“Como Mentem as Sondagens”, de Luís Paixão Martins (2023)

Que as sondagens mentem com quantos dentes têm, já a gente sabia, mas confirmámos agora, depois da leitura deste livrinho do consultor LPM, o tal careca de boné, que é apresentado como o tal que conseguiu a maioria absoluta para o António Costa.

Exagero, claro – quem conseguiu essa maioria absoluta foram os eleitores que, borrifando-se nas sondagens que davam um empate técnico entre PS e PSD, decidiram votar em massa no PS.

Paixão Martins, com abundância de citações norte-americanas, explica como as sondagens têm tudo para induzir em erro: a amostra é pequena, o inquérito está mal conduzido, a interpretação dos jornalistas é abusiva e a distribuição dos indecisos é uma catástrofe!

Gostámos de ler e aconselhamos a todos, sobretudo a quem está à espera da próxima sondagem para decidir em quem votar.

“O Historiador”, de Elizabeth Kostova (2005)

Tinha este livro na estante desde 2005. Penso que lhe peguei, em tempos, que o comecei a ler, mas desisti, talvez porque o tema não me interessou e porque era demasiado volumoso para a minha vontade de o ler.

Com efeito, é um calhamaço de 598 páginas, em letra miudinha e o tema do livro não me entusiasma muito – vampiros, mais precisamente, Vlad III Tepes, o Impalador, também conhecido por Drácula.

Elizabeth Kostova (New London, Connecticut, EUA, 1964) escreveu este romance ao longo de dez anos, tendo como inspiração o seu próprio pai, que era professor, e que lhe contava histórias sobre vampiros. Nessa altura, a família vivia na Eslovénia, mas viajava pela Europa, tal como o pai da protagonista do livro.

Histórias de vampiros, mortos-vivos e ofícios correlativos, não são da minha preferência e tive de fazer um esforço para ler este tijolo até ao fim, mas como o li em voz alta, e a minha audiência foi muito compreensiva, consegui ir até ao fim.

Por alguma razão os direitos do livro foram adquiridos pela Sony, por quase 2 milhões de dólares e o filme ainda não chegou sequer à produção. E por alguma razão estava intocável na minha estante há 18 anos!

No fundo, o livro poderia ter um terço do tamanho se Kostova soubesse, ou quisesse, ser mais sintética. Repleto de referências históricas, o livro resume-se à busca pela tumba do Drácula que, afinal, parece que fica em França – ou será que é em Istambul, Bulgária, Roménia, ou até Filadélfia?

Não aconselho.

“As Sete Luas de Maali Almeida”, de S. Karunatilaka (2022)

Karunatilaka nasceu em Colombo, Sri Lanka, em 1975 e com este livro ganhou o Booker Prize.

É um livro estranho e tive alguma dificuldade em seguir esta narrativa por várias razões; por um lado, o ponto de partida não me é muito agradável: um fotógrafo, Maali Almeida, está morto e vagueia pelos meandros da capital do Sri Lanka, em busca de quem o matou e porquê. Almeida, um homossexual não assumido e jogador inveterado, escondeu algures umas caixas com fotografias comprometedoras para alguns dos notáveis do seu país.

O autor mistura a realidade do seu país com a mitologia do Sri Lanka. Na minha opinião, há espíritos, demónios e fantasmas a mais e, muitas vezes, perdi-me na narrativa.

Para quem tencione ler, aconselho a aprender, primeiro, um pouco sobre a mitologia do Sri Lanka.

“A Misteriosa Chama da rainha Loana”, de Umberto Eco (2004)

Este romance de Umberto eco estava esquecido na nossa estante desde que o comprámos na feiro do Livro de 2005, sei lá porquê.

Mas chegou a vez dele, lido em voz alta nos últimos dias.

Eco inventa a personagem do sexagenário Yambo que, depois de sofrer um AVC fica com amnésia seleccionada – isto é, recorda-se de episódios da História, mas deixou de saber quem é, não reconhece a mulher, as filhas e os netos.

Depois de ter alta, Yambo refugia-se numa casa de campo da família, onde, quando jovem passou os anos da Segunda Grande Guerra e é nessa casa que vasculha o sótão e descobre livros, revistas, jornais, discos e outras coisas que, a pouco e pouco, o vão ajudar a reconstituir a sua memória.

