O Óscar dos discursos

Era conhecido como o Óscar dos discursos.

Desde o tempo da instrução primária que se distinguia pela suas redacções. Escrevia bem, sem erros ortográficos e com frases curtas e elegantes. Todos pensaram que seria escritor. E, de certa maneira, tornou-se escritor, mas não de romances.

Por volta dos 15 anos, Óscar passou-se. As más companhias, dizia a mãe. Farras todas as noites, muito álcool e fuminhos. Com dificuldade, muita dificuldade, terminou o 12º ano quase com 20 anos e entregou-se ao desemprego.

Foi Silvestre, o seu amigo de infância que lhe deu a mão.

Silvestre era candidato a presidente da Câmara e não tinha jeito nenhum para discursos; engasgava-se, repetia-se, corava e acabava por dizer meia dúzia de patacoadas sem sentido. Ora, para ser eleito presidente precisava de convencer os seus eleitores, até porque tinha como principal oponente, Luís Onofre, que era conhecido por ter o dom da palavra.

Silvestre lembrou-se então de Óscar e contratou-o para lhe escrever os discursos.

Óscar agarrou a oportunidade com ambas as mãos. Pôs de lado o álcool e os fuminhos e começou a escrever os melhores discursos que a cidade alguma vez tinha ouvido.

Silvestre ganhou a eleição com facilidade e levou Óscar para a Câmara.

Entretanto, a fama de Óscar ultrapassou os limites da cidade e em breve recebeu convites para escrever outros discursos: do presidente do Lion’s Club local, de noivos envergonhados, de dirigentes desportivos, de responsáveis da Misericórdia, bem como elogios fúnebres e outros de circunstância.

Óscar não recusava nada e foi amealhando prestígio e uma conta bancária que lhe permitiu trocar a cerveja pelo whisky japonês. Estacionou no Suntory Hibiki de 17 anos, a 800 euros cada garrafa.

Todos sabemos como o acto de escrever é solitário e Óscar combatia essa solidão com dois dedos de Suntory, aliás, quatro dedos. Puro, sempre sem gelo.

A pouco e pouco, o consumo de Suntory foi subindo e, por vezes, Óscar sentia alguma dificuldade em terminar certos discursos, mas o trabalho não rareava, antes pelo contrário – cada vez tinha mais discursos para escrever. Em cima da sua secretária, misturavam-se discursos de casamento e de funeral, com peças oratórias mais sérias, para serem lidas na Assembleia e em outros cenários políticos.

Foi naquela tarde de domingo que tudo se desmoronou.

O presidente que, entretanto, também recorrera aos seus serviços, subiu ao palanque no Dia Nacional das Forças Armadas e, virando-se para o Chefe do Estádio Maior, disse:

– Margarida, meu amor…

Indecisão autárquica

Jaime Rodrigues aceitou concorrer à autarquia.

Ficou espantado pelo convite, feito por um partido de Direita, uma vez que era conhecido no concelho por ser um tipo desde sempre ligado à Esquerda. Mas ficou, também, lisonjeado. Finalmente, havia alguém que lhe dava o devido valor como economista com trabalhos publicados.

Durante anos de militância na Esquerda, o seu valor tinha sido ignorado e agora, um partido de Direita convidava-o – que havia de fazer senão aceitar?

Assim que se soube que Rodrigues aceitara o convite para ser candidato em lugar elegível pelo partido de Direita, começaram a chover as críticas.

Companheiros que, antes, nunca tinham ligado ao trabalho de Rodrigues, consideravam, agora, que era uma traição o facto de ele ter aceitado aquele convite. Muitos disseram que alguns partidos de Esquerda estavam a pensar convidá-lo para candidato – mas assim, nem pensar!

Rodrigues começou a sentir-se dividido. No fundo, sempre se considerara uma pessoa de Esquerda, mas a sua vaidade levara-o a aceitar o convite da Direita.

Deveria voltar atrás e rejeitar o convite e esperar que algum partido da Esquerda o convidasse, ou devia fazer orelhas moucas às críticas e manter a sua decisão?

Esta dúvida terrível começou a interferir com o sono de Jaime Rodrigues.

