“Casa de Dia, Casa de Noite”, de Olga Tokarczuck (1999)

Diz-se que há escritores que escrevem sempre o mesmo livro.

Tokarczuck insere-se nessa categoria. Desde que ganhou o Nobel, em 2019, os seus títulos anteriores têm sido publicados em Portugal e verifico que, no fundo, a escritora polaca escreveu sempre o mesmo livro, embora sempre diferente.

Entrei em contacto com esta ex-psicóloga clínica através do excelente Viagens, de 2007. Li, depois, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de 2009, e depois, Outrora e Outros Tempos, de 1992.

Todos estes livros, a que dificilmente poderemos chamar romances, têm estrutura idêntica: são pequenos textos que nos vão contando pequenas histórias, são descrições curtas de lugares e de acontecimentos, como se fossem peças de um puzzle que nós vamos juntando na nossa cabeça. No final, quando terminamos o livro, ficamos com a impressão de que ficámos a conhecer aquele sítio e aquelas pessoas.

Este Casa de Dia, Casa de Noite, não foge à regra. A acção passa-se algures depois do final da segunda Grande Guerra, numa aldeola polaca que foi ocupada pelos alemães. A narradora vai-nos contando pequenas histórias, da sua vizinha Marta, dela própria, de um monge que queria ser rapariga, de um casal que enfrenta a rotina da vida, e de muitos outros.

Veremos se Olga Tokarczuck consegue manter este estilo nos seus próximos escritos.

“Raízes Brancas”, de Bernardine Evaristo (2008)

Gostei muito de Rapariga, Mulher, Outra, o livro com que esta escritora anglo-nigeriana venceu o Man Booker de 2019.

Fiquei com curiosidade em conhecer outras obras de Evaristo e a Elsinore editou agora um romance de 2008 e que foi uma desilusão.

A ideia é muito boa: Bernardine Evaristo cria um mundo em que os escravos são os brancos e os senhores são os negros, mas penso que não conseguiu dar a volta à excelente ideia que teve.

Neste livro, os negros, que são os senhores, castigam os escravos brancos, mandam-nos borda fora quando eles estão moribundos, vendem-nos em hasta pública, mas continuam a usar tangas e não me convencem como senhores do Mundo.

Evaristo acaba por construir uma história centrada numa escrava branca que, depois de algumas tentativas, consegue fugir.

Não me convenceu.

“A Morte de Jesus”, de J. M. Coetzee (2020)

Com este título, o escritor sul-africano, prémio Nobel em 2003, termina a trilogia que tem o jovem David como protagonista.

Quando, em 2013, li “A Infância de Jesus”, fiquei entusiasmado. Coetzee contava-nos uma história singular: um miúdo, David, e um homem, Simon, que não é seu pai, chegam a Novilla, uma cidade onde toda a gente deixa o passado para trás. Nesse primeiro volume da trilogia, Simon vai conhecer Inès e vai decidir que ela passará a ser a mãe de David que, vamos descobrindo a pouco e pouco, é um miúdo especial.

Por alguma razão Coetzee decide colocar o nome de Jesus nos títulos dos três volumes e, mesmo que não quiséssemos, acabamos por identificar David com Jesus e os restantes personagens da história com outras tantas figuras bíblicas.

O segundo volume, “Jesus na Escola”, no entanto, decepcionou-me. Li-o em 2018 e achei que o autor se deixou encantar pelo “mundo novo” que criou e decidiu tornar a história cada vez mais absurda – ou então, todas as peripécias narradas são alegorias, como, por exemplo, o facto de David se transformar num bailarino extraordinário, capaz de dançar os números.

Este terceiro volume continua na senda do anterior. David começa por se rebelar contra os pais adoptivos e decide ir viver para um orfanato, onde se quer tornar um grande jogador de futebol. No entanto, adoece subitamente com uma maleita que nunca vamos saber qual é, vai definhando e acaba por morrer. Depois da morte de David, o livro ainda se arrasta mais, com Simon à procura da mensagem que David deveria ter transmitido, mas ninguém sabe qual é – penso que nem o autor.

Coetzee é um dos meus autores contemporâneos preferidos, mas estes dois volumes da trilogia, desiludiram-se.

Nota: a capa da edição portuguesa não deixa de ser irónica para quem é adepto do Benfica…

“O País dos Outros”, de Leila Slimani (2020)

Leila Slimani nasceu em Rabat em 1981 e aos 17 anos mudou-se para Paris. Publicou o seu primeiro romance (No Jardim do Ogre) em 2014. Com o livro Canção Doce (2016), venceu o Prémio Goncourt.

Este O País dos Outros, publicado no ano passado, é o primeiro volume de uma trilogia e tem, como subtítulo, A guerra, a guerra, a guerra.