Este foi o truque que Umberto Eco (1932-2016) usou para escrever um livro baseado nas suas próprias memórias da juventude. Partilho algumas dessas memórias, embora Eco tenha nascido mais de 20 anos antes de mim. Alguns dos seus heróis, continuaram a ser os meus, sobretudo através do Mundo de Aventuras, como é o caso do Flash Gordon, Fantasma, Dick Tracy e outros.

Nas suas investigações no sótão, Yambo encontrou, por exemplo, alguns números da revista A Defesa da Raça. Em Itália, o fascismo sempre foi mais declarado do que em Portugal:

“Havia fotos de aborígenes comparadas com as de um macaco, outras que mostravam o resultado monstruoso do cruzamento entre uma chinesa e um europeu (mas eram fenómenos de degeneração que, segundo parecia, só aconteciam em França). Falava-se bem da raça japonesa e evidenciavam-se os estigmas imprescindíveis da raça inglesa, mulheres com papada, cavalheiros rubicundos com nariz de alcoólicos, e uma ilustração mostrava uma mulher com o capacete britânico, impudicamente coberta por algumas folhas do Times em forma de fato de ballet; a mulher olhava-se ao espelho e Times, ao contrário, lia-se Semit. Quanto aos judeus propriamente ditos, era só escolher: era uma coleção de narizes aduncos e barbas desgrenhadas, de bocas porcinas e sensuais com dentes saídos, de crânios braquicéfalos, de maçãs de rosto marcadas e olhos tristes de Judas hierosolimita, de ventres incontinentes e de tubarões de fraque, com a corrente do relógio em ouro no colete, as mãos rapaces estendidas para as riquezas dos povos proletários.”

A infância de Yambo foi passada durante o tempo de Mussolini e o jovem sentia-se dividido entre a Igreja e o pecado, entre o fascismo e o esquerdismo do avô.

“Revejo uma cena rápida, que talvez se tenha passado alguns anos antes. Pergunto:

– Mãe, o que é uma revolução?

– É quando os operários vão para o governo e cortam a cabeça aos empregados de escritório como teu pai.”

Na adolescência, Yambo começa a contactar com adultos que se opõem ao regime fascista. Um deles, Gragnola, achava que quase todos eram fascistas.

Certo dia, Yambo perguntou-lhe quem era Hegel.

“- Hegel não era panteísta, e o teu Melzi é um ignorante. Giordano Bruno, esse sim, era panteísta. Um panteísta diz que Deus está em todo o lado, até mesmo naquela cagadela de mosca que vês ali. Imagina o gozo, estar em todo o lado é como estar em lado nenhum. Bom, para Hegel, não era Deus, mas o Estado que devia estar em todo o lado, portanto, era um fascista.

– Mas não viveu há mais de cem anos?

– E que importa? A Joana d’Arc também, uma autêntica fascista. Os fascistas sempre existiram. Desde os tempos… desde os tempos de Deus. O próprio Deus. Um fascista.”

Mais um bom livro de Umberto Eco, ainda por cima, ricamente ilustrada com imagens das inúmeras publicações que Yambo descobre no sótão.

“Baumgartner”, de Paul Auster (2023)

Auster é outro dos meus autores contemporâneos preferidos, a par de Philip Roth, mas este livro não merece ombrear com muitos outros que já li. Aliás, penso que li todos os livros de Auster publicados em Portugal, excepto o penúltimo A Vida Interior de Martin Frost.

Paul Auster está a envelhecer (tem 76 anos) e este Baumgartner tem o envelhecimento como tema central.

Baumgartner é um professor universitário e escritor de setenta e poucos anos, que perdeu a mulher há dez anos, mas que continua a viver com ela no seu pensamento. Chamava-se Anna e também era professora e poeta e tradutora. Curiosamente, traduzia poemas de Fernando Pessoa (página 63):

“(…) o Prémio Pen de Tradução atribuído em 1997 a Anna pelos seus Selected Poems of Fernando Pessoa…”

Todo o livro gira à volta do dia-a-dia de Baumgartner que, a propósito disto e daquilo vai recordando episódios da sua vida, o que torna o livro um pouco repetitivo e maçador.

