As redações do Correio da Manhã- 2

1. Cascais – Esfaqueado em rixa num Café – Um homem de 35 anos foi esfaqueado numa rixa num café na Parede, Cascais. Agressor foi detido e também hospitalizado.

– Esfaqueou-se?…

2. Guimarães – GNR e INEM ameaçados – Um homem, de 60 anos, foi detido após ter assustado familiares com duas facas em Selho São Lourenço, Guimarães, e de ter ameaçado uma equipa do INEM e uma patrulha da GNR. Acabou por ser detido.

– As facas eram de serrilha?…

3. Portalegre – Choque faz três feridos – Uma colisão entre dois carros, ocorrida ontem na EN371 entre Arronches e Degolados, Portalegre, causou três feridos. Um foi levado ao Hospital de Portaslegre.

– Terá sido o Degolado?…

4. Porto – Furta secador de cabelo – A PSP deteve, na Rua Fonte de Contumil, um homem de 23 anos, desempregado, que furtou um secador do interior de um cabeleireiro.

– Devia querer abrir um cabeleireiro, já que está desempregado. Se tivesse furtado um secador do exterior de um cabeleireiro, talvez não fosse detido…

As redações do Correio da Manhã

A última página do Correio da Manhã é inigualável. Há que comprimir as notícias em poucos parágrafos, o que dá nisto:

1. Caiu a um poço ao salvar uma cabra – Um homem, com 40 anos, foi ontem resgatado pelos Bombeiros de Mira de um poço onde caiu ao tentar salvar uma cabra, em Portomar. Estava em hipotermia.

– A cabra…

2. Morta enquanto dormia – o MP de Guimarães acusou um homem por matar a mulher, à facada, enquanto esta dormia. Jorge Ferreira está preso.

– Se ela estivesse acordada, talvez ele não fosse acusado…

3. Ferido após cair em esgoto – Um homem, de 66 anos, ficou ferido com gravidade após cair num esgoto público, enquanto procurava umas chaves.

– É o que faz procurar chaves num esgoto…

Expresso e a conjunção adversativo mas

Hoje é dia de debate sobre o estado da nação e o Expresso decidiu fazer um inquérito sobre “o que melhorou e o que está por fazer”.

Faz lembrar aquela anedota do homem que, depois de levantar halteres de 100 quilos, é apupado porque não consegue levantar 105.

Vejamos os títulos:

Educação: “abandono escolar continua a cair, qualificações a aumentar, mas há uma crise de professores”.

Saúde: “SNS tem mais profissionais, mas não chegam para dar médico de família a todos”.

Economia: “é das que mais crescem, mas nível de vida não descola da cuada da Europa”.

Salários: “chegaram ao fim de 2022 acima de 2019, mas entraram no ano a cair.

Emprego: “perto dos máximos, mas há menos pessoas a trabalhar com ensino superior.”

Pobreza: taxa desce em 2021, mas Portugal mantém-se longe da meta para 2030”.

Pensões: “aumentos reais garantidos, mas reformas continuam baixas”.

Inflação: “está a descer, mas continua elevada nos bens alimentares”.

Dívida pública: “cai mais rápido do que previsto, mas Portugal mantém-se no grupo dos mais endividados”.

Ambiente: “uso de transporte está a aumentar em Lisboa e no Porto, mas o carro continua a liderar.”

Bancos: “estão mais rentáveis, mas procura de crédito arrefece”.

Como se vê, não há notícia boa que não mereça um mas.

Apetece-me dizer que o Expresso era um jornal como deve ser, mas agora é uma merda!

Expresso – 50 anos

Foi há 50 anos que o Expresso saiu pela primeira vez.

Não há dúvida que, na altura, foi aquilo a que se chama uma pedrada no charco. Era um jornal diferente de todos os que existiam, moderno e arrojado. Lembro-me de ler, com entusiasmo, as colunas de Miller Guerra e de Sá Carneiro, tentando perceber, nas entrelinhas o que eles, de facto, insinuavam.

O República já fazia parte do meu dia-a-dia, e o Expresso veio juntar-se-lhe. Com o prec, o República finou-se. O Expresso, pelo contrário, foi-se fortalecendo e continuei a comprá-lo todas as semanas. Era leitura para o todo o fim de semana.

Nos últimos anos, no entanto, o Expresso já não é o que foi. É um jornal cada vez mais encostado, com um director que não esconde a sua simpatia pelos liberais, e com canais directos para o Palácio de Belém. Continuo a comprá-lo, mais por hábito do que por prazer. Folheio rapidamente o corpo do jornal, raramente me detendo num artigo. Começo a ler o editorial do director, irrito-me e desisto. Começo a ler a opinião do Miguel Sousa Tavares e acho que já li aquilo há uns tempos. A opinião dos colunistas habituais também não traz nada de novo. Em resumo, o corpo do jornal vai para a reciclagem em três tempos. Fica a Revista que ainda consegue despertar-me algum interesse. Não falho as Palavras Cruzadas!

