“Amy e Isabelle”, de Elizabeth Strout (1998)

Depois de Olivia Kitteridge, já devorámos diversos livros desta escritora norte-americana, nascida em 1956.

Todos têm uma característica comum: descrevem o dia-a-dia de uma pequena comunidade, com as tragédias de cada família, os enganos e desenganos, as perfídias, os sonhos e os pesadelos e tudo sempre tendo como pano de fundo a passagem do tempo, as estações do ano, as árvores e as flores e os pássaros, a chuva e o vento, as noites cálidas e as madrugadas frias.

O quotidiano de pessoas simples que, vendo bem, não são tão simples assim. No caso deste livro, as protagonistas são uma mãe, Isabelle, e uma filha Amy, e uma pequena comunidade, Shirley Falls. Há um envolvimento de Amy com um professor, há uma criança que desaparece, há uma funcionária da fábrica que é histerectomizada e cujo marido a troca por outra, há muitos segredos escondidos, incluindo por parte da mulher do pastor lá do sítio.

 Ao longo do livro, vamos assistindo ao crescimento da Amy e à sua passagem à idade adulta.

Vale a pena, como todos os restantes livros de Elizabeth Strout.

“Eu Canto e a Montanha Dança”, de Irene Solà (2019)

Irene Solà nasceu em 1990 e é uma jovem escritora e artista plástica catalã.

Este pequeno livro teve grande sucesso e, entre nós, mereceu a classificação máxima dos críticos do Expresso e do Público, o que, por vezes, até nem é uma boa notícia.

Com efeito, trata-se de um romance inovador, no que respeita ao modo como a autora conta a história destas gentes, das montanhas, dos animais e da natureza, dos Pirinéus catalães, junto à fronteira com a França.

A história é simples, mas, contada pelos vários intervenientes torna-se em algo de diferente, poético, místico e, aqui e ali, com uma boa dose de ternura.

O primeiro narrador é o raio, que vai ceifar a vida de Domenéc. Depois, falam, sucessivamente, as mulheres, Soló, a mãe de Mia e de Hilari, um cão, um urso, Jaume, a própria montanha…

Inovador e, não tenhamos medo das palavras, muito bonito.

Recomendo.

“A Filha Única”, de Guadalupe Nettel (2020)

As escritoras mulheres continuam a dominar.

Ultimamente tenho lido livros de qualidade, escritos por mulheres e cada vez gosto mais delas!

Este livro é um excelente exemplo. Li-o em dois dias, em duas viagens, de Lisboa ao Porto e vice-versa.

Guadalupe Nettel é uma escritora mexicana que, com este livro, foi finalista do Booker Internacional de 2003.

O livro aborda uma questão complexa: ter ou não ter filhos. É aceitável não os ter?

A história é narrada por Laura, que decidiu não ter filhos e ela conta a história da sua amiga Alina que, depois de ter decidido não ter filhos, acabou por alterar a sua ideia e procurar a natalidade a todo o custo. Acabou por engravidar e enfrentar um grande problema: uma filha com uma doença genética incompatível com a vida, aparentemente.

Paralelamente, conhecemos a história da vizinha de Laura, viúva recente, e com um filho de oito anos violento e revoltado e ainda a pequena história dos pombos que estão a chocar ovos na varanda de Laura.

Aconselho vivamente!

“Annie John”, de Jamaica Kinkaid (1983)

Jamaica Kinkaid é o pseudónimo da escritora Elaine Potter Richardson, nascida em 1949 na ilha de Antígua e Barbuda. Aos 17 anos, deixou a sua ilha natal e emigrou para Nova Iorque. Acabou por se tornou colaboradora da revista New Yorker e este “Annie John” foi o seu romance de estreia.

É um pequeno livro que se lê de uma penada e que nos deixa tristes por acabar, ao contrário de muitos calhamaços que agora se escrevem e que não precisavam de ser tão densos e longos.