Às tantas, Baumgartner inicia um curto relacionamento com outra professora (o livro é só professores universitários, cientistas e outros que tais) e aqui, salvo melhor opinião, Paul Auster mete o pé na argola.

Na página 86 diz:

“Com Anna, a diferença de idades fora apenas de dois anos e meio. Com Judith é de dezasseis, e aos quarenta e quatro anos ela ainda corre a toda a velocidade, ao passo que ele já não corre, arrasta os pés (nos seus melhores dias) e chega mesmo a rastejar (nos piores).”

Ora, fazendo as contas, se Judith tem 44 anos e Baumgartner tem mais 16, terá 60 anos. e, pelos vistos, aos 60 anos, já não pode com uma gata pelo rabo.

O problema é que, na página seguinte, Auster diz o seguinte:

“E quando pensar (a Judith) em como a vida se lhe apresentará daqui a dez ou vinte anos, a perspectiva de dormir ao lado de um homem de oitenta ou noventa anos pode levá-la a fugir a sete pés”.

Se Baumgartner, na página anterior, tinha 60 anos, como é que aqui aparece com 80 ou 90?

Parece-me que Auster é que já não pode com uma gata pelo rabo…

Aconselho apenas aos fãs.

Outros livros de Paul Auster: 4 3 2 1; Relatório do Interior; Diário de Inverno; Palácio da Lua; Sunset Park; Invisível; Homem na Escuridão; Mr. Vertigo; Viagens no Scriptorium; As Loucuras de Brooklyn; O Livro das Ilusões; Experiências com a Verdade; Timbuktu

“Zuckerman Libertado”, de Philip Roth (1981)

Roth escreveu quatro livros em que Nathan Zuckerman (seu alter ego) é protagonista: O Escritor Fantasma (1979), publicado por cá em 2017, este Zuckerman Libertado, A Lição de Anatomia (1983), publicado cá em 2015 e A Orgia de Praga (1985), que penso nunca ter sido publicado em Portugal.

Sendo uma parte importante da obra de Philip Roth, não percebo por que razão os quatro livros da série Zuckerman não foram editados em Portugal pela ordem cronológica, o que faria todo o sentido.

Tudo começou com o excelente O Complexo de Portnoy, que Roth publicou em 1969 (editado por cá em 2010), um livro que expunha as idiossincrasias dos judeus, sobretudo no que respeita ao sexo, mas não só. Sendo Roth judeu, o livro foi muito mal recebido pelos seus congéneres, embora tenha tido êxito assinalável noutras latitudes.

Roth decidiu então criar um alter ego, Nathan Zuckerman, autor de um livro chamado Carnovsky, onde as idiossincrasias dos judeus são dissecadas. Zuckerman vai sofrer as consequências do que escreveu e é disso que estes quatro livros tratam.

Este Zuckerman Libertado é o segundo dessa série e conta-nos as paranóias que assaltam o escritor, que pensa que está a ser perseguido e que querem vingar-se do livro que escreveu, raptando a sua mãe.

Roth é divertido e, como diz uma citação que consta da contracapa “desde Henry Miller ninguém como ele aprendeu a ser tão divertido, compassivo, brutal e lamentoso no espaço de um parágrafo”.

Um exemplo (página 165):

“- Newark! (…) Que sabes tu de Newark, menino da mamã? Eu li a porra do livro. Para ti é chop suey aos domingos no chinês do centro da cidade! Para ti é fazer de índio leni-lenape na récita do liceu. Para ti é o tio Max em camisola interior, a regar os rábanos à noite! E o Nick Etten na primeira base pelos Bears! Nick Etten! Atrasado mental! Atrasado mental! Newark é um negro com uma navalha! Newark é uma puta com sífilis! Newark é drogados a cagar no portal da tua casa e a pegar fogo a tudo! Newark é vigilantes hispânicos à caça de escarumbas armados de chaves de rodas! Newark é a bancarrota! Newark é cinzas! Newark é entulho e sujidade! Se fores dono de um carro em Newark ficarás a saber tudo sobre Newark! Então poderás escrever dez livros sobre Newark! Cortam-te a garganta por uns pneus radiais! Cortam-te os tomates por um relógio Bulova! E a pichota para se divertirem, se fores branco!”

Foi o 22º livro de Philip Roth que li e espero mesmo que editem o quarto livro desta série.

