“Nada a Temer”, de Julian Barnes (2008)

Barnes começa este livro por dizer:

“Não acredito em Deus, mas sinto a Sua falta”.

Depois, ao longo de 280 páginas, fala-nos da morte, contando episódios com ela relacionados, últimas palavras de escritores antes de morrerem, qual a sua posição perante a morte. Fala-nos da avó socialista e do avô conservador, da mãe ateia e do pai agnóstico, do irmão filósofo e, narrando alguns episódios familiares, vai discorrendo sobre a morte, a existência de deus e da vida eterna e outras questões semelhantes, sempre com muito humor.

Alguns exemplos:

“Desemboquei na idade adulta com a crença irracional de que, tal como não precisávamos de saber mecânica para conduzir um carro, também não precisávamos de saber biologia para viver. Havia sempre hospitais e oficinas, quando as coisas corriam mal.”

“Acho que a vida é uma maneira sobrevalorizada de passar o tempo”.

“Não era o enredo caricaturalmente servil da peça de Vishnevsky que apelava ao sentido de humor de Cjhostakovitch, mas sim o título: Uma Tragédia Otimista. O comunismo soviético, Hollywood e a religião organizada estavam mais poróximos uns dos outros do que julgavam: fábricas de sonhos, que produziam a mesma fantasia. «Tragédia é tragédia», gostava de repetir Chostakovitch, «e otimismo nada tem a ver com isso.»

E a melhor citação de todas – e que resume todo o livro:

“Não me importava nada de morrer, se no fim não ficasse morto”.

Outros livros de Julian Barnes: A Única História; O Homem do Casaco Vermelho; O Ruído do Tempo; O Sentido do Fim; Arthur & George; Amor & Etc

“Crimes Exemplares”, de Max Aub (1956/2001)

Max Aub nasceu em França em 1903, mas mudou-se para Valência aos 11 anos, adquirindo a nacionalidade espanhola. Quando Franco subiu ao poder, exilou-se no México, onde morreu em 1971.

Em 1956 publicou este Crimes Exemplares, um livro que colecciona confissões de assassinos, com um toque de humor negro.

Em 1981, o livro ganhou o Grande Prémio do Humor Negro, em Paris.

Em 2001, em Espanha, foi publicada esta versão do livro, com mais de 30 ilustrações.

A edição portuguesa, da Antígona, saiu no ano passado. É um livro muito bonito, de capa dura, impresso em papel offset de 140 gramas.

Por vezes, as histórias, são tão curtas que apenas têm uma frase, como esta:

– Matei-a porque me doía o estômago

Ou esta:

– Matei-a porque lhe doía o estômago

Outras, têm meia dúzia de linhas:

Terminara o meu trabalho, não julguem que foi fácil: oito dias para passar a limpo aquele projecto. No dia seguinte de manhã seriam os exames semestrais. E aquele cretino chega, para encher a sua caneta no meu frasco de tinta-da-china, e deixa-o cair em cima do meu projecto… Foi instintivo, espetei-lhe o compasso no estômago.

Ou ainda esta:

Matei-o porque me doía a cabeça. E ele veio falar-me, sem descanso, de coisas para que eu me estava absolutamente nas tintas. É a verdade, embora elas talvez me tivessem podido interessar. Antes de o fazer, olhei, ostensivamente, seis vezes para o relógio; ele não ligou nenhuma. Creio que é uma atenuante que deve ser seriamente levada em conta.

Um livro diferente e, repito, muito bonito.

“Devorar o Céu”, de Paolo Giordano (2018)

Deste jovem escritor italiano (Turim, 1982), tinha lido há mais de 10 anos, o excelente A Solidão dos Números Primos, obra de estreia.

Foi, portanto, com curiosidade que abordei este novo romance de Giordano e não posso dizer que me tenha desiludido, no entanto, pareceu-me longo de mais e com algumas peripécias desnecessárias.

O livro é narrado por uma mulher, Teresa, o que não deixa de ser curioso. Penso que não é frequente escritores do sexo masculino escolherem para narradores, alguém do sexo feminino.

