Quando a esmola é muita…

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia e ainda a política de covid zero na China, levou a uma inflação na Europa de 9%, a maior nos últimos 30 e tal anos.

Os governos têm desenvolvido medidas para tentar minimizar os efeitos da inflação.

Há dois dias, foi a vez do governo português.

Entre outras coisas, vai dar, a cada português que ganhe menos de 2700 euros por mês, um cheque de 125 euros e mais 50 euros por cada filho.

Quanto aos pensionistas, dá-lhes metade da pensão já no próximo mês e, em janeiro, aumenta-lhes a pensão em 4 e picos %.

Os pobres desconfiaram logo…

Para que é que querem 125 euros? Serve para quê?

Ao preço a que está o gasóleo, nem dá para ir ao Porto ver o sítio onde estava o coração do D. Pedro!

E só 50 euros por cada filho? Nem dá para comprar uma mochila como deve ser para o novo ano escolar!

E os pensionistas? Deviam ser aumentados, em janeiro, cerca de 8%, segundo a fórmula inventada pelo Vieira da Silva. Assim, recebem meia pensão agora em outubro, gastam-na toda em raspadinhas e, em janeiro, só são aumentados 4%.

Que roubalheira!

A descida do iva da electricidade para 6% também é outra medida pequenina. Quem tem a electricidade a 6%? Só a malta que usa petromax!

O nosso segundo ministro, Rebelo de Sousa, disse que as medidas anunciadas pelo primeiro-ministro Costa, eram equilibradas e pirou-se para o Brasil para contar a vida de D. Pedro ao Bolsonaro em vinte minutos.

Que saudades do Passos Coelho!

Acabava com esta polémica de uma vez por todas: cortava já o subsídio de Natal a toda a gente e acabava com as reformas principescas de 800 euros para cima!

Pesquisa lingual

Foi quando os seus lábios se encontraram que ela reparou na complexidade da língua. Que órgão maravilhoso aquele!…

Lentamente, minuciosamente, notou que a língua ocupava a parte média da cavidade bucal, sendo mais ou menos ovalar, com uma grande extremidade posterior e terminando por uma ponta, à frente.

Paulatinamente, com o rigor dos cientistas, percorreu a sua face dorsal, os seus bordos, a sua ponta, e percebeu que todos eram revestidos por uma mucosa. Mais ao fundo, na base, notou que a língua se ligava através de numerosos músculos ao oso hioide, ao maxilar inferior, à abóbada palatina e à apófise estiloide.

Já sabia – até porque não era nenhuma ignorante – que a língua era a sede dos órgãos do gosto, mas só então reparou que, graças a tantos músculos, ela possuía uma mobilidade verdadeiramente fantástica – o que explicava a sua participação na deglutição, na mastigação, na fonação e também naquele beijo prolongado e científico.

Cada vez mais interessada, ainda notou que a face superior ou dorsal da língua estava dividida em duas partes por um sulco em forma de vê, aberto à frente. Mas o seu estudo ficou por aí. Ligeiramente roxo, ele empurrou-a ofegante, abriu a janela de par em par e aspirou uma boa dose de oxigénio, jurando para si próprio que nunca mais beijaria uma estudante de Anatomia…

  • in “Uma Vez por Semana – o seu programa sexual”, Rádio Comercial, 8/2/1986

Pequeno Dicionário

Pequena nota introdutória: a letra “A” do nosso Pequeno Dicionário saiu inopinadamente, sem qualquer explicação prévia. O que pretendemos com a edição deste Pequeno Dicionário? Por que razão incluímos o termo Aspirina, ignorando Agripina? Será isto um Dicionário ou, antes, uma Enciclopédia? Perguntas legítimas, mas às quais não nos apetece responder. Portanto, passamos à letra Bê.

BACHAREL – estilista francês (1555-?), bem nascido e razoavelmente inteligente. Ficou conhecido no mundo da moda pela invenção de um molho (exactamente o molho Bacharel), que também serve de perfume (o famoso perfume Ba-charel). Morreu pobre.

BLANDÍCIA – corista italiana, famosa por ser coxa, exactameente da perna cuja coxa era a mais apreciada pela geral. Em meados do século, sempre que ela entrava em palco, saíam diversos espectadores em braços, atacados de comoção eréctil. Conseguia fazer strip-tease sem se despir. Morreu pobre.

