“Annie John”, de Jamaica Kinkaid (1983)

Jamaica Kinkaid é o pseudónimo da escritora Elaine Potter Richardson, nascida em 1949 na ilha de Antígua e Barbuda. Aos 17 anos, deixou a sua ilha natal e emigrou para Nova Iorque. Acabou por se tornou colaboradora da revista New Yorker e este “Annie John” foi o seu romance de estreia.

É um pequeno livro que se lê de uma penada e que nos deixa tristes por acabar, ao contrário de muitos calhamaços que agora se escrevem e que não precisavam de ser tão densos e longos.

O livro, quem sabe autobiográfico, conta-nos a história de uma menina, Anni John, que vive numa ilha caribenha com o pai, um homem já velho, e a mãe, muito mais nova que ele e com quem Annie tem uma relação muito próxima – relação que se vai modificando à medida que ela cresce.

Todo o livro é delicioso e escolho este pedaço como podia escolher outro qualquer:

“Passámos pelo consultório do médico que disse três vezes à minha mãe que eu não precisava de óculos e que lhe recomendou que, se eu sentisse que tinha a vista fraca, tomasse um copo de sumo de cenoura por dia, para a fortalecer. Isto aconteceu quando eu tinha oito anos. todos os dias, no intervalo, corria para o portão da escola, onde a minha mãe me esperava com um copo de sumo de cenoura acabadas de ralar e espremer; depois de beber, corria outra vez para me juntar às minhas colegas. Bem sabia que não tinha problema nenhum nos olhos, mas tinha lido recentemente, no The Schoolgirl’s Own Annual, uma história cuja heroína, uma rapariga poucos anos mais velha do que eu, me impressionara tanto com o modo como estava sempre a endireitar os óculos pequenos e redondos, com armação de tartaruga, que senti que precisava de ter uns óculos iguais”.

Recomendo!

“A Idade do Vício”, de Deepti Kapoor (2023)

Poucas informações se obtêm sobre esta escritora indiana que, neste momento, vive em Portugal. Consigo perceber que cresceu no norte da Índia e que trabalhou como jornalista durante algum tempo. Este livro, publicado em 2023, é o seu segundo romance – e que romance.

São 646 páginas com todos os ingredientes para fazer um grande filme de aventuras ou uma série de televisão – e parece que os direitos do livro foram comprados por uma produtora subsidiária da Disney.

A história deste calhamaço gira em torno de Ajai e de Sunny. Ajai é um miúdo pobre, cuja mãe acaba por vender a uns ricalhaços, depois de ficar viúva. Depois de muitas atribulações, Ajai vai tornar-se o servo de Sunny, o filho de um grande senhor do Uttar Pradesh, que enriqueceu graças à especulação.

Por um lado, vemos a luta que Sunny trava consigo próprio, tentando agradar ao pai, mas nunca conseguindo. Por outro, vemos a luta de Ajai que, ao mesmo tempo que se quer manter fiel a Sunny, se vê sempre subjugado por ele.

Lê-se com um grande livro de aventuras…

“Refúgio no Tempo”, de Gueorgui Gospodinov (2020)

Gospodinov nasceu na Bulgária em 1968 e com este livro venceu o International Booker Prize de 2023. Foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

Como o título do livro indica, o tema deste romance é o tempo, o tempo passado, sobretudo o tempo passado.

Recheado de grandes ideias, apetece-me citar muitos trechos do livro.

Gospodinov viveu, durante alguns anos, na ditadura comunista, com todo o seu folclore. Com as devidas e enormes diferenças, ao ler certas partes deste livro, lembro-me do nosso tempo sob o regime salazar-caetano, a viver neste pequeno país isolado, com uma língua que poucos falam na Europa:

“(…) estávamos a conversar à vontade, tirando proveito do privilégio de falarmos uma língua menor, da tranquilidade de sabermos que ninguém nos percebia enquanto dizíamos mal de tudo. (…) para um búlgaro, queixar-se é como alar do tempo.”

