“Sobre o Cálculo do Volume – I” – de Solvej Balle (2020)

Solvej Balle é uma escritora dinamarquesa nascida em 1962 que, com este livro, conseguiu ser finalista do Booker Prize deste ano.

Parece que os escritores nórdicos gostam de publicar as suas obras em vários volumes. Tivemos o exemplo do norueguês Knausgard, com os seus seis volumes de autobiografia romanceada e agora temos esta escritora com este projecto que engloba sete volumes.

O que está na base destes sete livros é já conhecido e explorado anteriormente: a protagonista acorda sempre no mesmo dia, dia após dia. O exemplo mais conhecido é o do filme Groundhog Day, de 1993, realizado por Harold ramis e protagonizado por Bill Murray.

No caso deste livro de Balle, há uma pequena grande diferença. A protagonista, Tara Selter, apercebe-se que acorda sempre no dia 18 de novembro, mas que as restantes pessoas, não, nomeadamente o seu companheiro Thomas, que, dia após dia, repete sempre os mesmos gestos. Ela, pelo contrário, tenta mudar alguma coisa, na tentativa de saltar para o dia 19.

Este primeiro volume tem apenas 150 páginas e fico a pensar que voltas é que a autora vai dar para encher mais seis livros?…

“O Estado Novo em 101 Objectos”, de Fernanda Cachão (2025)

Os deputados do centro-direita e, sobretudo, os venturistas, deviam ser obrigados a ler, várias vezes, este excelente calhamaço.

O primeiro a ser obrigado até devia ser Paulo Portas, aquela espécie de Sebastião Bugalho do século passado que, em entrevista conduzida por Carlos Cruz, disse, há muitos anos, que o fascismo nunca existiu em Portugal.

A jornalista Fernanda Cachão fez um extraordinário trabalho de pesquisa e é difícil destacar esta ou aquela entrada nesta espécie de enciclopédia do fascismo à portuguesa.

Vou dar apenas alguns exemplos:

* A entrada 14 tem o título “A carta da irmã Lúcia”.

“De toda a correspondência trocada pelos dois homens (Franco Nogueira e Salazar), destaca-se este cartãozinho com o selo do Patriarcado (…)

Segundo o diplomata do Estado Novo e biógrafo de Salazar, o ditador atravessava uma grande crise psicológica. Esses meses de fragilidade, a seguir à vitória dos Aliados e à queda dos fascismos na Europa, deixava Portugal politicamente isolado face ao triunfo das democracias. (…)

«António, nesta hora de tantas preocupações, desgostos e talvez dúvidas para ti, envio-te este trecho de uma carta da Irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que acabo de receber. Deve levar-te muita consolação e confiança. (…) escuso de dizer que isto que ela diz, o não diz por ela mesma, mas por indicação divina. (…)

O Salazar é a pessoa por Deus escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade.”

Ora se a irmã Lúcia dizia que Deus lhe tinha dito que Salazar é que era o tal, quem éramos nós para o contradizer? E assim, tivemos de o aturar todos aqueles anos!

* A entrada 52 é dedicada à Constituição de 1933, que foi referendada:

“A 19 de março de 1933, o voto foi obrigatório, mas só votavam os chefes de família, e as abstenções foram contadas como votos a favor”.

Deve ter sido então que foi inventada o refrão: quem cala, consente.

* Na entrada 57, A Lista dos assinantes da Seara Nova, lê-se:

A Seara Nova publicava ainda textos de Vladimir Ilitch (porque se omitia Lenine do nome do autor) ou de Carlos Marques (na realidade Karl Marx).”

Os censores, além de incultos eram estúpidos…

* A entrada 59: A carta que denuncia o «passador»

A máquina burocrática do Estado sustentou a actividade da polícia política. Nas suas diversas esferas sociais, o cidadão era obrigado a pedir múltiplas autorizações e preencher os mais diversos documentos. Queria sair do país? Tinha de pedir ao Governo Civil? A professora desejava casar? Tinha de pedir um atestado de idoneidade do futuro marido. O estudante matriculava-se na Universidade? Um dos impressos ia direitinho para a Pide”

Agora, o PSD também quer obrigar as mães a pedirem um atestado de 6 em 6 meses para poderem continuar a dar de mamar…

* Na entrada 80, podemos ler um dos mais profundos pensamentos de Salazar – esse que muitos acham que faz muita falta a Portugal (aliás, um nunca chegaria, pelos vistos!…). Disse o Botas:

“É mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.”