BRIOCHE – general belga que não participou nas invasões francesas por uma questão de latitude. Morreu paupérrimo.

BRONCOPNEUMONIA – linha de caminho de ferro da Transilvânia, que ligas as cidades de Bronco (2 habitantes, um deles cão) e de Pneumonia (565 habitantes recenseadas e mais de mil a monte). Construída entre 1898 e 1756, a linha de Bronco-Pneumonia só ficou concluída dez anos depois. Os comboios não páram nas estações, limitando-se a abrandar – o que torna o espectáculo muito mais engraçado.

BUCELAS – viniviticultor português do século XV, inventor do vinho de Reguengos e da aguardente de canas de Senhorim. Nunca revelou o seu segredo e morreu pobre.

BÚFALO – alcunha de Boi Bill, famoso cowboy sul-americano, conhecido pelo modo como dominava as vacas com um simples assobio. Era mudo e morreu pobre.

BUJIGANGA – desenhadora de modas, natural do estado do Ohio que, numa tarde de inspiração, em vésperas do seu casamento com Joseph Wrangler Lee Lewis, conheceu um obscuro rapaz, de nome Tony Old Chap Lois, filho de Luíza Miura. Desse conhecimento, nasceram as calças de ganga, ainda hoje muito usadas nas minas, onde são retiradas do minério principal. Morreu pobre.

BUZIO – poeta português, de ascendência marítima. O seu poema mais famoso termina com a c´lebre frase “em cima da cama o púzio”. Morreu pobre.

  • in jornal Pau de Canela, 24.5.1985

“Informadores da Pide – Uma Tragédia Portuguesa” – de Irene Flunser Pimentel (2022)

Em plena época de incêndios, apete dizer que Portugal é um país de incendiários.

Não é verdade.

O que Portugal é, é um país de delatores, de denunciantes, de traidores – pelo menos, é este o sentimento que fica depois de ler este brilhante livro de Irene Flunser Pimentel que, sem juízos de valor (a não ser nas notas finais, também elas brilhantes) nos conta a história desta verdadeira tragédia portuguesa.

Quantos terão sido os informadores da Pide? Talvez cerca de 20 mil!

Não se sabe ao certo quantos foram, mas foram muitos milhares e instalaram na sociedade portuguesa o clima de medo que todos (pelo menos os da minha geração) sentiram, nos anos da ditadura. Transcrevo da página 166:

“O facto de muitos anónimos escreverem recorrentemente ao Ministério do Interior e à PIDE a oferecerem os seus serviços como informadores é revelador de que existia, no seio da população portuguesa, uma espalhada cultura de denúncia. Se foi um facto que a PIDE/DGS teve muitos informadores, a principal razão da sua eficácia foi o «clima de desconfiança criado pelo pressentimento da sua existência». O mesmo terá acontecido com a escuta telefónica, com a qual a PIDE «obtinha mais vantagens» ao difundir a suspeita de que haveria um número incalculável de telefones vigiados pela polícia, do que com as escutas que efectivamente executava.”

Muitas vezes, os informadores traíam alguém em troca de algum favor, para conseguir um emprego melhor, para receber dinheiro, para obter uma casa – era o espírito da cunha, do favorzinho, que ainda hoje impera na nossa sociedade. Claro que, graças a essa delação, alguém era preso, talvez torturado, mas o informador não se preocupava com isso.

Portugal, um país de delatores. Exagero? Talvez não. Transcrevo da página 140:

“O excesso de denúncias chegou mesmo a ser criticado e condenado pelos próprios ministros do Interior da ditadura, como se pode ver através de duas circulares de épocas diferentes, separadas por vinte anos, 1951 e 1971, da autoria dos então detentores dessas pastas. Preocupado com a quantidade de denúncias anónimas ou de candidaturas a informador que regularmente lhe chegavam, o ministro do Interior, nomeado na remodelação governamental de agosto de 1950, Joaquim de Trigo Negreiros, enviou, em 11 de outubro de 1951, uma circular à PIDE, a queixar-se da generalização da delação.”