À noite, demorava horas até conseguir conciliar o sono e, quando ele chegava, era um sono inquieto, repleto de pesadelos.

Certa vez, acordou a meio da noite com a nítida sensação de que a cómoda, que estava ao lado da cama, se transformava num monstro horrível. Suado e com o coração a mil, sentou-se na cama e olhou para a cómoda. Não estava lá monstro nenhum, apenas um móvel antigo, que tinha comprado num antiquário há uns dez anos.

Mas a cena repetiu-se algumas noites mais tarde e Rodrigues iria jurar que a cómoda transformada em monstro, abrira uma bocarra imensa, pronta para o engolir.

Cada vez mais assustado, decidiu consultar um entendido nessas coisas.

Contou-lhe da cómoda que se transformava em monstro a meio da noite. O entendido sossegou-o: não andaria sob grande stress? Rodrigues disse que sim e falou na sua indecisão autárquica. O entendido sorriu e disse que era essa dúvida existencial que estava a criar monstros na mente de Rodrigues. Claro que era impossível uma cómoda transformar-se em monstro!…

Não era.

Na noite seguinte, a cómoda engoliu Jaime Rodrigues, de um só golpe.

Os entendidos, nem sempre entendem tudo…

O seu índice de massa corporal indicava obesidade

Para pouco mais de um metro de sessenta, Victor pesava 90 quilos e tentava disfarçar o excesso de peso oxigenando o cabelo e usando uma barba esculpida, que dava um trabalhão ao barbeiro todas as semanas.

O problema é que Victor gostava de comer. Muito. E várias vezes ao dia. Além disso, tinha uma profissão que o obrigava a estar sentado todo o dia, em frente ao computador.

Ao longo dos últimos anos, Victor foi comprando calças cada vez mais largas na cintura e vendendo camisas no OLX porque já não conseguia apertar-lhes os botões – mas sentia-se bem e não ligava muito à sua silhueta.

Acontece que certo dia em que o elevador do prédio avariou, Victor teve que subir os oito andares a penates e foi então que a sua silhueta se lhe impôs. O homem chegou lá em cima quase morto; não seria preciso que lhe tapassem a boca para desfalecer – desfaleceu por ele próprio assim que entrou em casa e demorou quase uma hora a recuperar.

Foi então que decidiu que tinha que perder peso.

Consultou o Google e chegou à conclusão que a maneira mais rápida de perder peso era correndo.

Comprou um bom par de ténis, umas camisolas e uns calções, descarregou uma aplicação bem conhecida e começou a correr.

Primeiro, não arriscou mais do que dois quilómetros de cada vez e a um ritmo muito lento; mesmo assim, era um esforço hercúleo. Mas não desistiu.

Desistiu foi da barba desenhada e do cabelo amarelo, para evitar bocas dos outros corredores.

Ao fim de algum tempo, conseguiu começar a aumentar a distância da corrida e, passado um mês, já corria cinco quilómetros.

Todos os dias, logo após o pequeno-almoço, era ver o Victor a correr na avenida, cada vez com maior estilo.

Dois meses depois, Victor tinha perdido dez quilos e dizia a quem o queria ouvir, como é possível que eu tenha andado com um peso de dez quilos em cima de mim sem dar por isso!

Mas a perda de peso estagnou por volta dos quinze quilos a menos.

Com 75 quilos, Victor ainda tinha peso a mais.

Aderiu, então, ao jejum intermitente.

Comprou dois ou três livros sobre a matéria e aguentou o embate de não comer durante horas. Foi difícil, mas um homem habitua-se a tudo!

Mais um mês volvido e Victor estava com 62 quilos.

Em forma, corria cerca de dez quilómetros todos os dias e conseguia aguentar jejuns de doze horas.

A corrida e o jejum tornaram-se uma obsessão e Victor não conseguiu moderar-se.

Cerca de um ano depois da sua decisão de perder peso, Victor estava com menos de 50 quilos e quase que não corria, voava, e quase que não comia, depenicava.

