“O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth

Como preâmbulo, Roth explica que o “complexo de Portnoy é uma perturbação na qual profundos impulsos éticos e altruístas entram em perpétuo conflito com desejos sexuais descomedidos, muitas vezes de natureza perversa”.

Está lançado o mote para este romance de 1969, em que Roth, por trás da personagem de Alexander Portnoy, dá largas à culpa judaica (e eu acrescentaria, judaico-cristã) – à culpa em sentido lato, embora, nesta história, a culpa esteja mais direccionada para o sexo.

O judeu Portnoy tem uma mãe castradora e um pai ausente – história habitual. E cedo vai descobrir os prazeres do sexo, mas sempre com uma culpabilidade que o vai levar a uma hipocondria paranóide.

Roth conseguiu fazer-me escangalhar a rir, graças ao uso do vernáculo puro e duro, em rajadas de parágrafos:

«Cada rapariga que vê (agarrem-se bem!) traz, afinal, entre as pernas, uma cona de verdade. Extraordinário! Assombroso! Ainda hoje ele (Portnoy) não se refez da ideia fantástica de que, quando olha para uma rapariga, está a olhar para alguém que é garantidamente portador – de uma cona! Todas elas têm cona! Logo ali, por baixo dos vestidos! Conas – para foder!» (pág. 103)

Numa espécie de discurso de ódio, Roth, através de Portnoy, invectiva a hipocrisia da religião judaica, mas também não é simpático para os cristãos:

«Só mesmo uns pobres trouxas sem nada dentro da cabeça é que podem adorar alguém que, primeiro, nunca existiu, e segundo, se existiu, com o aspecto que tem naquela imagem, era com certeza o maior maricas da Palestina. Com o cabelo cortado à pajem e uma pele de anúncio do Palmolive – e uma vestimenta que hoje me pareceria saída do Fredericks de Hollywood! Basta de Deus e de todas essas tretas! Abaixo a religião e o aviltamento do homem! Viva o socialismo e a dignidade humana!» (pág. 65)

A história de Portnoy é contada pelo próprio a alguém, a quem ele se dirige, e que parece ser um psicanalista, um médico, um juiz. Este truque permite a Roth escrever um longo monólogo de 260 páginas em tom panfletário, que se lê quase de um fôlego.

Com este, já li onze livros do Roth e não me canso.

“O Fantasma Sai de Cena”, de Philip Roth

fantasmasaidecenaPublicado em 2007, “Exit Ghost” é mais um livro em que Roth usa o seu alter ego, Nathan Zuckerman como personagem central.

Zuckerman está velho e doente. Tem 71 anos, foi prostatectomizado por cancro há 11 anos e ficou impotente e incontinente.

Deixou Nova Iorque e o convívio com as pessoas e refugiou-se num local ermo da Nova Inglaterra, sem televisão, sem jornais, sem computador, sem telemóvel, dedicando-se, apenas à escrita.

Agora, no entanto, Zuckerman volta a Nova Iorque para experimentar um novo tratamento que talvez lhe melhore a incontinência e essa perspectiva dá-lhe novo alento.

Num jornal, encontra um anúncio que parece publicado para ele: um casal de jovens escritores pretendem trocar o seu apartamento na cidade por uma casa no campo, por um período de um ano.

Zuckerman decide responder ao anúncio e apaixona-se platonicamente pela jovem escritora, começando a elaborar fantasias sexuais com ela.

Esta é a história básica do livro, embora existam outras sub-histórias. Com a mestria habitual, Roth põe a nu a tragédia da velhice, da doença, da perda da virilidade, da perda do controlo dos esfíncteres.

Uma citação curiosa. Zuckerman regressa a Nova Iorque 11 aos depois e o que o surpreende mais?

“Que me surpreendeu mais nos primeiros dias de deambulação pela cidade? A coisa mais óbvia – os telemóveis. (…) Que tinha acontecido nestes dez anos para que de repente houvesse tanto para dizer – tanto e tão urgente que não pudesse esperar para ser dito?”

“O Animal Moribundo”, de Philip Roth

animalmoribundoPhilip Roth é, neste momento, um dos meus escritores favoritos.

Entrei em contacto com ele no ano 2000, com “Teatro de Sabbath”, de 1995. Fiquei fascinado pelo vigor e crueza da escrita torrencial.

Depois desse, já li muitos dos seus livros: “A Mancha Humana” (2000), “Todo-o-Mundo” (2006), “A Conspiração Contra a América” (2004), “Pastoral Americana” (1997), “Casei Com Um Comunista” (1998) e “Património” (1991) .

“O Animal Moribundo” é um pequeno livro, com pouco mais de 100 páginas, em que um professor e crítico de arte de quase 70 anos, narra as suas aventuras sexuais com algumas das  suas alunas, que se sentem atraídas pela maturidade e pela cultura do professor.

David Kepesh, assim se chama o narrador, conta, sobretudo a sua relação com Consuella Castillo, uma jovem cubana, com quem manteve maratonas sexuais quando ela tinha pouco mais de 20 anos e ele já tinha ultrapassado os 60.

Agora, que ela tem 32 anos e ele já está nos 70, e depois de já não se verem há vários anos, Consuella vem ter com o antigo amante. Tem um cancro da mama, está a fazer quimioterapia, perdeu o cabelo, quer ajuda para enfrentar o fim e vai procurá-la junto de quem, naturalmente, está mais perto da morte.

O erotismo, a passagem do tempo, a idade, a morte – tudo isto não é exclusivo de determinados grupos etários.

Nesta história, temos um homem de 70 anos, cheio de vigor e de desejo e uma mulher de 32 anos, enfrentando a morte.

Por coincidência, a capa do livro, da responsabilidade do atelier de Henrique Cayate, poderia muito bem levar à apreensão do livro pela PSP de Braga, como aconteceu recentemente

“Património”, de Philip Roth

Em 1991, Roth publicou este comovente livro que narra os últimos tempos da vida do pai do escritor. Como está explícito no subtítulo, esta é “uma história verdadeira” e Roth “limita-se” a descrever como foi a vida do seu pai, desde que ficou sozinho, após a morte súbita da mulher (e mãe de Roth) e depois de lhe ter sido diagnosticado um tumor cerebral, que lhe foi limitando a autonomia.

Embora provenha de uma família religiosa judaica, Roth escreve com um ateu. A vida é assim mesmo, a morte também; não há compensações ou castigos, conforme nos portamos melhor, aos olhos de um deus que, achamos nós, os ateus, não existe. Portanto, a vida, a doença, a sobrevivência, a luta diária e a morte, são tudo coisas que acontecem a todos os seres vivos, judeus, católicos, muçulmanos, ateus.

O livro não é, como poderia ser, uma ladainha tristonha ou uma verborreia encomiástica. É um texto simples, no qual transparece a admiração de Roth pelo seu pai, o seu amor genuíno, adulto, maduro. Um excelente testemunho que o pai de Roth gostaria de ler, penso eu…