As denúncias por vezes – muitas vezes – eram mesquinhas, como esta (página 218):

“…o mesmo elemento da polícia política denunciou o presidente da Câmara de Mourão, por ver «com indiferença o pessoal» da DGS, ao não cumprimentar, no café, o chefe e os agentes do posto fronteiriço de S. Leonardo.”

Lemos em conjunto este livro que nos fez, mais uma vez, recordar a importância do 25 de Abril de 1974 e gostaria de esfregar as suas páginas nas trombas de alguns tipos que por aí andam a tentar fazer o tempo andar para trás.

E termino citando uma das notas finais da autora:

“Viu-se que houve informadores em toda a sociedade portuguesa, desde operários a assalariados rurais, a escriturários, comerciantes, proprietários, médicos que traíram o seu juramento, jornalistas, fotógrafos, presidentes de Câmara e directores de empresa, militares e civis, homens e mulheres, jovens e de meia-idade, padres, que transmitiram o que ouviam na confissão, professores dos vários graus de ensino que denunciaram alunos e estudantes. Viu-se também que quase todos, além de ganhos financeiros e de partilha do poder em ditadura, utilizaram o velho hábito da «cunha» para arranjar um emprego melhor ou subir na carreira da Administração Pública».

De facto, uma tragédia portuguesa!

Estou a ficar farto do Montenegro e do Toy

Continuo a ter este nefasto hábito de ler jornais e ver telejornais.

É um vício, eu sei.

Está pior desde que deixei de fumar, já lá vão 15 anos!

Agora, aposentado, leio os jornais de fio a pavio (quase leio a necrologia) e vejo os telejornais das 7, das 13 e das 20 horas.

Não tenho desculpa!

Começo, no entanto, a ficar enjoado. Sobretudo dos telejornais.

Sobretudo por causa de duas criaturas que aparecem todos os dias em todos os telejornais.

Falo do novo líder do PSD, Luís Montenegro, e do cantor Toy.

O cantor Toy, responsável por versos tão lindos como “põe a cerveja no congelador e vamos fazer amor”, aparece antes de todos os telejornais, num spot publicitário do Intermaché. Ele canta, toca guitarra, atira-se para uma piscina e diz, sem se rir, “não há nada melhor do que um Intermarché para frequentar”.

Antes do telejornal das 7 da manhã, mal o oiço porque ainda estou a acordar; antes do telejornal das 13, deixa-me mal-disposto; antes do telejornal das 20, já estou disposto a atirar com o chinelo ao écran.

Quanto a Luís Montenegro, a coisa ainda é pior.

As cantigas do Toy, por muito irritantes que sejam, entram por um ouvido e saem por outro – agora, a cantiga do Montecoiso é bem outra.

Todos os dias surge no écran a dizer qualquer coisa, sempre com aquele sorriso safardana. Quem o pode levar a sério?

Por exemplo, em relação aos problemas do SNS, diz Montecoiso que ele só melhorará quando o PS reconhecer desinvestimento histórico. Ora, sabendo que até 2015, com Passos Coelho como 1º ministro, Paulo Macedo como ministro da Saúde e Montecoiso como líder da bancada do PSD, o SNS sofreu um desinvestimento de 825 milhões de euros e que, desde que o Costa é primeiro ministro, e a Marta Temido, ministra da Saúde, o SNS já recebeu mais 3 mil milhões de investimento, só podemos concluir que o homem anda a gozar connosco.

Claro que o SNS está a atravessar um momento difícil, mas ainda se há de fazer a história desta súbita falta de médicos nas urgências. Lembram-se quando as pessoas foram para as janelas aplaudir os profissionais de saúde, felicitando-os pelo modo como estavam a enfrentar a pandemia? Não foi assim há muito tempo. Onde estão agora esses médicos e esses enfermeiros?

Em resumo, com o Toy a abrir os telejornais, com aquela barriguinha a balançar, e o Montenegro a botar faladura, com aquele sorriso sacana, estou a ficar cada vez mais bizarro.