E as similitudes entre a Bulgária e Portugal continuam…

“(…) simplesmente, os anos 60, como aliás acontecia com tudo no nosso país, chegaram à Bulgária com dez anos de atraso.”

A primeira grande ideia deste livro é esta: criar uma clínica para doentes com Alzheimer, em que cada andar corresponde a uma década, onde são recriadas as memórias. Desse modo, um doente que tenha crescido na década de 60, será integrado num espaço onde essa década é recriada, de modo a refrescar a sua memória doente.

Gospodinov sublinha que a nossa memória vive muito dos cheiros:

“É notório, de facto, que nem sequer temos nomes para os cheiros. Deus ou Adão não fizeram o seu trabalho até ao fim. Não é como com as cores, por exemplo, onde temos o vermelho, azul, amarelo, violeta… Mão nos foi dada a capacidade de designar directamente os odores. É sempre através de comparações, sempre com descrições. Cheira a violetas, a torradas, a algas, a gato morto…”

Na tal clínica para doentes de Alzheimer…

“No andar de cima instalaram-se os anos 50. Eli era o reino de Elvis Presley, de Fats Domino, Dizzy Gillespie, Miles Davis, onde se podia ouvir toda aquela maravilhosa mistura de jazz, rock and rol, pop, bem como o sinfónico, mas já fora de moda, Frank Sinatra. Ali estavam Intriga Internacional, Hitchcock, cary Grant, As Noite de Cabíria, Fellini, Mastroianni, Brigitte Bardot, Dior…

(…) O corredor entre o Ocidente e o Leste estava dividido a meio por uma “cortina de ferro”, um portão de madeira maciça que estava sempre fechado à chave e que só o pessoal autorizado podia atravessar. (…) Em dado momento, verificou-se uma tentativa de evasão. Um homem do corredor Leste, tentou passar por cima do «muro», mas acabou por cair e partiu uma perna”

Mas a clínica para doentes que estão a perder a memória é apenas uma das ideias deste livro. O tempo, a passagem do tempo, é o fio condutor do romance.

“Que grande roubo é a vida (e o tempo), não é? (…) Mas aquele ladrão, a vida ou o tempo, chega e tira-te tudo – a memória, o coração, o ouvido, a coisa que tu sabes. Nem escolhe, leva tudo o que encontra. Como se isso não chegasse, ainda goza contigo. Faz com que o teu peito fique flácido, o teu rabo escanzelado, as tuas costas tortas, o teu cabelo ralo e pintalgado de branco, enche os teus ouvidos de pêlos, espalha sinais pelo corpo todo, manchas de velhice nas mãos e na cara, faz com que digas disparates, e que fiques calado, como um imbecil sem memória, porque te roubou todas as palavras.”

O autor demonstra uma grande mágoa pelo seu país, sobretudo pelo domínio comunista e pelo modo como o povo o aceitou.

“Se há ainda alguma coisa capaz de salvar o país de todo o kitsch que lhe cai em cima, disse para mim próprio, será sem dúvida a preguiça. A preguiça e o desleixo. (…) Em países preguiçosos e desleixados, nem o kitsch nem o mal se podem aguentar por muito tempo, porque também exigem esmero e manutenção.”

Outra grande ideia do livro: cada país da Europa vai organizar um referendo para decidir em que década quer passar a viver, uma década que tenha sido feliz, em que tudo tenha corrido bem.

Aqui está a ideia do autor no que respeita a Portugal que, em búlgaro, se diz «portukal»:

“Portugal, por analogia, após um regime longo e frio que acabou com a Revolução dos Cravos, iria escolher os meados dos anos 70 para um novo início enquanto ainda se mantinha viva a embriaguez de 1974. Mas também enquanto se mantinha ainda fresca a recordação do Estado Novo, de Salazar e do seu sucessor Caetano, uma recordação que se podia incluir na infelicidade de ser português.”

