“Alguma Coisa Tem que Chover”, de Karl Ove Knausgard (2010)

October 15th, 2018

Foi com alguma relutância que comecei este 5º volume da obra do norueguês Knausgard, com o título genérico A Minha Luta.

O primeiro volume – A Morte do Pai – surpreendeu toda a gente. Surpreendeu, sobretudo, pelo estilo autobiográfico romanceado, com a descrição minuciosa de gestos do dia a dia, enrolar um cigarro, lavar a loiça, despejar o lixo. Surpreendeu pelo modo desabrido como Knausgard falava do seu pai e do seu alcoolismo, da sua avó paterna e da sua demência.

O segundo volume – Um Homem Apaixonado – mantinha a mesma dinâmica e intensidade, mas o mesmo não posso dizer dos volumes 3 e 4 – A Ilha da Infância e Dança no Escuro. Nestes dois volumes, o estilo tornou-se repetitivo e já foi difícil acabar a leitura de mais esses dois tijolos.

Este Alguma Coisa Tem que Chover passa-se todo em Bergen, entre os 19 e 0s 32 anos de Knausgard e, por momentos, volta a ter a dinâmica do primeiro volume.

O mais curioso nestas quase 600 páginas é, sem dúvida, o modo de vida do autor, entre os 19 anos e os 28, idade com que publicou o primeiro romance. O homem vive de bolsas de estudo, estudando muito pouco, e de subsídios vários do Estado, passando os dias bêbado e sem escrever porra nenhuma. Com toda a honestidade, descreve palermices como bater punhetas com livros de arte com pinturas de mulheres nuas, noite passadas nos bares de Bergen em que bebe até ao oblívio, dias e dias em que tenta escrever e não escreve nada!

Aos 2o anos, eu era pai do meu primeiro filho e comecei a trabalhar como jornalista um ano depois; aos 27 era médico. Nessas idades, Knausgard embebedava-se e fazia coisa nenhuma. E é isso que este volume descreve – quanto mais não fosse, este 5º volume teria essa “virtude”.

Finalmente, aos 28 anos, Knausgard publica o seu primeiro romance e é um grande sucesso; no entanto, nos quatro anos seguintes, a sua vida continua na mesma: bebedeiras e aluguer de casas em zonas isoladas, para que o escritor conseguisse criar. Patético!

O “sofrimento” dos escritores está bem espelhado neste livro.

Será que Knausgard se apercebe que, deste modo, desmascara toda esta encenação do sofrimento?

“Sessenta Contos”, de Dino Buzzati (1958)

October 2nd, 2018

Dino Buzzatti (1906-1972), foi autor italiano cujos contos foram muito saudados, ganhando, com eles, o prémio Strega.

Os contos misturam uma espécie de realidade absurda com uma visão fantástica e muitos deles são alegorias ou parábolas que, embora datadas (a edição é de 1958), continuam a ser muito actuais (nem todas, sejamos realistas…)

Gostei particularmente dos contos Sete Andares, O Cão que Viu Deus, Não Esperavam Outra Coisa e O Burguês Enfeitiçado.

Tirando dois ou três contos mais longos, todas as restantes narrativas não ocupam mais do que duas ou três páginas.

Vale a pena ler, em pequenas doses (digamos, dois ou três contos por dia…)

E quem disse que ela queria?…

September 23rd, 2018

A Pior Comédia do Mundo

September 22nd, 2018

A Pior Comédia do Mundo (Noises Off), é um original de Michael Frayn, estreado em Londres em 1982.

A acção desenvolve-se em três cenas. Na primeira, uma companhia de teatro ensaia uma comédia, intitulada “Tudo a Nu”, para uma digressão extensa pela província. A estreia está marcada para o dia seguinte e o ensaio geral está a correr muito mal. a comédia baseia-se na entrada e saída de diversas personagens numa casa que deveria estar vazia. Há várias portas, que se abrem e fecham, e o êxito da acção baseia-se na entrada e  saída, a tempo, dos diversos personagens, o que não está a acontecer. O encenador tem que intervir com frequência. Para apimentar a acção, ficamos a saber que alguns dos actores têm relações secretas entre si. Acresce que um dos personagens mais importantes é surdo e gosta da pinga.

A segunda cena desenrola-se nos bastidores. Começou a digressão. Vemos a parte de trás do cenário da primeira cena e toda esta parte é como um filme mudo: enquanto, lá à frente, decorre a acção que vimos ser ensaiada, nos bastidores, surgem diversos conflitos: o encenador tenta fazer as pazes com uma das suas namoradas, comprando-lhe flores, um dos actores tenta agredir gravemente outro porque pensa que ele tenta roubar-lhe a namorada. Sem falharem, por pouco, nenhuma das entradas em cena, os actores vão desenvolvendo as suas guerras nos bastidores.

