“Os Lanças-Chamas”, de Rachel Kushner (2013)

Este foi o 3º livro de Rachel Kushner que li e, tal como os outros dois (Telex de Cuba e O Quarto de Marte), trata-se de um livro complexo, cheio de referências históricas e culturais, as mais diversas.

Kushner escreve regularmente sobre arte e este livro é prova disso. A maior parte do livro é narrada por uma jovem que se muda para Nova Iorque com o intuito de se tornar artista. Este é o ponto de partida para uma série de episódios que vão desde o recorde de velocidade em mota no deserto de sal do Utah, as vidas um pouco loucas dos artistas nova-iorquinos, com grandes bebedeiras e exposições de arte duvidosas (uma das personagens tira fotografias ao interior do forno da cozinha e diz que se trata de fotos do firmamento), e muitas outras coisas.

Uma boa parte do romance passa-se em Itália. A protagonista namora com o herdeiro das motas Valera, de Milão, que vive em Manhattan; depois, vão ambos para Itália e presenciam as grandes manifestações e os atentados das Brigadas vermelhas, já que a acção do livro decorre na década de 70.

Uma pequena passagem da página 220:

“Pensei no discurso de Ronnie sobre o pão. Divertia-o que agora só se encontre pão integral nos mercados gourmet de Nova Iorque. Não é que Ronnie fizesse compras em lojas gourmet, mas tinha aberto uma no SoHo e ele percorreu os corredores para alimentar os habituais comentários. Disse que é uma ironia as pessoas terem decidido colectivamente que a farinha integral é mais desejável do que o pão branco que era há séculos o pão da nobreza. – Agora é tudo assim – disse ele. O refinamento seguira determinado curso e invertera-o. Neste caso, a farinha refinada para um pão branco super refinado, leve e fofo, outrora só alcance de reis e rainhas, obtém-se em toda a parte, pelo que os ricos tiveram que voltar a comer o rude pão integral que costumavam deixar aos camponeses. Agora, nenhuma pessoa instruída se deixa apanhar em flagrante a comer pão branco. Nem sequer uma pessoa da classe média”.

Ao longo do livro deparamos com citações deste género sobre os mais diversos assuntos, o que faz com que este livro de Rachel Kushner tenha sido considerado, pelo New York Times, um dos dez melhores livros de 2013.

Expressamente à direita

Claro que não estou espantado, mas o semanário Expresso, antigamente, disfarçava melhor.

Agora, perdeu a vergonha toda e está totalmente ao serviço da direita.

Começa logo no editorial do seu director João Vieira Pereira que diz, por exemplo, que “esta extrema-esquerda”… “venderam a ideia de que vinham como heróis salvar-nos da troika que nos tinha tornado mais pobres, quando na realidade trabalharam para voltar ao pré-2011, aos anos que nos levaram à estagnação económica e à bancarrota”.

Portanto o primeiro super-avit da democracia e o crescimento acima da média da União Europeia nunca existiram.

Todo o editorial de JVP é um manifesto anti-esquerda. É a opinião do homem, pronto.

Mas o resto do jornal é o que se vê.

Toda a página 5 é ocupada com o habitual despacho do presidente: “Marcelo quer compromisso sólido para pelo menos dois anos”.

Não chega o Marcelo fazer conferências de imprensa praticamente diárias, ainda tem o seu órgão oficial todos os sábados.

As páginas 6 e 7 são ocupadas com a zanga das comadres do PSD.

O título é “Rio e Rangel não baixam armas”. No topo das páginas, uma foto dos dois candidatos a líderes e, para além do texto com o título já citado, há dois outros intitulados “Candidatos sem tempo para detalhar programa” e “Só Cavaco teve sucesso rápido em eleições, mas com mais tempo”.

Parece que estamos a ler um exemplar do Povo Livre, órgão oficial do PSD.

Nas páginas 8 e 9, duas páginas dedicadas à Direita – como se as outras também o não fossem.

Para além de uma ilustração representando os 4 partidos de Direita (PSD, IL, CDS e CH), podemos ler (salvo seja), os seguintes artigos: “A minha legitimidade só se coloca na cabeça de quem nunca a aceitou”, diz Mota Soares, do CDS; “Na prateleira da Direita, quem compra CDS?”; “Chicão: O PP dos que querem subir a pulso”; “Nuno Melo: regenerar para voltar a ser últil”; e “Chega está capturado pelo sistema”, diz um fulano que se vai candidatar contra o Ventura.

Acham que já chega de Direita?

Ainda não.

Mas quem é que falta?

A Iniciativa Liberal, claro.