Qualquer dia, qualquer dia…

“Shuggie Bain”, de Douglas Stuart (2022)

Douglas Stuart nasceu em Glasgow em 1976, sendo o mais novo de três irmãos. O seu pai abandonou a família e os três irmãos foram criados pela mãe, dependente do álcool. Quando Douglas tinha 16 anos, a mãe morreu, devido a doença relacionada com o alcoolismo. Depois disso, viveu com os irmãos mais velhos, depois numa espécie de pensão. Conseguindo tirar um curso de design de moda, mudou-se para Nova Iorque aos 24 anos.

“Shuggie Bain” é o seu primeiro livro e arrecadou logo o Booker Prize. Agnes Bain e Shuggie Bain são os principais personagens. Ela é a mãe, alcoólica, e ele é o filho, dependente da mãe, mas, ao mesmo tempo, o seu único apoio.

Conhecendo a biografia de Douglas Stuart, percebemos que o livro tem que ser autobiográfico.

A acção decorre nos anos 80, na cidade de Glasgow, nos bairros sociais com os problemas do desemprego na época da Tatcher, as drogas e o álcool.

“Ouvira dizer que a Tatcher já não queira trabalhadores a sério. O futuro, para a chefe do Governo, era a tecnologia e a energia nuclear e a saúde nas mãos dos privados. Os dias da indústria tinham acabado e os ossos dos estaleiros Clyde e dos caminhos-de-ferro Springburn jaziam na cidade como dinossauros em decomposição. Os bairros estavam cheios de rapazes trabalhadores a quem haviam prometido o ofício dos pais e que agora não tinham qualquer futuro. Os homens perdiam a sua masculinidade.”

Com as devidas distâncias, algumas passagens fizeram-me lembrar os bairros sociais onde trabalhei como médico durante mais de 30 anos.

“As mulheres olharam umas para as outras, Bridie falou primeiro.

– Temos de arranjar-te um subsídio. Vais ao escritório na segunda de manhã. Vais dizer-lhes que precisas de uma pensão de invalidez, se não vão pôr-te a ir ao fundo de desemprego todas as quintas.

– E dão-me uma pensão de invalidez?

– Ah, não te rales, ‘miga. Basta eles verem onde moras e está feito. Olha para este bairro. – Bridie apontou para a rua vazia – Estás a ver novos empregos a aparecer por estes lados? O nosso é o clube da invalidez, e todas as segundas-feiras é dia de o clube ir levantar o subsídio.”

Aconselho vivamente.

As reconversões (Crónicas do Solnado – 4.2.1985)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

De uma coisa os portugueses se podem orgulhar: da sua capacidade de se desenrascarem.

A gente pode andar à nora, completamente tesos, õ-tio ó-tio, mas, mais tarde ou mais cedo, a malta desenrasca-se.

É uma característica da raça e pronto!…

Vejam lá se o Afonso Henriques não se desenrascou da mãe, e o Pedro Álvares Cabral, depois de andar perdido no Atlântico, lá se desenrascou e for parar ao Brasil.

Em termos técnicos, o desenrascanço é a reconversão.

Foi assim que se reconverteram os velhos cafés em agências bancárias, os bonitos prédios do século passado em torres estreitinhas só com janelas e, mais recentemente, os teatros em centros comerciais.

O que é preciso é estar a pau: quando um negócio começa a dar para o torto, a gente desenrasca-se, reconvertendo-o.

Nessa linha, a fábrica que montava frigoríficos e não os conseguia vender, passou a fazer geleiras para campismo; e a empresa que produzia amortecedores que ninguém comprava, passou a fabricar molas para esferográficas.

E a nível oficial, a coisa é semelhante…

Tínhamos uma agência noticiosa que dava prejuízo. Reconverteu-se em duas agências noticiosas que dão prejuízo. Temos duas companhias de navegação que dão prejuízo e já se fala em reconvertê-las noutras duas companhias de navegação.

Reconvertemos a Companhia das Águas em EPAL, a Companhia do Gás e Electricidade em EDP, a CUF em Quimigal. O que é preciso é reconverter, a ver se agente se desenrasca.

E até os governos utilizam esta técnica com os ministros.

Por exemplo: como o que a terra nos dá é essencial à vida, o dr. Sousa Tavares reconverteu-se de ministro da Agricultura em ministro da Qualidade de Vida; e como o trabalho dá saúde, Maldonado Gonelha reconverteu-se de ministro do Trabalho em ministro da Saúde.