A terceira e última cena regressa, digamos assim, ao palco, para mais uma representação da comédia. Aqui, os actores estão já visivelmente baralhados e confusos com tantas guerras de bastidores e a coisa só pode correr mal. Improvisam, substituem-se uns aos outros em algumas entradas e acabam bruscamente com a peça, num final imprevisto.

Muito divertido e bem agarrado pelos actores, numa representação exigente, até do ponto de vista físico.

Com encenação de Fernando Gomes, os actores são: o próprio Fernando Gomes, que faz o papel do actor surdo e que gosta da pinga, José Pedro Gomes que representa o encenador, Ana Cloe, Cristóvão Campos e Jorge Mourato, que se fartam de suar, escadas acima e abaixo, Elsa Galvão, Inês Aires Pereira, Paula Só, de quem gostei particularmente, e Samuel Alves.

Gostei mesmo!

Galinhas unidas contra Jerónimo de Sousa

September 9th, 2018

A  ANAGAPE (Associação Nacional das Galinhas Patrióticas e de Esquerda) emitiu duro comunicado contra o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, devido ao facto de ele se ter referido ao cu das galinhas como “dito cujo”.

Via-se que a líder da ANAGAPE estava verdadeiramente indignada quando declarou: “se o Jerónimo quer um governo verdadeiramente patriótico e de esquerda, tem que contar com todas as galinhas. Caso contrário, quem vai levar com um pontapé no cu será ele!”

 

 

 

 

“Obra Perfeitamente Incompleta”, de José Sesinando (2018)

September 5th, 2018

Li, com admiração, os textos de José Sesinando publicados no Jornal de Letras e sempre achei estranho que este autor não fosse mais conhecido e divulgado.

Surge agora este livro, na colecção organizada por Ricardo Araújo Pereira e fiquei a saber que José Sesinando era o pseudónimo usado por José Palla e Carmo (1923-1995), tradutor e crítico de literatura, para além de funcionário bancário.

O pseudónimo era usado para os seus textos humorísticos, cheios de trocadilhos e diversos jogos de palavras.

Este volume reúne três livros, dos quais, o primeiro, intitulado Obra Ântuma (por oposição a obra póstuma) é a mais interessante, reunindo textos em prosa que poderiam figurar, tranquilamente, no “nosso” Pão Com Manteiga.

No primeiro texto, Acerca de Música, respigo:

“Mozart foi, como toda a gente sabe, um enfant prodige. Não o foi, porém, durante toda a vida”

“Beethoven atingiu tamanha e tão súbita notoriedade com a Quinta e a Nona Sinfonia que não teve outro remédio senão compor as outras sete”.

“A ópera destina-se, evidentemente, a quem gosta pouco de música e pouco de teatro”.

E muitas mais.

Suspeito que haja muitos mais textos idênticos a este, uma vez que  Sesinando publicava todas as semanas no Jornal de Letras.

Aguardemos…

Mr. Lopes strikes back!

August 20th, 2018

O Sr. Lopes é tramado!

Agora com 62 anos, pai de 5 filhos, reformado desde os 49 anos, chegou à conclusão que o espectro político português necessitava de mais um partido político, ou de que a sua pensão de 3187 euros mensais não era suficiente, e vai de formar um novo Partido!

Claro que tinha que ser um Partido – nunca um Inteiro -, porque o Sr. Lopes é perito em partir as coisas, em deixar coisas a meio.

Já nem se fala nos casamentos que ficaram a meio – são coisas que acontecem…

Mas, vejamos: nomeado secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, em 1986, no primeiro governo de Cavaco; não conclui o mandato porque é eleito deputado ao Parlamento Europeu em 1987, abandonando o cargo 2 anos depois; em 1990, é nomeado secretário de Estado da Cultura no governo de Cavaco Silva, mas demite-se antes do fim do mandato, depois de ter inventado os concertos para violino de Chopin; em 1995, concorre a líder do PSD, contra Fernando Nogueira e Durão Barroso, mas desiste antes da votação final; nesse mesmo ano, é eleito presidente do Sporting, mas desiste ao fim de um ano; em 1996, torna a candidatar-se a chefe do PSD, mas perde para Marcelo Rebelo de Sousa; em 1997, candidata-se a presidente da Câmara de Figueira da Foz e ganha, mas não termina o mandato porque, 3 anos depois, torna a candidatar-se a chefe do PSD, perdendo, desta vez, para Durão Barroso; ficando sem nada para fazer, ganha a Câmara de Lisboa em 2002, mas também não conclui o mandato porque Durão Barroso pira-se para a Europa e Santana é nomeado primeiro-ministro em 2004, mas aguenta-se poucos meses, sendo demitido pelo Presidente Jorge Sampaio, que o tinha nomeado; em 2005 vai a eleições contra Sócrates e perde; em 2008, teimoso, torna a candidatar-se a chefe do PSD, mas perde para Manuela Ferreira Leite; no ano seguinte, é candidato novamente à Câmara de Lisboa, mas perde para António Costa; em 2011, Passos Coelho nomeia-o Provedor da Santa Casa da Misericórdia e António Costa dá-lhe mais 3 anos de mandato, mas Santana não os conclui porque torna a concorrer a chefe do PSD, desta vez contra Rui Rio e perde!

