Encontro

O despertador tocou.

Estava na hora.

Eram 3 da madrugada e o despertador fora desnecessário; com a excitação do encontro, ainda nem tinha pregado olho.

Aquele era o segundo domingo do mês e, como estava combinado, eles viriam àquela hora.

Acontecia já há algum tempo.

Assim que chegavam, sentia uma sensação de bem-estar, um alívio que me percorria os músculos e me deixava calmo e tranquilo.

Tudo começara há cerca de um ano, numa noite de insónia. Tinha ido até ao quintal, tentando afastar a ansiedade, na esperança de que o ar da madrugada me ajudasse a conciliar o sono.

Foi quando nos encontrámos pela primeira vez.

Desde então, sempre no segundo domingo de cada mês, pelas 3 da manhã, lá vêm eles estar comigo cerca de meia-hora e são os momentos mais felizes da minha vida.

Portanto, levantei-me, vesti o roupão e fui até ao quintal e lá estavam eles.

Cumprimentámos-nos sem dizer uma palavra.

Depois de alguns minutos de silêncio, eles falaram dentro da minha cabeça:

Queres vir connosco?

Hesitei na resposta, mas acabei por elaborá-la sem abrir a boca:

Vocês têm lá covid?

Que disparate! – exclamaram – Claro que não temos covid!

Então vou!

E fui!

De facto, não têm covid, mas também não têm café, whisky ou vinho…

Nem oxigénio…

Abóboras-meninas

Leonardo era agricultor.

Tinha uma pequena quinta, onde cultivava diversos hortícolas, que depois vendia no Mercado da vila.

Leonardo tinha 30 anos e vivia sozinho na sua casinha rural. Era um homem pacato, ordeiro, delicado, mas tímido e triste.

Leonardo precisava de uma companheira. No entanto, a sua timidez impedia-o de socializar com as vendedeiras do Mercado e, por isso, passava as noites a sonhar com uma cama mais quente.

Certo dia, Leonardo decidiu começar a cultivar abóboras-meninas.

Leonardo era um agricultor moderno e sabia que o verdadeiro nome da abóbora-menina é cucurbita máxima, também conhecida por abóbora gigante. Sabia também que as devia semear entre abril e julho, em elevações pequenas e intervaladas de 1,5 m, com 5 ou 6 sementes em cada elevação, cobri-las com uma camada de terra fina de 2 cm e, se necessário, desbastar até ficarem as 3 melhores plantas em cada elevação.

Foi seguindo escrupulosamente estes preceitos que Leonardo conseguiu, logo na primeira colheita, abóboras-meninas grandes e suculentas.

De todas se destacava uma delas, a maior de todas, de casca luzidia, reflectindo o sol. Leonardo estava orgulhoso das suas abóboras, sobretudo daquela.

Numa manhã de domingo, dia de Mercado, Leonardo preparava-se para colher algumas abóboras para a venda, quando reparou que a maior de todas parecia estar tomada de pequenos tremores. Leonardo aproximou-se e encostou o ouvido à abóbora e ia jurar que estava a escutar uma espécie de lamento. Recuou dois passos e, nesse momento, a casca tornou-se cada vez mais lustrosa e a abóbora menina rebentou e, lá de dentro, saiu uma mulher. Uma mulher linda, de longos cabelos loiros e olhos azuis brilhantes.

Leonardo ficou sem palavras e assim se manteve, sobretudo depois da mulher se aproximar dele e o beijar longamente.

Passado o espanto, Leonardo levou a mulher para a sua casa e, tendo em conta a sua beleza, chamou-lhe Linda.

No Mercado, todos olharam com inveja a nova companheira de Leonardo que atendia os clientes, vendendo os produtos da terra como se sempre tivesse feito isso.

Passou um ano e Leonardo estava cada vez mais feliz. Ele e Linda formavam um bonito e feliz par de agricultores.

