“Rapariga, Mulher, Outra”, de Bernardine Evaristo (2019)

Em 2019, houve duas vencedoras do Man Booker Prize.

Apesar do Prémio ter Man no nome, foram duas mulheres as vencedoras: Margaret Atwood, pelo seu livro Testamentos e este excelente Rapariga, Mulher, Outra, de Bernardine Evaristo.

Quase que apetece dizer que o júri do Man Booker não se atreveu a conceder o prémio apenas à escritora anglo-nigeriana, e resolveu juntar o nome de Margaret Atwood. De facto, Rapariga, Mulher, Outra é, na minha opinião, muito melhor que Testamentos.

Evaristo nasceu em Londres em 1959, filha de uma professora inglesa e de um soldador nigeriano, quarta de oito filhos.

É autora de romance, poesia, teatro e crítica literária e, com este Rapariga, Mulher, Outra, conseguiu um dos melhores livros que li ultimamente.

Numa escrita torrencial, conta-nos as histórias de doze mulheres: Amma, uma dramaturga negra e lésbica, Shirley, sua amiga, professora, farta da profissão; Carole, ex-aluna de Shirley, uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento, que se envergonha das suas raízes africanas, a sua mãe, Bummi, negra e empregada doméstica; e mais oito personagens femininas principais, para além de outras que cirandam à volta destas.

São quase 500 páginas de histórias que nos mantêm agarrados, e sempre com uma linguagem fresca, sem grandes rodriguinhos.

Claro que não conheço a versão original, em inglês, mas atrevo-me a dizer que a tradução de Miguel Romeira é excelente.

“A Vida Mentirosa dos Adultos”, de Elena Ferrante (2020)

Esta misteriosa escritora italiana consegue-nos agarrar desde a primeira à última página.

Foi assim com os quatro livros da Amiga Genial, e aconteceu o mesmo com este novo livro.

Nesta nova história napolitana, a narradora e protagonista é uma miúda de 15-16 anos, Giovanna, filha de dois professores e, como tal, vivendo na zona de Nápoles onde predomina a classe média.

O pai de Giovanna é um professor bem-sucedido, mas vem de uma família pobre, da zona mais básica da cidade, onde ainda reside uma sua irmã, Vitória.

Giovanna acha-se feia, como a tia e sente curiosidade em contactar com ela, já que o seu pai cortou relações com as suas raízes.

Os pais de Giovanna convivem com outro casal, também da classe média, e que têm duas filhas, sendo que a mais velha é da idade da narradora.

A tia Vitória, que vive num bairro social, foi amante de um polícia, que, entretanto, morreu, e convive com a viúva e os seus três filhos. Giuliana é a única rapariga desses três, e tem um namorado que é um destacado professor em Milão.

Com estas personagens, Elena Ferrante constrói uma história que nos prende; vamos convivendo com todas as dúvidas próprias dos adolescentes: as dúvidas sexuais ou religiosas, as dúvidas sobre o corpo, as relações entre as pessoas, a revolta em relação aos pais e à escola.

É mais uma história banal e Ferrante consegue ir descrevendo os vários episódios, numa linguagem fluida, cirando expectativa no leitor, sem necessidade de recorrer a tragédias, crimes ou quaisquer artifícios para criar suspense.

Pelos vistos, a vida banal de uma adolescente é suficientemente interessante para prender a nossa atenção.

Aconselho.

“Ressurgir”, de Margaret Atwood (1972)

É o segundo romance desta escritora canadiana, bem diferente das distopias que escreveu posteriormente.

A narradora é uma jovem que se desloca, com o namorado e um casal amigo, à ilha onde viveu com os pais, durante a infância. O seu pai desapareceu e o seu objectivo é encontrá-lo.

No entanto, ao chegar à ilha e à velha casa de madeira, antigas memórias vêm à superfície, bem como dúvidas sobre a sua relação com o actual namorado, com o irmão distante, com os pais.

A pouco e pouco, a protagonista vai-se identificando com a natureza selvagem da ilha, com o lago, a floresta e, no fim, quase questiona a sua espécie.

Livro curioso, cuja atmosfera me fez lembrar alguns romances de Patricia Highsmith, porque estamos sempre à espera que qualquer coisa de muito trágico aconteça.

“Outrora e Outros Tempos”, de Olga Tokarczuk (1992)

Foi o primeiro grande sucesso desta escritora polaca que, no ano passado, foi galardoada com o Nobel.

