“Sabrina”, de Nick Drnaso (2018)

June 17th, 2019

Nick Drnaso (1989, Palos Hills, Ilinois) é um autor de novelas gráficas norte-americano.

“Sabrina” conseguiu ser a primeira novela gráfica a ser nomeada para o Booker Prize.

As críticas foram entusiásticas e unânimes e, por exemplo, Zaddie Smith (a escritora britânica de ascendência jamaicana) considera-a uma obra-prima, “maravilhosamente escrita e desenhada, possuindo todo o poder político da polémica e em simultâneo, toda a delicadeza da verdadeira grande arte.”

Confesso que não fiquei tão entusiasmado, depois de ler e ver as quase 200 páginas de “Sabrina”.

O fio da história é isso mesmo, um fio. Sabrina, que nós nunca chegamos a conhecer, desaparece e, mais tarde, ficamos a saber que foi assassinada.

O que o autor nos mostra são as reacções de amigos e familiares e como as suas vidas são alteradas pelo desaparecimento de Sabrina.

A história é contada em quadradinhos muito despojados, minimalistas; os desenhos são muito simples, geométricos e as figuras humanas têm poucas expressões faciais. Todos parecem tristes e deprimidos e é esse o tom geral da novela: tristeza e depressão.

Para quem, como eu, está habituado à banda desenhada, digamos, clássica (do Astérix aos heróis da Marvel), este Nick Drnaso abriu uma nova porta, sem dúvida.

Mas, como romance, prefiro os que não têm bonecos…

Não deitem religiosas para o chão!

June 16th, 2019

O PAN está a revolucionar o panorama político português.

Desta vez, graças ao peso eleitoral que conseguiu nas eleições europeias, convenceu os outros partidos a votar a favor desta medida verdadeiramente importante para o futuro de Portugal: a partir de agora, é proibido deitar beatas para o chão.

“Parlamento aprova multas pesadas para quem deitar beatas para o chão”

Por outras palavras: a partir de agora, os padres estão proibidos de passar rasteiras às freiras e, assim, fazer com que elas se estatelem no chão.

Será mesmo o fim das beatas no chão!

Entretanto, na Catedral Notre Dame, uma equipa de padres celebrou missa de capacete.

As fontes oficiais dizem que usaram capacete para se protegerem de eventuais quedas de restos do incêndio que consumiu parte da catedral.

Mas quer-me parecer que os padres começam a ficar com medo que Deus lhes envie qualquer coisa, vinda do céu, para os castigar por andarem a apalpar meninos.

Pelo sim, pelo não, usam capacete, não vá Deus mandar-lhes umas quantas pedras à cabeça…

Quem também se protegeu devidamente, foi Marcelo Rebelo de Sousa

Em visita de Estado à Costa do Marfim, Marcelo deixou que o mascarassem de Rei Amor.

Com aquela coroa lindíssima, Marcelo poderá enfrentar os professores que, esta semana, declararam, pela voz do seu Chefe Adorado, Mário Nogueira, que Marcelo não é o Presidente de todos os portugueses.

Pelos vistos, é presidente de todos, menos dos professores apaniguados do Nogueira…

Tempos estranhos, estes que vivemos…

Exposição “Museu das Descobertas”, no MNAA

June 4th, 2019

O título é provocador, porque esta Exposição, patente no Museu Nacional de Arte Antiga, não tem nada a ver com aquilo a que chamamos descobrimentos, mas sim, com as descobertas que os Museu fazem, ao estudar e analisar a fundo as obras dos seus acervos.

A interessante Exposição compõe-se de salas com designações bem significativas: Contemplar, Preservar-Estudar-Comunicar, Religar, Desvendar, Restaurar, Salvaguardar, Doar, Circular, Projectar e Rastrear.

Por exemplo, na sala Circular ficamos a saber que, na troca de peças para espaços expositivos em outros Museus, por esse mundo fora, descobrem-se, muitas vezes, coisas que não se sabiam sobre essas mesmas peças. Na sala Religar percebemos como peças adquiridas em diferentes locais e em diferentes épocas, acabam por fazer parte dos mesmos conjuntos, como é o caso de retábulos aparentemente dispersos e que, afinal, devem ser vistos como um todo.

Trata-se de uma Exposição muito bem conseguida e que nos tomou cerca de hora e meia.

Só tivemos tempo para ver a Capela das Albertas, a sala dos Presépios e a Exposição dos tecidos e, graças à intervenção de uma voluntária muito entusiasta, os desenhos que Durer fez antes de pintar o célebre São Jerónimo, que pertencem à Galeria Albertina, de Viena, e que estão agora em exposição no MNAA até Agosto.

