“A Polícia da Memória” , de Yoko Ogawa (1994)

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, Japão, em 1962 e publicou mais de duas dezenas de romances e novelas.

Este “A Polícia da Memória”, editado no Japão em 1994, foi finalista do National Book Award for Translated Literature, em 2019, e finalista do International Booker Prize de 2020.

Depois de ler esta história, é impossível não nos lembrarmos de “1984”, de George Orwell, e, sobretudo, de “Farhenheit 451”, de Ray Bradbury.

A história desenrola-se numa ilha isolada onde, de vez em quando, desaparecem coisas, os laços do cabelo, sinos, as aves, caixas de música, barcos. De vez em quando, um determinado objecto desaparece da ilha, as pessoas estranham, mas acabam por habituar-se. E a Polícia da Memória tudo fiscaliza, para ter a certeza de que esses objectos desaparecem mesmo da memória das pessoas.

A narradora é uma romancista que vive sozinha, e cuja mãe foi levada pela Polícia da Memória porque, aparentemente, não se esquecia das coisas. Ela e um seu amigo, um velho marinheiro, vão acolher e esconder o seu editor, que também mantém a memória de tudo o que desapareceu na ilha; para ele constroem um quarto secreto, onde ele passa a viver, escondido.

Toda a história é uma imensa parábola sobre a resignação, sobre o facto de nos adaptarmos a tudo, até ao desaparecimento de coisas tão importantes para nós, mantendo-nos calados pelo medo.

Aconselho.

“Luto”, de Eduardo Halfon (2017)

Eduardo Halfon nasceu em 1971 na cidade de Guatemala, mudou-se para o sul da Florida aos 10 anos, regressou a Guatemala, onde foi professor de literatura. É considerado um dos melhores escritores latino-americanos da actualidade.

Este pequeno livro “Luto”, editado em 2017, ganhou diversos prémios literários (nomeadamente, o de melhor livro estrangeiro, em França) e lê-se numa tarde.

É uma escrita depurada, sem arabescos nem rodriguinhos. O tema é autobiográfico, o que parece ser uma característica deste autor.

O livro gira à volta da história de um irmão mais velho do escritor, um menino chamado Solomon, que terá morrido afogado no Lago Amatitlán, aos 5 anos – ou será que morreu numa Clínica, em Nova Iorque, vítima de uma doença incurável?

Recordando episódios da sua infância, de uma maneira ou de outra, marcados pela “imagem” da criança afogada, o autor viaja até junto do Lago Amatitlán, tentando descobrir se essa história terá sido mesmo verdadeira, ou não passará de uma lenda.

São 100 páginas que valem cada linha.

“Klara e o Sol”, de Kazuo Ishiguro (2021)

Kazuo Ishiguro (Nobel em 2017), escreveu um romance sobre o amor, mascarado de ficção científica.

Klara é uma AA, uma Amiga Artificial, um robot construído para fazer companhia a crianças.

Josie é uma rapariga que sofre de uma doença grave (nunca saberemos qual); teve uma irmã mais velha que morreu com essa doença. A mãe de Josie compra Klara não só para fazer companhia a Josie, mas também, talvez, para substituir Josie, se esta morrer.

O livro é narrado por Klara e ficamos a saber que este tipo de robots têm uma relação mística com o Sol, visto e sentido como um deus. Klara convence-se que será o Sol a salvar Josie, mas, para isso, o robot terá que fazer uma espécie de promessa.

Ishiguro escreve bem e consegue sugerir muitas coisas que, depois, nunca desenvolve, deixando-nos água na boca, mas, no fundo, é uma história de amor. Concluímos que nunca seremos capazes de amar um robot, embora o contrário, talvez possa acontecer. Lê-se com interesse, mas parece pouco para um escritor nobelizado.

“Breve História do Mundo em 50 Lugares”, de Jacob F. Field (2017)

Nascido em Londres, em 1983, Jacob F. Field é formado em História Moderna pela Universidade de Oxford e autor de diversos livros.

Esta breve História do Mundo é um excelente livro para ler em voz alta para ouvidos atentos que queiram saber coisas básicas sobre alguns lugares do mundo que se tornaram importantes para a História.

São 50 lugares que o autor escolheu, nomeadamente, a Biblioteca de Alexandria, a bacia do Rio Amarelo, a Acrópole, a Igreja de Santa Maria do Sião, Cusco, as planícies de Abraão, a casa de Anne Frank, o CERN, etc.

Sobre cada um destes lugares – e em três ou quatro páginas – o autor relata os factos principais que ficaram ligados a esses sítios. Numa linguagem simples e com uma grande capacidade de síntese, Jacob F. Field consegue prender a nossa atenção e dar umas pinceladas na História do Mundo, da Europa à Ásia, passando pela África e pelas Américas.

“O Irmão Alemão”, de Chico Buarque (2014)

Aos 22 anos, Chico Buarque descobriu que tinha uma meio-irmão nascido na Alemanha. O seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, vivera naquele país entre 1929 e 1930 e aí tivera um filho com uma alemã, filho esse que terá, depois, sido entregue à Segurança Social e, mais tarde, adoptado.