Vem logo na página seguinte. Toda a página 10 está preenchida com uma entrevista ao Cotrim Figueiredo.

Quanto ao PS, merece apenas um terço da página 12, com o título “PS: ordem para acalmar contra a esquerda”.

Assim vai o jornalismo “independente” do Expresso.

Cheira a metano em Glasgow

Está a decorrer em Glasgow, a 26ª COP (Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Alterações Climáticas).

Na sessão de abertura estavam lá quase todos, de Joe Biden a Angela Merkel, de Trudeau a Modi, passando por Guterres, Boris Jonhson, Macron e muitos outros. Até lá estava o sempre adiado rei da Grã-Bretanha, o príncipe Charles.

Faltaram, no entanto, três dos maiores poluidores do planeta, o Xi, o Bolsonaro e o Putin.

Estavam ocupados a cortar umas árvores ou a queimar um pouco de carvão.

Ontem, parece que os conferencistas chegaram a dois acordos importantes.

Segundo o primeiro acordo, os signatários comprometem-se a “travar e reverter a desflorestação e degradação dos solos até 2030”.

Aplausos.

Até o Putin e o Bolsonaro se comprometeram a cumprir este acordo.

Ora, sabendo que, em 2014, os mesmos signatários acordaram, na Declaração de Nova Iorque, em cortar para metade a perda de área florestal até 2020 e que, no entanto, actualmente, se desfloresta o dobro do que se floresta – em 2030, que é já daqui a nove anos, será ainda mais difícil encontrar uma sombra na floresta.

O segundo acordo chama-se Compromisso Global do Metano e foi impulsionado por Biden.

Os signatários comprometem-se a reduzir em 30% as suas emissões de metano. Mais de 100 países assinaram este compromisso, incluindo Portugal, embora não tenham assinado a China, a Índia e a Rússia, três dos maiores emissores de metano.

Parece que o metano é responsável por 0,5 graus no aquecimento global e, em Portugal, são as vacas criadas para o consumo de carne que lideram as emissões de metano (certificar aqui).

Dizem os especialistas que o tempo de vida média do metano na atmosfera é de 12 anos.

Quer dizer, uma vaca descuida-se hoje, ali no Alandroal, e só em 2034 o efeito se dissipa!

Nos próximos dias, todas as atenções estão viradas para Glasgow, mas, a avaliar pela reacção de alguns dos presentes, os trabalhos da COP não têm sido lá muito interessantes…

O planeta a aquecer e os líderes a adormecer…

O Coiso há 22 anos na net

Foi no dia 1 de novembro de 1999 que O Coiso penetrou na net.

Nessa altura, era uma página praticamente feita à mão, que pode ser consultada no Velho Coiso.

Com mais de 2400 posts, O Coiso vai resistindo, embora com menos vigor.

Noutra altura, aproveitaria a actual crise política para escrever textos a propósito, mas, sinceramente, falta-me a paciência.

Que dizer, por exemplo, da agonia do CDS?

Quando era jornalista, fui destacado para a conferência de imprensa em que foi feito o anúncio da fundação desse partido centrista, com a presença de Freitas do Amaral. Foi em julho de 1974 e, nessa altura, ninguém era de direita.

Depois, a pouco e pouco, o Centro Democrático Social, foi resvalando para a direita, se é que alguma vez foi do centro.

Já lhe chamaram o partido do táxi, porque todos os seus deputados cabiam num. Qualquer dia, passará a ser o partido da trotinete, com o Chiquinho ao volante.

E que dizer do professor Marcelo que, de tanto querer que o Orçamento fosse aprovado, começou logo a empurrar todos para eleições antecipadas?

Com estupefacção, vimos o presidente sair do Palácio de Belém e dirigir-se a uma caixa multibanco para pagar uma conta, com os jornalistas a correrem atrás dele.

Será que o homem desconhece a página online do seu Banco?

E que dizer do PSD, o habitual saco de gatos que nunca consegue uma liderança estável?

Procurem na net: são 18 presidentes em 47 anos, o que dá uma média de 2,6 anos para cada presidente. Ora, sabendo que Rui Rio é presidente desde fevereiro de 2018, podemos declarar que o homem já ultrapassou a barreira do som, com 3 anos e 9 meses à frente do PSD.

Mas o PSD range por todos os lados, a começar pelo lado do Rangel, que poderá vir a ser o 19º presidente e teremos que levar com a sua voz metálica e absolutamente irritante durante, pelos menos, mais 2 anos e 6 meses, até que apareça outro presidente.

E que dizer dos partidos de esquerda?