Teresa é uma jovem que costuma passar férias com o pai e a avó no sul de Itália. É nessa casa de férias que conhece três rapazes que vivem numa espécie de comunidade religiosa. Teresa vai desenvolver uma forte relação com esses rapazes, sobretudo com Bern, com quem chega a casar.

Os membros dessa comunidade vivem em comunidade com a natureza e, com o tempo, alguns deles radicalizam-se e começam a organizar acções de intervenção, a última das quais acaba mal.

Pelo meio, Teresa e Bern enfrentam um problema de infertilidade, recorrendo a serviços de fertilização in vitro na Ucrânia, e esta é uma das peripécias que me pareceram deslocadas no meio de toda esta história.

De qualquer modo, o romance lê-se com interesse e poderia dar um bom filme.

“Trilogia”, de Jon Fosse (2014)

Jon Fosse é um escritor norueguês nascido em 1959 e mais conhecido pelas suas obras para teatro (mais de 30).

Este Trilogia, como o nome indica, compõe-se de três histórias, que se completam. A primeira, Vigília, foi escrita em 2007, a segunda, Os Sonhos de Olav, em 2012, e a terceira, que “explica” as outras duas, Fadiga, em 2014.

Os críticos portugueses renderam-se a este norueguês e, tanto os do Expresso, como os do Público, elevaram-no aos píncaros, considerando este livro como o melhor dos que foram editados em 2021.

Não concordo.

Dos 43 livros que li ao longo deste ano, Trilogia não faz parte dos meus preferidos. Gostei muito mais de O País dos Outros, de Leila Slimani, por exemplo, ou de A Anomalia, de Hervé Le Tellier.

A escrita de Fosse é, talvez, diferente, mas repetitiva, por vezes, maçadora. Na primeira história, dois jovens amantes partem de uma cidade, em busca de um novo local para viver. Ela, Alida, está grávida em fim de tempo e ele, Asle, procura um abrigo para o parto. Claro que a história faz lembrar a lenda dos cristãos. Neste caso, o menino Jesus vai chamar-se Sigvald.

Na segunda história, Asle passa a chamar-se Olav por qualquer razão que me escapou, mas a culpa deve ser minha. O pobre do Olav é condenado à forca, acusado de ter estrangulado algumas pessoas – acontecimentos que também me escaparam.

Na terceira e última história, Alida, já viúva, encontra um homem muito mais velho e acaba por se juntar a ele, levando também o seu filho.

Diz a contracapa do livro que Trilogia é “uma parábola de inspiração bíblica sobre o amor, o crime, o castigo e redenção.”

Mas de parábolas está o Inferno cheio, diria eu…

Aqui está um pequeno exemplo da linguagem repetitiva de Fosse:

Não tenho vontade de deixar esta casa, diz ela
Mas temos mesmo de fazê-lo, diz Olav
Não podemos ficar mais tempo nesta casa, diz ele
Tens a certeza absoluta disso, diz Alida
Sim, diz ele
Mas porquê, diz ela
Porque sim, diz ele
Não é a nossa casa, diz ele
Mas não mora ali mais ninguém, diz Alida
A mulher que morava aqui vai provavelmente regressar, claro, diz Asle
Mas já passou tanto tempo, diz Alida
Mas há de vir alguém, diz ele
Não é certo, diz ela
Mas a casa é dela, diz ele
Sim, mas como ela não vai regressar, então, diz Alida

Etc…

As vírgulas pontuam, mas não os pontos de interrogação, nem os pontos finais…

E, a meio do texto, Olav passou a ser Asle, como convém…

Enfim, passo…

“Anos de Chumbo e Outros Contos”, de Chico Buarque (2021)

Aqui está um livrinho para terminar o ano de 2021 em beleza; são apenas oito contos, mas encheram-me as medidas.

