Cristiano ou Jesus? Escolha fácil

Embora o nome Cristiano nos remeta para algo cristão, o nome Jesus é, de longe, o mais significativo.

Todos sabemos a importância dos nomes.

Não é por acaso que ainda não tivemos nenhum presidente chamado Rúben nem nenhum primeiro-ministro Fábio, assim como não tivemos nenhuma ministra chamada Cátia Vanessa.

Lá chegaremos?…

Mas ontem ficámos a saber que o Jesus e o Cristiano não se entenderam devido ao facto de o filho de Deus não ter posto a jogar o outro.

Pormenores, coisas sem importância?

De modo nenhum! As televisões alteraram a programação para emitir debates sobre o assunto.

Entretanto, no Parlamento, uma nova lei das rendas era aprovada com os votos a favor do PSD e a abstenção do Chega – o tal partido que vai votar contra o Orçamento. Se o Orçamento não fosse aprovado, esta nova lei que o Chega deixou passar, não poderia ser posta em prática, mas que importância é que isso tem se o Cristiano não jogou a meia-hora que Jesus prometeu?

No fundo, toda a gente que gosta de futebol estava farta do tal que tem o nome em honra ao presidente Ronald Reagan e até ficou aliviado com a decisão do Jesus.

É caso para dizer: oiçam a palavra de Deus (ou o do seu filho, o que vai dar ao mesmo)!

Um grande dia para o católico Ventura

O Ministério Público diz que, no célebre caso conhecido como o das gémeas brasileiras, há quatro arguidos: o director clínico do hospital, o secretário de Estado da Saúde, a mãe das crianças e o filho do Marcelo.

E são arguidos porquê?

Prevaricação, abuso de poder, burla e mais uma série de crimes.

Ventura rejubilou!

O católico Ventura, que se ajoelha nas igrejas a rezar, ficou contente porque o MP considerou nomear arguidos pelo crime de cunha – a característica mais antiga dos portugueses.

É pá – conheces algum bate-chapas que arranje esta mossa sem exigir iva?

Não conheces ninguém lá no infantário que arranje uma vaga para os meus miúdos?

Tenho os meus pais a cair de velhos, não sabes de nenhuma vaga naquele Lar que dizem que é muito bom?

A cunha, a atençãozinha, algo que Ventura abomina, porque é um católico fervoroso, incapaz de prevaricar.

A mãe das gémeas quis ajudar as suas filhas a terem acesso a um tratamento que podia melhorar a sua situação clínica tão dramática? A grande vaca!

Ventura quer lá saber da saúde das gémeas – o que ele quer é foder esta merda toda nos próximos anos e depois, ir rezar para a igreja.

“Quando Éramos Órfãos”, de Kazuo Ishiguro (2000=

Deste autor, que nasceu em Nagasáqui em 1954 e vive na Grã-Bretanha desde os 5 anos, e venceu o Nobel em 2017, já tinha lido, apenas, “Um Artista do Mundo Flutuante” e “Klara e o Sol”. Gostei deste último e do outro, nem tanto…

Este “Quando Éramos Órfãos” é um livro estranho. Christopher Banks é um miúdo que nasceu em Xangai, cujos pais estão envolvidos no comércio do ópio, apear da oposição da mãe e que tem um amigo na casa ao lado, japonês, chamado Akira. A acção decorre em 1930/31 e promete. No entanto, depois, de repente, em Londres, o Christopher transformou-se num detective famoso, os seus pais desapareceram, a guerra entre o Japão e a China intensifica-se, mas nunca se chega a perceber como.

Por alguma razão estranha, o protagonista adopta uma Jennifer que é órfã, como ele julga que é e, depois de muita “palha”, decide regressar a Xangai e ir à procura dos pais que, nessa altura já devem estar velhotes. Mesmo assim, anda por lá, aos trambolhões, acaba por prometer a uma inglesa casada com um velhote, que ele conhecera em Londres, fugir com ela para Macau, depois vai à procura dos pais que acredita estarem sequestrados numa casa, no meio dos escombros da guerra sino-japonesa, reencontra o seu amigo de infância, o tal Akira, que está ali mesmo, ao virar da esquina e não me apetece contar mais nada porque toda a história me parece inverosímil e racista, quanto ao modo como o protagonista descreve os chineses e os japoneses.

