno à espera de conhecer o seu companheiro no filme, idem. Tudo boas ideias, mas que, depois, se perdem, penso eu, num emaranhado de frases complexas.

“A Escola de Topeka”, de Ben Lerner (2019)

Ben Lerner, nasceu na cidade de Topeka, no Kansas, em 1979 e, com este livro, foi finalista do Pulitzer – livro que foi considerado um dos dez melhores livros do ano para o New York Times.

No entanto, para mim, foi um livro difícil, com uma temática muito “americana”. Conta-nos histórias de uma família de psicoterapeutas e da comunidade que vive em seu redor, em Topeka.

Cada capítulo refere-se a uma das personagens do livro (Jane, Jonathan, Adam…) e ficamos a conhecer um pouco do passado destas pessoas, o seu presente e, no último capítulo, o futuro.

O livro foi escrito já durante o “reinado” de Trump e o autor mostra bem a sua repulsa pela governação daquela criatura.

No último capítulo, conta-se a participação de Adam, da sua mulher e de uma das suas filhas, numa manifestação contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement) e a maneira como esta instituição tratava as crianças, filhas dos chamados imigrantes clandestinos. Um livro interessante, mas irregular. Os capítulos dedicados a uma espécie de concurso de oratória são, como disse, demasiado “americanos”.

“O Fim”, de Karl Ove Knausgard (2011)

Que alguém me dê os parabéns: consegui acabar hoje o 6º volume de A Minha Luta, monumental autobiografia romanceada da autoria do norueguês Karl Ove Knausgard.

Este 6º volume, intitulado O Fim, tem 1094 páginas e pesa cerca de um quilo e 400, o que faz com que os seis volumes totalizem cerca de 3500 páginas.

É obra, caramba!

Neste último volume, Knausgard lamenta-se, nas primeiras 200 páginas, do que escreveu no primeiro volume, A Morte do Pai, e do que isso provocou na família do seu pai, nomeadamente no seu tio Gunar, que o ameaça com o tribunal, dizendo que ele mentiu quando disse que o seu pai morreu depois de dois anos de alcoolismo intenso.

Como é habitual, entre os lamentos, leva os três filhos ao jardim-escola, põe a loiça na máquina, vai fumar para a varanda ou discute com a mulher, Linda.

Depois, seguem-se 400 páginas sobre Hitler. Knausgard decidiu incluir neste volume um extenso ensaio sobre a ascensão do ditador. Confesso que passei algumas páginas à frente, sem as ler.

Depois, disso, o autor relata o sucesso dos seus livros, que vão saindo, o modo como eles são notícia em todo o lado, como, de repente, se transforma numa espécie de ícone pop e, nas últimas centenas de páginas, relata mais uma crise de Linda, que é bipolar e que, alterna momentos de intensa mania com depressões profundas, acabando por ser internada num hospital psiquiátrico.

E tudo isto é, sempre, relatado ao mesmo tempo que Knausgard muda a fralda a John, ou dá o pequeno-almoço a Vanja e Heidi, ou vai até à horta urbana arrancar ervas, ou dá entrevistas a jornais e revistas.

É óbvio que Knausgard é um narcisista convicto e, apesar de se revelar um tímido, que odeia multidões e contactos sociais, adora falar sobre si próprio e toda esta obra é uma demonstração de narcisismo.

Fui lendo os diversos volumes, ao longo dos últimos seis anos e gostei mais de uns do que de outros; sem dúvida que o primeiro, A Morte do Pai, foi o que mais me marcou, devido à novidade da escrita, mas este último também me agradou bastante.

Os outros volumes estão aqui: A Morte do Pai; Um Homem Apaixonado; A Ilha da Infância; A Dança no Escuro; Alguma Coisa Tem Que Chover

“Os Benefícios de Dar Peidos”, de Jonathan Swift (1722)

Nunca imaginei que o autor de As Viagens de Gulliver tivesse escrito coisas deste jaez. No entanto, parece que Swift era useiro e vezeiro em escritos provocadores como este.