Mas isso, Chico Buarque só descobriria quase 50 anos depois, quando decidiu procurar o rasto de Sérgio Ernst.

E esta história verdadeira serviu de inspiração para este livro, onde um Francisco de Hollander procura obsessivamente o seu irmão alemão, ao longo de décadas, aproveitando para nos contar um pouco da história recente do Brasil, nomeadamente os tempos da ditadura.

O narrador está permanentemente a imaginar cenários, caso encontrasse o irmão e ele fosse este ou aquele, tivesse tido esta ou aquela profissão, fosse ou não judeu, tivesse ou não sido detido nos campos de concentração nazi, ou, pelo contrário, tivesse ele próprio sido um nazi.

De presunção em presunção, os anos vão passando, os pais de Francisco de Hollander morrem e ele acaba por viajar até à Alemanha, onde, de pista em pista, acaba por descobrir, finalmente, o que aconteceu ao seu irmão alemão. Muito bom!

“Não Mais Amores”, de Javier Marias (2012)

Javier Marias (Madrid, 1951) reuniu neste volume todos os seus contos.

Diz o próprio que “o que aqui se oferece acabe por ser a totalidade aceite e aceitável da minha contribuição para o género. Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa”.

O autor sofrerá de falsa modéstia.

Para ser sincero, os contos de Javier Marias não me entusiasmaram.

Um tradutor metido em sarilhos durante a rodagem de um filme com Elvis Presley podia ser um bom princípio para um conto. Uma mulher que lê para um fantasma, também. Uma aspirante a actriz porno à espera de conhecer o seu companheiro no filme, idem. Tudo boas ideias, mas que, depois, se perdem, penso eu, num emaranhado de frases complexas.

“A Escola de Topeka”, de Ben Lerner (2019)

Ben Lerner, nasceu na cidade de Topeka, no Kansas, em 1979 e, com este livro, foi finalista do Pulitzer – livro que foi considerado um dos dez melhores livros do ano para o New York Times.

No entanto, para mim, foi um livro difícil, com uma temática muito “americana”. Conta-nos histórias de uma família de psicoterapeutas e da comunidade que vive em seu redor, em Topeka.

Cada capítulo refere-se a uma das personagens do livro (Jane, Jonathan, Adam…) e ficamos a conhecer um pouco do passado destas pessoas, o seu presente e, no último capítulo, o futuro.

O livro foi escrito já durante o “reinado” de Trump e o autor mostra bem a sua repulsa pela governação daquela criatura.

No último capítulo, conta-se a participação de Adam, da sua mulher e de uma das suas filhas, numa manifestação contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement) e a maneira como esta instituição tratava as crianças, filhas dos chamados imigrantes clandestinos. Um livro interessante, mas irregular. Os capítulos dedicados a uma espécie de concurso de oratória são, como disse, demasiado “americanos”.

“O Fim”, de Karl Ove Knausgard (2011)

Que alguém me dê os parabéns: consegui acabar hoje o 6º volume de A Minha Luta, monumental autobiografia romanceada da autoria do norueguês Karl Ove Knausgard.

Este 6º volume, intitulado O Fim, tem 1094 páginas e pesa cerca de um quilo e 400, o que faz com que os seis volumes totalizem cerca de 3500 páginas.

É obra, caramba!

Neste último volume, Knausgard lamenta-se, nas primeiras 200 páginas, do que escreveu no primeiro volume, A Morte do Pai, e do que isso provocou na família do seu pai, nomeadamente no seu tio Gunar, que o ameaça com o tribunal, dizendo que ele mentiu quando disse que o seu pai morreu depois de dois anos de alcoolismo intenso.

Como é habitual, entre os lamentos, leva os três filhos ao jardim-escola, põe a loiça na máquina, vai fumar para a varanda ou discute com a mulher, Linda.

Depois, seguem-se 400 páginas sobre Hitler. Knausgard decidiu incluir neste volume um extenso ensaio sobre a ascensão do ditador. Confesso que passei algumas páginas à frente, sem as ler.

Depois, disso, o autor relata o sucesso dos seus livros, que vão saindo, o modo como eles são notícia em todo o lado, como, de repente, se transforma numa espécie de ícone pop e, nas últimas centenas de páginas, relata mais uma crise de Linda, que é bipolar e que, alterna momentos de intensa mania com depressões profundas, acabando por ser internada num hospital psiquiátrico.

E tudo isto é, sempre, relatado ao mesmo tempo que Knausgard muda a fralda a John, ou dá o pequeno-almoço a Vanja e Heidi, ou vai até à horta urbana arrancar ervas, ou dá entrevistas a jornais e revistas.

É óbvio que Knausgard é um narcisista convicto e, apesar de se revelar um tímido, que odeia multidões e contactos sociais, adora falar sobre si próprio e toda esta obra é uma demonstração de narcisismo.