Os outros corredores, que se lembravam do tempo em que ele tinha cabelo amarelo e barba desenhada, por pouco que não o reconheciam agora. Victor passava por eles qual meteoro e eles mal o viam.

Algum tempo depois, deixaram mesmo de o ver.

Victor ficou transparente, leve com uma pluma e, num dia de nortada, elevou-se no ar e nunca mais ninguém o viu.

Tatuagens

Telmo gostava de tatuagens

Se tivesse dinheiro, gostaria de tatuar todo o corpo.

Mas não tinha.

Portanto, contentava-se com meia-dúzia de desenhos na pele.

Nas barrigas das pernas (o tatuador dizia que era nos gémeos), mandara tatuar uma rosa dos ventos, na perna direita e um relógio, na perna esquerda. A rosa dos ventos ficou um bocadinho inclinada, com o Norte a apontar para o Noroeste e o relógio, embora parado, estava certo duas vezes por dia.

No ombro direito, mandou tatuar um golfinho, mas, a meio do trabalho, pediu um tubarão, pelo que o animal ficou assim uma espécie de tubarinho, ou golfarão.

Mas as tatuagens de que mais se orgulhava estavam nos antebraços, com o nome da sua namorada: Susana, à esquerda, Cristina, à direita.

Susana Cristina era tudo para Telmo. Sem ela, não saberia viver.

Isto era o que Telmo pensava; por isso, a tatuagem daqueles dois nomes fora feita com elevada minúcia. Eram letras muito elaboradas, cheias de rodriguinhos e Telmo tentava andar sempre com camisolas de manga curta, mesmo no pino do inverno, de modo que se vissem bem as tatuagens.

Mas um dia, a Susana Cristina foi-se embora. Dizia que já não o amava e amava mais o Nélson, segurança no bingo do bairro.

Telmo ficou inconsolável.

Como iria sobreviver sem a sua Susana Cristina?

Esse desespero durou quase 48 horas. A vida continua e Telmo seguiu em frente.

O problema era: o que fazer às tatuagens?

A rosa dos ventos, o relógio e o tubarinho, podiam ficar, mas a Susana Cristina? O que fazer à Susana do braço esquerdo, e à Cristina do braço direito?

É que Telmo gostava mesmo daquelas letras, tão elaboradas, tão elegantes.

Por isso, recusou o namoro que Carla Isabel lhe propôs, fugiu do assédio de Tânia de Jesus e quase que começou a andar com a Vanessa Cristina. Aproveitava-se a tatuagem do antebraço direito…

Agora, quase cinquentão, Telmo continua solteiro, em busca de uma nova Susana Cristina que preencha as suas tatuagens.

Rosa conheceu Rosindo

Coincidência feliz.

Pelo menos, aparentemente.

Rosindo era distribuidor de flores. Todas as manhãs, bem cedo, ia ao mercado abastecedor comprar flores que, depois, distribuía por diversas floristas.

Rosa e Rosindo apaixonaram-se e foram viver juntos.

Rosindo arranjou emprego a Rosa numa das floristas que abastecia, a ganhar mais do que no supermercado.

Rosa sentia-se duplamente feliz: arranjara um emprego melhor e tinha um namorado. A vida sorria-lhe.

Mas há sempre um pauzinho na engrenagem; neste caso, foi a rinite.

Rosa começou a espirrar; todas as manhãs, quando chegava à loja, tinha crises de espirros, depois, comichão nos olhos, mais tarde, pieira.

O médico receitou-lhe antihistamínicos; depois, inaladores; mais tarde, aconselhou-a a mudar de emprego.

Rosindo zangou-se com Rosa. Disse-lhe que ela estava a ser mal-agradecida, um emprego tão bom deitado à rua por causa de uma rinite sem importância.

Rosa tentava explicar que, assim, não tinha qualidade de vida, com o nariz sempre entupido, os olhos a lacrimejar. Acabou por desistir do emprego na florista e voltou para o supermercado. Melhorou da rinite, mas não completamente. Entretanto, as coisas com Rosindo não melhoravam.

Separaram-se e Rosa sentiu-se melhor, embora o pingo no nariz persistisse.

