“Elizabeth Finch”, de Julian Barnes (2022)

Gosto de ler o que este escritor britânico escreve. Gosto da sua escrita elegante e do seu sentido de humor. Este “Elizabeth Finch” é já o décimo livro que leio de Julian Barnes, e talvez o que menos me interessou.

Elizabeth Finch dá aulas de Cultura e Civilização a adultos. A sua pose, a sua maneira de pensar, desperta em Neil, um seu aluno e narrador do livro, uma tenção que roça o amor. Quando morre, Elizabeth deixa a esse seu aluno os seus cadernos de apontamentos e Neil decide organizar aquilo que poderá vir a ser uma biografia da professora.

No fundo, penso que Barnes utilizou este subterfúgio para nos falar de Justiniano, o Apóstata, imperador romano “escritor prolífico, que ditava com tanta rapidez que os seus taquígrafos eram muitas vezes incapazes de o acompanhar. (…) Um texto central é «Contra os Galileus», no qual ele expõe as suas objeções à religião cristã.”

Elizabeth Finch, servindo-se do exemplo de Justiniano, que dizia, por exemplo, que o cristianismo destruía os seus inimigos em nome do amor, acrescentava que “um dos segredos do êxito da religião cristã foi ter sabido servir-se sempre dos melhores cineastas”.

Um livro curioso, apenas isso.

Outros livros de Julian Barnes: Nada a Temer (2008); A Única História (2018); O Homem do Casaco Vermelho; O Ruído do Tempo (2016); O Sentido do Fim (2011); Arthur & George (2005); Amor & Etc (2000);

O Exército prefere militares sujos?

Uma noticia de hoje deixou-me perplexo:

“Seis militares com processos disciplinares por se filmarem a tomar banho em panelas”

A notícia explica que seis militares do Regimento dos Comandos são objecto de processos disciplinares depois de terem sido divulgadas imagens em que eles se mostram “a tomar banho dentro de grandes panelas da cozinha militar do quartel de Belas”.

E fiquei perplexo porque não percebi bem a coisa.

Parece que os militares são alvo de processos disciplinares por se terem filmado – concluindo-se que, se tivessem tomado banho nas panelas, mas não se tivessem filmado, a coisa passava. Ou ainda, se se tivessem filmado, mas não tivessem divulgado as filmagens, ainda vá que não vá…

Agora, tomar banho nas panelas, filmar e divulgar, é que não.

No entanto, convém perguntar: por que razão os militares decidiram tomar banho nas panelas da cozinha? Não terá sido por falta de banheiras como deve ser? Os duches dos quartéis não serão incómodos, antiquados, demasiado sobrepovoados?

É que numa panela daquelas, mesmo muito grande, só cabe um militar, enquanto nos duches comunitários da tropa, é tudo ao molho.

Incómodo, sem dúvida…

Vi as imagens na televisão.

Os militares estão sorridentes, obviamente felizes e limpos!

Processos disciplinares para quem se quer lavar? Acho mal…

Expresso – Liberdade para pensar torto

O título da primeira página do Expresso de hoje grita:

“Governo chumba nos primeiros seis meses”

E, por baixo deste título:

“Executivo passa do céu ao inferno e recebe pior avaliação em três anos; Medina à frente de Pedro Nuno na sucessão no PS; Almirante Gouveia e Melo é o preferido para Presidente”

Esta manchete é reproduzida nas revistas de imprensa de todos os canais televisivos de notícias e citada nos boletins noticiosos das rádios. É a força do Expresso.

A referida manchete tem uma chamada para a página 8.

Abrimos o jornal na página 8 e, consultando os diversos gráficos que resultam da sondagem do ICS/ISCTE, chegamos às seguintes conclusões:

– se as eleições fossem repetidas agora, o PS continuava a ganhar com 37% dos votos, contra os 28% do PSD

– os partidos do centro-esquerda (PS, BE e PCP), teriam 45% dos votos, enquanto os da direita e extrema-direita (PSD, Chega e IL), teriam 42%

– a diferença entre os que acham que a actuação do governo é má ou muito má e os que acham que é boa ou muito boa, é apenas de 7%

– Gouveia e Melo é, de facto, a personalidade com mais possibilidade de ser eleito Presidente (4,7 pontos em 10), mas é seguido de perto por António Costa, o líder do tal governo que passa do céu ao inferno, com 4,4 pontos em 10.