Este livrinho, de apenas 84 páginas, é o primeiro de uma nova colecção da editora Guerra e Paz, intitulada Livros Negros.

A intenção desta colecção é dar a conhecer “livros malditos ou proibidos e textos satíritcos”. Para começar, este Benefícios de Dar Peidos, é apenas curioso.

Jonathan Swift aconselha as damas da sociedade a peidarem-se livremente, quando não, os peidos retidos podem fazer com que falem interminavelmente.

Reparem no que ele diz:

“Tendo explicado a natureza e a essência do peido, em seguida vou deter-me nas consequências nefastas de o aguentar, quase óbvias para quem o tenha tentado; pois, na sua retrogradação, causa cólicas, histerismo, revolta intestinal audível, arrotos, libertação de bílis, etc, mas em mulheres de constituição mais robusta, liberta-se na forma de tagarelice crónica.”

O Swift era um grande malandro!

Para além deste folheto, a favor da libertação dos peidos, o livrinho incluiu, ainda, uma proposta que Swift faz para diminuir as consequências da pobreza na Irlanda e que consiste em convencer os pobres a venderam as suas crianças pequenas aos ricos, para que eles a comam. Este outro panfleto tem menos piada e, hoje em dia, também não seria bem aceite, como não terá sido naqueles tempos.

Para compor o ramalhete, o minúsculo volume inclui uma tradução de Jorge de Sena do poema de Swift, Casino e Pedro, Elegia Trágica, e ainda, Meditações sobre um Cagalhão. Tudo coisas muito escatológicas e, sinceramente, com muito pouca graça.

É apenas curioso…

“O Infinito num Junco”, de Irene Vallejo (2019)

Irene Vallejo nasceu em Saragoça em 1979, tem pouco mais de 40 anos, estudou Filologia Clássica e é doutorada pelas Universidades de Saragoça e Florença; escreve no El País e no Heraldo de Aragon.

Este livro transformou-se num inesperado grande êxito de vendas – inesperado porque trata da história dos livros na Antiguidade Clássica, em Grécia e em Roma.

No entanto, num assunto que poderia ser uma chatice, a jovem autora conseguiu escrever uma história fascinante, que começa na grande Biblioteca de Alexandria e percorre todos aqueles séculos antes de Cristo, passando por Alexandre o Grande, Sócrates, Aristóteles, Homero, e todos os grandes autores gregos, do tempo em que os livros eram rolos de papiro (daí o junco), até a Roma e o seu extenso império, Ovídio, Marcial e muitos outros.

Um livro sobre a história dos livros, quando ainda não existiam propriamente livros, como hoje os conhecemos.

Ao longo da narrativa, Irene Vallejo socorre-se de muitos exemplos da actualidade para ilustrar as suas ideias e, por vezes, fala-nos dos pais, que viveram durante a ditadura de Franco.

Conta, por exemplo, que costumava acompanhar o pai nas visitas que ele gostava de fazer a um alfarrabista.

“Naquela manhã dos anos noventa em Madrid, o meu pai desenterrou uma curiosa pepita. Aparentemente, um D. Quixote. O fidalgo magro na capa de tecido, o primeiro capítulo, a adarga antiga, a panela com mais vaca do que carneiro, os duelos e as tristezas aos sábados. Mas em vez do segundo capítulo começava outra obra, O Capital. O meu sorriu com uma plenitude pouco habitual. Iluminou-se. A dupla de Cervantes e Marx não era um erro exótico de impressão, mas sim um livro clandestino, uma lembrança viva da juventude do meu pai.”

Irene Vallejo defende o livro com unhas e dentes e crê que ele vai sobreviver a todas as novidades.

“Quando comparamos algo velho e algo novo – como um livro e um tablet, ou uma freira sentada ao pé de um adolescente que está a falar num chat no metro -, acreditamos que o novo tem mais futuro. Na verdade, acontece o contrário. Quantos mais anos leva um objecto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século XXII existam freiras e livros do que Whatsapp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas plasmas ou telemóveis talvez não”.

