Não comam amendoins servidos em taças nem enfiem telemóveis no cu!

April 1st, 2017

A recente epidemia de hepatite A dá direito a grandes dislates.

Facto: a hepatite A transmite-se por via fecal-oral.

Quando comecei a trabalhar como médico, em 1978, ainda apareciam alguns casos raros, relacionados com os muitos bairros de barracas que existiam em Lisboa e arredores, a inexistência de esgotos, a pobreza extrema de um país a sair ainda de um atraso de décadas.

As condições sanitárias melhoraram progressivamente e os casos de hepatite A tornaram-se episódicos.

Voltaram agora, aparentemente relacionados com práticas sexuais que envolvem múltiplos contactos e pouca higiene.

Ora, se a transmissão do vírus se faz por via fecal-oral, o excelente jornal Sol, chega a esta conclusão:

Sim, de facto, se eu estiver infectado, for à casa de banho cagar, limpar o cu e, de seguida, sem lavar as  mãos, for comer amendoins servidos numa taça e se, depois, outra pessoa qualquer, comer amendoins dessa mesma taça, essa pessoa pode apanhar hepatite A.

Do mesmo modo, se eu estiver infectado com o vírus da hepatite A e tiver o péssimo hábito de enfiar o meu telemóvel no cu e, depois, o emprestar a outra pessoa, posso estar a transmitir-lhe o vírus.

Ora se fossem dar banho ao cão (com as mãos lavadas, claro)!

“O Ruído do Tempo”, de Julian Barnes (2016)

March 31st, 2017

Muito interessante, este romance de Barnes, que nos conta a história da relação difícil entre Chostakovitch e a ditadura soviética.

Começo por dizer que Chostakovitch é um dos meus compositores preferidos. Nos anos 70 do século passado, assistimos, no velho S. Luís, à 10ª Sinfonia e emocionei-me. Estávamos lá em cima, no chamado 2º Balcão e, no último andamento, quando as percussões entram em verdadeiro delírio, o músico da tarola, a rufar a toda a brida, deixa fugir uma baqueta, que voa por cima da orquestra, mas ele continua a bater furiosamente no instrumento até ao fim!

A relação de Chostakovitch com Estaline foi muito difícil e o compositor só não terá ido parar à Sibéria porque convinha, ao poder soviético, ter um músico oficial, que personificasse as ideias marxistas-leninistas em relação à arte, nomeadamente, à música. Ainda por cima, Stravinsky tinha sido um traidor e mudara-se de armas e bagagens para o inimigo, isto é, para os States.

Apesar de todas as pressões, Chostakovitch foi resistindo, acabando por ceder muitos anos depois, filiando-se no Partido Comunista na era de Krutchev, o Labrego (como era conhecido à boca pequena…).

O livro de Barnes é muito curioso porque vai contando esta história em pequenos parágrafos, por vezes com apenas meia dúzia de linhas.

E tem tiradas muito boas.

Como esta, sobre o facto de Chosta usar a ironia nas suas composições, como maneira de ludibriar a censura.

“Num mundo ideal, um jovem não devia ser uma pessoa irónica. Nessa idade, a ironia impede o crescimento, atrofia a imaginação. É melhor começar a vida com um estado de espírito animado e sincero, acreditar nos outros, ser franco acerca de tudo e com toda a gente. E depois, quando compreendemos melhor as coisas, desenvolver o sentido da ironia. A progressão natural da vida humana é do optimismo para o pessimismo; e o sentido da ironia ajuda a moderar o pessimismo, ajuda a produzir equilíbrio, harmonia.”

Ou esta, em que Chostakovitch diz o que pensa de Picasso, que apregoava o seu comunismo, mas que nunca viveu sob o jugo soviético:

“(…)tinha Picasso por sacana e por cobarde. Como era fácil ser comunista quando não vivíamos sob o comunismo! Picasso passara a vida a pintar as suas merdas e a celebrar o poder soviético. Mas ai de qualquer artistazinho, a sofrer sob o poder soviético, que tentasse pintar como Picasso.”

Chostakovitch nunca teve a coragem de enfrentar a ditadura. Ou, afinal, ser cobarde exige maior coragem?

“Mas não era fácil ser cobarde. Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói era só preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar. (…) Ser cobarde exigia tenacidade, persistência, recusa em mudar – o que tornava isso, de certa maneira, numa espécie de coragem”.

Para o fim da vida, Chostakovitch está cansado e desolado.

“(…)em que ponto é que o pessimismo se torna desolação? As suas últimas músicas de câmara formulavam essa pergunta. Disse ao violista Fyodor Druzhinin que o primeiro andamento do seu Quarteto nº 15 devia ser tocado «de modo que as moscas caiam mortas no ar e a assistência comece a abandonar a sala, de puro tédio»”

The Noise of Time foi editado pela Quetzal e tem tradução de Helena Cardoso.

Gostei muito.

Outras obras de Julian Barnes: Amor & Etc; Arthur & George; O Sentido do Fim

O holandês invejoso

March 25th, 2017

Jeroen Dijsselbloem é um invejoso.

Já toda a gente sabe que ele disse que não se pode gastar o dinheiro todo em álcool e mulheres e, depois, vir pedir dinheiro emprestado.

E eu só quero perguntar-lhe: porquê?