De qualquer modo, parabéns ao Expresso.

Expresso: Torturar a realidade

Estamos em crise. A inflação ronda os 10%, coisa que não se via há mais de 30 anos. Saímos da pandemia para uma guerra na Europa.

Apesar disso tudo, a economia cresce e vemos os restaurantes cheios, as ruas a abarrotar, os centros comerciais a transbordar, bons carros nas ruas, e muita gente sorridente, com bom ar. Estarão felizes?

Parece que não…

Segundo o Expresso, “Crise faz disparar roubo de comida nos supermercados”. A acompanhar este título bombástico, vemos uma foto de latas de atum dentro de caixas com alarme.

Oh diabo! Isto está assim tão mau?!

Fui ler a notícia, da autoria de Joana Pereira Bastos.

No interior do jornal, a jornalista titula:

“Conservas e pacotes de leite então entre os produtos mais roubados. Seguranças apanham cada vez mais idosos e pais que levam comida para os filhos. «São roubos para comer», alertam os supermercados.”

Quem são, afinal, esses seguranças que “apanham cada vez mais idosos e pais que levam comida para os filhos”. Lê-se a notícia e percebemos que esses seguranças se resumem a Edson Alves, segurança num supermercado da Areosa. O Edson deve ser uma boa alma, porque diz: “Prefiro que me peçam. Não sou rico, mas posso oferecer alguma coisa. Eu próprio vou à caixa pagar”.

Portanto, idosos e pais da Areosa, já sabem: em vez de roubarem, peçam ao Edson, que ele paga.

Ainda segundo a notícia, esses são “«roubos para comer», alertam os supermercados”.

E que supermercados são esses?

A mesma notícia diz que “o Auchan garante que «não tem verificado aumento de furtos em nenhuma das lojas»”.

Em que ficamos?

O que vale é que a jornalista descobriu “o responsável de uma das maiores cadeias, que prefere não ser identificado”, que diz que “está a haver um problema grave de quebra de stock por furto”.

Esta cadeia de supermercados devia perguntar ao Auchan o que lá fazem para não serem roubados, caramba!

A diligente jornalista foi também ouvir a opinião do presidente da Associação Nacional de Vigilância e Segurança Privada, que – qual sociólogo – afirma “nos últimos dois ou três meses nota-se um aumento muito significativo dos furtos de alimentos por parte de pessoas que já não conseguem sobreviver com o seu salário ou pensão. Estão desesperadas e escondem na mala ou no casaco pacotes de leite ou latas de atum para comer ou dar aos filhos”.

Este facto só vem demonstrar o falhanço rotundo do Banco Alimentar e iniciativas similares, que tão bem ajudaram as famílias durante a pandemia e que, agora, deixam os pais e os idosos desesperarem.

Voltando ao Edson, a jornalista escreve que no supermercado onde ele trabalha, a gerência, face ao aumento dos furtos, decidiu colocar alarmes no polvo congelado e na picanha e diminuir o número as quantidades de produtos expostos nas prateleiras, como acontece com o café”.

Não há dúvida de quem está desesperado para arranjar comida para os filhos, opta por roubar polvo e picanha, a 13 e 20 euros o quilo, respectivamente. Se vamos roubar, ao menos que roubemos alguma coisa de jeito!

E depois de nos batermos com um excelente polvo à lagareiro, ou um naco de picanha, sabe bem um cafezinho, roubado, claro!…

Quando temos uma ideia preconcebida, arranjamos a realidade de modo que ela satisfaça essa ideia.

Assim vai o Expresso, cada vez mais pasquim…

Expresso – Liberdade para pensar torto

O título da primeira página do Expresso de hoje grita:

“Governo chumba nos primeiros seis meses”

E, por baixo deste título:

“Executivo passa do céu ao inferno e recebe pior avaliação em três anos; Medina à frente de Pedro Nuno na sucessão no PS; Almirante Gouveia e Melo é o preferido para Presidente”

Esta manchete é reproduzida nas revistas de imprensa de todos os canais televisivos de notícias e citada nos boletins noticiosos das rádios. É a força do Expresso.

A referida manchete tem uma chamada para a página 8.