“Grace”, de Margaret Atwood (1996)

June 4th, 2019

Em 1843, no Canadá, Grace Marks, com apenas 16 anos, foi condenada pela participação no assassínio do seu patrão e da sua governante e amante. Depois de muita polémica, o Tribunal condenou à morte por enforcamento o moço da estrebaria, que teria sido o assassino material de ambos e Grace, embora acusada de ter sido a instigadora e cúmplice, foi condenada a prisão perpétua, devido à sua juventude.

Margaret Atwood fez um trabalho exaustivo de investigação, estudando os jornais da época, livros e revistas, que mencionaram em abundância aqueles crimes, estudou, certamente, outras publicações contemporâneas, onde foi buscar informações sobre sessões espíritas, mesmerismo e hipnotismo, usos e costumes das criadas, o que elas usavam para tirar nódoas, como cozinhavam, o que faziam para corar roupas, etc – e como toda essa informação escreveu este romance muito interessante, quase todo na primeira pessoa, com a voz de Grace Marks.

Gostei muito do livro, não só pela linguagem coloquial da Grace Marks, mas também pela personagem do Dr. Jordan, um jovem psiquiatra, que se interessa pelo caso e que, através de entrevistas a Grace, tenta compreender a personalidade da alegada criminosa, à luz das novas teorias psiquiátricas, quando o Freud ainda não tinha nascido…

Vale a pena ler.

Que puta de continência!

May 30th, 2019

O Público de hoje traz uma notícia cujo título me deixou perplexo.

Reza assim:

“Militares da GNR filmam continência de prostituta”

Segundo a pequena local, dois militares da GNR, a bordo de um veículo daquela garbosa força paramilitar, aproximam-se de uma prostituta e, através do megafone, ordenam à senhora: “Continência!”

A visada obedece, fazendo a continência.

Depois, um dos militares pergunta: “como está a correr o trabalho?”

Finalmente, o outro militar diz à trabalhadora para desfazer a continência, afirmando: “Pode estar à vontade! À vontade, mas não à vontadinha”.

E, segundo a notícia, “abandonam o local às gargalhadas”.

Tudo isto foi filmado pelos militares e colocado nas redes sociais.

Diz o comando-geral da GNR que este tipo de atitudes é reprovável e que os dois militares vão ser alvo de processos disciplinares.

Mas porquê, pergunto eu!

A GNR é conhecida como uma força da ordem que actua perto das populações e, ao perguntar à senhora como estava a correr o trabalho, o dedicado GNR só queria inteirar-se se tudo estava bem, as condições de trabalho, o horário, a afluência, o salário – numa palavra, esta atitude só demonstra dedicação. Não nos esqueçamos que a divisa da GNR é “pela Lei e pela Grei”!

Quanto ao facto de os dois militares abandonarem o local às gargalhadas, também não vejo qual é o mal. Alegria no trabalho, é o que é!…

Finalmente, pedir à senhora para fazer continência, até é de louvar. Sabendo que continência e abstinência são sinónimos, e conhecendo a profissão da trabalhadora, só podemos dizer que estes dois valentes militares da GNR estavam a tentar que a senhora mudasse de vida…

Ou pagas ou disparo!

May 29th, 2019

A GNR e inspectores da Autoridade Tributária foram protagonistas de uma intervenção espectacular, noticiada pela comunicação social: postaram-se na rotunda da autoestrada 42, em Valongo e identificaram automobilistas que tinham dívidas ao fisco.

Os que não quiseram ou não puderam pagar, ficaram com os seus veículos apreendidos.

A missão arriscada (podiam ter levado um tiro… ou um coice…), denominava-se “Acção sobre rodas”, o que acho ridículo, já que os inspectores estavam sentados, em frente a computadores portáteis. Sobre rodas teria sido se estivessem a perseguir os automobilistas devedores, montados em Harley Davidsons.

Quanto à possibilidade de terem levado um coice, foi bem real, já que um dos automobilistas penhorado transportava, no seu camião, dois cavalos. O camião ficou nas mãos dos inspectores, mas os cavalos, muito dóceis, não ripostaram.

Pelos vistos, este tipo de acção conjunta da GNR e da Autoridade Tributária não é inédita, e já aconteceu mais umas quantas vezes – e o responsável é, segundo o Público, o Dr. Vitor Gaspar, aquele senhor que foi ministro das Finanças no tempo do Passos Coelho.

Diz o Público: “A 21 de Dezembro de 2012, em plena crise económica e com a troika instalada em Portugal, Vítor Gaspar marcou presença na assinatura de um protocolo entre a AT e GNR que visava “articular as formas concretas de cooperação e coordenação” entre as duas instituições, tendo em vista a obtenção de “um reforço da eficácia no combate à fraude e evasão fiscal e aduaneira.”

Foi ao abrigo deste protocolo que os automobilistas que tiveram o azar de passar, ontem de manhã, na rotunda de acesso à A42, foram alvo desta fiscalização.