De um modo simples e com uma escrita que nos prende do princípio ao fim, a autora fala-nos de Aristófanes e dos processos judiciais contra os humoristas, de Tito Lívio e do fenómeno dos fãs, de Sulpícia e da voz literária das mulheres, rara na Antiguidade, e de muitos outros.

Aconselho vivamente.

(Edição da Bertrand, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)

“O Professor do Desejo”, de Philip Roth (1997)

Este foi o 21º livro de Philip Roth (1933-2018) que li.

Se tivesse começado a leitura da obra deste autor norte-americano por este livro, provavelmente, pensaria que não era uma escrita muito interessante. Este The Professor of Desire (edição D. Quixote do ano passado, com tradução de Francisco Agarez) não é, certamente, o livro mais interessante de Philip Roth e, talvez por isso, a D. Quixote, que tem editado toda a obra de Roth, foi deixando para mais tarde este volume.

No entanto, para quem conhece bem a obra deste escritor judeu, O Professor do Desejo é mais do mesmo: neste livro, o narrador é, mais uma vez, um professor universitário judeu, neste caso, David Kepesh que, enquanto estudante, tentou conquistar todo o rabo de saia e, posteriormente, viveu aventuras sexuais intensas, mas sempre pouco satisfatórias.

Mais tarde, casou com uma gentia, com quem teve um relacionamento intenso e doentio. Divorciado, viveu momentos de depressão recorreu à terapia psicanalítica e acabou por conhecer uma jovem professora do ensino básico e com ela viveu momentos de felicidade e tranquilidade. Seria isso suficiente para este professor, incapaz de se sentir totalmente satisfeito?

Para além destas aventuras e desventuras, os anseios, medos e sonhos da comunidade judaica a viver nos Estados Unidos, está sempre presente como pano de fundo.

Recomendo a leitura, para quem gosta de Philip Roth.

Outras obras de Philip Roth: O Caso Shylock (1993), Quando ela Era Boa (1966); Lição de Anatomia (1983); Os Factos (1988); Engano (1990); Goodbye Columbus (1959); Nemesis (2010); A Humilhação (2009); O Complexo de Portnoy (1969); Indignação (2008); O Fantasma Sai de Cena (2008); O Animal Moribundo (2001); Património (1991); Todo-o-Mundo (2006); Pastoral Americana (1997); A Conspiração Contra a América (2004); Casei Com Um Comunista (1998) e ainda O Teatro de Sabbath (1995), O Escritor Fantasma (1979) e A Mancha Humana (2000).

“Poses – Linguagem Corporal na Arte”, de Desmond Morris (2019)

Quando tomei conhecimento da edição deste livro, pensei que seria uma reedição de alguma obra antiga. Será que o Desmond Morris ainda é vivo?

É que um dos primeiros livros que comprei foi, exactamente O Macaco Nu, de Desmond Morris, livro publicado em 1967 e que eu comprei em 1970.

Claro que Desmond Morris está vivo – e bem vivo, pelos vistos, tendo publicado este Poses no ano passado. Nascido em Purton, Reino Unido, em 1928, Morris fará 93 anos este mês.

Poses é uma excelente edição da Bizâncio, com tradução de Maria Carvalho, capa dura, óptimo papel e reproduções irrepreensíveis.

Morris dividiu o livro em nove partes: saudações, bênçãos, estatuto, insultos, ameaças, sofrimento, autoprotecção, erótico e em descanso.

Em cada uma destas partes, mostra-nos como a arte reproduziu estas atitudes do ser humano ao longo dos tempos.

Apenas como exemplo: no capítulo insultos, podemos apreciar obras (pinturas e/ou esculturas) a fazer caretas, a deitar a língua de fora, a levar o polegar ao nariz, a fazer gestos com os dedos, gestos com as mãos, a fazer o manguito ou a mostrar as nádegas.

Ao longo das suas cerca de 300 páginas, podemos admirar obras de inúmeros autores, nomeadamente, Notticelli, Bosch, Gustave Courbet, Paul Cézanne, Dali, Paul Klee, Gustav Klimt, Manet, Matisse, etc. – acompanhadas pela interpretação, sempre curiosa, de Desmond Morris.

Aconselho vivamente.