Depois de ter lido Viagens (2007) e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos (2009), estava com curiosidade em ler este livro, escrito mais de dez anos antes – e verifiquei que Tokarczuk encontrou mesmo uma nova maneira de escrever romances.

Este Outrora e Outros Tempos podia ser um calhamaço de 600 páginas, já que a acção decorre numa aldeia polaca, e percorre a Grande Guerra, a crise que se lhe seguiu, a Segunda Grande Guerra, a ocupação nazi, a ocupação soviética, o regime comunista, a passagem para a democracia liberal.

No entanto, Tokarczuk resolve este “problema” com textos curtos, cada um deles dedicado a um dos habitantes da aldeia. É o exemplo de Mísia; assistimos ao seu nascimento, à sua infância, ao seu casamento, ao nascimento dos seus filhos, à sua velhice e à sua morte.

E o mesmo se passa com as restantes personagens, nas quais, a escritora inclui objectos, casas, móveis, árvores, porque todas elas fazem parte da aldeia.

Gostei.

“O Golfinho”, de Mark Haddon (2019)

Li dois excelentes livros deste escritor britânico (Northampton, UK, 1962), “O Estranho Caso do Cão Morto” (2003) e “Um Pequeno Inconveniente” (2006).

No entanto, este “O Golfinho” (no original “The Porpoise”) deixou-me com sabor a pouco.

O livro começa com a história trágica de uma mulher grávida que sofre um acidente de avião. Ela morre, mas a bebé sobrevive.

A bebé chama-se Angélica, e o pai, Philipe, é um tipo super-rico, que cria a filha longe da sociedade e, em breve, começa a violá-la.

De repente, Angélica já é uma adolescente e vive isolada de tudo e de todos, sofrendo as violações do pai. Surge um jovem que a tenta libertar, mas as coisas não correm bem e ele é obrigado a fugir.

E eis que o jovem se transforma em Péricles, príncipe de Tiro e a história passa para a Grécia Antiga, ou coisa que o valha.

E, mais à frente, ainda há de passar por Shakespeare, e voltar à Grécia, e depois à actualidade, com Angélica a fazer greve de fome e… em resumo, uma confusão, sem ponta por onde se lhe pegue…

Não gostei…

“Telex de Cuba”, de Rachel Kushner (2008)

O ano passado, li O Quarto de Marte (2013), outro livro desta escritora norte-americana, que promete.

Este Telex de Cuba é um livro sobre os últimos tempos dos americanos e das suas empresas, em Cuba, antes de Fidel Castro e dos seus barbudos tomarem conta da ilha.

Narrado sempre por americanos que lá viveram e que administraram as minas de níquel e as plantações de cana-de-açúcar, Telex de Cuba dá-nos uma ideia de como funcionava aquela sociedade estratificada, em que os americanos estavam no topo da pirâmide e, depois, por aí abaixo, vinham os cubanos, os haitianos e os da República Dominicana.

Nas montanhas, Castro e sus muchachos organizavam a revolta, mas, cá em baixo, os americanos continuavam com as suas festas onde todos se embebedavam e com os seus criados negros e a sua vida fútil.

Como reconstituição histórica, trata-se de um livro muito interessante.

“Chuva Miúda”, de Luis Landero (2019)

Luis Landero (Badajoz, 1948), é um escritor espanhol, considerado um dos mais influentes da actualidade. Licenciado em Filologia Hispânica, leccionou Literatura e foi professor convidado em Yale. Estreou-se na literatura em 1989 e, desde então, publicou inúmeros títulos.

Este Chuva Miúda é um romance muito interessante, em grande parte escrito em discurso directo, o que o torna muito vivo ao longo de toda a narrativa.

Gabriel é o mais novo de uma fratria de três. Professor de Filosofia, casado com Aurora, professora do ensino básico, Gabriel decide organizar uma festa para comemorar o 80º aniversário da sua mãe.

Esta decisão provoca uma sucessão de acontecimentos, de que é testemunha Aurora. Ela é o receptáculo das queixas de todos os elementos da família. Com toda a paciência, Aurora escuta as queixas de Sónia, a irmão mais velha de Gabriel, que foi obrigada a começar a trabalhar aos 14 anos, na retrosaria da mãe, desistindo do seu sonho de estudar, formar-se e viajar. Escuta também as queixas de Andrea, a irmã do meio, que gostaria de ter tido uma carreira musical, algo que também não conseguiu. A culpada de tudo isto parece ter sido a mãe dos três irmãos, viúva desde muito cedo, pessoa rígida e que obrigou a Sónia a casar com o Horácio que, porventura, estaria apaixonado por Andrea.