O livro de Gospodinov é muito rico e vale cada uma das suas 290 páginas. Recomendo vivamente.

“Um LUgar para Mungo”, de Douglas Stuart (2023)

Com “Shuggie Bain”, Douglas Stuart venceu o Booker Prize de 2020. Este novo livro tem o mesmo pano de fundo: os bairros sociais de Glasgow, a violência entre protestantes e católicos, o desemprego, o alcoolismo, a pobreza.

“Young Mungo” conta a história de um jovem de 15 anos, cujo pai morreu há vários anos e que vive num bairro social com a mãe alcoólica, uma irmã que o apoia e um irmão mais velho, violento, que quer fazer dele um homem. Mas Mungo é diferente do irmão e não compreende a necessidade de tanta violência; apesar de a mãe se ausentar de casa por longos períodos, regressando sempre alcoolizada, Mungo sente um grande carinho por ele.

Mungo conhece James, um miúdo católico, que se entretém a criar pombos. Apaixonam-se, mas é impossível demonstrar amor por alguém do mesmo sexo num bairro como aquele e a relação entre os dois vai ser difícil.

Entretanto, a mãe de Mungo, desconfiando da homossexualidade do filho, envia-o para um fim de semana de pescaria com dois homens, pedindo-lhes que façam dele um homem como deve ser, mas a coisa não vai correr nada bem.

Lê-se com agrado, mas gostei mais do anterior livro de Stuart.

“A Fraude”, de Zadie Smith (2023)

Desta escritora britânica, com raízes na Jamaica, já li “Dentes Brancos”, “Swing Time”, “O Homem dos Autógrafos” e “Uma Questão de Beleza”.

Este novo livro é completamente diferente dos anteriores. Trata-se de um romance histórico, embora Zadie Smith consigo escrevê-lo como se fosse uma história actual.

Embora o livro se baseie “vagamente” na vida do escritor William Harrison Ainsworth (1805-1882), contemporâneo de Charles Dickens, de quem era amigo, a protagonista do livro é a sua prima, Eliza Touchet.

A Sra. Touchet é uma mulher que se interessa pela justiça, pela literatura, pelo abolicionismo, pelas mulheres do primo, por quem tem uma paixão não completamente correspondida (William só se interessa pelos seus romances, já que publicou mais de 40) – e sendo assim, tão interessada, o julgamento do chamado Caso Tichborne vai ocupar-lhe muito do seu tempo. Neste caso, um carniceiro da classe baixa na Austrália, afirma ser o legítimo herdeiro de um património substancial, fazendo-se passar pelo filho (alegadamente morto) de uma rica senhora. Para dar o toque que Smith gosta, Andrew Bogle cresceu como escravo na Jamaica, mas vai tornar-se testemunha importante no caso.

Temos assim dois temas que percorrem este calhamaço de 530 páginas: a vida da Sr. Touchet e do seu primo e o caso Tichborne.

“Paradaise”, de Fernanda Melchor (2021)

Depois de “Temporada de Furacões”, em 2017, esta escritora mexicana publicou, em 2021, “Paradaise”. O estilo é o mesmo, a enxurrada de obscenidades, também. Neste livro, de pouco mais de cem páginas, Polo, um adolescente sem eira nem beira, é empregado de um condomínio fechado chamado Paradise (pronunciar Paradaise). A sua vida é uma merda e só pensa em embebedar-se para se esquecer do que tem de enfrentar na sua casa, uma mãe que pouco lhe liga e uma prima, que talvez tenha engravidado. Estabelece amizade com um gordo, Franco, que está obcecado por uma das habitantes do condomínio. É uma mulher atraente, com formas generosas, casada e mãe de filhos, o que não impede o gordo de ter sonhos eróticos com ela.

Esta ligação entre Polo e o gordo vai correr mal, está-se mesmo a ver.