Chegou o momento de nova colheita de abóboras-meninas e, mais uma vez, um dos frutos destacava-se de todos os restantes. Também essa abóbora explodiu e, lá de dentro, saiu outra mulher, tão linda como Linda. Leonardo ficou novamente sem palavras, embora menos tempo do que da primeira vez. Recebeu esta segunda mulher de braços abertos, chamou-lhe Deolinda, levou-a para casa e comprou uma cama mais larga.

Quando Leonardo apareceu no Mercado com duas belas mulheres, uma de cada lado, todos ficaram espantados e a inveja aumentou consideravelmente.

Com a inveja dos outros podia Leonardo bem; só ele sabia como era viver com duas belas mulheres, que o mimavam e que animavam as suas outrora tristes e solitárias noites.

Mas tudo piorou quando, no ano seguinte, uma terceira mulher, igualmente bela, saltou de dentro de mais uma abóbora gigante.

Com duas, Leonardo ainda se aguentava, mas com três, a logística era muito mais complicada.

As discussões começaram a ser constantes e a cama, por mais larga que fosse, não conseguia albergar os quatro com conforto. Linda, Deolinda e Arceolinda detestavam-se e Leonardo acabou por fazer uma trouxa e zarpar para longe.

Hoje, na casa onde viveu o solitário Leonardo, funciona a Lindas Associadas, Agricultura Biológica Lda, empresa de sucesso gerida por seis mulheres belas, especialistas no cultivo de abóboras-meninas.

Criação

Sentado numa nuvem, o Criador estava em pleno acto de criação.

Começou pelos animais com guelras e barbatanas. Conseguiam nadar. Chamou-lhes peixes.

E ficou satisfeito.

A seguir, criou os que tinham penas e asas e conseguiam voar. Chamou-lhes aves. E ficou ainda mais satisfeito.

Depois de ter criado os animais da água e os do ar, faltavam os da terra.

Deu-lhes patas fortes, capazes de correr ou matar e chamou-lhes mamíferos. E ficou satisfeito, embora menos.

Nos tempos livres, criou insectos e gastrópodes e anuros e outros seres inferiores.

Cansado, decidiu divertir-se e criou mamíferos com asas e outros com barbatanas, criou aves que não conseguiam voar, mas que corriam velozes, e peixes sem asas, capazes de voar.

No sétimo dia da criação, o Criador sentou-se noutra nuvem e sentiu que estava sem imaginação.

Foi quando criou o homem.

O Ricardo da papelaria

O negócio está cada vez pior, pensava o Sr. Ricardo, encostado ao balcão da sua papelaria. Desde que haviam inaugurado o Centro Comercial que os clientes escasseavam e a sua loja estava quase sempre vazia.
Alguém lhe tinha sugerido que vendesse jogo, totoloto, euromilhões, raspadinhas, mas o Sr. Ricardo era contra o jogo, achava que era um vício pior que o álcool e sempre se recusara a ter disso na sua papelaria.

De modo, que se limitava a vender jornais e revistas, algum material escolar, agendas e outros artigos de escritório.

Mal dá para comer, costumava dizer, e a sorte é que não pagava renda porque a loja era sua.

O Sr. Ricardo era conhecido pelo seu mau humor; diziam que vivia sozinho porque a mulher e a filha já não o podiam aturar e tinham ido embora há anos.

Com a idade, o seu mau humor foi-se refinando. Sempre com cara de poucos amigos, atendia os (poucos) clientes com duas pedras na mão e chegava a ser indelicado quando, por exemplo, alguém entrava na papelaria para comprar apenas um lápis.

Por isso, era natural que a escassez de clientes não se devesse apenas à abertura do Centro Comercial.

Há algum tempo, o Sr. Ricardo viu-se obrigado a vender a sua casa para fazer face às dívidas aos fornecedores e passou a viver na sobreloja da papelaria, que deveria servir de armazém.