Parabéns a Francisco Balsemão e ao liberal-reacionário João Vieira Pereira: que merda de jornal detêm e dirigem!

Fernando Santos e o Benfica triste

  • Texto escrito em agosto de 2007

Sou do Benfica desde o tempo em que brincava com barquinhos de papel nas poças de água que os funcionários da Junta de Freguesia faziam, em redor dos grandes troncos das árvores da avenida Gomes Pereira. Ainda alguém se lembra do tempo em que funcionários públicos regavam as árvores das ruas da cidade? Claro que quase ninguém se lembra disso. Nesse caso, já estão a ver há quanto tempo sou do Benfica.

Vi jogar o Ângelo, o Cávem, o Costa Pereira, o Germano, o Coluna, o José Águas, o José Augusto, o Simões, o Eusébio, o Torres.

E muitos outros, depois deles.

E nunca vi o Benfica tão triste como agora, treinado pelo Fernando Santos.

Triste, deprimido, sem garra, sem chama.

Ontem, o Rui Costa ganhou 2-1 ao Copenhaga e Fernando Santos disse: «entrámos bem, com personalidade e a trocar bem a bola. Controlámos o jogo e depois a incapacidade de Luisão marcou a partida, porque sentimos que a equipa se desorientou. Ao intervalo, reorganizei a equipa e na segunda parte controlámos mais.»

De que jogo falava Fernando Santos?

Não, certamente do de ontem.

O homem é triste e está a transformar o Benfica numa equipa triste.

Prefiro um Benfica a perder, mas com alegria, do que este Benfica cinzento.

Não há por aí alguém com paciência para iniciar uma petição para despedir mais este engenheiro?

Estou farto de engenheiros, caramba!

O desenhador

Nas suas horas de lazer, gostava de se sentar na esplanada do pequeno café e desenhar.

Com o lápis bem afiado e o bloco de papel cavalinho, desenhava casas, autocarros, transeuntes.

Certo dia (estas coisas acontecem sempre certo dia), uma jovem acercou-se dele. Era perturbadoramente bela e o lápis logo lhe tremeu.

“Quer desenhar-me?” – perguntou ela e a sua voz era música.

Ele fez que sim com a cabeça, com a garganta demasiado seca para falar.

“Então eu vou posar ali…” – disse ela, apontando para o passeio em frente da esplanada.

E com uma elegância celestial, atravessou a rua, subiu ao primeiro andar do prédio em frente e atirou-se da janela. Infelizmente não conseguiu pousar e esborrachou-se no passeio.

Foi muito mais difícil desenhá-la naquele estado…

in Pão com Manteiga, 3ª temporada, 9/7/1988

“Divórcio”, de Susan Taubes (1969)

Livro inovador, este.

Susan Traubes (1928-1969), nasceu em Budapeste, na Hungria, no seio de uma família judaica, filha de um psicanalista e neta de um rabino. Emigrou para os Estados Unidos, furtando-se à perseguição nazi; estudou Religião e Filosofia, foi professora, casou-se com o filósofo e académico Jacob Taubes. Mulher cosmopolita, foi amiga íntima de Susan Sontag. Publicou o seu único romance, Divórcio, em 1969 e pouco depois suicidou-se por afogamento, com 41 anos.

Este romance – que não é bem um romance, misturando biografia, sonhos, memórias – é, de facto, inovador, considerando que foi publicado no final dos anos 60 – inovador não só ao nível da estrutura, mas também na linguagem, considerando que foi escrito por uma mulher.

A protagonista do livro, Sophie, será um alter ego da autora e toda a sua história de vida está relacionada com o judaísmo e com a psicanálise.

“Na escola de medicina onde ele estudava histologia cerebral, a teoria de Freud era comentada jocosamente como sendo a «técnica que os homens adultos usam para falar com jovens raparigas acerca de coisas obscenas»”.

A linguagem. Também a linguagem deste livro é diferente…

“Uma noite, quando ela estava a realizar o ofício sgarado da felação, ordenei-lhe que dissesse o Pai Nosso ao meu olho do cu. Ou uma Ave Maria, ao menos. Em vez disso, ela começou a berrar o Shemá Israel pelas minhas tripas acima. Não a deixei continuar. «Devias ter vergonha», disse ela, «a praticar sacrilégio com a religião das outras pessoas. A tua não é suficientemente sagrada?» ela era uma grande mulher. Sophie Blind continua a ser minha mulher até à vinda do Messias.”