Por isso, é natural que a Casa da Moeda vá ser reconvertida. De facto, aquilo é cada vez mais Casa e cada vez menos Moeda, e quase que só serve para vender papel selado e números atrasados do Diário da República. Nesse sentido, o ministro Eduardo Ferreira – que se reconverteu de ministro da Habitação em ministro da Administração Interna – anunciou que, a partir do mês que vem, as matrículas dos automóveis vão passar a ser feitas na Casa da Moeda.

Está tudo muito bem – a gente precisa é de se desenrascar.

O pior é se alguém troca as chapas e, às tantas, anda um tipo às aranhas à procura de troco de HE-01-47 e só arranja notas de LD-21-10. Ou, pelo contrário, começam a sair carros com a matrícula Mis Escudos Ouro e a gravura do D. Pedro V ao lado.

Mas a gente cá se há de de desenrascar…

Copo meio cheio ou meio vazio?

O Público apresentou ontem uma sondagem sobre o SNS que apresentava os seguintes números: 41% dos inquiridos disseram que o SNS estava pior do que antes da pandemia, 40% disseram que estava na mesma e 15% disseram que estava melhor.

O Público escolheu para título, o seguinte: “Quatro em cada dez pessoas dizem que o SNS está pior agora do que antes da pandemia”.

Claro que podia ter escolhido este outro título: Seis em cada dez pessoas dizem que o SNS está igual ou melhor do que antes da pandemia” – só que este título não se enquadrava naquilo que o Público quer transmitir aos seus leitores, e que é o lento desmoronamento do SNS.

Foi por isso que decidi enviar ao Provedor do Leitor do Público, este texto:

A pandemia afectou muito os serviços de saúde de todos os países.

Em Portugal, no SNS, milhares de consultas foram adiadas, outras tantas cirurgias foram canceladas. As listas de espera aumentaram substancialmente. Profissionais de saúde não aguentaram a pressão e mudaram-se para o privado, agravando ainda mais a falta de pessoal no SNS.

Apesar de tudo isso, segundo a sondagem do Público (21/7/2022), 40% dos inquiridos pensa que o SNS está igual ao que estava antes da pandemia e até 15% pensa que está melhor!

Por outras palavras, 55% dos inquiridos pensa que o SNS está igual ou melhor do que estava antes da pandemia -o que é notável, dadas todas as razões de queixa que têm sido apresentadas dia-a-dia, na comunicação social.

No entanto, o Público prefere titular que “Quatro em cada dez pessoas dizem que o SNS está pior agora do que antes da pandemia”.

Não sendo mentira, é uma forma algo retorcida de apresentar a verdade.

Artur Couto e Santos

Regabofe nos conselhos de gerência (Crónicas do Solnado – 3.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A Coordenadora dos gestores eleitos do sector empresarial do Estado divulgou um documento, segundo o qual, haverá “regabofe” e “corrupção” em grande parte dos conselhos de gerência das empresas públicas.

Na minha opinião, há várias maneiras de ver o problema e ~e melhor não fazer juízos precipitados.

Ora pensem lá bem…

Qual é o empregado de escritório que não fana uns clips de vez em quando, ou não leva para casa um tubo de cola para o filho colar os cromos da bola na caderneta?

Também o empregado da pastelaria não resiste a levar, no fim de um dia de trabalho, dois pastéis de nata e uma bola de Berlim, para comer no caminho.

Claro que cada um se amanha conforme o emprego que tem…

É natural que um ajudante de farmácia tenha sempre no armário da casa de banho uns comprimidos para as dores de cabeça e umas pastilhas para a azia.

A cabeleireira aproveita e leva para casa os frascos de champô e as embalagens de laca que estão no fim. Não prejudica o patrão e sempre poupa no orçamento familiar.

Mas quanto aos gestores de empresas – que hão de eles fazer?

~e que eles não mexem directamente nos produtos que as suas empresas fabricam… Às vezes, nem sabem muito bem o que elas fabricam… Nem precisam!… Passam os dias fechados nos gabinetes, rodeados de relatórios, gráficos e telefones. O negócio deles é gerir, nada mais…

Portanto, é natural que, no fim do dia, quando regressam a casa, se sintam frustrados por irem de mãos a abanar.

