“Nas Palavras Dela”, de Alba de Céspedes (1949)

Li há pouco tempo “O Caderno Proibido”, de 1952, outro livro desta autora nascida em Roma, filha do embaixador de Cuba em Itália e, portanto, com dupla nacionalidade, cubana e italiana.

Apesar de se ter oposto ao regime fascista de Mussolini, não lhe foi retirada a nacionalidade, ao contrário do que o palhaço do Ventura queria fazer aos estrangeiros que conseguissem a nacionalidade portuguesa e cometessem determinados crimes.

Quem ler este romance, perceberá o que quero dizer.

São seiscentas páginas e a coisa pode parecer um pouco monótona, mas temos de entender a época em que o romance foi escrito, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, altura em que o papel das mulheres era absolutamente secundário.

No final do livro, temos acesso a um prefácio escrito pela autora em 1994, três anos antes de falecer. Este prefácio devia, na minha opinião, surgir antes do romance, para percebermos melhor o que a autora pensava sobre o que escrevera quase cinquenta anos antes.

“Dar-se conta de que a luta, a prisão e, para tantos, a morte, não tinham servido senão para fazer da Itália um protectorado americano” – diz a autora nesse prefácio.

Aconselho.

“Os Irmãos Burgess”, de Elizabeth Strout (2013)

Elizabeth Strout nasceu em Portland em 1956 e dela já lemos sete romances, todos sobre duas ou três famílias de Shirley Falls, uma cidadezinha inventada do Maine.

Começámos a conhecê-la com o livro que venceu o Pullitzer, “Oliver Kitteridge”, de 2008, uma história de uma antiga professora com certas características que a tornavam amada ou odiada, conforme.

Sempre com uma linguagem fácil, falando de coisas do dia-a-dia, detendo-se, sobretudo, nos sentimentos das pessoas banais, Elizabeth Strout foi criando uma realidade inventada que acaba por nos prender.

Antes deste livro, publicou “Amy e Isabelle” (1998) e depois, os livros foram-se sucedendo: este “Os Irmãos Burgess” (2016), “Tudo é Possível” (2017), “A Segunda Vida de Olive Kitteridge” (2019), “Oh, William!” (2021), “Lucy à Beira-Mar” (2022) e “Conta-me Tudo (2024)– e, pelos vistos, o filão ainda não se esgotou.

Neste “Os Irmãos Burgess”, ficamos a saber os dramas de Susan e Bob, os irmãos gémeos, e do filho mais velho, Jim. Todos têm filhos e ex-esposos e acidentes e tragédias.

O livro lê-se em três penadas , ao fim de sete romances sobre as mesmas famílias, até parece que já os conhecemos a todos…

“A Odisseia de Penélope”, de Margaret Atwood (2005)

A curiosidade levou-me a comprar alguns títulos mais antigos desta autora canadiana, que está sempre na lista para ganhar o Nobel e que já ganhou o Booker por duas vezes, em 2000 com O Assassino Cego e em 2019, com Os Testamentos.

Isto para já não falar nos excelentes, Chamavam-lhe Grace e A História de Uma Serva.

Um dos livros que comprei foi este, de 2005 e que é uma adaptação, muito adaptada, da história de Penélope e de Ulisses.

Não sei o que passou pela cabeça de Atwood para escrever este pequeno livro muito pouco interessante.

Acho que os grandes escritores também têm direito a fazerem porcaria – ou não?…

“Eurotrash”, de Christian Kracht (2021)

Diz a capa do livro, citando o vencedor Pulitzer Joshua Cohen, que Kracht é “o maior escritor de língua alemã da sua geração”, e este livro foi nomeado para o Booker Prize Internacional do ano passado.

É um livro estranho. O narrador (aparentemente, o autor do livro), é filho e neto de nazis e o livro conta-nos uma viagem mais ou menos alucinada, protagonizada pelo próprio e pela sua mãe octogenária e com uma perturbação bipolar.

É difícil descrever o livro e perceber por que razão o narrador e a mãe percorrem quilómetros, num táxi, com um saco cheio de dinheiro, com a intenção de o dar a alguém.