Por que raio não se pode gastar o dinheiro todo em álcool e mulheres?

E o que tem de mal ir, depois, pedir dinheiro emprestado?

Onde está escrito que isso está errado?

Seria correcto, por exemplo, gastar o dinheiro todo em doces e panados de frango?

Ou gastá-lo todo em canabis e rapazinhos imberbes?

Ou então, aproveitar o trabalho dos outros e ir lá colher os frutos, como fizeram os holandeses da Liga Hanseática, depois dos portugueses se terem desleixado com os copos e as gajas?

Ou ainda, sacar as empresas dos outros e cobrar-lhes os impostos?

É bom que o nome de Dijsselbloem fique registado porque o tipo há de aparecer por aí, no Algarve ou em Ibiza, nem que seja quando estiver reformado.

Nessa altura, a gente conversa.

 

Now I’m 64!

March 19th, 2017

Quando eu tinha 15 anos, os Beatles editaram o famoso Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Uma das canções desse álbum, When I’m 64, não me tem saído da cabeça há vários dias, por duas razões: por um lado, porque a canção é orelhuda, daquelas que entram no ouvido e de lá não querem sair, e por outro porque completei ontem 64 anos.

Quando compuseram esta canção, Lennon e McCartney tinham 28 e 26 anos e deviam achar que chegar aos 64 anos era algo de tão longínquo, que eles próprios questionavam: will you still feed me, will you still need me, when I’m 64.

Pois meus amigos, I still need you, I still feed you, I still many things more…and I’m 64!

Em verdade vos digo que ter 64 anos não é nada de especial: continuo a fazer as mesmas coisas que fazia, mas com mais habilidade. E deixei de fazer uma coisa importante, que foi fumar, e comecei a fazer outra, muito melhor, que é correr – ainda hoje corri a minimaratona de Lisboa em 51 minutos, a 6 minutos e 33 segundos por quilómetro.

Portanto, se estão com medo de envelhecer, não estejam e dou-vos apenas um conselho: não se ralem com ninharias.

Leituras aconselhadas: 62 anos e 63 anos.

“Quando Ela Era Boa”, de Philip Roth (1966)

March 12th, 2017

Só no ano passado, 40 anos depois, a D. Quixote edita mais este romance de Roth, publicado em 1966.

Depois de ter lido mais de uma dúzia de obras de Philip Roth, confesso que este Whe She Was Good não me prendeu como os outros.

O livro conta a história de Lucy Nelson, do seu pai alcoólico e da sua mãe algo pateta, de como Lucy se deixa seduzir, aos 18 anos, por Roy, três anos mais velho, mas muito infantil, e traça o retrato de uma América provinciana e retrógrada; no entanto, o habitual sarcasmo de Roth está ausente, o que torna o livro um tanto incaracterístico.

Outros livros de Philip Roth: “Goodbye, Columbus“, “Némesis“, “A Humilhação“, “O Complexo de Portnoy“, “Indignação“, “O Fantasma Sai de Cena“, “O Animal Moribundo“, “Património“, “Todo-o-Mundo“, “Pastoral Americana“, “A Conspiração Contra a América“, “Casei com um Comunista“.

Bruno Trump Donald de Carvalho

March 5th, 2017

Foi o jornal The Independent que postulou que Bruno de Carvalho é o Donald Trump do futebol português (confirmar aqui).

Não é exagero.

Bruno e Donald têm tudo em comum.

São ambos empresários da construção civil: Trump construiu hotéis e casinos, Carvalho foi sócio gerente da “Bruno de Carvalho, Revestimentos, Soluções de Interior e Representações Comerciais” (confirmar aqui).

Ambos ganharam prémios importantes: Trump recebeu o Jewish National Fund’s Tree of Life Award for outstanding contributions to Israel-United States relations, em 1983, e Carvalho foi agraciado com o Prémio Personalidade do Ano Desporto, na XII Gala dos Prémios Mais Alentejo (2013).

Ambos têm companheiras loiras.

Ambos são isolacionistas: Trump quer tornar America great again, fechando as fronteiras aos refugiados, Carvalho quer que o Sporting volte a ser grande, fechando Alvalade aos adversários.

América contra o mundo; Sporting contra todos.

Ambos ganharam eleições com poucos votos: Trump teve menos 2 milhões de votos que Clinton; Carvalho teve 96% dos 18 mil votantes, o que corresponde a menos de 1% dos portugueses.

Mas há uma coisa que separa Trump de Carvalho, uma coisa que distingue Bruno de Donald e que faz com que ele seja único.

É que, como diz a sua biografia na wikipedia, Bruno de Carvalho é neto materno do irmão do almirante Pinheiro de Azevedo, o almirante sem medo.

E assim como Pinheiro de Azevedo, então primeiro ministro provisório, sequestrado por operários que exigiam a demissão do governo, gritou “Bardamerda para a democracia”, também Bruno de Carvalho, rodeado por adeptos e simpatizantes, teve a coragem de afirmar “Bardamerda para quem não é do Sporting”.

Disto Donald Trump não se pode gabar!

Entretanto, na Casa Branca…

March 1st, 2017

Núncio é mau a inglês

February 25th, 2017

Cavaco escritor?!

February 23rd, 2017

Mitro!

February 19th, 2017