Chico Buarque já nos tinha habituado há décadas às grandes canções e aos respectivos versos que as enriquecem. Em boa hora decidiu dedicar-se à escrita de uma prosa mais consistente e os seus livros têm sido todos muito recomendáveis.

Este Anos de Chumbo, sendo um livro de contos, é um pouco mais ligeiro que os romances que escreveu; são histórias bem-dispostas e com um humor cínico de que sou fã.

Recomendo vivamente.

Outros livros de Chico Buarque: “O Irmão Alemão”; Essa Gente; Caravanas; Leite Derramado

“O Circo Invisível”, de Jennifer Egan (1995)

Depois de ter lido Os Lança-Chamas, de Rachel Kushner, que falava da agitação política de Itália dos anos 70 e das Brigadas Vermelhas, este livro de Jennifer Egan, fala-nos do grupo Baader-Meinhoff, que foi protagonista de diversos atentados terroristas na Alemanha, também nos anos 70.

De Egan, escritora norte-americana nascida em Chicago em 1962, já tinha lido A Visita do Brutamontes e A Praia de Manhattan (o meu preferido).

Este O Circo Invisível conta-nos a história de Phoebe, uma jovem de 18 anos, cuja irmã mais velha, Faith, viaja para a Europa e se suicida, numa pequena aldeia da costa italiana.

Faith é a irmã sempre alegre, provocadora, aventureira, a preferida do pai. O pai é um técnico da IBM, pintor nas horas vagas e pinta a filha mais velha de modo quase obsessivo. Morre de cancro e Faith sai de casa e vai para a Europa com o seu namorado da altura, a quem chama Lobo.

Phoebe, quando faz 18 anos, decide seguir as pisadas da irmã e tentar descobrir como ela morreu. Vai encontrar-se com Lobo e descobrir que, entre outras coisas, a irmã colaborou com o grupo Baader-Meinhoff.

Vale a pena ler.

“Os Lanças-Chamas”, de Rachel Kushner (2013)

Este foi o 3º livro de Rachel Kushner que li e, tal como os outros dois (Telex de Cuba e O Quarto de Marte), trata-se de um livro complexo, cheio de referências históricas e culturais, as mais diversas.

Kushner escreve regularmente sobre arte e este livro é prova disso. A maior parte do livro é narrada por uma jovem que se muda para Nova Iorque com o intuito de se tornar artista. Este é o ponto de partida para uma série de episódios que vão desde o recorde de velocidade em mota no deserto de sal do Utah, as vidas um pouco loucas dos artistas nova-iorquinos, com grandes bebedeiras e exposições de arte duvidosas (uma das personagens tira fotografias ao interior do forno da cozinha e diz que se trata de fotos do firmamento), e muitas outras coisas.

Uma boa parte do romance passa-se em Itália. A protagonista namora com o herdeiro das motas Valera, de Milão, que vive em Manhattan; depois, vão ambos para Itália e presenciam as grandes manifestações e os atentados das Brigadas vermelhas, já que a acção do livro decorre na década de 70.

Uma pequena passagem da página 220:

“Pensei no discurso de Ronnie sobre o pão. Divertia-o que agora só se encontre pão integral nos mercados gourmet de Nova Iorque. Não é que Ronnie fizesse compras em lojas gourmet, mas tinha aberto uma no SoHo e ele percorreu os corredores para alimentar os habituais comentários. Disse que é uma ironia as pessoas terem decidido colectivamente que a farinha integral é mais desejável do que o pão branco que era há séculos o pão da nobreza. – Agora é tudo assim – disse ele. O refinamento seguira determinado curso e invertera-o. Neste caso, a farinha refinada para um pão branco super refinado, leve e fofo, outrora só alcance de reis e rainhas, obtém-se em toda a parte, pelo que os ricos tiveram que voltar a comer o rude pão integral que costumavam deixar aos camponeses. Agora, nenhuma pessoa instruída se deixa apanhar em flagrante a comer pão branco. Nem sequer uma pessoa da classe média”.