Quando o clima deixava, o Sr. Ricardo levava uma cadeira para a rua e lá ficava sentado, a ver o movimento, os carros que subiam e desciam a avenida e os transeuntes, para um lado e para outro, sempre na esperança que algum entrasse e lhe comprasse qualquer coisita.

À medida que o tempo foi passando e os clientes foram diminuindo, o Sr. Ricardo começou a comprar menos coisas aos fornecedores.

Para que haveria ele de comprar lápis e borrachas, esquadros e transferidores, cadernos e dossiers se nenhum estudante se ia abastecer na sua papelaria, preferindo as grandes superfícies?

Pensando bem, para que haveria de encomendar e comprar agendas, papel vegetal, envelopes, canetas?
Em breve, a papelaria do Sr. Ricardo apenas vendia jornais e revistas.

Com tanto tempo livre, o homem não tinha outro remédio senão entreter-se com esses mesmos jornais e revistas.

Foi assim que começou a ficar enojado com as revistas de mexericos, que enchiam as páginas com os divórcios, os romances secretos, as traições, as doenças, os azares e as sortes das chamadas figuras públicas.

Um nojo!

Deixou de vender revistas.

Depois, começou também a implicar com os jornais desportivos que, no fundo, eram parecidos com as revistas de mexericos.

Deixou de vender jornais desportivos.

Claro que não tardou a irritar-se também com os jornais diários e semanários, que achava pouco sérios e sensacionalistas.

Acabou por recusar vender fosse o que fosse e fechou a papelaria.

Quem passa agora na rua e, por curiosidade, olha para o interior da loja, vê o Sr. Ricardo lá dentro, sentado na única cadeira que resta, no meio de uma loja completamente vazia.

E pode ter a certeza que ele responderá com um manguito.

O eléctrico parou

O Marques era guarda-freio há quarenta anos.

Hipertenso, diabético, obeso, com um colesterol a trepar e apneia do sono, estava deserto que chegasse a reforma. E ela estava mesmo para breve.

Com pena do homem, os seus superiores colocaram-no na carreira 28, a que está na moda, a que vai da Estrela à Graça, passando pela Baixa e por Alfama.

Fizeram mal.

O Marques detestava a confusão dos turistas e mal sabia falar português, quanto mais exprimir-se em línguas estrangeiras.

Disseram-lhe que era apenas durante umas semanas. Só até à reforma.

Ainda por cima, o Marques mantinha aquele bigode republicano, de pontas retorcidas, que ficava tão bem com o amarelo do 28…

O homem lá aceitou, com a esperança de que fossem apenas algumas semanas, como prometido.

No primeiro dia ficou logo arrependido. O 28 era uma confusão de brasileiros, ingleses, alemães, franceses e outras nacionalidades de que ele nunca tinha ouvido falar; perguntavam-lhe coisas e mais coisas e ele respondia com um encolher de ombros porque não percebia patavina.

E depois havia os carteiristas, que até tinham passe e tudo e, de vez em quando, a polícia, para os afugentar.

Ao fim da primeira semana de trabalho no 28, o Marques estava farto e pediu transferência de carreira.

Disseram-lhe que era só mais uma semana. Estavam à espera de um guarda-freio novo, que estava a acabar um curso acelerado de línguas e que estava também à espera que o bigode crescesse, para ficar como o do Marques. Dava um toque very tipycal

Contrariado, o Marques voltou ao trabalho.

Logo a meio da manhã, ali para os lados do Martim Moniz, sentiu uma picada no peito. Devia ser a tensão arterial a subir. Ainda por cima, tinha-se esquecido de tomar os comprimidos da manhã.

Ali perto do Chiado, a picada acentuou-se. Uma turista magricela, perguntou-lhe qualquer coisa. No meio daquela algaraviada, percebeu a palavra “assembleia”. É ali em baixo, respondeu o Marques.

E não disse mais nada.

A dor no peito era como uma mão a apertar; aumentou com tal intensidade que o Marques caiu sobre a o freio do 28.

E foi por isso que o eléctrico parou…