“A verga de Franco palpitava e da ponta brotava uma tira de leite que se enredava entre os seus dedos adormecidos, dedos que de repente já não eram a cona apertada da senhora Marián ou o seu cu franzido mas só os seus dedos de gordo, sujos de gordura e de queijo em pó.”

Fernanda Melchor não tem problema em usar linguagem o mais gráfica possível, bem traduzida, na minha opinião, pela dupla de tradutores, Cristina Rodrigues e Artur Guerra.

“Era óbvio que o tipo nunca tinha estado com uma mulher, que nunca tinha metido a sua pichazinha punheteira numa cona, e por isso é que estava obcecado em meter a tranca na única gaja que lhe sorria e falava com ele com boa vontade, sem mostrar desprezo perante a visão das suas banhas e das suas borbulhas de púbere.”

Para quem, como eu, já tinha lido a anterior novela de Melchor, esta já não foi grande novidade.

“Estilhaços”, de Bret Easton Ellis (2023)

Nunca tinha lido nada deste beste-seller norte-americano, sobretudo conhecido pelo seu romance “Psicopata Americano” e confesso que fiquei cansado, depois destas 621 páginas de letra pequenina.

Numa introdução, Ellis faz-nos crer que vai contar acontecimentos que viveu aos 17 anos, quando era finalista de Buckley, um liceu na área de Los Angeles. Esses acontecimentos são marcados pela existência de um serial killer que, em 1980-81, foi responsável por alguns crimes horrendos. Claro que a memória de Ellis é prodigiosa, uma vez que se recorda das músicas que estavam a tocar em determinados locais, da roupa que ele e os colegas do liceu usavam em determinados dias, da decoração das diversas casas onde decorriam as festas. A certa altura, parecia estar a ler um dos livros de Knausgard, aquilo a que chamam autoficção.

o jovem Ellis e os seus colegas movimentam-se num ambiente de gente rica; todos conduzem grandes máquinas, saltitam de festas em festa, têm pais que lhes dão toda a liberdade, a maior parte deles divorciados, vivem em grandes mansões com piscina e todos se drogam, sobretudo com coca, erva, Valium e Qualuudes.

Ellis é homossexual e tem relações com um colega e não só, mas esconde esse facto e, oficialmente, tem uma namorada.

As descrições dos grandes carros e dos seus percursos, chega a ser enfadonha:

“A seguir endireitei-me e liguei o carro e segui o Porsche para Valley Vista. Nessa tarde se gunda-feira o Robert virou à esquerda para Beverly Glen, em lugar de continuar por Valley Vista até à 405, o que significava que ia passar pela casa em Benedict Canyon. (…)

Esperei que passasse outro carro e segui o Robert até ele parar no semáforo em Sunset Boulevard e virar em direcção a Beverly Hills, onde Benedict Canyon entrava em North Canon Drive, e percebi que ele ia passar pela casa da Susan Reynolds…”

Quanto às roupas e acessórios, o autor faz questão de nos descrever tudo ao pormenor, incluindo as marcas.

“Ele tomara banho e tinha o cabelo penteado para trás e vestia calças de ganga e uma Lacoste azul a combinar com os olhos e um casaco Members Only, e sorriu-me de novo enquanto entrávamos no átrio…”

Mas Ellis também descreve, em pormenor, alguns encontros amorosos, de um modo muito gráfico:

“… o filme era bom, mas não achei nenhum dos rapazes britânicos atraentes, apesar de serem jovens atletas universitários, porque, suponho, estar ali sentado tão perto do Ryan me distraía, e estava muito consciente de todos os meus movimentos. Queria tocar-lhe, passar os dedos pelo fecho das calças dele, puxar-lhe o caralho para fora e masturbá-lo, só para poder ver a cara dele durante o orgasmo e cheirar-lhe o sémen, e fiquei instantaneamente teso ao pensar nisso.”