Por outro lado, tanto Sónia como Andrea, tinham inveja de Gabriel, que seria o menino bonito da mamã.

Aurora escuta todas estas queixas, encaixa tudo isto… até um dia…

Recomendo vivamente.

“Na Floresta”, de Edna O’Brien (2002)

Edna O’Brien é uma escritora irlandesa que completará, em dezembro, 90 anos.

Em 2002 editou este livro, cuja história se baseia num caso real. Conforme diz a nota da própria autora, em 1994, uma mulher de 29 anos, o seu filho de 3 anos e um padre desapareceram numa localidade irlandesa, sendo depois encontrados, já mortos. O culpado foi um jovem local que, num acesso psicótico, os raptou e matou.

O livro relata todo este episódio nefasto, modificando o nome das personagens e romanceando os acontecimentos. O jovem psicótico chama-se O’Kane e desde muito novo que frequenta casas de correcção; quando regressa à sua aldeia natal, está em plena crise psicótica, com delírios e alucinações auditivas.

O resultado só podia ser trágico.

Apesar de estar bem escrito, com algum lirismo, penso que falta qualquer coisa à descrição de uma crise psicótica particularmente violenta. Pelos vistos, O’Brien, apesar de viver, desde muito jovem, em instituições para jovens problemáticos, nunca foi diagnosticado como esquizofrénico e nunca fez medicação.

A edição da Cavalo de Ferro, em nenhum lado refere que o livro foi editado há 18 anos.

“Os Testamentos”, de Margaret Atwood (2019)

Com esta sequela de A História de Uma Serva, Margaret Atwood ganhou o Booker Prize de 2019.

Quem está à espera de um final decisivo para a distopia inventada pela escritora canadiana, vai ficar desiludido, porque ela se limita a deixar pistas, embora muito fortes, para que nós imaginemos o que se passou, depois da fuga da República de Gilead, de Nicole e de Agnes, e do diário confessional da Tia Lydia.

Atwood construiu este livro com três narradoras: a Tia Lydia, uma das fundadoras de Gilead e que decide escrever uma espécie de diário, em que confessa o seu plano para destruir o que ajudou a criar, Agnes, uma jovem que consegue evitar o seu casamento com o Comandante Judd, tornando-se Tia, e Nicole, a filha de um serva fugitiva, que vive no Canadá, mas que é introduzida em Gilead pelo movimento Mayday, para tentar corroê-lo por dentro.

O livro está escrito para quem leu A História de Uma Serva e só faz sentido, penso eu, se se ler, primeiro aquele. Muitas das particularidades da República de Gilead só se percebem completamente, se se tiver lido o primeiro livro.

Margaret Atwood escreve bem, está à vontade no que respeita a criar suspense e, por isso, o livro prende-nos, do princípio ao fim, mas já não tem aquele sabor de novidade que tinha o seu antecessor.

Gostaria que a autora escrevesse uma prequela. Fiquei sem saber como nasceu Gilead e o que foi a guerra de Manhattan.

“Corpos Celestes”, de Jokha Alharti (2010)

Jokha Alharti nasceu em Omã em 1978 e venceu o Man Booker International Prize de 2019 com este romance curioso, o que não deixa de ser surpreendente, dado tratar-se de uma mulher, nascida num país muçulmano.

O livro conta-nos a história de diversas personagens relacionadas entre si, todas vivendo em Al-Awafi, uma localidade perto de Mascate, a capital. Está dividido em pequenos capítulos, cada um deles dedicado a uma dessas personagens.

O mais interessante do livro nem são as pequenas histórias de cada uma das personagens, mas sim os usos e costumes de Omã que a autora vai revelando ao longo da narrativa. As crendices ligadas ao parto, à saúde, ao casamento, as orações e as rezas a seres fantásticos, como fugir às suas sentenças, e ainda adoração pelos grandes poetas árabes.

As figuras centrais são três irmãs: Mayya, Asma e Khawla.

Mayya casa com Abdallah, por decisão e contrato entre as duas famílias. Asma casa com Khalid com o único objectivo de ter filhos. Kawla recusa-se a casar por contrato e espera pelo regresso de Nasir, que emigrou para o Canadá.

No entanto, outras personagens são importantes no desenrolar da narrativa, como é o caso da escrava Zarifa e de Qamar, uma beduína muito bela, que se torna amante do pai das três irmãs.

Muito curioso.