A acção passa-se em Marrocos, pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Mathilde, uma jovem francesa conheceu Amine, um marroquino, quando este servia no exército francês. Casaram-se e Mathilde abandonou tudo e foi viver com o marido para Marrocos, para uma quinta que ele herdou do pai.

Com um ritmo que nos faz querer avançar na história, Slimani vai relatando a vida dura de Mathilde, habituada ao modo de vida europeu e como teve que ir engolindo os seus sonhos de adolescente para se adaptar aos costumes de uma sociedade onde a mulher tem muito pouca importância.

Por outro lado, Amine, tendo servido no exército francês durante a guerra, vê-se dividido entre apoiar os desejos de independência dos seus compatriotas e manter-se fiel aos colonizadores, ainda por cima, sendo casado com uma francesa.

Aconselho.

“A Polícia da Memória” , de Yoko Ogawa (1994)

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, Japão, em 1962 e publicou mais de duas dezenas de romances e novelas.

Este “A Polícia da Memória”, editado no Japão em 1994, foi finalista do National Book Award for Translated Literature, em 2019, e finalista do International Booker Prize de 2020.

Depois de ler esta história, é impossível não nos lembrarmos de “1984”, de George Orwell, e, sobretudo, de “Farhenheit 451”, de Ray Bradbury.

A história desenrola-se numa ilha isolada onde, de vez em quando, desaparecem coisas, os laços do cabelo, sinos, as aves, caixas de música, barcos. De vez em quando, um determinado objecto desaparece da ilha, as pessoas estranham, mas acabam por habituar-se. E a Polícia da Memória tudo fiscaliza, para ter a certeza de que esses objectos desaparecem mesmo da memória das pessoas.

A narradora é uma romancista que vive sozinha, e cuja mãe foi levada pela Polícia da Memória porque, aparentemente, não se esquecia das coisas. Ela e um seu amigo, um velho marinheiro, vão acolher e esconder o seu editor, que também mantém a memória de tudo o que desapareceu na ilha; para ele constroem um quarto secreto, onde ele passa a viver, escondido.

Toda a história é uma imensa parábola sobre a resignação, sobre o facto de nos adaptarmos a tudo, até ao desaparecimento de coisas tão importantes para nós, mantendo-nos calados pelo medo.

Aconselho.

“Luto”, de Eduardo Halfon (2017)

Eduardo Halfon nasceu em 1971 na cidade de Guatemala, mudou-se para o sul da Florida aos 10 anos, regressou a Guatemala, onde foi professor de literatura. É considerado um dos melhores escritores latino-americanos da actualidade.

Este pequeno livro “Luto”, editado em 2017, ganhou diversos prémios literários (nomeadamente, o de melhor livro estrangeiro, em França) e lê-se numa tarde.

É uma escrita depurada, sem arabescos nem rodriguinhos. O tema é autobiográfico, o que parece ser uma característica deste autor.

O livro gira à volta da história de um irmão mais velho do escritor, um menino chamado Solomon, que terá morrido afogado no Lago Amatitlán, aos 5 anos – ou será que morreu numa Clínica, em Nova Iorque, vítima de uma doença incurável?

Recordando episódios da sua infância, de uma maneira ou de outra, marcados pela “imagem” da criança afogada, o autor viaja até junto do Lago Amatitlán, tentando descobrir se essa história terá sido mesmo verdadeira, ou não passará de uma lenda.

São 100 páginas que valem cada linha.

“Klara e o Sol”, de Kazuo Ishiguro (2021)

Kazuo Ishiguro (Nobel em 2017), escreveu um romance sobre o amor, mascarado de ficção científica.

Klara é uma AA, uma Amiga Artificial, um robot construído para fazer companhia a crianças.

Josie é uma rapariga que sofre de uma doença grave (nunca saberemos qual); teve uma irmã mais velha que morreu com essa doença. A mãe de Josie compra Klara não só para fazer companhia a Josie, mas também, talvez, para substituir Josie, se esta morrer.

O livro é narrado por Klara e ficamos a saber que este tipo de robots têm uma relação mística com o Sol, visto e sentido como um deus. Klara convence-se que será o Sol a salvar Josie, mas, para isso, o robot terá que fazer uma espécie de promessa.

Ishiguro escreve bem e consegue sugerir muitas coisas que, depois, nunca desenvolve, deixando-nos água na boca, mas, no fundo, é uma história de amor. Concluímos que nunca seremos capazes de amar um robot, embora o contrário, talvez possa acontecer. Lê-se com interesse, mas parece pouco para um escritor nobelizado.