Em resumo, a história que Bret Easton Ellis conta podia ser resumida em metade das páginas, mas penso que o autor quis mesmo que o livro fosse assim, cheio de descrições de roupas, e de festas, e de drogas e de orgias, para dar a chamada cor local dos anos 80 na Los Angeles dos muito ricos.

Não me impressionou…

“Seios e Óvulos”, de Mieko Kawakami (2019)

Kawakami nasceu em Osaka (1976) e é conhecida como cantora, escritora e autora de um blog, aparentemente com muito sucesso.

O livro “Seios e Óvulos” parece ter agitado muito aa águas editoriais japonesas, que devem ser dominadas por homens, aparentemente como toda a sociedade. Murakami, outro autor japonês com muito sucesso, diz que “nunca poderei esquecer a sensação de puro deslumbramento que senti quando li pela primeira vez (este livro)”.

É a opinião dele, claro.

Este calhamaço de quase 500 páginas está dividido em dois livros.

No Livro Um, a narradora, Natsuko, recebe na sua casa de Tóquio a irmã, Makiko e a filha desta, adolescente Midoriko. Natsuko está a tentar tornar-se escritora. Makiko é anfitriã num bar manhoso em Osaka, onde todas viviam inicialmente. Midoriko está zangada com a mãe e não lhe fala e responde às suas perguntas escrevendo num caderno. As duas irmãs vêem televisão e bebem cerveja até cair para o lado. Makiko quer operar as mamas, está obcecada com isso. As duas irmãs viveram com a mãe e com a avó, que já faleceram. O pai era um calão alcoólico, que abandonou o lar.

No Livro Dois, Natsuko já publicou um livro, que teve um sucesso relativo, mas está encalhada na escrita do segundo romance, mas, a partir de certa altura, nunca mais se fala nisso porque a sua obsessão é ter um filho a apetir de um dador mais ou menos anónimo. Em tempos, teve uma relação com um homem, mas nunca gostou de ter relações sexuais; doía-lhe e não tinha prazer. Nunca mais quer experimentar – daí, ter de recorrer a um dador para ter um filho. Pelos vistos, no Japão, é possível conhecer um dador num qualquer blogue, encontrar-se com ele num café e ficar com o seu esperma, que ele vai obter na casa de banho do café – ou é assim, ou há algum lost in translation…

Também neste segundo livro, os homens estão praticamente ausentes e as mulheres embebedam-se com frequência.

Na página 363, Rika, uma amiga de Natsuko, diz:

“Quer dizer, um homem nunca pode perceber o que realmente importa para uma mulher. nunca. Quando se diz este tipo de coisas, as pessoas dizem logo que somos tacanhas ou que nunca conhecemos o verdadeiro amor ou qualquer coisa desse género. Dizem que não se podem enfiar todos os homens no mesmo saco assim, mas, infelizmente, é a verdade. Nenhum homem alguma vez compreenderá as coisas que são realmente importantes para uma mulher.

(…)

Estão num pedestal a partir do momento em que nascem. Só que não percebem isso. Sempre que precisam de alguma coisa, as mães vêm a correr. São ensinados a acreditar que os seus pénis os tornam superiores e que as mulheres só existem para eles as usarem como bem entenderem. Depois, saem para o mundo, onde tudo se centra neles e nas suas pilas. E são as mulheres que têm de arranjar forma de as coisas funcionarem. Afinal, de onde vem esta dor que os homens sentem? Na opinião deles: vem de nós. A culpa é toda nossa… por serem impopulares, estarem falidos, desempregados. Seja o que for, culpam as mulheres por todos os seus fracassos, por todos os seus problemas. Agora pensa nas mulheres. Independentemente da forma como vires as coisas, quem é realmente responsável pela maior parte da dor que as mulheres sentem? Se pensarmos nisso dessa forma, como é que um homem e uma mulher se podem entender? É estruturalmente impossível”

E esta não é apenas a opinião desta amiga na narradora – é o tom geral do livro. Há dois mundos totalmente separados: o dos homens e o das mulheres e é impossível, aparentemente, haver ligação entre eles.