O tom do livro é irónico, como se comprova por este pedaço:

“E a comida na Suíça, que tinha sempre um sabor muito melhor do que noutros lugares, era preparada por crianças escravas que lhe acrescentavam drogas da empresa Nestlé, para que as pessoas gostassem de comer, continuassem em actividade e fossem bons suíços. Os suíços comiam o seu Soylent Green, faziam o seu trabalho, iam dormir, acordavam no dia seguinte, e nada acontecia. Não havia música, nem filmes, nem literatura, não havia absolutamente nada na Suíça, apenas a avidez dos suíços por mais luxo, o desejo de sushi, de ténis coloridos e de Porsche Cayennes, e a construção de mais centros comerciais de bricolagem, imensos, nas aglomerações urbanas em expansão.”

E uma surpresa na página 87, com a referência à família Espírito Santo:

“Certa vez, num verão, o meu pai alugou para nós a casa da família de banqueiros portugueses Espírito Santo em Cascais, uma villa magnífica numa ponta de terra com acesso próprio ao mar.”

A ligação da família Espírito Santo a um chefe de família com ligações ao regime nazi? Deve ser tudo romantismo…

Um livro curioso, apenas isso.

“Conversa n’a Catedral”, de Mário Vargas Llosa (1969)

Conheço este livro há décadas, mas só o comprei em 2013; mesmo assim, ficou ali na estante durante mais 13 anos até me sentir com coragem para o abordar, o que só aconteceu agora.

Mário Vargas Llosa, que recebeu o Nobel em 2010, publicou-o dois anos depois do famoso “Cem Anos de Solidão”, mas este livro, embora a sua acção se centre num país da América Latina, não tem nada a ver com o chamado realismo fantástico de Garcia Marquez e congéneres.

Esta conversa na Catedral também nada tem a ver com uma catedral. De facto, Catedral refere-se a uma cervejaria limenha, onde dois dos muitos protagonistas do calhamaço de 630 páginas, Santiago e Ambrósio, falam, depois de muitos anos sem se verem.

Santiago é um dos filhos de D. Fermin, um ricalhaço que apoia o regime no Poder; na juventude, Santiago sentiu simpatia pelos comunistas e até foi detido, mas o pai, com a sua influência, conseguiu que fosse libertado. Embora se deixasse de ideias comunistas, Santiago acabou por deixar a casa paterna e tornar-se jornalista, com um ordenado miserável e nunca aceitou nenhuma das riquezas da família.

Ambrósio foi motorista de D. Fermin, depois de ter sido motorista de Cayo Bermudez, um dos ministros do governo. D. Fermin tinha um segredo muito bem guardado e Ambrósio sabia qual era e Cayo Bermudez fazia uma vida de ostentação e putas.

E este é apenas um pequeno resumo das várias histórias que se cruzam neste livro, que está dividido em quatro partes; algumas delas são bem difíceis de seguir. Vargas Llosa mistura diálogos que estão a acontecer naquele momento com outros que aconteceram no passado e, como todas as personagens são políticos peruanos dos anos 50, torna-se difícil seguir o rumo da história.

As pegas, a D. Ivone, a Hortência e a Queta, são outras personagens centrais, já que todos aqueles homens frequentam as casas de passe de Lima.

Enfim, e em resumo, que grande desafio que deve ter sido escrever este livro. Llosa tinha apenas 33 anos quando o publicou…

“O Barulho das Coisas ao Cair”, de Juan Gabriel Vásquez (2011)

Depois de ter lido “Os Nomes de Feliza”, fiquei com curiosidade em conhecer mais livros deste autor colombiano.

Encontrei este livro de 2011, que me fez companhia nos últimos dias, mas não me entusiasmou muito.