* Na entrada 84, podemos recordar algumas publicações do Diário do Governo. Esta diz respeito aos direitos das mulheres. O que diria a isto a judiciosa Rita Matias?

Foi extensa a legislação que abrangeu a mulher, desde aquela que impedia o exercício da carreira diplomática, da magistratura judicial e de cargos de chefia da administração local, à que obrigava as casadas a ter a autorização do marido para viajar. Dependia igualmente dele para abertura de conta bancária. O marido devia ainda autorizar tanto o uso de contraceptivos como contrato de trabalho (…). Podia, por exemplo, chegar a uma empresa e dizer: «Eu não autorizo a minha mulher a trabalhar».”

E, no que respeita a enfermeiras:

“O diploma não só atribui o tirocínio ou prestação de enfermagem hospitalar feminina a mulheres solteiras ou viúvas sem filhos, como define as condições de idoneidade exigidas às candidatas. (…) exigindo bom comportamento moral e o teor de vida irrepreensível e para candidatos à enfermagem hospitalar, do sexo feminino, ser solteira ou viúva sem filhos”

* Na entrada 94, fala-se nos mineiros e na silicose:

“A Companhia das Minas teve o monopólio da exploração do complexo de São Pedro da Cova entre 1921 e 91972. (…) Para terem direito a habitação, todo o agregado familiar, incluindo filhos menores, acabava de ser obrigado a trabalhar na mina”.

Estas citações são apenas algumas das muitas que aqui poderia colocar. Parabéns à jornalista autora desta obra que mostra, à exaustão, que o fascismo existiu e que, se não invertermos alguns caminhos que a democracia está a tomar, ele vai voltar, talvez com outro rosto, mas com a mesma intenção.

“Tóquio Express”, de Seicho Matsumoto (1958)

Este livrinho editado pela Presença e traduzido por André Pinto Teixeira, é apresentado como “um dos grandes clássicos da literatura japonesa”, e quem sou eu para contestar…

O autor, Matsumoto – que também é o nome de uma cidade, que visitei no ano passado – é apresentado como o “mestre do mistério japonês”.

Comparado com os seus contemporâneos norte-americanos da literatura policial, este Matsumoto parece ser muito – como direi? – japonês. Enquanto os escritores policiais norte-americanos são malandrecos, violentos, sacaninhas, estes dois detectives japoneses são tão puros e tão inocentes que até dá raiva.

A história gira à volta de dois eventuais amantes que se suicidam – coisa que parece ser banal para os japoneses. No entanto, há por ali muito mistério, sobretudo em redor de horários de comboios.

“O Asakaze chega à plataforma quinze às 17:49 e parte às 18:30. Fica na plataforma um total de quarenta e um minutos. Entretanto, nas linhas treze e catorze, efectuam-se as seguintes movimentações: na linha treze, um comboio da linha Yokosuka chega às 17:46 e parte às 17:57. Pouco depois, às 18:01, chega outro comboio, que parte às 18:12. Contudo, mesmo após a partida deste comboio, há o comboio regular 341, na linha catorze, com destino a Shizuoka, que dá entrada pelas 18:05, partindo apenas às 18:35. A sua paragem durante esse período bloqueia a vista do expresso Asakaze na linha quinze, ao lado”.

E é graças a todas estas verificações que o detective acaba por descobrir o crime.

Para quem nunca foi ao Japão, tudo isto soa a brincadeira – mas não é! Os japoneses nunca brincam com comboios!

“Trilogia da Paixão”, de Ariana Harwicz (2012-2016)

Que difícil foi ler esta Trilogia, caramba!

Aliás, até decidi não a ler toda…

Ariana Harwicz (Buenos Aires, 1977), é uma escritora argentina que alguém compara a Virginia Wolf e Sylvia Plath e este livro reúne três novelas: Mata-te, Amor (2012), A Atrasada Mental (2014), e Precoce (2015).

Segundo a autora, trata-se de uma trilogia involuntária sobre a maternidade e os seus tabus.