Certo dia, teve uma epifania. Se era alérgica a flores, se piorara com o emprego na florista e o namoro com o Rosindo, se ela própria se chamava Rosa, por que não mudar radicalmente?

Passou a usar o primeiro nome, Maria. Disse a todas as colegas do supermercado, a todos os amigos e conhecidos: a partir daquele dia, chamem-me Maria, esqueçam que sou Rosa.

E foi melhorando, de dia para dia.

Meses depois de deixar a florista e Rosindo, depois de deixar o seu segundo nome, Maria estava finalmente livre da rinite.

Tudo piorou quando conheceu Florêncio…

Encontro

O despertador tocou.

Estava na hora.

Eram 3 da madrugada e o despertador fora desnecessário; com a excitação do encontro, ainda nem tinha pregado olho.

Aquele era o segundo domingo do mês e, como estava combinado, eles viriam àquela hora.

Acontecia já há algum tempo.

Assim que chegavam, sentia uma sensação de bem-estar, um alívio que me percorria os músculos e me deixava calmo e tranquilo.

Tudo começara há cerca de um ano, numa noite de insónia. Tinha ido até ao quintal, tentando afastar a ansiedade, na esperança de que o ar da madrugada me ajudasse a conciliar o sono.

Foi quando nos encontrámos pela primeira vez.

Desde então, sempre no segundo domingo de cada mês, pelas 3 da manhã, lá vêm eles estar comigo cerca de meia-hora e são os momentos mais felizes da minha vida.

Portanto, levantei-me, vesti o roupão e fui até ao quintal e lá estavam eles.

Cumprimentámos-nos sem dizer uma palavra.

Depois de alguns minutos de silêncio, eles falaram dentro da minha cabeça:

Queres vir connosco?

Hesitei na resposta, mas acabei por elaborá-la sem abrir a boca:

Vocês têm lá covid?

Que disparate! – exclamaram – Claro que não temos covid!

Então vou!

E fui!

De facto, não têm covid, mas também não têm café, whisky ou vinho…

Nem oxigénio…

Abóboras-meninas

Leonardo era agricultor.

Tinha uma pequena quinta, onde cultivava diversos hortícolas, que depois vendia no Mercado da vila.

Leonardo tinha 30 anos e vivia sozinho na sua casinha rural. Era um homem pacato, ordeiro, delicado, mas tímido e triste.

Leonardo precisava de uma companheira. No entanto, a sua timidez impedia-o de socializar com as vendedeiras do Mercado e, por isso, passava as noites a sonhar com uma cama mais quente.

Certo dia, Leonardo decidiu começar a cultivar abóboras-meninas.

Leonardo era um agricultor moderno e sabia que o verdadeiro nome da abóbora-menina é cucurbita máxima, também conhecida por abóbora gigante. Sabia também que as devia semear entre abril e julho, em elevações pequenas e intervaladas de 1,5 m, com 5 ou 6 sementes em cada elevação, cobri-las com uma camada de terra fina de 2 cm e, se necessário, desbastar até ficarem as 3 melhores plantas em cada elevação.

Foi seguindo escrupulosamente estes preceitos que Leonardo conseguiu, logo na primeira colheita, abóboras-meninas grandes e suculentas.

De todas se destacava uma delas, a maior de todas, de casca luzidia, reflectindo o sol. Leonardo estava orgulhoso das suas abóboras, sobretudo daquela.

Numa manhã de domingo, dia de Mercado, Leonardo preparava-se para colher algumas abóboras para a venda, quando reparou que a maior de todas parecia estar tomada de pequenos tremores. Leonardo aproximou-se e encostou o ouvido à abóbora e ia jurar que estava a escutar uma espécie de lamento. Recuou dois passos e, nesse momento, a casca tornou-se cada vez mais lustrosa e a abóbora menina rebentou e, lá de dentro, saiu uma mulher. Uma mulher linda, de longos cabelos loiros e olhos azuis brilhantes.

Leonardo ficou sem palavras e assim se manteve, sobretudo depois da mulher se aproximar dele e o beijar longamente.

Passado o espanto, Leonardo levou a mulher para a sua casa e, tendo em conta a sua beleza, chamou-lhe Linda.