História de Uma Maria dos Prazeres

Maria dos Prazeres não os tinha.

Sedenta de prazer, Maria dos Prazeres procurava-os todos os dias da sua vida. Em vão.

Não sentia o prazer da mesa, não sentia prazer com uma excelente bebida gelada, o sono não lhe dava prazer, o sol lambendo-lhe a pela era-lhe indiferente. També não era no amor que Maria dos Prazeres os encontrava. Saltitou de amante em amante, sempre sem prazer. Experimentou tudo o que havia para experimentar e, de prazer, nada.

Desesperada, Maria dos Prazeres foi ao médico.

O clínico escutou-lhe a hitória e, interessado, pediu-lhe que se deitasse sobre a marquesa.

“Relaxe-se” – disse o médico.

Maria dos Prazeres relaxou-se.

“Relaxe-se ainda mais” – pediu o médico.

Maira dos Prazeres relaxou-se ainda mais.

O médico aproximou-se e colocou o estetoscópio sobre o tórax de Maria dos Prazeres.

Foi o êxtase.

Hoje vivem felizes, Maria dos Prazeres e o estetoscópio.

  • in Pão Com Manteiga, 3ª temporada, 9.7.1988 e A Capital, 21.7.1988

“Oh William!”, de Elizabeth Strout (2021)

De Elizabeth Strout, tinha lido o excelente “Olivia Kitteridge”, livro com o qual venceu o Pullitzer.

Neste “Oh William”, Strout retoma uma sua personagem, a escritora Lucy Barton que, num tom coloquial, nos conta alguns episódios da sua vida e do seu relacionamento com um dos seus ex-maridos, William, que descobre que, afinal, tem uma meia irmã, de quem a sua mãe nunca lhe falou.

O livro tem uma estrutura narrativa contínua, isto é, não está dividido em capítulos, mas em pequenos textos em que a narradora, Lucy, nos vai contando o que se passa, como se estivesse sentada na nossa sala.

Fiquei com muita curiosidade em conhecer os restantes livros desta escritora.

Como combater a insónia

E há também aquela história do homem que sofria de insónias.

Experimentou contar carneiros: Mário de Sá Carneiro, Carneiro Jacinto, Roberto Carneiro, Sá Carneiro, Soares Carneiro…

Não resultou.

Foi então que descobriu um sistema infalível.

Naquela noite deitou-se, semicerrou os olhos e começou a contar Antónios: António Vitorino de Almeida, António José Saraiva, António Calvário, António Salazar, Francisco António Sá Carneiro, António Spínola, António Costa Gomes, António Ramalho Eanes, António Lopes Ribeiro, António Lobo Antunes, Marco António, António Guterres, António Costa…

  • in Pão com Manteiga, 3ª temporada, 21.5.1988

God bury the queen!

Não há meio de enterrarem a senhora, caramba!

Desde que a rainha morreu, já lá vão cinco dias, que as televisões não largam o osso! Longas e intermináveis reportagens sobre o protocolo London Bridge preenchem os telejornais e os repórteres, de vestido negro, elas, de gravata preta, eles, com ar compungido, descrevem-nos, ao pormenor, o dito protocolo.

Ficamos a saber a que horas o corpo da rainha sai de um lado e vai para outro, a que horas o novo rei calça os sapatos e aperta o nó da gravata, quantos dias vai ficar o féretro – sim, o féretro, porque a realiza vai num féretro, enquanto a malta vai num caixão – quantos dias o féretro vai ficar exposto para que os súbditos possam ir prestar a sua vassalagem, e mais uma série de pintelhices, como se eu precisasse de saber essas coisas, como se eu fosse alguma vez olhar para um caixão, ainda por cima de uma rainha, ainda por cima estrangeira!

Claro que eu posso sempre desligar a televisão, mas o hábito é antigo; desde pequenino que vejo telejornais…

A saloiice das televisões tem sido manifesta, o espanto dos repórteres é evidente, os apresentadores salivam-se e ainda faltam mais cinco dias para isto tudo terminar.

Será a altura de alterar um pouco o hino e gritar God bury the queen!

Please!