Ora bem, o que fazer a um Partido, ao qual se adere em 1976 e que nunca nos escolhe para chefe?

Santana concorreu contra Fernando Nogueira, Durão Barroso, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio – e perdeu sempre.

Portanto, era lógico que mandasse o PSD à merda e formasse novo Partido.

Chama-se Aliança e, finalmente, o Sr. Lopes é chefe de um Partido.

Não vai durar muito…

Nota: este texto é escrito em português de antes do acordo ortográfico de 1990, negociado pelo Sr. Lopes…

“Mulheres”, de Charles Bukowski (1978)

August 6th, 2018

Ao ler este livro de Bukowski (1920-1974) é forçoso pensar em Henry Miller (1891-1980). Os pontos de contacto são vários: ambos os autores foram carteiros, antes de começarem a viver da escrita, ambos viveram vidas atribuladas, ambos escreveram sobre sexo.

Talvez esteja a dizer algo que não corresponde à verdade, mas parece-me que Bukowski foi beber aos escritos de Miller, publicados nos anos 40 e 50 (Sexus, Nexus, Plexus, os Trópicos e, sobretudo, Opus Pistorum, o romance pornográfico que Miller escreveu a um dólar por página).

Mas Bukowski é mais duro que Miller e, sobretudo, muito mais obsceno.

Este Mulheres é só beber, vomitar e foder.

Se Bukowski ainda fosse vivo, estaria a ser linchado pelo movimento MeToo.

Neste livro, é uma mulher atrás de outra, que ele fode e deita fora, para ir foder outra, e o livro é uma sucessão de encontros e desencontros, sempre com o objectivo de foder, depois de se beber muito e de se vomitar ainda mais.

Parece escabroso – e é – mas o livro acaba por ter interesse por isso mesmo: procurar entender o vazio da vida de Henry Chinasky (alter ego do autor) que, chegado aos 50 anos, vive sozinho, embebedando-se todos os dias, ganhando a vida lendo poemas em clubes de má fama e dizendo que se tornou escritor para poder dormir até ao meio-dia. E ter sexo com muitas mulheres, claro – mulheres que querem foder com um escritor, que também bebem muito, snifam coca, fumam ganzas e têm vidas de merda.

Outro livro de Bukowski: Música para Aguardente

 

“O Clube dos Anjos”, de Luis Fernando Verissimo (1998)

July 28th, 2018

Luis Fernando Veríssimo (Brasil, 1936) é um autor multifacetado, que vai do jornalismo ao teatro e ao romance, passando pelos argumentos para televisão.

Um toque de humor percorre as suas obras.

Neste O Clube dos Anjos, um grupo de amigos se junta periodicamente para experimentar pratos de culinária mais ou menos sofisticados.

Depois da morte de um dos seus membros, vítima, aparentemente, de complicações da Sida, surge um cozinheiro misterioso, de nome Lucídio (semelhante a Lucifer), que sew propõe cozinhar para o clube. E vai cozinhando os pratos preferidos de cada um dos membros que, após cada jantar, morrem, possivelmente envenenados.

Apesar de saberem que estão a ser liquidados jantar após jantar, os membros restantes do grupinho não desistem e marcam novo jantar.

Uma pequena novela divertida, embora o número de elementos do grupo (dez), faça com que a história se estique demasiado, acho eu…

“Em Louvor das Mulheres Maduras”, de Stephen Vizinczey (1965)

July 20th, 2018

“Uma obra prima… longe dos fantasmas e das neuroses…” – diz o Le Monde e “Um clássico da literatura erótica, subtilmente complexo, bem-humorado, inteligente”, diz o La Vanguardia, citados na contracapa.

Com estas citações e com a foto da sobrecapa, um nu de Jaromir Funke, estava à espera de um livro semelhante às epopeias de Henry Miller.

E afinal, não passa de um livrinho inocente, nada explícito e até um pouco chato.

Claro que o livro é datado (1965), mas os de Miller ainda são mais antigos (Sexus é de 1949).

Vizinczey nasceu na Hungia e tem agora 85 anos, vivendo no Canadá há décadas. Em Louvor das Mulheres Maduras diz ser “as recordações amorosas de András Vajda”, um jovem húngaro, que emigra para a Áustria e, depois, para o Canadá e que não se interessa por mulheres jovens, preferindo as mais velhas, mesmo que casadas.

O livro terá vendido mais de 3 milhões de exemplares e já foi adaptado para o cinema.

Parabéns ao Vizinczey!

Eu não gostei, a não ser desta frase deliciosa, sobre as relações entre os casais no Canadá: “magicava muito sobre a aridez das relações entre os sexos, a distância que parecia haver mesmo entre muitos casais. Pensei que tinha qualquer coisa a ver com o facto de as casas de banho não terem bidés.”