No Mercado, todos olharam com inveja a nova companheira de Leonardo que atendia os clientes, vendendo os produtos da terra como se sempre tivesse feito isso.

Passou um ano e Leonardo estava cada vez mais feliz. Ele e Linda formavam um bonito e feliz par de agricultores.

Chegou o momento de nova colheita de abóboras-meninas e, mais uma vez, um dos frutos destacava-se de todos os restantes. Também essa abóbora explodiu e, lá de dentro, saiu outra mulher, tão linda como Linda. Leonardo ficou novamente sem palavras, embora menos tempo do que da primeira vez. Recebeu esta segunda mulher de braços abertos, chamou-lhe Deolinda, levou-a para casa e comprou uma cama mais larga.

Quando Leonardo apareceu no Mercado com duas belas mulheres, uma de cada lado, todos ficaram espantados e a inveja aumentou consideravelmente.

Com a inveja dos outros podia Leonardo bem; só ele sabia como era viver com duas belas mulheres, que o mimavam e que animavam as suas outrora tristes e solitárias noites.

Mas tudo piorou quando, no ano seguinte, uma terceira mulher, igualmente bela, saltou de dentro de mais uma abóbora gigante.

Com duas, Leonardo ainda se aguentava, mas com três, a logística era muito mais complicada.

As discussões começaram a ser constantes e a cama, por mais larga que fosse, não conseguia albergar os quatro com conforto. Linda, Deolinda e Arceolinda detestavam-se e Leonardo acabou por fazer uma trouxa e zarpar para longe.

Hoje, na casa onde viveu o solitário Leonardo, funciona a Lindas Associadas, Agricultura Biológica Lda, empresa de sucesso gerida por seis mulheres belas, especialistas no cultivo de abóboras-meninas.

Criação

Sentado numa nuvem, o Criador estava em pleno acto de criação.

Começou pelos animais com guelras e barbatanas. Conseguiam nadar. Chamou-lhes peixes.

E ficou satisfeito.

A seguir, criou os que tinham penas e asas e conseguiam voar. Chamou-lhes aves. E ficou ainda mais satisfeito.

Depois de ter criado os animais da água e os do ar, faltavam os da terra.

Deu-lhes patas fortes, capazes de correr ou matar e chamou-lhes mamíferos. E ficou satisfeito, embora menos.

Nos tempos livres, criou insectos e gastrópodes e anuros e outros seres inferiores.

Cansado, decidiu divertir-se e criou mamíferos com asas e outros com barbatanas, criou aves que não conseguiam voar, mas que corriam velozes, e peixes sem asas, capazes de voar.

No sétimo dia da criação, o Criador sentou-se noutra nuvem e sentiu que estava sem imaginação.

Foi quando criou o homem.

O Ricardo da papelaria

O negócio está cada vez pior, pensava o Sr. Ricardo, encostado ao balcão da sua papelaria. Desde que haviam inaugurado o Centro Comercial que os clientes escasseavam e a sua loja estava quase sempre vazia.
Alguém lhe tinha sugerido que vendesse jogo, totoloto, euromilhões, raspadinhas, mas o Sr. Ricardo era contra o jogo, achava que era um vício pior que o álcool e sempre se recusara a ter disso na sua papelaria.

De modo, que se limitava a vender jornais e revistas, algum material escolar, agendas e outros artigos de escritório.

Mal dá para comer, costumava dizer, e a sorte é que não pagava renda porque a loja era sua.

O Sr. Ricardo era conhecido pelo seu mau humor; diziam que vivia sozinho porque a mulher e a filha já não o podiam aturar e tinham ido embora há anos.

Com a idade, o seu mau humor foi-se refinando. Sempre com cara de poucos amigos, atendia os (poucos) clientes com duas pedras na mão e chegava a ser indelicado quando, por exemplo, alguém entrava na papelaria para comprar apenas um lápis.

Por isso, era natural que a escassez de clientes não se devesse apenas à abertura do Centro Comercial.

Há algum tempo, o Sr. Ricardo viu-se obrigado a vender a sua casa para fazer face às dívidas aos fornecedores e passou a viver na sobreloja da papelaria, que deveria servir de armazém.

