“A Única História”, de Julian Barnes (2018)

Um livro de Julian Barnes é garantia de uma obra sólida.

Este The Only Story não foge à regra, embora, na minha opinião, a história se perca um bocado a meio do livro.

O autor diz-nos que todos temos muitas histórias para contar ao longo da vida, mas que só uma será a verdadeira história que interessa.

No caso, é a história de um rapaz de 19 anos que se apaixona por uma mulher casada de mais de 40 anos. Paul tem 19 anos quando conhece Susan num clube de ténis. Ela é casada, tem duas filhas, mas o casamento já não corre bem há muitos anos, de tal modo que ela e o marido barrigudo dormem em quartos separados.

Paul e Susan apaixonam-se e começam a ter um caso, mesmo nas barbas do marido de Susan.

Esta é a trama da primeira parte do livro e Barnes entretém-nos a contar os episódios que se sucedem, a reacção dos membros do clube de ténis, dos pais de Paul, das filhas de Susan.

Depois, Paul e Susan vão viver juntos e o livro perde-se um pouco. Susan começa a beber, torna-se numa alcoólica, nunca se percebe muito bem porquê (culpa?), e o livro arrasta-se até ao final, na minha modesta opinião.

De qualquer modo, vale a pena a leitura.

Outros livros de Julian Barnes: O Homem do Casaco Vermelho; O Ruído do Tempo; O Sentido do Fim; Arthur & George; Amor & Etc

“O Circo Invisível”, de Jennifer Egan (1995)

Depois de ter lido Os Lança-Chamas, de Rachel Kushner, que falava da agitação política de Itália dos anos 70 e das Brigadas Vermelhas, este livro de Jennifer Egan, fala-nos do grupo Baader-Meinhoff, que foi protagonista de diversos atentados terroristas na Alemanha, também nos anos 70.

De Egan, escritora norte-americana nascida em Chicago em 1962, já tinha lido A Visita do Brutamontes e A Praia de Manhattan (o meu preferido).

Este O Circo Invisível conta-nos a história de Phoebe, uma jovem de 18 anos, cuja irmã mais velha, Faith, viaja para a Europa e se suicida, numa pequena aldeia da costa italiana.

Faith é a irmã sempre alegre, provocadora, aventureira, a preferida do pai. O pai é um técnico da IBM, pintor nas horas vagas e pinta a filha mais velha de modo quase obsessivo. Morre de cancro e Faith sai de casa e vai para a Europa com o seu namorado da altura, a quem chama Lobo.

Phoebe, quando faz 18 anos, decide seguir as pisadas da irmã e tentar descobrir como ela morreu. Vai encontrar-se com Lobo e descobrir que, entre outras coisas, a irmã colaborou com o grupo Baader-Meinhoff.

Vale a pena ler.

“À Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee (1980)

Gostei muito deste romance de Coetzee, agora reeditado pela D. Quixote.

A acção passa-se algures no tempo e no espaço. De facto, nunca ficamos a saber em que local é aquele e em que época estamos.

O narrador é o magistrado daquela cidade muralhada, situada perto de um lago e de um pântano, com o deserto no horizonte. Para lá desse horizonte, algures, estão os bárbaros, que talvez ataquem a cidade, ou talvez não.

O Império estende os seus braços até à cidade, que fica na fronteira e para lá envia soldados para combater os bárbaros.

Entretanto, o magistrado está velho e procura conforto junto de uma prisioneira que foi torturada. Passado algum tempo, decide levá-la de volta ao seu povo e, com esse seu gesto, cai em desgraça e é, ele próprio, preso e torturado.

Mas a vida dá muitas voltas e o magistrado ainda há de voltar a ter lugar de destaque na cidade.

Coetzee escreve bem, como se sabe, e as suas descrições da cidade, do lago, dos pescadores, do deserto, da sucessão das estações, fazem com que visualizemos o que ele descreve.

Muito bom.

Outros livros de Coetzee: A Infância de Jesus; A Vida e o Tempo de Michael K.; Diário de Um Ano Mau; O Homem Lento; No Coração Desta Terra; Verão; Jesus Na Escola; A Morte de Jesus

“Canção Doce”, de Leila Slimani (2016)

Há quem diga que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

De certo modo é o que se passa com esta excelente escritora franco-marroquina.

