“Olive Kitteridge”, de Elizabteh Strout (2008)

Elizabeth Strout (Portland, Maine, 1956), ganhou o Prémio Pulitzer com este romance, mas, na sua carreira, tem já mais alguns best-sellers. Em Portugal, para além deste, tem publicados “Tudo é Possível” e “O Meu Nome é Lucy Barton”.

Olive Kitteridge foi professora de matemática em Crosby, uma pacata povoação próxima de Portland, no Maine. É uma mulher grande, que engordou depois da menopausa, mas, sobretudo, é uma mulher mal humorada, sempre zangada com o mundo.

Toda a gente em Crosby conhece Olive e o seu mau feitio; é casada com Henry, o dono da farmácia local – um homem simpático, o oposto da mulher.

A narrativa começa quando ambos estão à beira da reforma e continua até pouco depois da morte de Henry.

Cada capítulo conta-nos uma história que, de algum modo, está relacionada com Olive, embora ela nem sempre participe directamente na história.

Há a história da pianista alcoólica, do ex-aluno de Olive que se quer suicidar, da mãe destroçada pelo crime do filho, e mais.

Olive tem dificuldade em aceitar o facto do seu filho ter casado com uma mulher que ela detesta e se ter mudado para a Califórnia. Cristopher quis fugir de uma mãe autoritária e azeda.

É com este ambiente que a narrativa evolui, sempre com muito interesse.

A tradução é de Tânia Ganho e a edição da Alfaguara e eu recomendo.

“O Que o Cão Viu”, de Malcolm Gladwell

Malcol Gladwell nasceu em Inglaterra em 1963, cresceu no Canadá e vive actualmente em Nova Iorque, sendo colunista da revista The New Yorker.

Este curioso livro reúne alguns dos seus ensaios publicados naquela revista – ensaios muito variados, desde por que razão há muitas variedades de mostarda e apenas uma de ketchup, o que é que o inventor da pílula não sabia sobre a saúde das mulheres, os perigos da informação a mais, a mamografia e o poderio aéreo, por que associamos o génio à precocidade, etc.

Gladwell pega em um ou dois exemplos práticos para, depois, nos explicar a sua opinião sobre o assunto em discussão, socorrendo-se, sempre, da opinião de diversos especialistas e de estudos científicos publicados.

Na página 299, por exemplo, é citado um estudo muito curioso:

“No início da década de 1970, um professor de psicologia da Universidade de Stanford, chamado David L. Rosenhan, juntou um pintor, um estudante universitário finalista, um pediatra, uma dona de casa e três psicólogos. Pediu-lhes que fossem a diferentes hospitais psiquiátricos com nomes falsos e se queixassem de que andavam a ouvir vozes.”

De resto, estes voluntários deveriam responder a todas as perguntas sem mentir e manter comportamentos normais. Estiveram internados, em média, 19 dias, e houve um que ficou quase dois meses internado.

Rosenhan dirigiu-se depois aos hospitais visados e explicou que estava a fazer uma experiência e que, em breve, voltaria a enviar voluntários que se fingiriam doentes.

Dessa vez, dos 193 admitidos nos hospitais, 41 foram considerados saudáveis – mas, mais uma vez, os hospitais enganaram-se, já que Rosenham não tinha enviado ninguém.

É com experiências deste género, surpreendentes, que Gladwell ilustra os seus ensaios, o que os torna interessantes, mesmo quando o tema é pouco atractivo.

“Rapariga, Mulher, Outra”, de Bernardine Evaristo (2019)

Em 2019, houve duas vencedoras do Man Booker Prize.

Apesar do Prémio ter Man no nome, foram duas mulheres as vencedoras: Margaret Atwood, pelo seu livro Testamentos e este excelente Rapariga, Mulher, Outra, de Bernardine Evaristo.

Quase que apetece dizer que o júri do Man Booker não se atreveu a conceder o prémio apenas à escritora anglo-nigeriana, e resolveu juntar o nome de Margaret Atwood. De facto, Rapariga, Mulher, Outra é, na minha opinião, muito melhor que Testamentos.

Evaristo nasceu em Londres em 1959, filha de uma professora inglesa e de um soldador nigeriano, quarta de oito filhos.

É autora de romance, poesia, teatro e crítica literária e, com este Rapariga, Mulher, Outra, conseguiu um dos melhores livros que li ultimamente.

Numa escrita torrencial, conta-nos as histórias de doze mulheres: Amma, uma dramaturga negra e lésbica, Shirley, sua amiga, professora, farta da profissão; Carole, ex-aluna de Shirley, uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento, que se envergonha das suas raízes africanas, a sua mãe, Bummi, negra e empregada doméstica; e mais oito personagens femininas principais, para além de outras que cirandam à volta destas.

São quase 500 páginas de histórias que nos mantêm agarrados, e sempre com uma linguagem fresca, sem grandes rodriguinhos.

Claro que não conheço a versão original, em inglês, mas atrevo-me a dizer que a tradução de Miguel Romeira é excelente.