Para além desta dicotomia, o livro relata alguns fenómenos que desconhecia existirem na sociedade japonesa, propagandeada como tão certinha e direitinha: os sem-abrigo, os bares das anfitriãs em todas as ruas, os banhos comunitários, etc.

Um livro curioso, proveniente de uma sociedade que talvez venha a conhecer melhor em breve.

“O Historiador”, de Elizabeth Kostova (2005)

Tinha este livro na estante desde 2005. Penso que lhe peguei, em tempos, que o comecei a ler, mas desisti, talvez porque o tema não me interessou e porque era demasiado volumoso para a minha vontade de o ler.

Com efeito, é um calhamaço de 598 páginas, em letra miudinha e o tema do livro não me entusiasma muito – vampiros, mais precisamente, Vlad III Tepes, o Impalador, também conhecido por Drácula.

Elizabeth Kostova (New London, Connecticut, EUA, 1964) escreveu este romance ao longo de dez anos, tendo como inspiração o seu próprio pai, que era professor, e que lhe contava histórias sobre vampiros. Nessa altura, a família vivia na Eslovénia, mas viajava pela Europa, tal como o pai da protagonista do livro.

Histórias de vampiros, mortos-vivos e ofícios correlativos, não são da minha preferência e tive de fazer um esforço para ler este tijolo até ao fim, mas como o li em voz alta, e a minha audiência foi muito compreensiva, consegui ir até ao fim.

Por alguma razão os direitos do livro foram adquiridos pela Sony, por quase 2 milhões de dólares e o filme ainda não chegou sequer à produção. E por alguma razão estava intocável na minha estante há 18 anos!

No fundo, o livro poderia ter um terço do tamanho se Kostova soubesse, ou quisesse, ser mais sintética. Repleto de referências históricas, o livro resume-se à busca pela tumba do Drácula que, afinal, parece que fica em França – ou será que é em Istambul, Bulgária, Roménia, ou até Filadélfia?

Não aconselho.

“Empúsio”, de Olga Tokarczuck (2022)

O excelente livro “Viagens” deu-me a conhecer esta escritora polaca ((Sulechow, 1962). Li-o em 2019, que foi o ano em que Tokarczuck recebeu o Nobel.

Depois desse livro, li todos os que foram publicados em Portugal: “Conduz o Teu Arado Sobre os Corpos dos Mortos”, “Outrora e Outros Tempos”, “Casa de Dia, Casa de Noite” e “Histórias Bizarras”.

Todas essas leituras fizeram com que Olga Tokarczuck se tornasse uma das minhas escritoras preferidas.

E surgiu, agora, este “Empúsio” – neologismo que é uma amálgama linguística de Empusa, figura mitológica grega e Simpósio.

A acção decorre em 1913 na cidade termal de Gorbersdorf, na Baixa Silésia. É lá que existe um famoso sanatório que permite a cura da tuberculose, graças a um conjunto de tratamentos que consistem, fundamentalmente, em repouso, boa alimentação, caminhadas, duches e massagens. Embora o bacilo de Koch já fosse conhecido, ainda não existiam os anti-tuberculostáticos, nem a BCG.

A principal personagem é um jovem engenheiro hidráulico, de Lviv, chamado Mieczyslaw. Está alojado na Hospedaria para Cavalheiros, onde vai conviver com mais quatro ou cinco personagens, todos homens, claro. Aproveitam as caminhadas e as refeições para, depois de beberem boas quantidades de uma tintura alcoólica, discutirem assuntos importantes como a morte, a religião, a arte, a democracia ou, acima de tudo, as mulheres, que eles menosprezam.