O livro, quem sabe autobiográfico, conta-nos a história de uma menina, Anni John, que vive numa ilha caribenha com o pai, um homem já velho, e a mãe, muito mais nova que ele e com quem Annie tem uma relação muito próxima – relação que se vai modificando à medida que ela cresce.

Todo o livro é delicioso e escolho este pedaço como podia escolher outro qualquer:

“Passámos pelo consultório do médico que disse três vezes à minha mãe que eu não precisava de óculos e que lhe recomendou que, se eu sentisse que tinha a vista fraca, tomasse um copo de sumo de cenoura por dia, para a fortalecer. Isto aconteceu quando eu tinha oito anos. todos os dias, no intervalo, corria para o portão da escola, onde a minha mãe me esperava com um copo de sumo de cenoura acabadas de ralar e espremer; depois de beber, corria outra vez para me juntar às minhas colegas. Bem sabia que não tinha problema nenhum nos olhos, mas tinha lido recentemente, no The Schoolgirl’s Own Annual, uma história cuja heroína, uma rapariga poucos anos mais velha do que eu, me impressionara tanto com o modo como estava sempre a endireitar os óculos pequenos e redondos, com armação de tartaruga, que senti que precisava de ter uns óculos iguais”.

Recomendo!

A avó do Ventura queria dois Salazares

O André Ventura é um cómico.

Melhor: o André Ventura é um palhaço.

Dizem os dicionários que palhaço é um actor que tem a intenção de divertir o público e basta ver Ventura, quer no Parlamento, quer agora na campanha eleitoral, para perceber que é essa a sua intenção.

Ao se pôr aos saltinhos, quando alguém da comitiva diz para se porem todos aos saltos, quando fala aos jornalistas, a desdizer o que o seu cabeça de lista acabou de dizer, ao escutar, com aquele ar contristado, o depoimento de um imigrante, voltando-lhe logo as costas – em tudo, Ventura tenta fazer palhaçada.

Mas a maior de todas foi quando se referiu à avó.

Não conheço a avozinha do Ventura, nem sei se a senhora ainda será viva. Caso esteja viva, seria bom que algum jornalista procurasse entrevistá-la para obter a sua confirmação sobre as afirmações do seu neto. Disse o Ventura que a avó costumava dizer que “isto só ia lá com dois Salazares”.

Coim aquele ar sorridente que ele gosta de afivelar, lambendo as beiças com frequência, como se estivesse permanentemente com sede, Ventura concluiu, dizendo que, agora, já não eram precisos dois Salazares porque havia um Ventura.

Ficámos, então, a saber que o Ventura acha que vale por dois Salazares. Portanto, se o Botas esteve no Poder 36 anos, teríamos de aturar o Ventura 72 anos!

Ventura, sem qualquer ternura/ merda, merda, merda pura

André, quer queiras, quer não/ terás de voltar para o Algueirão…

“A Idade do Vício”, de Deepti Kapoor (2023)

Poucas informações se obtêm sobre esta escritora indiana que, neste momento, vive em Portugal. Consigo perceber que cresceu no norte da Índia e que trabalhou como jornalista durante algum tempo. Este livro, publicado em 2023, é o seu segundo romance – e que romance.

São 646 páginas com todos os ingredientes para fazer um grande filme de aventuras ou uma série de televisão – e parece que os direitos do livro foram comprados por uma produtora subsidiária da Disney.

A história deste calhamaço gira em torno de Ajai e de Sunny. Ajai é um miúdo pobre, cuja mãe acaba por vender a uns ricalhaços, depois de ficar viúva. Depois de muitas atribulações, Ajai vai tornar-se o servo de Sunny, o filho de um grande senhor do Uttar Pradesh, que enriqueceu graças à especulação.

Por um lado, vemos a luta que Sunny trava consigo próprio, tentando agradar ao pai, mas nunca conseguindo. Por outro, vemos a luta de Ajai que, ao mesmo tempo que se quer manter fiel a Sunny, se vê sempre subjugado por ele.

Lê-se com um grande livro de aventuras…