Abrimos o jornal na página 8 e, consultando os diversos gráficos que resultam da sondagem do ICS/ISCTE, chegamos às seguintes conclusões:

Рse as elei̵̤es fossem repetidas agora, o PS continuava a ganhar com 37% dos votos, contra os 28% do PSD

– os partidos do centro-esquerda (PS, BE e PCP), teriam 45% dos votos, enquanto os da direita e extrema-direita (PSD, Chega e IL), teriam 42%

– a diferença entre os que acham que a actuação do governo é má ou muito má e os que acham que é boa ou muito boa, é apenas de 7%

– Gouveia e Melo é, de facto, a personalidade com mais possibilidade de ser eleito Presidente (4,7 pontos em 10), mas é seguido de perto por António Costa, o líder do tal governo que passa do céu ao inferno, com 4,4 pontos em 10.

Parabéns a Francisco Balsemão e ao liberal-reacionário João Vieira Pereira: que merda de jornal detêm e dirigem!

Expressamente à direita

Claro que não estou espantado, mas o semanário Expresso, antigamente, disfarçava melhor.

Agora, perdeu a vergonha toda e está totalmente ao serviço da direita.

Começa logo no editorial do seu director João Vieira Pereira que diz, por exemplo, que “esta extrema-esquerda”… “venderam a ideia de que vinham como heróis salvar-nos da troika que nos tinha tornado mais pobres, quando na realidade trabalharam para voltar ao pré-2011, aos anos que nos levaram à estagnação económica e à bancarrota”.

Portanto o primeiro super-avit da democracia e o crescimento acima da média da União Europeia nunca existiram.

Todo o editorial de JVP é um manifesto anti-esquerda. É a opinião do homem, pronto.

Mas o resto do jornal é o que se vê.

Toda a página 5 é ocupada com o habitual despacho do presidente: “Marcelo quer compromisso sólido para pelo menos dois anos”.

Não chega o Marcelo fazer conferências de imprensa praticamente diárias, ainda tem o seu órgão oficial todos os sábados.

As páginas 6 e 7 são ocupadas com a zanga das comadres do PSD.

O título é “Rio e Rangel não baixam armas”. No topo das páginas, uma foto dos dois candidatos a líderes e, para além do texto com o título já citado, há dois outros intitulados “Candidatos sem tempo para detalhar programa” e “Só Cavaco teve sucesso rápido em eleições, mas com mais tempo”.

Parece que estamos a ler um exemplar do Povo Livre, órgão oficial do PSD.

Nas páginas 8 e 9, duas páginas dedicadas à Direita – como se as outras também o não fossem.

Para além de uma ilustração representando os 4 partidos de Direita (PSD, IL, CDS e CH), podemos ler (salvo seja), os seguintes artigos: “A minha legitimidade só se coloca na cabeça de quem nunca a aceitou”, diz Mota Soares, do CDS; “Na prateleira da Direita, quem compra CDS?”; “Chicão: O PP dos que querem subir a pulso”; “Nuno Melo: regenerar para voltar a ser últil”; e “Chega está capturado pelo sistema”, diz um fulano que se vai candidatar contra o Ventura.

Acham que já chega de Direita?

Ainda não.

Mas quem é que falta?

A Iniciativa Liberal, claro.

Vem logo na página seguinte. Toda a página 10 está preenchida com uma entrevista ao Cotrim Figueiredo.

Quanto ao PS, merece apenas um terço da página 12, com o título “PS: ordem para acalmar contra a esquerda”.

Assim vai o jornalismo “independente” do Expresso.

Quem fala assim…

Folheio quatro jornais ao fim de semana: Público, Diário de Notícias, Nascer do Sol e Expresso.

Às vezes, mais.

Indolentemente, vou virando as páginas, em busca de algo que me desperte a atenção.

Como se costuma dizer, leio as gordas.

No pasquim Nascer do Sol, deparo com esta citação de André Coelho, um dos vice-presidentes do PSD:

“Rui Rio é uma personalidade com características humanas únicas e incomuns”.

Vê-se que André Coelho admira o seu líder ou, pelo menos, quer fazer-nos crer que o admira. O que fará de Rui Rio uma personalidade única e incomum? Possui uma imensa bondade, capaz de despir a camisa para cobrir um pobre? É dono de uma inteligência rara que ofusca todos os demais? Que características humanas incomuns terá Rui Rio? Três rins? Um coração com cinco cavidades?

Como não li a entrevista que ocupava quatro ou cinco páginas, nunca saberei por que razão André Coelho assim classifica Rui Rio.

Mais à frente, no mesmo jornal, outra entrevista, desta vez com a criminóloga Ana Guerreiro.

Destaco as gordas:

“As mulheres não são mais que seres humanos”.