Muito mau…

“Em Nome da Língua. Amen”, de Manuel Monteiro (2026)

É uma pena estes livros não serem obrigatórios nas redações do jornais e telejornais e não serem leitura obrigatória nas escolas.

Manuel Monteiro, autor e revisor linguístico, também é contra o chamado Acordo Ortográfico – aquele que é mais um Desacordo, como o demonstra este pedaço:

“óptico e ótico dizem respeito, respectivamente, à visão e à audição. Com o infausto novo acordo ortográfico, passam a grafar-se de forma igual. Mais um crime”

E nesta pequena citação, o corrector do Word, assinala-me doi erros: o primeiro “óptico” que, segundo o tal acordo não leva “pê”, e “respectivamente”, que não leva “cê”.

Gostava de saber como é que os jovens que foram para Medicina, vão distinguir o nervo ótico do nervo ótico.

Este pequeno livro mostra-nos 71 erros comuns na nossa Língua, muitos deles a surgirem todos os dias nos órgãos de comunicação social. E também há algumas chamadas de atenção para a chamada linguagem politicamente correcta, como esta:

“Se inexistente é o contrário de existente, se inadequado é o contrário de adequado, se inapropriado é o contrário de apropriado (…), invisual é o contrário de visual. (…)

Chamar invisuais aos cegos equivale a chamar inauditivos aos surdos.

Acresce que não temos invisualidade (cegueira) nem invisualizar (cegar) nem invisualzinho (ceguinho). O Ensaio sobre a Invisualidade havia de ser bonito.”

Leiam e aprendam.

“O Sul”, de Tash Aw (2025)

Tash Aw nasceu em 1971 em Taipei, Taiwan, filho de malaios e vive em Londres. É autor de cinco romances, três dos quais foram finalistas do Booker, incluindo este.

Em capítulos curtos, o autor vai-nos desvendando a história de uma família que herda uma quinta à beira da falência. Jay, o mais novo de três irmãos, conhece Chuan, o filho do caseiro, e ambos desenvolvem uma relação cada vez mais íntima. Os pais de Jay, Lina e Yin, não têm as melhores relações, em parte, devido á diferença de idade e de temperamento e, a pouco e pouco, a família vai-se desagregando.

A acção da história decorre na Malásia, com a sombra da Singapura por perto e os protagonistas descendem de migrantes provenientes da China, que falam cantonês.

Um livro curioso.

“A Insubmissa”, de Cristina Peri Rossi (2020)

Cristina Peri Rossi nasceu no Uruguai em 1941 e emigrou para Barcelona, fugindo da terrível ditadura militar que governou aquele país durante anos. Trata-se de uma escritora que abordou várias disciplinas: poesia, conto, romance. Nas décadas de 60 e 70, desenvolveu com Júlio Cortazar uma cumplicidade literária que fez com que aquele escritor lhe dedicasse diversos poemas.

“A Insubmissa” é um romance autobiográfico muito interessante. Peri Rossi recorda a sua infância de modo divertido; viveu durante algum tempo com uns tios, no campo, porque sofria de uma infecção tuberculose e o ar do campo far-lhe-ia bem.

Pelos cinco anos, comi muito mal e a tia decidiu perceber por que razão ela se recusava a comer determinados alimentos.

“Carne, porque tem sangue e nervos.

Ovos, porque têm clara.

Leite, porque tem nata.

Laranjas, porque têm fios brancos.

Bananas, porque têm fios amarelos.

Maçarocas, porque têm barbas.

Gofio, porque me engasgo.

Manteiga, porque tem gordura.

Frangos e galinhas, porque são meus amigos, o que se aplicava, além disso, aos coelhos, aos porcos, às perdizes e aos borregos.

Peixe, porque não fecham os olhos e estão sempre a olhar para mim.”

Peri Rossi não gostava do seu pai, que era violento e tratava mal a sua mãe, e adorava um tio, que tinha muitos livros. Capítulo a capítulo, a escritora vai contando diversos episódios curiosos: a paixão que desenvolveu com uma colega mais velha, a sua relação com os mendigos, a operação ao apêndice, etc.

Um livro muito curioso e que li com muito agrado.