“Os Três Irmãos Que Nunca Dormiam”, de Giuseppe Plazzi (2019)

Giuseppe Plazzi (Ravena, 1959) é um Neurologista italiano, responsável pelo Centro para o Estudo e Cura dos Distúrbios do Sono, além de professor na Universidade de Bolonha.

Tal como o também neurologistas norte-americano, Oliver Sacks, Plazzi escreveu este pequeno livro contando-nos histórias de alguns dos seus doentes com distúrbios do sono: sonambulismo, terrores nocturnos, sexsónia, perturbação do sono REM, narcolepsia, parasónia.

Cada capítulo é dedicado a uma destas patologias e, a propósito, Plazzi conta-nos o caso de um dos seus doentes.

A linguagem é simples e o livro tem, também, intuito pedagógico e confesso que aprendi muito com ele – até porque muitos dos distúrbios do sono só começaram a ser estudados verdadeiramente muito depois de terminarmos os nossos cursos.

“A Vida Mentirosa dos Adultos”, de Elena Ferrante (2020)

Esta misteriosa escritora italiana consegue-nos agarrar desde a primeira à última página.

Foi assim com os quatro livros da Amiga Genial, e aconteceu o mesmo com este novo livro.

Nesta nova história napolitana, a narradora e protagonista é uma miúda de 15-16 anos, Giovanna, filha de dois professores e, como tal, vivendo na zona de Nápoles onde predomina a classe média.

O pai de Giovanna é um professor bem-sucedido, mas vem de uma família pobre, da zona mais básica da cidade, onde ainda reside uma sua irmã, Vitória.

Giovanna acha-se feia, como a tia e sente curiosidade em contactar com ela, já que o seu pai cortou relações com as suas raízes.

Os pais de Giovanna convivem com outro casal, também da classe média, e que têm duas filhas, sendo que a mais velha é da idade da narradora.

A tia Vitória, que vive num bairro social, foi amante de um polícia, que, entretanto, morreu, e convive com a viúva e os seus três filhos. Giuliana é a única rapariga desses três, e tem um namorado que é um destacado professor em Milão.

Com estas personagens, Elena Ferrante constrói uma história que nos prende; vamos convivendo com todas as dúvidas próprias dos adolescentes: as dúvidas sexuais ou religiosas, as dúvidas sobre o corpo, as relações entre as pessoas, a revolta em relação aos pais e à escola.

É mais uma história banal e Ferrante consegue ir descrevendo os vários episódios, numa linguagem fluida, cirando expectativa no leitor, sem necessidade de recorrer a tragédias, crimes ou quaisquer artifícios para criar suspense.

Pelos vistos, a vida banal de uma adolescente é suficientemente interessante para prender a nossa atenção.

Aconselho.

“A Propósito de Nada”, de Woody Allen (2020)

Sou um admirador de Woody Allen e não podia deixar de ler esta sua autobiografia, que não me decepcionou.

Claro que Allen aproveita a oportunidade para fazer a sua defesa, no que respeita às acusações de Mia Farrow, de que terá abusado sexualmente de Dylan, a filha adoptada por ambos. Gasta várias páginas descrevendo pormenores das investigações levadas a cabo por equipas independentes e que chegaram à conclusão de que não teria havido nenhuma violação; mostra-se triste e revoltado por continuar a ser considerado culpado, embora nunca o tenha sido em tribunal e, com esse facto, ter sido prejudicado na sua carreira como realizador. Fala, também, dos muitos actores que, temendo não conseguir trabalho, renegaram os filmes que com ele fizeram. Fala também dos que o apoiaram e continuam a apoiar.

Mas deixando este triste episódio para trás, o livro é divertido, como não podia deixar de ser.

Allen conta algumas coisas da sua família, fala-nos de como começou a sua carreira como inventor de piadas para outros, depois, como passou a ser ele a interpretar o seu próprio material e, finalmente, como deu o salto para o cinema.

Descreve, com algum pormenor, todos os seus filmes, desde o horrível What’s New Pussycat, que ele abomina, até ao mais recente A Rainy Day in New York.

Ficamos a saber que do que ele mais gosta é de escrever, porque, no que respeita a cinematografia, parece não perceber nada de fotografia, enquadramentos, luz, etc, limitando-se a saber que é preciso tirar a tampa da objectiva e depois, filmar. Detesta ensaios, repetições de cenas e gosta de acabar as filmagens cedo, para poder regressar a casa, que é onde ele gosta de estar.

Ao longo das quase 450 páginas, Allen desvaloriza-se; não é nenhum intelectual, muito menos um génio, e não se considera um bom realizador.

Fala longamente das suas mulheres, desde a jovem Harlene, passando pela instável e divertida Louise Lasser, Diane Keaton e Mia Farrow e, finalmente, Soon-Yi, filha adoptiva de Mia e com quem está casado há mais de 20 anos. Allen tinha 58 anos e Soon-Yi tinha 21 quando casaram, e o realizador dedica-lhe o livro e enche muitas páginas elogiando-a.

A melhor piada do livro, na minha opinião: quando morrer, Allen quer que as suas cinzas sejam espalhadas junto a uma farmácia.