Esta deixou-me estarrecido.

E eu que pensava que as mulheres seriam uma espécie de mistura entre a humanidade e os deuses. Afinal, nada disso! Simples seres humanos, como os homens…

Mas a criminóloga diz mais:

“As mulheres têm necessidades e vontades próprias”.

E o mito está desfeito: não só as mulheres não passam de seres humanos, como, ainda por cima, têm necessidades e vontades próprias.

Claro que, para se chegar a este tipo de conclusões definitivas, deve ter que se estudar criminologia a fundo.

Mas a melhor gorda estava guardada para o fim. Na última página do Público, João Miguel Tavares vomita todo o seu ódio por tudo o que cheire vagamente a esquerda. Três vezes por semana, se não estou em erro.

Nunca consegui acabar de ler um único texto escrito por esta criatura; acho-os banais, sem nenhuma ideia nova, sempre tendenciosos e, ainda por cima, JMT tem a mania que é engraçadinho e se há coisa que abomino são os engraçadinhos.

No topo do artigo deste sábado, a citação de JMT diz:

“O Governo socialista é como aqueles casais sem imaginação que só conhecem duas ou três posições na cama, e as repetem incessantemente sempre que há alguma energia, ou, neste caso, muito dinheiro”.

Estão a ver?

JMT, a propósito do dinheiro que a União Europeia envia para Portugal, faz uma analogia com o sexo; pretende, portanto, ter graça.

Já o Ary dos Santos dizia, com tristeza, que, em Portugal, o humor tinha centímetros, a distância que vai do rabo ao pipi.

Mas acho curioso que o JMT ache que um casal que faça amor utilizando duas ou três posições, não tem imaginação.

Pelos vistos, JMT, além de jornalista, é muito bom na cama, imaginativo, saltando da posição de missionário para a quase-lótus, e desta para a união suspensa, saltando depois para a meia-prensa, logo seguida da giratória, e sabe-se lá que mais posições – coisa que o Governo socialista não é capaz.

E o mais engraçado é que, olhando para a foto de JMT que acompanha todos os seus artigos, não sou capaz de o imaginar a foder…

Os leitores do Expresso elegem Ventura!

Todos os anos, o Expresso elege as figuras nacional e internacional do ano.

A redacção escolhe um lote de candidatos e, depois, procede-se à votação.

Este ano, escolheram para candidatos a figuras nacionais do ano, o cardeal Tolentino Mendonça, António Costa, Margarida Matos Rosa, Jorge Jesus, Joacine Katar Moreira e o fascista André Ventura.

Para figuras internacionais do ano, escolheram Donald Trump, Boris Johnson, Ursula Von Der Leven e Greta Thunberg.

Não vou comentar estas escolhas. Os jornalistas do Expresso lá sabem por que carga de água metem no mesmo saco um treinador de futebol que ganhou a Taça dos Libertadores e um primeiro-ministro que conseguiu concluir quatro anos de governo com o apoio do PCP, um cardeal que foi nomeado responsável pelo arquivo do Vaticano e um tipo que comenta jogos de futebol e que foi eleito para o Parlamento por um partido chamado Chega!, com ponto de exclamação e tudo…

As escolhas internacionais são muito mais coerentes: um presidente, um primeiro ministro, uma líder da União Europeia e uma activista pelo clima.

No que respeita à escolha da figura internacional do ano, a redacção do Expresso escolheu a Greta Thunberg.

Escolha óbvia. A adolescente sueca arrastou multidões, trouxe a discussão das alterações climáticas para as primeiras páginas e conseguiu irritar muita gente.

Já no que respeita à escolha da figura nacional, o Expresso decidiu-se pelo cardeal Tolentino Mendonça – decisão corporativa, já que o cardeal colabora com o Expresso há alguns anos, com uma coluna semanal. De resto, que importância tem para o comum dos portugueses o facto do cardeal ter sido nomeado para um cargo importante no Vaticano? Poderá vir a ser Papa? E depois?…

Mas o que mais me interessa nesta iniciativa do Expresso é que o semanário decidiu pôr à votação dos leitores a escolha das figuras do ano.

É uma atracção fatal.

Abomino programas do estilo fórum, em que os ouvintes/telespectadores são convidados a dar a sua opinião sobre tudo. O Sr. Vitorino, reformado de cascais, telefona a dizer a sua douta opinião sobre os incêndios, as inundações ou Orçamento do Estado, assim como sobre as carreiras fluviais do Tejo ou os novos passes sociais.

Desta maneira, as estações de rádio e televisão enchem horas de emissão com opiniões bacocas e, muitas vezes, ideias erradas, nunca contrariadas e que passam como verdadeiras.

