Centeno: foi grande, agora é pequeno?

Conhecem aquela anedota idiota (como todas as anedotas), do homem que, após uma performance sexual atlética, não consegue dar a terceira e que, por esse fracasso, é apelidado de mariquinhas?

É o que se passa com o ex-ministro das Finanças Mário Centeno.

O homem pegou no país, com um défice assinalável, deu a volta às finanças, conseguiu o primeiro superavit da democracia e agora, cinco anos depois, provavelmente cansado e farto disto tudo, decide sair – e logo é apelidado de fraquinho, cobarde, mariquinhas.

Enormes especialistas que sempre o criticaram por ser o rei das cativações, acusam-no, agora, de se ir embora quando mais era necessário.

Não se percebe: afinal, o homem era muito bom, mesmo quando cativava milhões?

Muitos estão zangados com Centeno porque, dizem, ele o que quer, é ir para o Banco de Portugal. E acham mal porquê? Porque o homem não é competente para chefiar aquilo? Porque há mais dois ou três candidatos tão bons, ou melhores, do que ele?

Parece que nunca houve um ministro das Finanças tão popular como Centeno. Se alguém perguntar ao Manuel da mercearia ou à Dona Isabel, do cabeleireiro, como se chamava o ministro das Finanças do Passos Coelho, aposto que nenhum deles sabe responder – mas conhecem, de certeza, Mário Centeno.

Ora, os inimigos do governo do Costa, deviam estar contentes com a saída deste ministro tão popular, mas não, parecem estar todos muito zangados, parece que gostariam todos que Centeno continuasse no seu lugar.

Longe vão os tempos em que o eminente Passos Coelho se riu, em plena Assembleia da República, da prestação de Centeno, na altura, um iniciado na política, demonstrando um evidente nervosismo.

Passados pouco mais de quatro anos, todos elogiam a actuação de Centeno, excepto dois ou três especialistas, como um tal Gomes Ferreira, especialista, também, em incêndios e em muitas outras matérias.

Estes são os tais que nunca são responsabilizados por coisa nenhuma, uma vez que por nunca coisa nenhuma são responsáveis.

Centeno foi grande e agora é pequeno?

Não – Centeno limitou-se a fazer o que nunca foi feito.

“Chuva Miúda”, de Luis Landero (2019)

Luis Landero (Badajoz, 1948), é um escritor espanhol, considerado um dos mais influentes da actualidade. Licenciado em Filologia Hispânica, leccionou Literatura e foi professor convidado em Yale. Estreou-se na literatura em 1989 e, desde então, publicou inúmeros títulos.

Este Chuva Miúda é um romance muito interessante, em grande parte escrito em discurso directo, o que o torna muito vivo ao longo de toda a narrativa.

Gabriel é o mais novo de uma fratria de três. Professor de Filosofia, casado com Aurora, professora do ensino básico, Gabriel decide organizar uma festa para comemorar o 80º aniversário da sua mãe.

Esta decisão provoca uma sucessão de acontecimentos, de que é testemunha Aurora. Ela é o receptáculo das queixas de todos os elementos da família. Com toda a paciência, Aurora escuta as queixas de Sónia, a irmão mais velha de Gabriel, que foi obrigada a começar a trabalhar aos 14 anos, na retrosaria da mãe, desistindo do seu sonho de estudar, formar-se e viajar. Escuta também as queixas de Andrea, a irmã do meio, que gostaria de ter tido uma carreira musical, algo que também não conseguiu. A culpada de tudo isto parece ter sido a mãe dos três irmãos, viúva desde muito cedo, pessoa rígida e que obrigou a Sónia a casar com o Horácio que, porventura, estaria apaixonado por Andrea.

Por outro lado, tanto Sónia como Andrea, tinham inveja de Gabriel, que seria o menino bonito da mamã.

Aurora escuta todas estas queixas, encaixa tudo isto… até um dia…

Recomendo vivamente.

“Na Floresta”, de Edna O’Brien (2002)

Edna O’Brien é uma escritora irlandesa que completará, em dezembro, 90 anos.

Em 2002 editou este livro, cuja história se baseia num caso real. Conforme diz a nota da própria autora, em 1994, uma mulher de 29 anos, o seu filho de 3 anos e um padre desapareceram numa localidade irlandesa, sendo depois encontrados, já mortos. O culpado foi um jovem local que, num acesso psicótico, os raptou e matou.