“Ressurgir”, de Margaret Atwood (1972)

É o segundo romance desta escritora canadiana, bem diferente das distopias que escreveu posteriormente.

A narradora é uma jovem que se desloca, com o namorado e um casal amigo, à ilha onde viveu com os pais, durante a infância. O seu pai desapareceu e o seu objectivo é encontrá-lo.

No entanto, ao chegar à ilha e à velha casa de madeira, antigas memórias vêm à superfície, bem como dúvidas sobre a sua relação com o actual namorado, com o irmão distante, com os pais.

A pouco e pouco, a protagonista vai-se identificando com a natureza selvagem da ilha, com o lago, a floresta e, no fim, quase questiona a sua espécie.

Livro curioso, cuja atmosfera me fez lembrar alguns romances de Patricia Highsmith, porque estamos sempre à espera que qualquer coisa de muito trágico aconteça.

“Amália – Ditadura e Revolução”, de Miguel Carvalho (2020)

Ora aqui está um calhamaço que excedeu as minhas expectativas.

Miguel Carvalho, jornalista e repórter da Visão, escreveu uma longa reportagem sobre Amália Rodrigues e o modo como ela se relacionou com a Ditadura e, depois, com a Revolução.

Amália Rodrigues atingiu o topo graças ao regime fascista? Pelo contrário, Amália subiu por mérito próprio e, às escondidas, apoiava as famílias dos antifascistas presos pela ditadura? Após o 25 de Abril, a sua demonização pela esquerda foi injusta?

Isto podia ser um assunto a provocar bocejos, mas Miguel Carvalho torna-o interessante, vivo, graças a um trabalho ciclópico de pesquisa, com recolha de entrevistas publicadas em inúmeros jornais e revistas, para além de outras fontes (programas de rádio e televisão, por exemplo).

A lista de entrevistados pelo autor (da qual eu, orgulhosamente, faço parte) inclui mais de 90 nomes.

O índice onomástico, ocupa 27 páginas, incluindo nomes que eu conheci muito bem, como Álvaro Belo Marques, Raul Solnado, Júlio Isidro, Fialho Gouveia, etc.

A bibliografia consultada ultrapassa as 15 páginas.

Estes números servem apenas para mostrar o trabalho hercúleo que Miguel Carvalho desenvolveu para escrever este livro.

A minha modesta contribuição, relacionada com a rubrica Os Intocáveis, está na página 257.

Na página 456, está uma frase excelente de Zeca Afonso: “Não se mata um governante em Portugal, há 75 anos”. E eu actualizo: há 120 anos que não se mata um governante em Portugal!..

Claro que o livro de Miguel Carvalho é sobre Amália, mas, no fundo, é um retrato de Portugal, desde os anos 40, até aos nossos dias.

Recomendo e aconselho.

“Outrora e Outros Tempos”, de Olga Tokarczuk (1992)

Foi o primeiro grande sucesso desta escritora polaca que, no ano passado, foi galardoada com o Nobel.

Depois de ter lido Viagens (2007) e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos (2009), estava com curiosidade em ler este livro, escrito mais de dez anos antes – e verifiquei que Tokarczuk encontrou mesmo uma nova maneira de escrever romances.

Este Outrora e Outros Tempos podia ser um calhamaço de 600 páginas, já que a acção decorre numa aldeia polaca, e percorre a Grande Guerra, a crise que se lhe seguiu, a Segunda Grande Guerra, a ocupação nazi, a ocupação soviética, o regime comunista, a passagem para a democracia liberal.

No entanto, Tokarczuk resolve este “problema” com textos curtos, cada um deles dedicado a um dos habitantes da aldeia. É o exemplo de Mísia; assistimos ao seu nascimento, à sua infância, ao seu casamento, ao nascimento dos seus filhos, à sua velhice e à sua morte.

E o mesmo se passa com as restantes personagens, nas quais, a escritora inclui objectos, casas, móveis, árvores, porque todas elas fazem parte da aldeia.

Gostei.

“O Golfinho”, de Mark Haddon (2019)

Li dois excelentes livros deste escritor britânico (Northampton, UK, 1962), “O Estranho Caso do Cão Morto” (2003) e “Um Pequeno Inconveniente” (2006).

No entanto, este “O Golfinho” (no original “The Porpoise”) deixou-me com sabor a pouco.

O livro começa com a história trágica de uma mulher grávida que sofre um acidente de avião. Ela morre, mas a bebé sobrevive.

A bebé chama-se Angélica, e o pai, Philipe, é um tipo super-rico, que cria a filha longe da sociedade e, em breve, começa a violá-la.

De repente, Angélica já é uma adolescente e vive isolada de tudo e de todos, sofrendo as violações do pai. Surge um jovem que a tenta libertar, mas as coisas não correm bem e ele é obrigado a fugir.

E eis que o jovem se transforma em Péricles, príncipe de Tiro e a história passa para a Grécia Antiga, ou coisa que o valha.

E, mais à frente, ainda há de passar por Shakespeare, e voltar à Grécia, e depois à actualidade, com Angélica a fazer greve de fome e… em resumo, uma confusão, sem ponta por onde se lhe pegue…

Não gostei…