Fui lendo os diversos volumes, ao longo dos últimos seis anos e gostei mais de uns do que de outros; sem dúvida que o primeiro, A Morte do Pai, foi o que mais me marcou, devido à novidade da escrita, mas este último também me agradou bastante.

Os outros volumes estão aqui: A Morte do Pai; Um Homem Apaixonado; A Ilha da Infância; A Dança no Escuro; Alguma Coisa Tem Que Chover

“Os Benefícios de Dar Peidos”, de Jonathan Swift (1722)

Nunca imaginei que o autor de As Viagens de Gulliver tivesse escrito coisas deste jaez. No entanto, parece que Swift era useiro e vezeiro em escritos provocadores como este.

Este livrinho, de apenas 84 páginas, é o primeiro de uma nova colecção da editora Guerra e Paz, intitulada Livros Negros.

A intenção desta colecção é dar a conhecer “livros malditos ou proibidos e textos satíritcos”. Para começar, este Benefícios de Dar Peidos, é apenas curioso.

Jonathan Swift aconselha as damas da sociedade a peidarem-se livremente, quando não, os peidos retidos podem fazer com que falem interminavelmente.

Reparem no que ele diz:

“Tendo explicado a natureza e a essência do peido, em seguida vou deter-me nas consequências nefastas de o aguentar, quase óbvias para quem o tenha tentado; pois, na sua retrogradação, causa cólicas, histerismo, revolta intestinal audível, arrotos, libertação de bílis, etc, mas em mulheres de constituição mais robusta, liberta-se na forma de tagarelice crónica.”

O Swift era um grande malandro!

Para além deste folheto, a favor da libertação dos peidos, o livrinho incluiu, ainda, uma proposta que Swift faz para diminuir as consequências da pobreza na Irlanda e que consiste em convencer os pobres a venderam as suas crianças pequenas aos ricos, para que eles a comam. Este outro panfleto tem menos piada e, hoje em dia, também não seria bem aceite, como não terá sido naqueles tempos.

Para compor o ramalhete, o minúsculo volume inclui uma tradução de Jorge de Sena do poema de Swift, Casino e Pedro, Elegia Trágica, e ainda, Meditações sobre um Cagalhão. Tudo coisas muito escatológicas e, sinceramente, com muito pouca graça.

É apenas curioso…

“O Infinito num Junco”, de Irene Vallejo (2019)

Irene Vallejo nasceu em Saragoça em 1979, tem pouco mais de 40 anos, estudou Filologia Clássica e é doutorada pelas Universidades de Saragoça e Florença; escreve no El País e no Heraldo de Aragon.

Este livro transformou-se num inesperado grande êxito de vendas – inesperado porque trata da história dos livros na Antiguidade Clássica, em Grécia e em Roma.

No entanto, num assunto que poderia ser uma chatice, a jovem autora conseguiu escrever uma história fascinante, que começa na grande Biblioteca de Alexandria e percorre todos aqueles séculos antes de Cristo, passando por Alexandre o Grande, Sócrates, Aristóteles, Homero, e todos os grandes autores gregos, do tempo em que os livros eram rolos de papiro (daí o junco), até a Roma e o seu extenso império, Ovídio, Marcial e muitos outros.

Um livro sobre a história dos livros, quando ainda não existiam propriamente livros, como hoje os conhecemos.

Ao longo da narrativa, Irene Vallejo socorre-se de muitos exemplos da actualidade para ilustrar as suas ideias e, por vezes, fala-nos dos pais, que viveram durante a ditadura de Franco.

Conta, por exemplo, que costumava acompanhar o pai nas visitas que ele gostava de fazer a um alfarrabista.

“Naquela manhã dos anos noventa em Madrid, o meu pai desenterrou uma curiosa pepita. Aparentemente, um D. Quixote. O fidalgo magro na capa de tecido, o primeiro capítulo, a adarga antiga, a panela com mais vaca do que carneiro, os duelos e as tristezas aos sábados. Mas em vez do segundo capítulo começava outra obra, O Capital. O meu sorriu com uma plenitude pouco habitual. Iluminou-se. A dupla de Cervantes e Marx não era um erro exótico de impressão, mas sim um livro clandestino, uma lembrança viva da juventude do meu pai.”

Irene Vallejo defende o livro com unhas e dentes e crê que ele vai sobreviver a todas as novidades.

“Quando comparamos algo velho e algo novo – como um livro e um tablet, ou uma freira sentada ao pé de um adolescente que está a falar num chat no metro -, acreditamos que o novo tem mais futuro. Na verdade, acontece o contrário. Quantos mais anos leva um objecto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século XXII existam freiras e livros do que Whatsapp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas plasmas ou telemóveis talvez não”.

De um modo simples e com uma escrita que nos prende do princípio ao fim, a autora fala-nos de Aristófanes e dos processos judiciais contra os humoristas, de Tito Lívio e do fenómeno dos fãs, de Sulpícia e da voz literária das mulheres, rara na Antiguidade, e de muitos outros.

Aconselho vivamente.

(Edição da Bertrand, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)