Vásquez conta-nos a história de um dos primeiros traficantes de droga da Colômbia, no tempo em que Escobar ainda não dominava e dá a ideia de que, nessa altura, os traficantes eram inocentes, que faziam o tráfico como se fossem jovens sem a verdadeira noção do mal que provocavam. Enfim, é um romance, que envolve um acidente de avião que matou muita gente, americanas envolvidas em apoios ao povo colombiano e muito aparente desconhecimento do que o tráfico provoca.

Guardo o livro na prateleira e lá ficará a apanhar pó…

“Partida”, de Julian Barnes (2026)

Este é o décimo livro que leio deste escritor britânico e, a acreditar no que ele diz, será o seu último livro. Agora com 80 anos e sofrendo de uma doença mieloproliferativa, Barnes parece satisfeito com a sua extensa obra e decidiu descansar.

Dele li “Inglaterra, Inglaterra” (1998), “Amor & Etc” (2000) “Arthur & George” (2005), “Nada a Temer” (2008), “O Papagaio de Flaubert” (2010) “O Sentido do Fim” (2011) “O Ruído do Tempo” (2016), “A Única História” (2018), “O Homem do Casaco Vermelho” (2019), “Elizabeth Finch” (2022).

Como é habitual em muitos dos seus livros, Barnes fala connosco e este “Partida” – no original “Departure(s) – parece mesmo uma conversa do autor com os seus leitores, uma conversa de fim de vida.

O livro está dividido em cinco partes: duas delas conta-nos a história de Stephen e Jean, que Barnes juntou quando frequentavam a Universidade e tornou a juntar 40 anos depois; a primeira parte fala-nos nas memórias, nomeadamente a catadupa de memórias que, muitas vezes, são despertadas por um cheiro ou um sabor; outra das partes é dedicada à doença de Barnes e às doenças em geral, sobretudo o cancro e a última parte é uma espécie de despedida.

A propósito do cancro que, estatisticamente atingirá uma em cada duas pessoas, Barnes diz, com o seu habitual humor:

“O obituário «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta contra o cancro» deveria ser substituído por «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta que o cancro manteve com ele»”

Chegado aos 80 anos, Barnes já não vai fazer uma série de coisas que poderia ter desejado fazer, mas já leva a barriga cheia e isto que ele diz, na página 136, poderia ser dito por mim:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

Mais uma leitura agradável de Julian Barnes.

“A Festa do Chibo”, de Mario Vargas Llosa (2000)

Publicado dez anos antes do escritor peruano receber o Nobel, este livro debruça-se sobre a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, de 1930 a 1961, quando foi assassinado.

O livro tem três histórias que se vão cruzando: os últimos anos da ditadura e todas as suas atrocidades e arbitrariedades, a intentona, como foi preparada, como correu e o que sucedeu aos revoltosos, e a história de Urania, filha de um dos colaboradores de Trujillo, que volta ao país muitos anos depois do fim da ditadura.

As ditaduras têm todas pontos comuns: um ditador que é visto como salvador da pátria, um grupo de cortesãos que o seguem cegamente, uma polícia política sem dó nem piedade, comunicação social domesticada e um aparente sucesso da Nação, que não seria nada sem o ditador.

Mas Trujillo tinha algumas particularidades: além de um culto da personalidade levada ao extremo da própria capital do país ter mudado de nome e ter adoptado o nome de Cidade Trujillo, o homem era um garanhão e não se coibia de comer as mulheres de alguns dos seus seguidores, que não se importavam e até achavam uma honra o Chibo ter interesse pelas suas esposas. E gostava, sobretudo, de jovens virgens. Na página 373, diz:

“A receita de Petrónio e do rei Salomão: uma conazinha fresca para devolver a juventude a um veterano de setenta primaveras”

E é aqui que entra a jovem Urania.

Recomendo.

“Os Nomes de Feliza”, de Juan Gabriel Vásquez (2024)

Feliza Bursztyn (Bogotá, 1933-Paris, 1982) foi uma escultora colombiana cuja vida dava, de facto, para um romance, um filme e uma série televisiva. Morreu subitamente, com apenas 49 anos, e a história da sua vida teria ficado por contar se não fosse, Juan Gabriel Vásquez, que decidiu contá-la neste livro, juntando factos, testemunhos e um pouco de imaginação.