Ao longo do livro deparamos com citações deste género sobre os mais diversos assuntos, o que faz com que este livro de Rachel Kushner tenha sido considerado, pelo New York Times, um dos dez melhores livros de 2013.

“À Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee (1980)

Gostei muito deste romance de Coetzee, agora reeditado pela D. Quixote.

A acção passa-se algures no tempo e no espaço. De facto, nunca ficamos a saber em que local é aquele e em que época estamos.

O narrador é o magistrado daquela cidade muralhada, situada perto de um lago e de um pântano, com o deserto no horizonte. Para lá desse horizonte, algures, estão os bárbaros, que talvez ataquem a cidade, ou talvez não.

O Império estende os seus braços até à cidade, que fica na fronteira e para lá envia soldados para combater os bárbaros.

Entretanto, o magistrado está velho e procura conforto junto de uma prisioneira que foi torturada. Passado algum tempo, decide levá-la de volta ao seu povo e, com esse seu gesto, cai em desgraça e é, ele próprio, preso e torturado.

Mas a vida dá muitas voltas e o magistrado ainda há de voltar a ter lugar de destaque na cidade.

Coetzee escreve bem, como se sabe, e as suas descrições da cidade, do lago, dos pescadores, do deserto, da sucessão das estações, fazem com que visualizemos o que ele descreve.

Muito bom.

Outros livros de Coetzee: A Infância de Jesus; A Vida e o Tempo de Michael K.; Diário de Um Ano Mau; O Homem Lento; No Coração Desta Terra; Verão; Jesus Na Escola; A Morte de Jesus

“Canção Doce”, de Leila Slimani (2016)

Há quem diga que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

De certo modo é o que se passa com esta excelente escritora franco-marroquina.

Em “O País dos Outros”, a história gira em torno de Mathilde, uma jovem francesa que se casa com um marroquino e que vai viver para o país do marido, sofrendo, depois, todas as desventuras que daí advêm; em “No Jardim do Ogre”, é Adéle, uma jornalista casada com um pediatra e obcecada por aventuras sexuais, que vai caindo numa espiral de desgraças; neste “Canção Doce”, é Louise, uma ama obsessiva-compulsiva que domina a história.

Dos três livros, este foi o que mais me impressionou pelo tema. Logo no primeiro capítulo, ficamos a saber que a ama assassina as duas crianças e ficamos logo incomodados.

Depois, Slimani vai contando a história que leva Louise ao precipício e o método que usa é semelhante ao que usou em “No Jardim do Ogre”, com a história de Adéle.

E porque o tema central do livro me incomodou, quando acabei o livro, senti um certo alívio…

“No Jardim do Ogre”, de Leila Slimani (2014)

Depois de ter lido o excelente No País dos Outros, fiquei com curiosidade em ler os restantes romances desta autora franco-marroquina (Rabat, 1981).

Este No Jardim do Ogre não fica atrás. Lê-se de um fôlego e é difícil parar de ler.

Slimani conta-nos a história de Adéle, uma jovem atraente, que trabalha como jornalista e que é casada com um médico. Apesar de ter uma vida boa, Adéle sente-se insatisfeita e procura a felicidade nas suas aventuras sexuais, arranjando sempre mentiras cada vez mais inverosímeis para enganar o marido que, pelos vistos, não se interessa muito por sexo.

Adélia provém de uma família modesta e tem uma relação conflituosa com a mãe, e indiferente com o pai. Tem vergonha da família.

Richard, o marido, vem de uma família abastada, mas Adéle considera os sogros e os cunhados aborrecidos, enfadonhos. É um suplício passar o Natal em casa deles, mas pior é passar o Ano Novo em casa dos pais.

Vinga-se bebendo muito e fodendo ainda mais, com colegas do jornal, colegas do marido, desconhecidos.

Adéle é possuída pelas suas pulsões sexuais e troca tudo por uma nova aventura, incluindo deixar o seu filho de dois anos, dias seguidos, à guarda de amas.

As situações vão-se complicando ao longo do livro e o desfecho não pode ser bom.

Gostei muito.