O livro relata todo este episódio nefasto, modificando o nome das personagens e romanceando os acontecimentos. O jovem psicótico chama-se O’Kane e desde muito novo que frequenta casas de correcção; quando regressa à sua aldeia natal, está em plena crise psicótica, com delírios e alucinações auditivas.

O resultado só podia ser trágico.

Apesar de estar bem escrito, com algum lirismo, penso que falta qualquer coisa à descrição de uma crise psicótica particularmente violenta. Pelos vistos, O’Brien, apesar de viver, desde muito jovem, em instituições para jovens problemáticos, nunca foi diagnosticado como esquizofrénico e nunca fez medicação.

A edição da Cavalo de Ferro, em nenhum lado refere que o livro foi editado há 18 anos.

O estranho vírus que ataca o queixo das pessoas

A população está em pânico.

As autoridades de saúde falam num vírus que se transmite pelas gotículas da saliva, mas as pessoas desconfiam. Toda a vida cuspiram para o chão e nunca houve problemas e nunca ninguém viu nenhuma dessas gotículas que os especialistas falam.

Pelo contrário, toda a gente fala de um vírus novo que ataca preferencialmente o queixo das pessoas: agarra-se com os seu tentáculos e parece que penetra através da pele, instalando-se, depois nos pulmões, provocando pneumonias muito graves.

Felizmente, as pessoas têm contas no Facebook e perceberam que podiam defender-se desse novo vírus usando máscaras que protegessem o queixo.

Tenho visto muita gente com máscaras nos queixos. Que civismo!

No entanto, não há unanimidade neste ponto.

Há algumas faixas da população que pensam que o vírus não ataca o queixo, mas sim o pescoço, pelo que a máscara deve ser colocada ao nível da chamada maçã de Adão.

Uma minoria da malta, acredita – sabe-se lá porquê! – que o cabrão do vírus entra pelo couro cabeludo e, nesse caso, a máscara deve ser colocada na cabeça, como se fosse um daqueles chapéus ridículos dos palhaços ricos.

E depois, há sempre os originais que, não acreditando em nenhuma destas teorias, usam a máscara pendurada de uma das orelhas, ou enfiada num braço, como se fosse uma pulseira.

Ora, eu penso que as autoridades de saúde deviam ter um papel pedagógico nisto tudo e deviam explicar por que razão o vírus se chama corona.

Sabemos que corona quer dizer coroa e pensamos: será um vírus monárquico para corroer a República?

Mas depois, sabemos que ele está a fazer estragos em Espanha e na Suécia, que são monarquias, e pensamos: será um vírus republicano, a lixar as monarquias e que se expandiu para algumas repúblicas?

Ou então, o nome corona vem da marca de cerveja mexicana e o vírus é uma invenção dos vitivinicultores para lixar a indústria cervejeira.

Ou então, já bebi whisky a mais e não escrevo mais nada hoje…

“Os Testamentos”, de Margaret Atwood (2019)

Com esta sequela de A História de Uma Serva, Margaret Atwood ganhou o Booker Prize de 2019.

Quem está à espera de um final decisivo para a distopia inventada pela escritora canadiana, vai ficar desiludido, porque ela se limita a deixar pistas, embora muito fortes, para que nós imaginemos o que se passou, depois da fuga da República de Gilead, de Nicole e de Agnes, e do diário confessional da Tia Lydia.

Atwood construiu este livro com três narradoras: a Tia Lydia, uma das fundadoras de Gilead e que decide escrever uma espécie de diário, em que confessa o seu plano para destruir o que ajudou a criar, Agnes, uma jovem que consegue evitar o seu casamento com o Comandante Judd, tornando-se Tia, e Nicole, a filha de um serva fugitiva, que vive no Canadá, mas que é introduzida em Gilead pelo movimento Mayday, para tentar corroê-lo por dentro.

O livro está escrito para quem leu A História de Uma Serva e só faz sentido, penso eu, se se ler, primeiro aquele. Muitas das particularidades da República de Gilead só se percebem completamente, se se tiver lido o primeiro livro.

Margaret Atwood escreve bem, está à vontade no que respeita a criar suspense e, por isso, o livro prende-nos, do princípio ao fim, mas já não tem aquele sabor de novidade que tinha o seu antecessor.

Gostaria que a autora escrevesse uma prequela. Fiquei sem saber como nasceu Gilead e o que foi a guerra de Manhattan.

O Covid 19 transmitido pelo Senhor

No domingo de Páscoa, algumas almas caridosas decidiram levar o Senhor a beijar aos velhinhos dos lares.