Outros livros de Roth: O Professor do Desejo; Operação Shylock; Quando Ela Era Boa; Os Factos; Engano; Goodbye Columbus; Nemésis; A Humilhação; Indignação; O Fantasma Sai de Cena; O Animal Moribundo; Património; Todo-o-Mundo; Pastoral Americana; A Conspiração Contra a América; Casei Com Um Comunista

“Gravidade Zero”, de Woody Allen (2002)

Por que raio Woody Allen decidiu publicar mais este livro?

Porque pode.

É um livro chato, sem grande graça, cheio de referências demasiado nova-iorquinas para poderem ser totalmente compreendidas por lisboetas, mesmo que esses lisboetas, como é o meu caso, já tenham ido a Nova Iorque e vejam muitas séries norte-americanas.

Penso que me sorri duas vezes. Na página 119, quando conta que “os meus pais esperavam gémeos. Ficaram devastados quando viram que vinha só eu. Não souberam lidar com o facto. Nos meus primeiros anos, vestiram-me de gémeos. Dois chapéus, quatro sapatos.” E na página 164, quando escreve que “A mãe, Ruth, era uma mulher habitualmente zangada que elevava o queixume à condição de arte”.

O resto do livro, é mesmo chato.

Depois de várias histórias curtas, sem pilhéria nenhuma, o livro termina com uma história mais longa, de cerca de cinquenta páginas, que começa muito bem, com a descrição de uma família, onde se incluiu a tal Ruth, mas depois descamba para um rol de lugares-comuns, terminando com um final pífio.

Não recomendo.

“Sobre o Céu”, de Richard Powers (2018)

Em 2009 li um outro livro deste autor norte-americano (Illinois, 1957), chamado “O Eco da Memória”. Nesse livro, Powers falava de Grous, neste outro, fala de árvores. De muitas árvores!

“The Overstory” é o título original. Difícil de traduzir. Poderíamos dizer que overstory se refere à copa das árvores quando, numa floresta, por exemplo, formam uma espécie de capa.

Nuno Quintas traduziu este livro e merecia que o seu nome figurasse na capa, tal a dificuldade que deve ter encontrado no seu trabalho. Ele próprio, numa nota, no final do livro, refere essa dificuldade, uma vez que uma boa parte do livro fala das inúmeras espécies de árvores dos Estados Unidos que, muitas vezes, não se encontram no continente europeu, muito menos em Portugal. Pelo contrário, o velho castanheiro que, abnegadamente, nos oferece as deliciosas castanhas nesta época do ano, parece que está extinto nos Estados Unidos, devido a alguma espécie de praga, pelo menos, a julgar pelo livro de Powers.

Vencedor do Pulitzer, achei este romance demasiado confuso. Por um lado, junta diversos protagonistas, diria mesmo protagonistas a mais, mas, no entanto, os verdadeiros protagonistas são as árvores. O livro está dividido em 4 partes: raízes, tronco, copa e sementes.

Nas raízes, ficamos a conhecer as histórias das diversas personagens e é a parte mais interessante do livre, na minha opinião. Depois, a coisa complica-se. Alguns destes personagens unem-se para se tornarem activistas contra o abate de árvores, a coisa complica-se, eles radicalizam-se e, às tantas, confesso que me perdi no enredo!

Mas o texto é confuso, com referência constante às diversas árvores (coitado do tradutor, o que ele deve ter sofrido!)

Eis um exemplo:

“Passado um tempo, consolidam-se: simples, e depois ganham grão. Como na primavera o ácer fica todo corado de cima a baixo. O aplauso educado dos choupos. O teixo a esticar-se, qual progenitor a pegar na mão da prole. O odor das nozes da nogueira-americana quando picadas. Os diques abrem-se e inundam-no de recordações, como os milhões de fechos de luz que atravessam as palmas de um castanheiro-da-índia. O ângulo entre as acácias. A turbulência num pedaço de madeira de oliveira. Os cachos da folhagem da mimosa, feitos caudas de aves tropicais. A escrita secreta, palavras turvas e crípticas, no avesso da casca da bétula. Caminhar debaixo de choupos-negros em que a calam pesa tanto que até inspirar era uma transgressão. Roçar um cipreste e pensar: «deve ser este o cheiro da vida do além»”

Difícil acabar de ler este calhamaço de mais de 400 páginas e ficar a pensar que está um pouco sobrevalorizado.