Então, não percebi nada!

Os três textos são muito parecidos (o terceiro, Precoce, nem o acabei). A autora escreve como se fosse uma escrita automática.

“Se pudesse usava uma bengala, vestia-me como uma velha, pintava o cabelo de branco, tomava comprimidos para doenças neurológicas até que o meu cérebro se habituasse a elas. Quero ser uma velha. Desagradável em todos os sentidos, hedionda, insuportável, fedorenta, e tomaria a medicação para que me tivesse de lavar durante muito tempo. Assim, ainda com o sexo a latejar, ouvi-o, vi-o mexer uma boca já distante, dizer palavras que não compreendi. As folhas cortavam o ar, o cenário tremia como se alguém nos dirigisse. Até que ouvi, cura. Isso vinha de mim. Uma mulher que precisava de se acalmar. Tornar-se uma ameba.”

E assim continua…

As duas primeiras novelas são um conjunto de textos deste género; cada textos cobrindo página e meia.

O terceiro é um texto contínuo, mas, no fundo, é mais do mesmo.

Há uma narradora, uma mãe, um amante (?), muitas ereções e ejaculações e textos, todos eles, herméticos.

“Trava de repente na berma. Olha para mim. Sei que me teria cravado uma agulha de costura no corpo mas tem a cara e a boca demasiado secas”.

Está bem, vou ler outra coisa…

“O Problema Final”, de Arturo Pérez-Reverte (2023)

Já há muito tempo que não lia nada deste escritor espanhol e este livro a imitar histórias de Conan Doyle também não me entusiasmou.

No longínquo ano de 2000, li “O Cemitério de Barcos Sem Nome” e, dois anos depois, “A Rainha do Sul”. Eram romances de aventuras de que gostei. No entanto, depois, os livros de Pérez-Reverte tornaram-se um pouco enfadonhos.

Como, em tempos, gostei dos chamados livros policiais – e tenho dezenas de volumes da coleção Vampiro – pensei que este livro podia configurar um bom entretenimento.

Expectativas goradas.

Parece que Pérez-Reverte leu todas as histórias de Sherlock Holmes e decidiu fazer uma espécie de resume dessas histórias neste livro. Um grupo de turistas são apanhados numa ilha grega com uma tempestade que não os deixa abandonar o hotel. E acontecem um, dois, três crimes. Um actor que, em tempos, interpretou o papel de Sherlock Holmes em 15 filmes, adjuvado por um espanhol que escreve livros de cordel, armado em Watson, vão tentar desvendar esses crimes.

Chega a ser aborrecido (ou então, sou eu que já não tenho paciência para livros policiais…)

“Levarei o Fogo Comigo”, de Leila Slimani (2025)

Gostei muito do primeiro livro desta trilogia, O País dos Outros. Tinha um ritmo que nos fazia ler capítulo após capítulo e ficarmos aborrecidos por termos de parar de ler.

O segundo volume, Vejam Como Dançamos, não me entusiasmou tanto, não sou capaz de dizer porquê. Penso que, por vezes, somos nós que não estamos receptivos para determinados livros. De qualquer modo, achei o segundo volume da trilogia um pouco maçudo.

Este terceiro volume, no entanto, tem novamente o mesmo ritmo do primeiro e li as suas 400 páginas em poucas horas. Embora continuemos a acompanhar Mathilde e Amine, o livro debruça-se sobretudo nas duas gerações seguintes, Aicha e Medhi, e as suas filhas, Mia e Inès.

As três gerações da família de Leila Slimani estão aqui representadas, com as devidas alterações próprias de um romance, mas, neste terceiro volume, as peripécias da família são acompanhadas pelos acontecimentos mundiais, como a destruição das Torres Gémeas, a morte de Hassan II, o crescimento dos islamitas, etc. Li que Slimani escreveu este terceiro volume em Cascais. Estava inspirada.

Recomendo.

“A Primeira Mão que Segurou a Minha”, de Maggie O’Farrell (2010)

Maggie O’Farrell (Irlanda do Norte, 1972) escreveu um belo romance, um dos melhores que li ultimamente.

Em capítulos alternados, vai-nos contando duas histórias, aparentemente distintas, mas que, quase no final do livro, se juntam de um modo surpreendente.