Feliza, cujo nome teve várias versões, escolheu ter uma vida diferente daquela que parecia estar-lhe destinada. Depois de um casamento precoce, depois de ter tido três filhas, abandonou tudo e dedicou-se totalmente à escultura, criando obras a partir de sucata.

Teve uma vida muito acidentada e repleta de tragédias, como a morte num acidente de aviação do seu segundo companheiro e, mais tarde, o seu próprio acidente, desta vez, a bordo de um Volkswagen – acidente esse que a obrigou a um flagelo de cirurgias reconstrutivas.

A sua ligação a tudo o que fosse diferente e provocador, levou-a, depois, a Cuba e a um confronto com as autoridades colombianas que acabaram por resultar no seu exílio, primeiro no México, na casa de Garcia Marquez, depois em Paris, onde acabou por falecer de ataque cardíaco, quem sabe proporcionado pelos muitos vapores da soldagem que usava para unir a sucata, a partir da qual criava as suas obras (só muito tarde começou a usar máscara).

Livro muito interessante.

“O Desfufador”, de Valério Romão (2025)

Tenho feito um esforço, juro que tenho, mas desisto hoje, na página 262.

Quando li a entrevista ao autor, Valério Romão, no Ipsilon, do jornal Público, pensei que ia ser um livro que me iria divertir e, por alguma razão, lembrei-me de António Rebordão Navarro e do seu livro de 1972, “O Discurso da Desordem”, que li em março de 1973, com apenas 20 anos, deslumbrado com aquela narrativa revolucionária.

A entrevista que o Público publicou sobre este “O Desfufador” até falava no velho Mário-Henrique Leiria. Coitado! Daria voltas na campa se estivesse para aí virado! Mas o que é que o pobre do Mário teria a ver com isto?!

“O Desfufador” é um livro que não incomoda ninguém porque ninguém o pode levar a sério, quando um dos seus personagens principais é o Alex, um anão que tem “corpo de pónei e sarda de cavalo”. Mas que merda de piada é esta?!

A ironia do Mário-Henrique não tem nada a ver com este chorrilho de palermices!

E eu sei o que estou a dizer…

O que é isto, afinal?

“Ao que o homem pobre não se pode negar (…) era transformar o sonho em fumo (…) ele que sempre sonhara ir ao cu a uma gaja e nunca o tinha feito”

Ou isto, na página 145:

“… quanto à execução de um orçamento cuja leitura e avaliação por parte do eleitor comum estaria, normalmente e em termos de prioridades, bem abaixo da sujeição a uma colonoscopia caseira às mãos de um tio parkinsoniano munido de uma mangueira de bombeiro”

Não, não me sinto ofendido, nem sequer me ruborizo por esta linguagem – simplesmente acho-a infanto-juvenil, como mais este exemplo absolutamente idiota, na página 181:

“a prova de que o português, em focando-se e trabalhando em grupo (!!! Exclamações minhas), é capaz de expulsar qualquer um e reclamar o que é seu. E havia que afastar da cachimónia a ideia de pequenez lusitana, a ladainha do povo simpático sempre enrabado pela sarda estranja, dos bons costumes a troco da gorjeta liliputiana…”

O autor parece enfeitiçado pelos termos “camurço” e “sarda”.

Chega de exemplos.

Fiz em esforço do caralho para ler esta preciosa merda até quase às 300 páginas e assusto-me só de pensar que ainda vai sair mais um volume.

A culpa é apenas do tipo do Público, cuja entrevista me fez despertar o interesse por esta miséria.

Volta Rebordão Navarro!

“Maligna Ofélia! Deves estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais às mães, filhos iguais aos pais, criados baralhados nas contas, queixando-se dos joanetes e um cego que senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo”.
(in “O Discurso da Desordem”, 1972)

Mas o que me deu nesta cabeça, para me lembrar deste pequeno-grande livro do Rebordão Navarro quando li a entrevista ao autor deste “O Desfufador”.

Cenas…