Claro que apetece fazer aqueles comentários populistas, do género, perdoam ao Pereira Coutinho mais de 100 milhões de euros, não conseguem obrigar o Berardo a pagar o que deve e, depois, vão apreender o carro de um desgraçado que não pagou as portagens durante um ano!

Mas eu tenho outra opinião: acho pouco! Acho que a Autoridade Tributária, com a ajuda da GNR, PSP e do Exército, devia montar ciladas junto das caixas dos supermercados, nas lojas da Zara, H&M, McDonald’s e similares, e capturar todos os contribuintes com impostos em atraso, levá-los para locais secretos e aí, mediante tortura, conseguir que pagassem os impostos em dívida.

Em seguida, 10% do dinheiro conseguido com essas acções, reverteria a favor da Fundação Berardo, que assim poderia, a pouco e pouco, pagar o que nos deve.

No final, Vitor Gaspar seria agraciado com a medalha que Marcelo vai retirar ao Berardo…

Abstencionistas uni-vos!

May 27th, 2019

As eleições europeias de ontem, tiveram uma taxa de abstenção de mais de 68%.

Quer isto dizer que, num universo de dez milhões e meio de potenciais eleitores, apenas três milhões se deram ao trabalho de votar.

Grosso modo, sete milhões de portugueses não se importam que três milhões decidam por eles.

Depois, não se queixem…

Claro que se queixam!… Os portugueses adoram queixar-se… queixam-se das lixeiras nas ruas, mas continuam a cuspir para o chão e a deitar as beatas e as pastilhas elásticas para os passeios, queixam-se dos incêndios, mas não deixam de atirar beatas acesas para a caruma e a fazer grandes queimadas, mesmo nos dias de maior calor, queixam-se dos políticos corruptos, mas fogem aos impostos sempre que podem, criticam o compadrio, mas adoram a cunha, o favorzinho, o conheces-lá-alguém – e quando chega a altura de decidir escolher quem nos vai representar no Parlamento (seja no europeu, seja no nosso), estão-se a borrifar.

Não vale a pena, diz uma potencial eleitora, eles são todos corruptos, só querem é roubar. Está-se tão bem na praia, diz outro abstencionista, vou votar para quê, eles são todos iguais.

Assim pensam os carneiros… querem lá saber quem é o pastor, já que têm que passar o tempo a ruminar…

Mas três milhões ainda se deram ao trabalho de votar. Para além da vitória inquestionável do PS (33,4% dos votos), do Bloco (9,8%) e do PAN (5%), destaque para a derrota dos Partidos da Direita – o PSD com 21,9 e o CDS, com 6,1, e a CDU, com 6,8%.

O Rangel, do PSD, deve estar a ranger os dentes, e o Nuno Melo, do CDS, já deve estar, a esta hora, a roer a corda à Sãozinha, que queria tanto ser primeira-ministra e que, muito provavelmente, nem na casa dela vai mandar…

O CDS, que já foi o Partido do táxi, transformou-se no Partido da mota – e mesmo, assim, a mota tem só um lugar, ocupado pelo Melo, nem o Mota (Soares) tem lugar na mota…

Uma última palavra para os que se abstiveram: unam-se, façam qualquer coisa, inventem um Partido Novo! Pelo que oiço nas esplanadas, nos corredores do supermercado e nas reportagens da televisão, vocês devem saber como salvar esta merda deste país – e com sete milhões de votantes, venceriam as eleições, de caras!

De que é que estão à espera?…

Uma triste campanha alegre

May 20th, 2019

É vê-los a percorrer feiras e mercados, a beijar crianças e reformados, a agitar bandeiras e a dizer baboseiras, sempre radiantes, rodeados de apoiantes, dão entrevistas à televisão, fazem gestos com a mão, o punho fechado ou o vê de vitória, é sempre a mesma história de qualquer campanha eleitoral, etc e tal…

O Rangel faz o seu papel e no Costa desanca, enquanto o Rio tem aquela panca de tocar bateria, quem diria, que um tipo cinzento, de camisa de gola, agride os pratos e bate na tarola?

O Marques do PS, quase ninguém conhece, e para não ter um amóque, leva o Costa a reboque. Não ter lábios não é defeito, mas o homem não tem jeito.

Ao Nuno Melo, ninguém lhe corta o cabelo, e leva sempre pela mão, a sua querida Assunção. Foram apanhar couves às hortas e pediram ajuda ao Portas.

O Jerónimo tem um heterónimo: chama-se Ferreira, e vai para a Europa contrariado, porque preferia ir para outro lado.

Catarina e Marisa são botões da mesma camisa. Também não gostam da União Europeia, mas Marisa tem uma ideia: vai minar aquilo num instante, com uma proposta fracturante: tornar as drogas legais, do Caramulo aos Urais.