“Olho de Gato”, de Margaret Atwood (1988)

Gostei muito deste livro que já tem algumas décadas de edição no Canadá, mas que saiu agora, na Bertrand, com tradução de Rita Canas Mendes.

Atwood é uma escritora prolífica e dela já li muitas coisas, incluindo o Booker Prize de 2000, O Assassino Cego, e outros, como A História de uma Serva, Grace, O Coração é o Último a Morrer”, Ressurgir, Os Testamentos, Coração de Pedra.

Neste Cat’s Eye, Margaret Atwood conta-nos a história da pintora Elaine Risley, desde os tempos em que ela, os seus pais e o seu irmão, deambulavam pelas florestas canadianas, pouco depois do fim da Grande Guerra. O pai estudava insectos e a família ia atrás. Mais tarde, radicaram-se numa Toronto ainda por construir e por desenvolver. Elaine encontrou amigas, sobretudo uma, chamada Cordelia, que haveria de ensombrar o seu futuro. Vamos acompanhando a vida de Elaine, com muitas visitas ao passado, as suas paixões, a sua atitude cínica perante a vida.

Apesar da diferença entre a vida no Canadá no post-guerra e a vida num país como Portugal nessa época, encontramos alguns pontos de contacto.

Como este pedaço da infância de Elaine:

“Dois dias depois, a Carol conta-nos que o pai lhe deu uma valente sova de cinto, com o lado da fivela, diretamente no rabo. Diz que mal consegue sentar-se. Parece orgulhosa disto. Depois das aulas, no seu quarto, mostra-nos: levanta a saia, baixa as cuecas, e lá estão as marcas, parecidas com arranhões, não muito vermelhas, mas efectivamente lá.”

Elaine torna-se uma pintora, digamos, feminista, mas sem acreditar muito nisso. Depois de um primeiro casamento falhado, conhece Ben, um homem tradicional. Acaba por gostar disso:

“Anos antes, tê-lo-ia considerado demasiado óbvio, demasiado tolo, praticamente um simplório. E, durante anos depois disso, um chauvinista da espécie mais amistosa. Ele é todas essas coisas; mas também é como uma maçã, depois de um banquete desenfreado.

Vem a minha casa e repara o alpendre traseiro com os seus próprios serrote e martelo, como nas revistas femininas de antigamente, e depois bebe uma cerveja, no relvado, como nos anúncios.  Conta-me anedotas que eu não ouvia desde os tempos do liceu. A minha gratidão por estes prazeres triviais surpreende-me. Mas não preciso dele, ele não é nenhuma transfusão. Ele agrada-me, só. É uma felicidade sentir-me agradada com algo tão simples”.

“Olho de Gato” é um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

“Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos”, de Robert Walser

Robert Walser nasceu em Biel, Suíça, em 1878 e faleceu de ataque cardíaco, durante um passeio, em 1956. Ao longo da sua vida, mudou de profissão inúmeras vezes e em 1929 foi internado num hospício, com o diagnóstico de esquizofrenia catatónica e aí se manteve durante cerca de vinte anos.

Walser é autor de muitos poemas, romances, peças de teatro e textos curtos, de teor original; parece ter influenciado Franz Kafka.

Este pequeno livro, editado pela Assírio e Alvim, reúne alguns pequenos textos que Walser escreveu entre 1901 e 1932. Por vezes, estes curtos textos soam quase a redacções infantis, outras vezes, parecem textos quase surrealistas. Como este, intitulado Peça de Câmara e que começa assim:

“Conheço um escritor que, depois de lutar em vão durante semanas para encontrar assunto adequado, teve finalmente a divertida ideia de empreender uma viagem de descoberta debaixo da sua própria cama.

No entanto, o resultado dessa temerária e perigosa expedição foi, como lhe poderia dizer de antemão qualquer pessoa que o estivesse a observar, igual a zero.

Desiludido e desencorajado, o aventureiro teve de se levantar do chão em que se tinha prostrado, lamentando-se vigorosamente por não ter descoberto uma matéria de escrita minimamente significativa e interessante”.

Livrinho curioso.