Teoria da transpiração

Ventura quer fazer demitir o ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Luís Neves, como se sabe, é um perigoso traficante, ou, no mínimo, faz-se transportar num carro que pertencia a um traficante que – quem sabe? – era seu cúmplice. Toda a droga roubada pela PJ a este traficante, foi parar – diz-se – à propriedade que o Neves tem em Odemira, aquela em que ele mandou construir uma piscina no lugar de um tanque, com a ajuda de um empreiteiro de Barcelos que também levou, lá para a terra dele, um atrelado carregado de cocaína que o Neves apreendeu, às escondidas.

Tudo isto está ligado ao assalto ao gabinete do Ventura. Quem terá lá entrado naquela madrugada e roubado os documentos que o glorioso líder do Cehga tinha acumulado na sua secretária e que mostrariam, sem margem para dúvidas, que o Neves é o cabecilha de uma rede de traficantes, com braços que vão até Ceuta e que estarão relacionados com todos aqueles marroquinos que queriam invadir a Europa através do protectorado espanhol, com a cumplicidade do socialista Sanchez.

Não acham estranho ainda não sabermos nada sobre o assalto ao gabinete do Ventura?

Está-se mesmo a ver que não interessa saber a verdade toda, porque as câmaras de vigilância mostram claramente dois agentes amigos do Neves a roubar os documentos comprometedores.

O Ventura, impoluto, aguarda, tranquilamente que o Presidente Seguro, na sua imensa cinzentidade decida não decidir coisa nenhuma, para que se chegue à frente e diga, vociferando, aqui estou eu, para salvar Portugal – eu que nunca prevariquei, que nunca menti, que sou católico até aos ossos púbicos, aqui estou para limpar este país da corrupção, expulsar o Neves e mostrar como é que se governa um país!

Que fodidos estamos!Já vai havendo quem se queixe da sua performance…

“A Península das casas Vazias”, de David Uclés (2024)

Este é que foi um empreendimento: ler este tijolo de 686 páginas deste escritor espanhol, nascido em 1990. O livro mereceu diversos prémios, incluindo Prémio Cálamo de melhor livro de 2024.

Como estávamos a ver a série colombiana da adaptação do excelente “Cem Anos de Solidão”, não consegui deixar de encontrar semelhanças com a escrita de Gabriel Garcia Marquez, embora, sejamos francos, com enorme vantagem para o autor sul-americano.

Este livro também aborda a realidade com as técnicas do chamado realismo fantástico, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola. A narrativa avança, tendo como base a família de Odisto, mas diverge para muitas direcções, baseando-se em crendices populares e em realidades fantásticas que não passam de excessos de narrativa.

“O médico da vila, Fernando, verificara antes que ambos os sangues eram compatíveis. Se os líquidos tivessem a mesma cor, o dador podia ligar-se ao paciente. Havia oito tons diferentes: almagre, carmim, vermelhão, lacre, castanho-avermelhado, escarlate, carmesim e grená. Acontece que os sangues eram almagre. Leo ganhou mais alguns meses de vida”.

O livro está cheio de citações, algumas muitos impressivas, como esta, de Gonzalo de Aguilera, assessor de imprensa de Franco>:

“Há que matar, matar e matar todos os vermelhos; exterminar um terço da população masculina e limpar o país de proletários”

Às tantas, Uclés adopta a ideia de Saramago e a península começa a afastar-se do resto da Europa, transformando-se, no fundo, em uma jangada de pedra, mas Uclés inventas uns agrafos que continuam a ligar a península a França. Talvez seja demasiado realismo fantástico.

Para o fim, a história arrasta-se um pouco. A guerra civil termina, Franco e os nacionalistas vencem, mas ficamos sem saber muito bem qual é a posição do autor perante aquilo. O povo ficou satisfeito? E o autor?

Penso que faltou aqui qualquer coisa…

“Trinta Milhões de Orgasmos”, de Minh Tran Huy e Jul (2025)

Um pequeno livro sobre as idiossincrasias dos pénis e vaginas de alguns animais. A autora é uma jornalista francesa de origem vietnamita e Jul é um ilustrador mais ou menos humorista.

O livro fala-nos das coisas esquisitas que acontecem pelo mundo animal, desde pénis com espinhos a vaginas em forma de elipse. Desde o canguru e a dama com três vaginas à libélula e o pénis-colher, dos bonobos e o sexo hippie ao polvo e o pénis amovível, passando pelo cão e o nó copulatório ou pelo pato e os labirintos da vagina, o livro exemplifica o que de mais estranho se passa na vida sexual de alguns animais – texto acompanhado de desenhos a propósito.

Divertido.