“Os Doentes do Dr. Garcia”, de Almudena Grandes (2017)

Almudena Grandes (Madrid, 1960), conhecida, sobretudo, pelo livro “As Idades de Lulu”, lançou “Os Doentes do Doutor Garcia” em 2017, e a Porto Editora editou-o agora, com tradução de Helena Pitta.

Na capa, diz-se que se trata de “um arrebatador romance de espionagem”, mas os espiões são apenas uma pequena parte desta história, que começa nos anos 30 do século XX e se prolonga atá ao final dos anos 70, com a acção a desenrolar-se em Madrid e Buenos Aires.

Pelo livro passam centenas de personagens; tantas que a autora se sentiu na obrigação de fazer uma lista. No final do livro, podemos consultar essa longa lista, verificando quais as personagens reais e quais a que Almudena Grandes inventou para construir a história.

São duas, as principais personagens: o Dr. Garcia e o seu amigo Manuel Benitez. São ambos republicanos e, depois de Franco assumir-se como ditador e depois de Hitler perder a guerra, envolvem-se numa rede que safa criminosos de guerra, enviando-os para a Argentina com identidades falsas. O objectivo dos dois amigos, é infiltrarem-se nessa rede e, depois, denunciá-la aos americanos, que andavam atrás dos nazis fugidos.

Não foi fácil seguir esta história ao longo das suas mais de 700 páginas, sobretudo devido ao grande número de personagens que, ainda por cima, têm, por vezes, dois nomes, o verdadeiro e o falso…

No entanto, fiquei a conhecer um pouco mais da história da guerra civil espanhola, da colaboração dos falangistas com os nazis, de Péron com Franco e do modo como os norte-americanos acabaram por apoiar o ditador espanhol, já que ele era anti-Estaline.

A autora termina o romance com uma frase reveladora da sua posição política: “Pela honra da República”.

“Epidemias e Sociedade”, de Frank M. Snowden (2019)

Aqui está um livro oportuno e que todos os “especialistas” televisivos deviam ler, antes de fazerem os seus comentários alarves sobre a pandemia do coronavírus.

Frank M, Snowden é o pseudónimo do professor de História da Medicina da Faculdade de Yale, de seu nome Andrew Downey Orrick (N. 1946).

O livro começou como um curso de licenciatura na Universidade de Yale, tentando responder às preocupações sobre as epidemias emergentes, caso do ébola, gripe das aves e SARS. As aulas destinavam-se a alunos de Medicina e a cientistas em post-graduação.

Snowden pegou nessas aulas e transformou-as neste excelente calhamaço de quase 700 páginas, abordando as três epidemias da peste, a varíola, a influência da febre amarela, da disenteria e do tifo nas grandes derrotas de Napoleão, as correntes médicas de Paris, o movimento sanitário e a teoria dos germes, as epidemias de cólera, a tuberculose, a malária na Sardenha, a poliomielite, o VIH/sida, a SARS e o ébola.

Apesar do livro ter sido lançado antes do aparecimento do novo coronavírus, Snowden, de certo modo, já previa o aparecimento de uma nova pandemia e alertava para o facto de o mundo, apesar de todos os ensinamentos do passado, não estar preparado para a enfrentar.

Uma imagem com texto, livroDescrição gerada automaticamenteO autor acrescentou uma pequena introdução, já este ano, onde diz, nomeadamente que “como todas as pandemias, a do covid 19 não é um acontecimento acidental e aleatório”.

Snowden faz questão de contextualizar todas as pandemias, mostrando-nos que todas têm contornos sociológicos bem definidos, atacando, quase sempre, as classes mais pobres. Por outro lado, a luta contra as pandemias tem sido, quase sempre, titubeante, por razões económicas, ideológicas e políticas.

Cito apenas três ou quatro passagens do livro, apenas para mostrar o tom do texto.

Sobre a varíola nos Estados Unidos:

“Devemos acrescentar aqui o facto de que as mortes espontâneas dos americanos nativos foram às vezes reforçadas por genocídios intencionais. O precedente foi estabelecido pelo oficial do exército britânico, Sir Jeffery Amherst, que introduziu o genocídio na América do Norte quando deu deliberadamente cobertores infectados com varíola aos nativos americanos, para os «reduzir».