“O Irmão Alemão”, de Chico Buarque (2014)

Aos 22 anos, Chico Buarque descobriu que tinha uma meio-irmão nascido na Alemanha. O seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, vivera naquele país entre 1929 e 1930 e aí tivera um filho com uma alemã, filho esse que terá, depois, sido entregue à Segurança Social e, mais tarde, adoptado.

Mas isso, Chico Buarque só descobriria quase 50 anos depois, quando decidiu procurar o rasto de Sérgio Ernst.

E esta história verdadeira serviu de inspiração para este livro, onde um Francisco de Hollander procura obsessivamente o seu irmão alemão, ao longo de décadas, aproveitando para nos contar um pouco da história recente do Brasil, nomeadamente os tempos da ditadura.

O narrador está permanentemente a imaginar cenários, caso encontrasse o irmão e ele fosse este ou aquele, tivesse tido esta ou aquela profissão, fosse ou não judeu, tivesse ou não sido detido nos campos de concentração nazi, ou, pelo contrário, tivesse ele próprio sido um nazi.

De presunção em presunção, os anos vão passando, os pais de Francisco de Hollander morrem e ele acaba por viajar até à Alemanha, onde, de pista em pista, acaba por descobrir, finalmente, o que aconteceu ao seu irmão alemão. Muito bom!

“A Escola de Topeka”, de Ben Lerner (2019)

Ben Lerner, nasceu na cidade de Topeka, no Kansas, em 1979 e, com este livro, foi finalista do Pulitzer – livro que foi considerado um dos dez melhores livros do ano para o New York Times.

No entanto, para mim, foi um livro difícil, com uma temática muito “americana”. Conta-nos histórias de uma família de psicoterapeutas e da comunidade que vive em seu redor, em Topeka.

Cada capítulo refere-se a uma das personagens do livro (Jane, Jonathan, Adam…) e ficamos a conhecer um pouco do passado destas pessoas, o seu presente e, no último capítulo, o futuro.

O livro foi escrito já durante o “reinado” de Trump e o autor mostra bem a sua repulsa pela governação daquela criatura.

No último capítulo, conta-se a participação de Adam, da sua mulher e de uma das suas filhas, numa manifestação contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement) e a maneira como esta instituição tratava as crianças, filhas dos chamados imigrantes clandestinos. Um livro interessante, mas irregular. Os capítulos dedicados a uma espécie de concurso de oratória são, como disse, demasiado “americanos”.

“O Fim”, de Karl Ove Knausgard (2011)

Que alguém me dê os parabéns: consegui acabar hoje o 6º volume de A Minha Luta, monumental autobiografia romanceada da autoria do norueguês Karl Ove Knausgard.

Este 6º volume, intitulado O Fim, tem 1094 páginas e pesa cerca de um quilo e 400, o que faz com que os seis volumes totalizem cerca de 3500 páginas.

É obra, caramba!

Neste último volume, Knausgard lamenta-se, nas primeiras 200 páginas, do que escreveu no primeiro volume, A Morte do Pai, e do que isso provocou na família do seu pai, nomeadamente no seu tio Gunar, que o ameaça com o tribunal, dizendo que ele mentiu quando disse que o seu pai morreu depois de dois anos de alcoolismo intenso.

Como é habitual, entre os lamentos, leva os três filhos ao jardim-escola, põe a loiça na máquina, vai fumar para a varanda ou discute com a mulher, Linda.

Depois, seguem-se 400 páginas sobre Hitler. Knausgard decidiu incluir neste volume um extenso ensaio sobre a ascensão do ditador. Confesso que passei algumas páginas à frente, sem as ler.

Depois, disso, o autor relata o sucesso dos seus livros, que vão saindo, o modo como eles são notícia em todo o lado, como, de repente, se transforma numa espécie de ícone pop e, nas últimas centenas de páginas, relata mais uma crise de Linda, que é bipolar e que, alterna momentos de intensa mania com depressões profundas, acabando por ser internada num hospital psiquiátrico.

E tudo isto é, sempre, relatado ao mesmo tempo que Knausgard muda a fralda a John, ou dá o pequeno-almoço a Vanja e Heidi, ou vai até à horta urbana arrancar ervas, ou dá entrevistas a jornais e revistas.

É óbvio que Knausgard é um narcisista convicto e, apesar de se revelar um tímido, que odeia multidões e contactos sociais, adora falar sobre si próprio e toda esta obra é uma demonstração de narcisismo.

Fui lendo os diversos volumes, ao longo dos últimos seis anos e gostei mais de uns do que de outros; sem dúvida que o primeiro, A Morte do Pai, foi o que mais me marcou, devido à novidade da escrita, mas este último também me agradou bastante.

Os outros volumes estão aqui: A Morte do Pai; Um Homem Apaixonado; A Ilha da Infância; A Dança no Escuro; Alguma Coisa Tem Que Chover