E depois há os outros todos, são Partidos a rodos. Contei dezassete no boletim, mais personagens que num folhetim.

Todos da Europa dizem mal, mas muitos querem ir para lá, afinal!

Como político, Rio é um baterista sofrível. Falta-lhe ousadia. Como baterista, é um político banal. Falta-lhe ritmo…
Que lindo repolho! Vê lá se alguma lagarta te salta para o olho!

PS – O PURP é que me deixa abismado. Quer dizer Partido Unido dos Reformados e Pensionistas. Um Partido Unido?… Não é contraditório?… Se está unido, não pode estar partido…

Igreja pouco católica

May 16th, 2019

Primeiro pecado: o Patriarcado tem uma página no Facebook.

Segundo pecado: o Patriarcado publicou um post em que aconselha os católicos a votarem no CDS, no Basta ou no Nós Cidadãos.

Com efeito, o tal post era assim:

Segundo a infografia, os verdadeiros católicos nunca votariam no PS, no Bloco e no PAN, e poderiam votar no CDS-PP, Basta e Nós Cidadãos.

Por outras palavras – e sejamos claros, porque a religião católica não deixa quaisquer dúvidas – votas no PS, Bloco ou PAN e vais para o inferno; votas no CDS, Basta ou Nós Cidadãos e vais para o céu!

Se votares no PSD, na CDU ou na Aliança, terás que rezar alguns Padres Nossos e umas quantas Avés Marias.

Analisando o diagrama, verificamos que o CDS, o Basta e o Nós Cidadãos, são os únicos partidos que defendem a vida por nascer, recusam a eutanásia, aprovam a liberdade de educação, recusam a ideologia de género, não aceitam as barrigas de aluguer e combatem a prostituição.

Resta saber se também são a favor da pedofilia, para assim poderem apoiar os milhares de eclesiásticos católicos que, por esse mundo fora, abusaram de criancinhas.

Claro que o Patriarcado já retirou o post da sua página do Facebook e já veio dizer que tudo não passou de uma “imprudência”.

Curioso adjectivo escolhido pelo Patriarcado… imprudência é, por exemplo, atravessar a rua fora da passadeira porque podemos ser atropelados – no entanto, fazemo-lo porque queremos passar para o outro lado da rua.

O mesmo se passou com este post. No fundo, o Patriarcado quer que os católicos votem naqueles Partidos – mas foi imprudente divulgar essa vontade…

“Estão a dar telemóveis?” – ridícula campanha eleitoral

May 14th, 2019

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, as arruadas, os comícios, os desfiles, tudo isso fazia sentido. Estávamos a experimentar a democracia. Depois de quase 50 anos de bico calado, era natural que as massas se quisessem exprimir publicamente, gritando palavras de ordem e agitando bandeiras.

As campanhas eleitorais dos primeiros anos de democracia foram mais uma novidade que o 25 de Abril proporcionou, bem como os tempos de antena e os debates televisivos.

Mas agora, na era dos smartphones, as campanhas eleitorais são cada vez mais ridículas.

A actual campanha para as eleições europeias é bem disso um exemplo. Ver os candidatos a fazer exactamente aquilo que faziam os seus antecessores há 40 anos, visitando os mercados, beijando as peixeiras, empanzinando-se em almoçaradas, descendo a Rua de Santa Catarina ou a Rua do Carmo, com bandeirinhas e cartazes, acompanhados de bombos e cornetas ou de jovens histéricos aos saltos e vivas, tudo isso é ridículo!

Os telejornais mostram imagens das acções de campanha e não posso deixar de pensar que os políticos, cada vez mais desprezados, se dão ainda mais ao desprezo.

O Rangel, com aquela barba mal semeada, o Marques, que nasceu sem lábios, a Marisa, com as suas costas largas, o João Ferreira, de barba aparada, o Melo que não corta o cabelo, já não convencem ninguém.

Mas há agora uns Partidos novos.

São novos, mas usam estratégias velhas.

Vi ontem uma acção de rua de um Partido de um tal Morais, um daqueles que diz que está acima de toda a corrupção do Estado, que se fosse ele, iam todos presos, porque ele é o homem mais honesto ao cimo da Terra. O Partido chama-se Nós Cidadãos. E vi meia dúzia de apaniguados, brandindo bandeiras amarelas, com a palavra “NÓS”, em letras garrafais, e a palavra “cidadãos”, em caixa mais baixa.

O grupo passeava-se pelas ruas do Porto e um grupo de idosas acercou-se da comitiva. Uma delas perguntou: “estão a dar telemóveis?”, pensando que se tratava de uma acção de propaganda da operadora de telecomunicações NOS.

Dizia outra velhinha: “Ele quer ir para a NOS? Eu dou-lhe o meu voto!”

Ditosa pátria que tais filhos tem…