Desses ainda me apetece falar menos.

O PS ora é considerado um partido de esquerda, ora é o principal alvo do PCP e do Bloco.

O PCP decidiu voltar às origens.

O Bloco talvez esperasse que o PC se abstivesse.

De qualquer maneira, não se entenderam e, agora, culpam-se uns aos outros, mas, o que é certo, é que a porta ficou escancarada para a direita.

Esperemos que a direita não dê com a porta…

Nota – O Coiso foi um jornal completamente desmiolado que se publicou durante 12 semanas, em 1975; era impresso no velho jornal República e tinha, entre os seus criadores e colaboradores, eu próprio, o Álvaro Belo Marques, o Ruy Lemus, o José António Pinheiro, o Carlos Barradas e o velho Mário-Henrique Leiria.

“À Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee (1980)

Gostei muito deste romance de Coetzee, agora reeditado pela D. Quixote.

A acção passa-se algures no tempo e no espaço. De facto, nunca ficamos a saber em que local é aquele e em que época estamos.

O narrador é o magistrado daquela cidade muralhada, situada perto de um lago e de um pântano, com o deserto no horizonte. Para lá desse horizonte, algures, estão os bárbaros, que talvez ataquem a cidade, ou talvez não.

O Império estende os seus braços até à cidade, que fica na fronteira e para lá envia soldados para combater os bárbaros.

Entretanto, o magistrado está velho e procura conforto junto de uma prisioneira que foi torturada. Passado algum tempo, decide levá-la de volta ao seu povo e, com esse seu gesto, cai em desgraça e é, ele próprio, preso e torturado.

Mas a vida dá muitas voltas e o magistrado ainda há de voltar a ter lugar de destaque na cidade.

Coetzee escreve bem, como se sabe, e as suas descrições da cidade, do lago, dos pescadores, do deserto, da sucessão das estações, fazem com que visualizemos o que ele descreve.

Muito bom.

Outros livros de Coetzee: A Infância de Jesus; A Vida e o Tempo de Michael K.; Diário de Um Ano Mau; O Homem Lento; No Coração Desta Terra; Verão; Jesus Na Escola; A Morte de Jesus

“Canção Doce”, de Leila Slimani (2016)

Há quem diga que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

De certo modo é o que se passa com esta excelente escritora franco-marroquina.

Em “O País dos Outros”, a história gira em torno de Mathilde, uma jovem francesa que se casa com um marroquino e que vai viver para o país do marido, sofrendo, depois, todas as desventuras que daí advêm; em “No Jardim do Ogre”, é Adéle, uma jornalista casada com um pediatra e obcecada por aventuras sexuais, que vai caindo numa espiral de desgraças; neste “Canção Doce”, é Louise, uma ama obsessiva-compulsiva que domina a história.

Dos três livros, este foi o que mais me impressionou pelo tema. Logo no primeiro capítulo, ficamos a saber que a ama assassina as duas crianças e ficamos logo incomodados.

Depois, Slimani vai contando a história que leva Louise ao precipício e o método que usa é semelhante ao que usou em “No Jardim do Ogre”, com a história de Adéle.

E porque o tema central do livro me incomodou, quando acabei o livro, senti um certo alívio…

A realidade nas capas das revistas

Andam todos preocupados com a aprovação do Orçamento e outras minudências, mas as verdadeiras notícias estão nas capas das revistas.

Foi graças à capa da Nova Gente que fiquei a saber que “Marcelo vai ser operado”. Trata-se de um exclusivo da revista, o que quer dizer que até o próprio médico do Presidente não devia saber disto. E a Nova Gente é radical, ao acrescentar, como subtítulo: “O Presidente da República não escapa à cirurgia”.

Mas a capa da Nova Gente tem ainda outro exclusivo: “Jorge Jesus foi almoçar a um dos seus restaurantes favoritos”. Que grande cacha! E a revista convida-nos: “veja toda a reportagem”. Não vi, mas imagino o treinador do Benfica a mastigar o rosbife como mastiga a pastilha elástica durante os jogos.

A capa da TV Mais, por seu turno, informa-nos que “Alexandra Lencastre leva novo namorado aos Globos” e, além da foto da dita cuja, a sorrir, vemos uma pequena foto do namorado, com olhos de carneiro mal morto, fitando-nos por cima dos óculos de ver ao perto.

Ficamos ainda a saber que Débora tem uma “vida marcada pelo sofrimento: drogas, traição e aborto”, que, convenhamos, é um trio do camandro!

Ao fundo da capa, à direita, finalmente, uma boa notícia: “João Mota e Mariana Monteiro: reconciliação à vista”.