Num lar em Vila Verde, o senhor prior trouxe o crucifixo que, nesta época do ano, toma o nome específico de compasso e uma das empregadas do lar, devidamente mascarada, levou-o a cada um dos velhinhos, para que o beijassem. Entre cada beijoca, a empregada limpava a saliva do velhinho do corpo do Senhor, com um paninho, sempre o mesmo.

Enquanto a empregada ia oferecendo o crucifixo a cada velhinho, o padre ia cantando Aleluia, Aleluia, mas não era a do Leonard Cohen, e o padre estava desafinado. Via-se que alguns dos idosos beijavam o Senhor com alguma displicência, fruto, talvez, de perturbações neurológicas próprias da idade avançada.

Alguém filmou esta cena pungente e colocou-a no Facebook, para que todos pudessem ver como se celebra a Páscoa em Vila Verde, em tempos de pandemia.

No vídeo, vê-se a empregada a dar o crucifixo a beijar a um velhinho muito trôpego que, coitadinho, lambuza o corpo do Senhor todo; a empregada limpa-o com o paninho e oferece o crucifixo ao velhinho seguinte, que recusa beijar o Senhor. Algum ateu, certamente. Como podem aceitar ateus destes em lares tão pios?

Há outro vídeo que circula por aí, feito numa rua de Barcelos e que mostra uma senhora, também muito pia, segurando um crucifixo XL. Os crentes, guardando a devida distância entre si, por causa do coronavírus, atravessam a estrada, à vez, para beijar o Senhor.

Finalmente, num outro lar, em Melgaço, a própria directora do lar decidiu levar o Senhor a beijar aos velhinhos residentes. Entre cada ósculo, borrifava o corpo do Senhor com um desinfectante em spray. Esta piedosa senhora foi mais longe, visitando também alguns velhinhos que ainda vivem nas respectivas residências. Anunciava a sua chegada com o tilintar de um sininho, oferecia uma máscara ao idoso e ele beijava o Senhor através da máscara.

A razão deste pormenor, escapou-me. Por que raio é que os velhotes internados não tiveram direito a uma máscara? A culpa é do Governo, que não fornece máscaras em quantidade suficiente.

A directora deste lar de Melgaço explicou, no Facebook, que os velhinhos estavam há muito tempo sem visitas, muito tristes e desanimados e, assim, levando-lhes o Senhor a beijar, eles ficaram mais felizes.

E mais infectados, acrescento eu – mas isto sou eu, um ateu empedernido, que nunca beijou o Senhor…

Perante estes casos, percebe-se melhor por que razão há muitos mais casos de coronavírus do Norte do que no resto do país.

Por isso, penso que as autoridades de Saúde deveriam divulgar o seguinte aviso:

A DGS ACONSELHA:

FAÇA O TESTE DO COVID 19 ANTES DE BEIJAR O SENHOR

“Corpos Celestes”, de Jokha Alharti (2010)

Jokha Alharti nasceu em Omã em 1978 e venceu o Man Booker International Prize de 2019 com este romance curioso, o que não deixa de ser surpreendente, dado tratar-se de uma mulher, nascida num país muçulmano.

O livro conta-nos a história de diversas personagens relacionadas entre si, todas vivendo em Al-Awafi, uma localidade perto de Mascate, a capital. Está dividido em pequenos capítulos, cada um deles dedicado a uma dessas personagens.

O mais interessante do livro nem são as pequenas histórias de cada uma das personagens, mas sim os usos e costumes de Omã que a autora vai revelando ao longo da narrativa. As crendices ligadas ao parto, à saúde, ao casamento, as orações e as rezas a seres fantásticos, como fugir às suas sentenças, e ainda adoração pelos grandes poetas árabes.

As figuras centrais são três irmãs: Mayya, Asma e Khawla.

Mayya casa com Abdallah, por decisão e contrato entre as duas famílias. Asma casa com Khalid com o único objectivo de ter filhos. Kawla recusa-se a casar por contrato e espera pelo regresso de Nasir, que emigrou para o Canadá.

No entanto, outras personagens são importantes no desenrolar da narrativa, como é o caso da escrava Zarifa e de Qamar, uma beduína muito bela, que se torna amante do pai das três irmãs.

Muito curioso.

Rituais da pandemia

O novo coronavírus introduziu na minha vida, outros rituais – e como eu gosto de rituais!

O principal consiste na lavagem das mãos.