Em “O País dos Outros”, a história gira em torno de Mathilde, uma jovem francesa que se casa com um marroquino e que vai viver para o país do marido, sofrendo, depois, todas as desventuras que daí advêm; em “No Jardim do Ogre”, é Adéle, uma jornalista casada com um pediatra e obcecada por aventuras sexuais, que vai caindo numa espiral de desgraças; neste “Canção Doce”, é Louise, uma ama obsessiva-compulsiva que domina a história.

Dos três livros, este foi o que mais me impressionou pelo tema. Logo no primeiro capítulo, ficamos a saber que a ama assassina as duas crianças e ficamos logo incomodados.

Depois, Slimani vai contando a história que leva Louise ao precipício e o método que usa é semelhante ao que usou em “No Jardim do Ogre”, com a história de Adéle.

E porque o tema central do livro me incomodou, quando acabei o livro, senti um certo alívio…

“No Jardim do Ogre”, de Leila Slimani (2014)

Depois de ter lido o excelente No País dos Outros, fiquei com curiosidade em ler os restantes romances desta autora franco-marroquina (Rabat, 1981).

Este No Jardim do Ogre não fica atrás. Lê-se de um fôlego e é difícil parar de ler.

Slimani conta-nos a história de Adéle, uma jovem atraente, que trabalha como jornalista e que é casada com um médico. Apesar de ter uma vida boa, Adéle sente-se insatisfeita e procura a felicidade nas suas aventuras sexuais, arranjando sempre mentiras cada vez mais inverosímeis para enganar o marido que, pelos vistos, não se interessa muito por sexo.

Adélia provém de uma família modesta e tem uma relação conflituosa com a mãe, e indiferente com o pai. Tem vergonha da família.

Richard, o marido, vem de uma família abastada, mas Adéle considera os sogros e os cunhados aborrecidos, enfadonhos. É um suplício passar o Natal em casa deles, mas pior é passar o Ano Novo em casa dos pais.

Vinga-se bebendo muito e fodendo ainda mais, com colegas do jornal, colegas do marido, desconhecidos.

Adéle é possuída pelas suas pulsões sexuais e troca tudo por uma nova aventura, incluindo deixar o seu filho de dois anos, dias seguidos, à guarda de amas.

As situações vão-se complicando ao longo do livro e o desfecho não pode ser bom.

Gostei muito.

“A Anomalia”, de Hervé Le Tellier (2020)

Le Tellier (1957) formou-se em Matemática, depois em Jornalismo, é linguista e autor de diversos romances, contos, etc.

Com este “A Anomalia”, ganhou o Goncourt do ano passado. A Presença editou-o agora, com tradução de Tânia Gadanho e capa de Catarina Sequeira Gaeiras.

Li-o em duas penadas e é difícil parar de o ler. Le Tellier conseguiu, como disse Le Figaro, escrever o romance impossível porque para além de ser bem escrito é, simultaneamente, um thriller e um romance fantástico.

A ideia central de A Anomalia, é uma grande ideia: um avião da Air France aterra em Nova Iorque em março e, três meses depois, esse mesmo avião, com os mesmos passageiros e a mesma tripulação, aterra novamente.

Como disse o autor, numa entrevista ao Expresso, todos nós gostaríamos de nos confrontarmos connosco próprios, em carne e osso, de podermos ver e falar com um nosso duplo, mas que não fosse uma imagem num espelho ou um clone: fôssemos exactamente nós mesmos.

Os conflitos que este “simples” acontecimento desencadeia são a substância deste livro, que foi um dos melhores que li nos últimos tempos.

“Casa de Dia, Casa de Noite”, de Olga Tokarczuck (1999)

Diz-se que há escritores que escrevem sempre o mesmo livro.

Tokarczuck insere-se nessa categoria. Desde que ganhou o Nobel, em 2019, os seus títulos anteriores têm sido publicados em Portugal e verifico que, no fundo, a escritora polaca escreveu sempre o mesmo livro, embora sempre diferente.

Entrei em contacto com esta ex-psicóloga clínica através do excelente Viagens, de 2007. Li, depois, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de 2009, e depois, Outrora e Outros Tempos, de 1992.

Todos estes livros, a que dificilmente poderemos chamar romances, têm estrutura idêntica: são pequenos textos que nos vão contando pequenas histórias, são descrições curtas de lugares e de acontecimentos, como se fossem peças de um puzzle que nós vamos juntando na nossa cabeça. No final, quando terminamos o livro, ficamos com a impressão de que ficámos a conhecer aquele sítio e aquelas pessoas.