Na primeira história, acompanhamos o percurso da jovem Lexie, que abandona a sua terreola e migra para Londres, onde acaba por se tornar jornalista e crítica de arte, com a ajuda de Ines Kent, um editor com larga experiência no ramo. Toda esta história decorre pouco depois do final da segunda guerra mundial.

Na segunda história, passada na actualidade, seguimos a vida de um casal jovem, Ted e Elina. Ela é pintora e acabou de ter um bebé, depois de um parto muito complicado.

Os capítulos são curtos e eficazes, e ambas as histórias vão avançando paulatinamente e, a pouco e pouco, percebemos se elas se vão encontrar.

Muito bom!

“Isto Não É Miami”, de Fernanda Melchor (2013)

Este foi o primeiro livro publicado por esta jovem escritora mexicana (Veracruz, 1982).

Durante alguns anos, a autora recolheu histórias, sobretudo relacionadas com tráfico de droga e violência, passadas em Veracruz, sua terra natal. Parece que este pequeno livro serviu de ensaio para o excelente Tempo de Furacões e também para o romance que se seguiu, Paradaise, que foi mais do mesmo.

Dos vários relatos, destaque para o penúltimo, A Vida Não Vale Nada, que já parece indiciar o estilo da narradora: um texto longo, em discurso directo, sem parágrafos.

Apenas curioso.

“O Bom Mal”, de Samanta Schweblin (2024)

Samantha Schweblin nasceu em Buenos Aires em 1978 e é considerada uma das melhores escritoras das últimas datas da América Latina.

Este pequeno livro de seis contos é perturbador. São histórias estranhas que a pequena explicação que a autora nos dá, no final do livro, não ajuda muito.

A última história, por exemplo, intitulada “O Superior faz uma visita”, fala-nos numa mulher que visita a sua mãe num Lar e que, por um acaso, acaba por ajudar uma outra residente do Lar a abandoná-lo. Leva-a para casa e, pouco depois, surge o filho dessa mulher, que, armado, lhe rouba dinheiro e joias, depois de uma tarde inteira de terror.

Sobre mais esta história perturbadora, a autora diz o seguinte: “conheci o homem (deste conto) numa longa estada em Barcelona. Apesar de nunca nos entendermos, com ele aprendi por fim a levantar pesos sem que me doa a lombar. Parece uma coisa de somenos, mas ficar-lhe-ei sempre grata”.

Está bem…

“O Herói Discreto”, de Mário Vargas Llosa (2013)

Se tivesse começado a ler este livro sem saber quem era o autor, teria muito provavelmente, desistido.

Em 2010, Vargas Llosa (1936-2025) ganhou o Prémio Nobel e três anos depois publicou este livro desinspirado e até um pouco descuidado, na minha modesta opinião.

O autor conta-nos duas histórias, em capítulos alternados, histórias essas que, a certa altura, se cruzam de um modo um pouco artificialmente.

O herói discreto que fala o título, é o mestiço Felícito Yanaqué, dono de uma empresa de transportes da cidade de Piura que começa a receber cartas anónimas que o ameaçam se não pagar uma espécie de avença. Este Felícito tem um casamento infeliz com um mulher que dele engravidou por acidente e tem, também, uma amante jovem, a quem montou casa e a quem paga uma mensalidade. Tudo isto é contado menorizando sempre o papel das mulheres: a esposa de Felícito é gorda, feia, beata e há muito tempo que não vai para a cama com ele e Mabel, a amante, é jovem, bonita e, no fundo, uma espécie de prostituta sindicalizada.

A outra história baseia-se no casal Rigoberto e Lucrécia. Ele é um tipo culto, que gosta de boa literatura, música erudita e grandes pintoras, e ela é apenas uma mulher. Têm um filho de 15 anos que, de repente, começa a ter visões, na pessoa de um homem que lhe fala de religião. Há ainda um octogenário Ismael, viúvo e muito rico, que se casa com a criada, só para chatear os dois filhos que lhe querem rapinar a herança.

Em resumo, uma história mal enjorcada, muito machista e que poderia ter sido escrita há muitas décadas – isto, para além de alguns erros de narrativa que não vêm para o caso.