Diz Lukas (pág. 52):

“- As mulheres são por natureza mais delicadas e mais sensíveis e, por isso, tendem com facilidade a agir impensadamente”

Diz outro (pág. 54):

“- Nos homens, a força de vontade ajuda a combater alguma das tentações da loucura, mas as mulheres, que praticamente são desprovidas dela, não têm armas para lutar”

Diz o médico, o Dr. SemperweiB (pág. 173)

“- Cozinheira… Sabe que a culpa dos nossos fracassos é das nossas mães. São elas que moldam a nossa atitude para com o mundo e os nossos corpos. São estas as mais recentes descobertas de uma ciência chamada psicanálise. (…)

São as mães – prosseguiu – que contagiam os filhos com uma emotividade excessiva, o que faz com que fiquem vulneráveis a muitas doenças e fraquezas do espírito e, principalmente, a efeminação interior. A mulher, mutável e sempre instável, não é capaz de incutir no filho a consciência de que o mundo é o nosso desafio, que as suas leis são duras e a sua ordem exige de nós uma atitude sólida, com os pés bem assentes na terra, em vez de sucumbir a ilusões.”

Sobre a democracia e ideologias (pág. 120):

“- Bom senso e racionalismo. Tudo o que é mau advém de invenções e ideologias. Não há necessidade de acrescentar o que quer que seja ao mundo; o mundo é como vemos. É como é. Há leis que podem ser descritas. O seu número é finito. Algumas delas, ainda não as conhecemos. Deus existe e criou o mundo. Os seres humanos são, por natureza, canalhas; logo, precisam de ser controlados e de aprender constantemente. Os ricos são ricos porque são talentosos e têm bons contactos. Foi sempre assim e assim será sempre. A liberdade e a democracia podem existir, mas sem exageros. Os dez mandamentos são a matriz de todo o europeu, seja ele alemão, italiano ou romeno. Tem de haver algum tipo de ordem.”

Olga Tokarczuck escreve isto livro num tom irónico – aliás, o subtítulo demonstra essa ironia: “romance de terror naturopático”.

Ao que parece, todos os anos, aparece, na montanha que rodeia a aldeia onde fica o sanatório, o corpo de um homem jovem, todo esfrangalhado. Existem uns seres sobrenaturais – Tuntschi. Serão mulheres que emergem da Natureza?

O final é duplamente surpreendente: descobrimos quem está a narrar toda esta história e o protagonista sofre algo de inesperado.

Mas antes, não resisto a transcrever este excelente pedaço de prosa (pág. 243):

“Para já, sentimos os odores dos seus corpos que, saindo das camisolas, se elevam e ligam uns com os outros; são todos diferentes. Fommer cheira a pó, levemente almiscarado, um cheiro a papel seco, como se farfalhasse – o cheiro de uma pele velha, ressequida, de um porta-moedas desgastado. Lukas tem um cheiro forte – é um odor a medo e prontidão para a luta, a auréola invisível de um guerreiro insatisfeito que, tendo perdido a força física, participa numa guerra à distância, gritando ordens e comentando as jogadas dos estrategas. O cheio de August era completamente diferente – espalha vapores orgânicos de matéria podre, em breve consumidos por processo de putrefação e de decomposição das partículas do corpo; está rodeado de um cheiro a leite azedo, de despensa onde ficaram esquecidas reservas de comida, um cheiro já incontrolável mas ainda susceptível de se camuflar com água-de-colónia e um requintado sabonete para barbear. Por seu lado, Opitz está envolto numa nuvem de carboneto – um cheiro que faz ranger os dentes e salivar. Não há odor que possa ultrapassá-lo. Em contrapartida, Wojnicz espalha amplamente o seu cheiro, sem o saber. Enxota todos os outros cheiros, relegando-os para segundo plano, e domina-os; apesar de exalar esse odor, sente-se perdido e inseguro. É como se as suas feromonas estivessem carregadas de electricidade, avassaladoras, semelhantes ao cheio do pêlo de uma raposa ou de um cabrito que foge do caçador.”

Mais um grande livro de Olga Tokarczuck, traduzido do polaco, como sempre, por Teresa Fernandes Swiatkiewicz.