Este Casa de Dia, Casa de Noite, não foge à regra. A acção passa-se algures depois do final da segunda Grande Guerra, numa aldeola polaca que foi ocupada pelos alemães. A narradora vai-nos contando pequenas histórias, da sua vizinha Marta, dela própria, de um monge que queria ser rapariga, de um casal que enfrenta a rotina da vida, e de muitos outros.

Veremos se Olga Tokarczuck consegue manter este estilo nos seus próximos escritos.

“Raízes Brancas”, de Bernardine Evaristo (2008)

Gostei muito de Rapariga, Mulher, Outra, o livro com que esta escritora anglo-nigeriana venceu o Man Booker de 2019.

Fiquei com curiosidade em conhecer outras obras de Evaristo e a Elsinore editou agora um romance de 2008 e que foi uma desilusão.

A ideia é muito boa: Bernardine Evaristo cria um mundo em que os escravos são os brancos e os senhores são os negros, mas penso que não conseguiu dar a volta à excelente ideia que teve.

Neste livro, os negros, que são os senhores, castigam os escravos brancos, mandam-nos borda fora quando eles estão moribundos, vendem-nos em hasta pública, mas continuam a usar tangas e não me convencem como senhores do Mundo.

Evaristo acaba por construir uma história centrada numa escrava branca que, depois de algumas tentativas, consegue fugir.

Não me convenceu.

“A Morte de Jesus”, de J. M. Coetzee (2020)

Com este título, o escritor sul-africano, prémio Nobel em 2003, termina a trilogia que tem o jovem David como protagonista.

Quando, em 2013, li “A Infância de Jesus”, fiquei entusiasmado. Coetzee contava-nos uma história singular: um miúdo, David, e um homem, Simon, que não é seu pai, chegam a Novilla, uma cidade onde toda a gente deixa o passado para trás. Nesse primeiro volume da trilogia, Simon vai conhecer Inès e vai decidir que ela passará a ser a mãe de David que, vamos descobrindo a pouco e pouco, é um miúdo especial.

Por alguma razão Coetzee decide colocar o nome de Jesus nos títulos dos três volumes e, mesmo que não quiséssemos, acabamos por identificar David com Jesus e os restantes personagens da história com outras tantas figuras bíblicas.

O segundo volume, “Jesus na Escola”, no entanto, decepcionou-me. Li-o em 2018 e achei que o autor se deixou encantar pelo “mundo novo” que criou e decidiu tornar a história cada vez mais absurda – ou então, todas as peripécias narradas são alegorias, como, por exemplo, o facto de David se transformar num bailarino extraordinário, capaz de dançar os números.

Este terceiro volume continua na senda do anterior. David começa por se rebelar contra os pais adoptivos e decide ir viver para um orfanato, onde se quer tornar um grande jogador de futebol. No entanto, adoece subitamente com uma maleita que nunca vamos saber qual é, vai definhando e acaba por morrer. Depois da morte de David, o livro ainda se arrasta mais, com Simon à procura da mensagem que David deveria ter transmitido, mas ninguém sabe qual é – penso que nem o autor.

Coetzee é um dos meus autores contemporâneos preferidos, mas estes dois volumes da trilogia, desiludiram-se.

Nota: a capa da edição portuguesa não deixa de ser irónica para quem é adepto do Benfica…

“O País dos Outros”, de Leila Slimani (2020)

Leila Slimani nasceu em Rabat em 1981 e aos 17 anos mudou-se para Paris. Publicou o seu primeiro romance (No Jardim do Ogre) em 2014. Com o livro Canção Doce (2016), venceu o Prémio Goncourt.

Este O País dos Outros, publicado no ano passado, é o primeiro volume de uma trilogia e tem, como subtítulo, A guerra, a guerra, a guerra.

A acção passa-se em Marrocos, pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Mathilde, uma jovem francesa conheceu Amine, um marroquino, quando este servia no exército francês. Casaram-se e Mathilde abandonou tudo e foi viver com o marido para Marrocos, para uma quinta que ele herdou do pai.

Com um ritmo que nos faz querer avançar na história, Slimani vai relatando a vida dura de Mathilde, habituada ao modo de vida europeu e como teve que ir engolindo os seus sonhos de adolescente para se adaptar aos costumes de uma sociedade onde a mulher tem muito pouca importância.

Por outro lado, Amine, tendo servido no exército francês durante a guerra, vê-se dividido entre apoiar os desejos de independência dos seus compatriotas e manter-se fiel aos colonizadores, ainda por cima, sendo casado com uma francesa.

Aconselho.