E qual foi o resultado da votação dos leitores do Expresso?

Simples: André Ventura e Donald Trump!

Trump conseguiu 52% dos votos dos leitores do Expresso, enquanto Ventura arrebatou 89% dos votos!

Espectacular!

Isto quer dizer que quase 9 em cada 10 leitores do Expresso acham que André Ventura foi a figura nacional mais importante de 2019.

Se eu fosse director do Expresso, demitia-me!…

Mas estão mesmo todos contra o SNS?

Parece que sim!

Esta semana, médicos e enfermeiros do SNS estão em greve simultaneamente.

Nunca estive de acordo com greves nos sectores dos serviços. Penso que os únicos prejudicados, são os utentes e o Estado pode bem com estas greves; com efeito, até poupa algum dinheiro…

Se os médicos e os enfermeiros pretendem defender o SNS, devem, por exemplo, organizar debates para propor medidas que melhorem os serviços, em vez de fazerem greves.

E as Ordens devem dar o exemplo.

O Sr. Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de andar a fazer política anti-Ministério da Saúde, devia fazer parte da solução, propondo medidas concretas para melhorar o SNS.

Não me esqueço da entrevista que o Dr. Guimarães deu à televisão, quando surgiu a notícia de que a Galiza queria contratar médicos portugueses, oferecendo-lhes altos salários e outras condições principescas. O Sr. Bastonário veio logo dizer que seria natural que os médicos portugueses se candidatassem a esses lugares na Galiza, não só porque iriam ganhar melhor do que no SNS português, mas porque, também, os médicos, em Espanha, eram mais reconhecidos do que em Portugal, segundo a douta opinião do Dr. Guimarães.

Claro que era tudo uma grande treta. A oferta dos galegos não era bem assim, o ordenado não era tão faustoso como se dizia e os candidatos teriam que andar a saltar de um centro de saúde para outro, fazer várias urgências e, só se trabalhassem aos fins-de-semana, é que talvez ganhassem o ordenado anunciado.

Nenhum candidato português se chegou à frente. O Sr. Bastonário nunca mais falou no assunto.

Desde essa altura Рou melhor, desde que se deixou de falar nos professores Рque a comunica̤̣o social elegeu o SNS como alvo.

Todos os dias há uma notícia nova sobre a hecatombe do SNS.

Notem que não há duas notícias no mesmo dia – isso seria desperdiçar munições. Ontem foi uma, hoje é outra, amanhã será ainda outra. O que é preciso é não deixar morrer o assunto. Os Hospitais privados agradecem, claro.

Nas televisões, os comentadores tudistas – isto é, os especialistas em tudo – também comentam o “caos” na Saúde.

Ontem, um comentador de apelido Gama, atribuía a falta de médicos à redução do horário de trabalho das 40 paras as 35 horas – o que é mentira, já que os médicos são os únicos no sector da Saúde que continuam com 40 horas.

Mas nem a jornalista que estava a moderar o debate, nem a sua opositora, a socialista Inês de Medeiros, corrigiram o Gama.

Portanto, quando os comentadores não conhecem os assuntos que estão a comentar, está tudo dito quanto à comunicação social.

Há umas duas semanas, ficámos a saber que as maternidades de Lisboa teriam que fazer uma escala de atendimento de urgências porque não havia obstetras suficientes, durante o Verão, para manter todas as urgências abertas.

Foi um escândalo.

Claro que não foi referido que isto já não é novo. Aconteceu, por exemplo, com as urgências pediátricas.

E a culpa foi atribuída ao SNS – não ao sector privado, que saca os médicos, oferecendo-lhes melhores salários.

Entretanto, estamos no dia 3 de Julho, e parece que as maternidades vão continuar a funcionar, embora isso já não seja notícia.

A notícia hoje é, na primeira página do Público, replicada nas televisões, que o número de cirurgias em atraso duplicou nos últimos quatro anos – ou seja, durante o consulado da geringonça.

Se fores ler a notícia – o que eu duvido – perceberás que esse aumento se ficou a dever, sobretudo, ao aumento do tempo máximo de resposta garantida.

Mas o que é isso?

Até 2018, uma cirurgia programada menos grave, teria que ser resolvida em 270 dias – mas a partir do ano passado, essas cirurgias teriam que ser realizadas no tempo máximo de 180 dias. Esse simples facto fez aumentar o número de cirurgias em espera.

Mas isto é um pormenor demasiado técnico, e o que a malta fixa é a parangona do jornal, ou o título debitado pelo jornalista de serviço na televisão.

Enfim, acabem com o SNS e depois não se queixem…