Quando o clima deixava, o Sr. Ricardo levava uma cadeira para a rua e lá ficava sentado, a ver o movimento, os carros que subiam e desciam a avenida e os transeuntes, para um lado e para outro, sempre na esperança que algum entrasse e lhe comprasse qualquer coisita.

À medida que o tempo foi passando e os clientes foram diminuindo, o Sr. Ricardo começou a comprar menos coisas aos fornecedores.

Para que haveria ele de comprar lápis e borrachas, esquadros e transferidores, cadernos e dossiers se nenhum estudante se ia abastecer na sua papelaria, preferindo as grandes superfícies?

Pensando bem, para que haveria de encomendar e comprar agendas, papel vegetal, envelopes, canetas?
Em breve, a papelaria do Sr. Ricardo apenas vendia jornais e revistas.

Com tanto tempo livre, o homem não tinha outro remédio senão entreter-se com esses mesmos jornais e revistas.

Foi assim que começou a ficar enojado com as revistas de mexericos, que enchiam as páginas com os divórcios, os romances secretos, as traições, as doenças, os azares e as sortes das chamadas figuras públicas.

Um nojo!

Deixou de vender revistas.

Depois, começou também a implicar com os jornais desportivos que, no fundo, eram parecidos com as revistas de mexericos.

Deixou de vender jornais desportivos.

Claro que não tardou a irritar-se também com os jornais diários e semanários, que achava pouco sérios e sensacionalistas.

Acabou por recusar vender fosse o que fosse e fechou a papelaria.

Quem passa agora na rua e, por curiosidade, olha para o interior da loja, vê o Sr. Ricardo lá dentro, sentado na única cadeira que resta, no meio de uma loja completamente vazia.

E pode ter a certeza que ele responderá com um manguito.

O eléctrico parou

O Marques era guarda-freio há quarenta anos.

Hipertenso, diabético, obeso, com um colesterol a trepar e apneia do sono, estava deserto que chegasse a reforma. E ela estava mesmo para breve.

Com pena do homem, os seus superiores colocaram-no na carreira 28, a que está na moda, a que vai da Estrela à Graça, passando pela Baixa e por Alfama.

Fizeram mal.

O Marques detestava a confusão dos turistas e mal sabia falar português, quanto mais exprimir-se em línguas estrangeiras.

Disseram-lhe que era apenas durante umas semanas. Só até à reforma.

Ainda por cima, o Marques mantinha aquele bigode republicano, de pontas retorcidas, que ficava tão bem com o amarelo do 28…

O homem lá aceitou, com a esperança de que fossem apenas algumas semanas, como prometido.

No primeiro dia ficou logo arrependido. O 28 era uma confusão de brasileiros, ingleses, alemães, franceses e outras nacionalidades de que ele nunca tinha ouvido falar; perguntavam-lhe coisas e mais coisas e ele respondia com um encolher de ombros porque não percebia patavina.

E depois havia os carteiristas, que até tinham passe e tudo e, de vez em quando, a polícia, para os afugentar.

Ao fim da primeira semana de trabalho no 28, o Marques estava farto e pediu transferência de carreira.

Disseram-lhe que era só mais uma semana. Estavam à espera de um guarda-freio novo, que estava a acabar um curso acelerado de línguas e que estava também à espera que o bigode crescesse, para ficar como o do Marques. Dava um toque very tipycal

Contrariado, o Marques voltou ao trabalho.

Logo a meio da manhã, ali para os lados do Martim Moniz, sentiu uma picada no peito. Devia ser a tensão arterial a subir. Ainda por cima, tinha-se esquecido de tomar os comprimidos da manhã.

Ali perto do Chiado, a picada acentuou-se. Uma turista magricela, perguntou-lhe qualquer coisa. No meio daquela algaraviada, percebeu a palavra “assembleia”. É ali em baixo, respondeu o Marques.

E não disse mais nada.

A dor no peito era como uma mão a apertar; aumentou com tal intensidade que o Marques caiu sobre a o freio do 28.

E foi por isso que o eléctrico parou…