Passando para a TV 7 Dias, temos muitas revelações, das quais vou apenas destacar duas. A primeira é sobre Catarina Manique, “que se lesionou a sério durante as gravações, encantou-se por um segurança de Óbidos”. A segunda é sobre Francisco Martins, que se perdeu “por uma veterinária da margem sul”. Penso que isto serão mensagens cifradas com um alcance que não consigo lobrigar…

Passando por cima da informação de que “mãe de Rafael arrasa Goucha e Ana Garcia Martins”, a revista informa que “Ronaldo falha funeral de grande amiga”. Afinal, o craque não falha só penaltis…

O exclusivo da revista Top! é diferente, revelando que Lapo Elkan e Joana Lemos casaram “em segredo na propriedade do casal em Tavira, no valor de 7 milhões”. Fico sem saber quem vale 7 milhões: a propriedade ou o casal?

Já a TV Guia debruça-se sobre Gouveia e Melo, com o título “O pesadelo do vice-almirante”. Não vale a pena ficarem em suspenso, porque a revista esclarece logo a seguir que ele é “vítima de conspiração em momento de glória”. O que vale é que “o povo quer vê-lo a mandar no país”. Mas, como não há bela sem senão, ficamos a saber que o vice-almirante “vive com a ajuda de um pacemarker e tem o desejo de ter netos e de morrer no mar”. isto, no caso do pacemaker dar o berro, claro.

A revista Maria anuncia que “Sandra Costa revela: a cirurgia mudou a minha vida sexual”, mas o destaque vai para a Carolina que “troca a filha por fortuna”.

Na Lux, ficamos a saber que “José Carlos Malato foi sexualmente abusado em criança” e, finalmente, na Mariana, “Lourenço confessa: «O meu pai não sabe quem sou».

Depois de tanta informação, quem quer saber do Orçamento?

“No Jardim do Ogre”, de Leila Slimani (2014)

Depois de ter lido o excelente No País dos Outros, fiquei com curiosidade em ler os restantes romances desta autora franco-marroquina (Rabat, 1981).

Este No Jardim do Ogre não fica atrás. Lê-se de um fôlego e é difícil parar de ler.

Slimani conta-nos a história de Adéle, uma jovem atraente, que trabalha como jornalista e que é casada com um médico. Apesar de ter uma vida boa, Adéle sente-se insatisfeita e procura a felicidade nas suas aventuras sexuais, arranjando sempre mentiras cada vez mais inverosímeis para enganar o marido que, pelos vistos, não se interessa muito por sexo.

Adélia provém de uma família modesta e tem uma relação conflituosa com a mãe, e indiferente com o pai. Tem vergonha da família.

Richard, o marido, vem de uma família abastada, mas Adéle considera os sogros e os cunhados aborrecidos, enfadonhos. É um suplício passar o Natal em casa deles, mas pior é passar o Ano Novo em casa dos pais.

Vinga-se bebendo muito e fodendo ainda mais, com colegas do jornal, colegas do marido, desconhecidos.

Adéle é possuída pelas suas pulsões sexuais e troca tudo por uma nova aventura, incluindo deixar o seu filho de dois anos, dias seguidos, à guarda de amas.

As situações vão-se complicando ao longo do livro e o desfecho não pode ser bom.

Gostei muito.

“A Anomalia”, de Hervé Le Tellier (2020)

Le Tellier (1957) formou-se em Matemática, depois em Jornalismo, é linguista e autor de diversos romances, contos, etc.

Com este “A Anomalia”, ganhou o Goncourt do ano passado. A Presença editou-o agora, com tradução de Tânia Gadanho e capa de Catarina Sequeira Gaeiras.

Li-o em duas penadas e é difícil parar de o ler. Le Tellier conseguiu, como disse Le Figaro, escrever o romance impossível porque para além de ser bem escrito é, simultaneamente, um thriller e um romance fantástico.

A ideia central de A Anomalia, é uma grande ideia: um avião da Air France aterra em Nova Iorque em março e, três meses depois, esse mesmo avião, com os mesmos passageiros e a mesma tripulação, aterra novamente.

Como disse o autor, numa entrevista ao Expresso, todos nós gostaríamos de nos confrontarmos connosco próprios, em carne e osso, de podermos ver e falar com um nosso duplo, mas que não fosse uma imagem num espelho ou um clone: fôssemos exactamente nós mesmos.

Os conflitos que este “simples” acontecimento desencadeia são a substância deste livro, que foi um dos melhores que li nos últimos tempos.