Lavar as mãos dezenas de vezes por dia é o sonho de qualquer obsessivo-compulsivo e essa malta deve estar muito feliz com este conselho da OMS. batem no peito (com luvas) e dizem vêem como eu tinha razão?!…

Tenho seguido esse conselho e lavo as mãos tantas vezes que já as tenho mais brancas que o resto do corpo. No outro dia, no duche, até pensei que eram as mãos de outra pessoa que me estavam a ensaboar certas partes do corpo, o que até é uma ideia interessante.

Em tempos, tive um doente que me dizia que podia não lavar os dentes, mas que lavava sempre o rabo depois de evacuar.

Ora aqui está uma recomendação que a DGS devia fazer a todos os portugueses: não se fiquem pelas mãos – lavem também o rabo. O Covid ataca por onde menos se espera!

Dizem as autoridades de saúde que devemos lavar as mãos durante o tempo que demora a cantar o Parabéns a Você. Confesso que já estava farto dessa canção. Comecei a variar. Troquei o Parabéns pelo All Together Now, dos Beatles, que demora 60 segundos a cantar. Fartei-me depressa e, com a minha mania de ser intelectual, fui mudando para temas mais eruditos. Agora lavo as mãos enquanto trauteio o último andamento da Nona do Beethoven. Chego ao fim com as mãos esfoladas.

Mas limpas!

Outro ritual consiste em descalçar os sapatos antes de entrar em casa.

Como uso ténis, a coisa não tem sido muito complicada.

No entanto, o facto de ser já quase septuagenário e de não frequentar as aulas do meu PT há quase um mês, faz com que me desequilibre quando tento descalçar os ténis para entrar em casa. No outro dia, ia caindo pelas escadas abaixo…

Estou a pensar a passar a andar descalço.

É capaz de ser mais fácil lavar os pés do que descalçar os ténis sempre que chego a casa.

Pois, já sei o que vão dizer: que devia ficar em casa. E fico, a maior parte do tempo.

Mas preciso de ir comprar pão e fruta e legumes.

Quando vou, levo sempre um papel de cozinha, para carregar nos botões do elevador. O problema é que também uso papel de cozinha para me assoar e, por vezes, confundo os dois papéis e, no outro dia, tive que ir lavar os botões do elevador, que estavam cheios de ranho meu.

Quando vou à mercearia, espero na fila, afastado do outro cliente cerca de metro e meio.

Por vezes, guardo uma distância maior, como naquele dia em que estive atrás de uma senhora que devia estar muito doente porque tinha a máscara no pescoço. Ora se a senhora já tinha a tiróide infectada, devia estar mesmo doente!…

Por outro lado, acabo por admirar aquela malta que fuma de luvas.

Eu já fui fumador e sei o que é um tipo estar por tudo: que se lixe! Se vou morrer de cancro do pulmão, por que não de Covid 19? E então, é mexer em todo o lado com as luvas e, depois, levar o cigarro à boca. Morre-se mais depressa, é escusado estar à espera do cancro.

E pronto, se me lembrar de mais rituais, eu digo.

Até lá, fiquem em casa e lavem as mãos!

“Sete Casas Vazias”, de Samanta Schweblin (2015)

Nascida em Buenos Aires, em 1978, Samanta Schweblin é considerada uma das melhores escritoras em língua espanhola, das gerações mais jovens e dizem ser seguidora do realismo mágico de Julio Cortazar.

Não há dúvida que Samanta S. escreve muito bem e que as suas histórias têm uma mistura de realismo com alguma loucura.

Na melhor destas sete histórias, Lola, uma velha que quer morrer, mas não consegue, vai juntando roupas e objectos pessoais em caixas, que guarda na garagem, ao mesmo tempo que alimenta uma guerra surda contra o marido e desconfia da nova vizinha do lado e do seu filho.

Noutra história, um recém-divorciado visita os dois filhos, que vivem com a ex-mulher e o seu novo companheiro; leva, nessa visita, os seus pais que, por razões que desconhecemos, andam aos pulos no quintal, todos nus.

Na última história, a narradora é uma criança que, nesse dia, faz 8 anos; a sua irmã, de 3 anos, bebe lixívia e os pais, aflitos, pegam nas duas filhas, metem-se no carro e seguem para o hospital. Como o trânsito está entupido, o pai pede à mais velha que tire as cuecas, que são brancas, e ele vai acenando com elas, para assinalar a emergência.

Histórias curiosas e uma escrita que nos prende.