Sobre a tuberculose e o medo que ela provocou, quando a epidemia se espalhou no final do século 19:

“os bancos esterilizavam as moedas e o Departamento do Tesouro retirava as notas antigas e emitia substitutas não contaminadas. De acordo com o Laboratório de Pesquisa de Nova Iorque, os testes determinaram que as moedas de penny sujas apresentavam uma média de vinte e seis bactérias vivas cada uma e as notas sujas, setenta e três mil.

As barbas e os bigodes deixaram de ser preferência, depois de terem estado na moda durante a maior parte da segunda metade do século XIX. As bactérias poderiam aninhar-se entre os bigodes e cair no prato de outra pessoa, ou passar de lábios durante um beijo”.

Com a erradicação da varíola e o quase desaparecimento da poliomielite, mais o advento dos antibióticos, as autoridades de saúde de todo o mundo pensaram que tinham ganho a guerra contra as doenças infecciosas:

“em 1992, o governo federal dos Estados Unidos atribuiu apenas 74 milhões de dólares para a vigilância das doenças infecciosas, enquanto os funcionários da saúde pública davam prioridade a outras preocupações, como as doenças crónicas, u usio do tabaco, a geriatria e a degradação do ambiente.”

Quanto à recente epidemia do ébola e a falta de preparação dos países africanos para a enfrentar, Snowden dá uma valente chapada nos liberais:

“Um tal grau de falta de preparação resultou de uma combinação de circunstâncias, que ainda se verificam hoje. Uma é o tratamento da saúde como uma mercadoria no mercado, em vez de ser um direito humano. Bem antes da erupção do ébola, as decisões do mercado evitaram que a África Ocidental tivesse as ferramentas para enfrentar a emergência. As farmacêuticas priorizaram o tratamento das doenças crónicas das nações industrializadas, onde se pode ter lucros, em detrimento do desenvolvimento de drogas e vacinas para as doenças infecciosas dos pobres.”

Portanto, estamos perante uma obra fundamental para perceber as pandemias, incluindo a do coronavírus.

O livro foi editado por cá em outubro passado, pelas Edições 70. A tradução é de Alexandra Cardoso, Pedro Vidal e Rui Santos. A este triunvirato apenas tenho de chamar a atenção para a página 470, onde se diz “esplenomegália, um doloroso inchaço do pâncreas”.

Não é. Esplenomegália é o aumento do volume do baço…

“Em Português Nos (Des)Entendemos”, de João Carlos Brito (2020)

Mais um livrinho curioso que se lê de uma penada.

O seu autor, licenciado em Línguas e Culturas Modernas, lista aqui uma série de regionalismos, termos de calão e linguagem corrente e fornece uma possível explicação para cada um.

Por vezes, a explicação que o autor dá pareceu-nos um pouco fantasiosa ou demasiado enviesada, mas enfim, não deve ser fácil descobrir por que raio os habitantes do Porto chamam jeco ao cão, ou os do Ribatejo digam que cramunhar é o mesmo que fazer muito barulho.

O livro não pretende ser exaustivo, razão pela qual, nos vários termos usados pelos do Porto, não aparece, por exemplo, o célebre cimbalino. Para já não falar nos termos que o autor escolheu para Lisboa, e onde não figuram dar de frosques, chatear o Camões, dar corda aos sapatos e muitos outros.

O autor dividiu o livro em capítulos e cada capítulo refere-se a uma região do país.

Ficámos a saber, por exemplo, que, no Minho, um cachecol é cochiné; em Trás-os-Montes, bodalhice é uma porcaria; no Porto, aloquete é um cadeado; nas Beiras, apichar é avivar o lume; no Ribatejo, afonicar é estragar; no Alentejo, uma pessoa simples é um parrascano; no Algarve, feniscadinho é um tipo muito magro; na Madeira, chinesa é um chávena de café com leite; e nos Açores, ministra é uma mesa de cabeceira.