Vai daí, acontecem coisas destas, com vem no tal relatório…

Por exemplo, num Banco gastaram-se 50 mil contos na organização de um Encontro, onde se discutiram planos e orçamentos. As despesas incluíram prendas, passeios e jantares de gala… É compreensível… Vocês já experimentaram discutir orçamentos?… Faz cá um buraco no estômago!…

Uma outra empresa pública mandou vir equipamento industrial do estrangeiro e, com o equipamento, vieram também uns caixotes com uns electrodomésticos, aparelhagem de som e mobiliário para uso pessoal dos gestores. Deste modo se pouparam algumas viagens ao estrangeiro. E convenhamos que trazer mobílias numa mala de viagem não dá jeito nenhum…

Diz ainda o relatório que numa outra empresa se utilizam as viaturas para uso particular dos gestores durante os fins de semana.

Então – o que haviam eles de fazer?… usar os carros durante a semana?… ao domingo é que apetece passear!…

Enfim, cada um agarra-se àquilo que pode, que a vida está má até para os gestores das empresas públicas.

Aliás, no aproveitar é que está o ganho – ou não será assim?

A visita de Soares a Londres (Crónicas do Solnado – 26.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A visita de Mário Soares a Londres saldou-se por um honroso empate, mas valeu a pena…

O 1º ministro levou a mala cheia de boas intenções, propondo trocas diversas, mas a sra. Tatcher não esteve pelos ajustes.

Assim, em resumo, era só uma questão de trocar celulose por uma fábrica de papel, e as pirites por cobre e alumínio.

Mas nem a evocação da velha aliança luso-britânica demoveu os ingleses.

Dizem que vão estudar o assunto… É sempre a mesma conversa…

É que nós podíamos trocar uma data de coisas, caramba!

Por exemplo, a gente dava-lhes as conservas e eles ofereciam-nos os Conservadores; eles entregavam-nos os Trabalhistas, e nós, os trabalhadores; com os sociais-democratas, podia ser ela por ela; e em troca do PPM, eles cediam-nos a família real inglesa.

Talvez não fosse mau negócio, mas cheira-me que a sra. Tatcher não iria na conversa…

Trocas as Berlengas pelo rochedo de Gibraltar, o Parque Eduardo VII pelo Hyde Park, e o relógio da rotunda do aeroporto pelo Big Ben, também, não resultava…

Ao fim e ao cabo, os ingleses também têm as suas dificuldades… até vivem numa ilha e tudo…

Podíamos muito bem trocar a nossa greve dos universitários, que é pequenina, pela greve dos mineiros ingleses, que já vai em 8 meses. Mas neste caso, tenho a sensação que ficávamos a perder…

E já que o Jimmy Hagan, que é inglês, veio treinar o Atlético, podíamos demonstrar o nosso agradecimento, enviando o Meirim para o Liverpool que, pelos vistos, só sabe ganhar ao Benfica.

Enfim, as trocas entre as duas nações poderiam ser imensas. Era só uma questão de imaginação e boa vontade.

Se eles têm as Joias da Coroa, nós temos as moedas de cinco coroas; se eles têm o príncipe Carlos, nós temos o Príncipe Real; se eles têm o Paul McCartnhey, nós temos o Marco Paulo; se eles têm as gaitas de foles, nós temos mais buracos que uma gaita.

Mas, apesar de não se ter chegado a acordo nenhum, a visita de Mário Soares a Londres valeu a pena, quanto mais não seja pelos tomates.

De facto, a dama de ferro disse que “que os regimes europeus são mais importantes que o vinho e os tomates”.

 E assim se acabaram as dúvidas angustiantes dos portugueses.

Todos aqueles que temiam que os tomates fossem mais importantes que a democracia, podem ficar descansados.

Os tomates vêm e vão, amadurecem e caem de podres, mas as democracias mantêm.se, sempre frescas e viçosas.

Foi aquilo a que se pode chamar uma afirmação dos tomates!

Vejam se têm cuidado com os… regimes europeus, claro… e façam o favor de ser felizes.