“Burn After Reading”, de Ethan e Joel Coen

“Destruir Depois de Ler” é mais uma daquelas comédias mais ou menos malucas que os irmãos Coen gostam de fazer, de quando em vez. Começaram com “Arizona Junior” e, sazonalmente, chateiam-se do “cinema sério” (“True Blood”, “The ManWho Wasn’t There” e etc) e fazem uma coisa destas (um “objecto cinematográfico com discurso de comédia”, como escreveria um crítico profissional). Nem sempre se saem bem. Se “The Big Lebowski” acabou por se tornar um clássico da comédia, e “O Brother, Where Art Thou?”, embora um pouco pateta, ainda se aguenta, “Intolerable Cruelty”, também com Clooney, é uma seca.

Mas este filme, de 2008, é muito recomendável. O resumo do argumento diz tudo: «a disk containing the memoirs of a CIA agent ends up in the hands of two unscrupulous gym employees who attempt to sell it.»

George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich e um surpreendentemente pateta Brad Pitt, são os principais intérpretes e cumprem, com nota alta.

Foi o primeiro filme que vi, através do videoclube do Meo.

Zon down!

Meo rules!

“What Just Happened”, de Barry Levinson

Aqui está o exemplo de quem nem sempre um grande elenco consegue fazer um grande filme.

Barry Levinson, realizador de “Rain Man”, “Disclosure”, “Sleepers”, “Good Morning, Vietnam”, “Wag the Dog” e outros bons filmes, dirige um elenco do qual fazem parte Robert DeNiro, Sean Penn, Bruce Willis, Robin Wright Penn, Kristen Stewart, Michael Wincott, Catherine Kenner e Stanley Tucci e, no entanto, o resultado é fraquito.

DeNiro faz o papel de um produtor de Hollywood, Ben, que está na mó de baixo, não só por causa dos seus casamentos falhados, mas também porque está a tentar que o seu novo filme tenha sucesso, tendo de lidar com um realizador excêntrico, uma directora executiva dos estúdios que quer êxitos de bilheteira e um actor armado em super-estrela, que se recusa a rapar a barba, embora isso seja essencial para as filmagens.

Ben está enfadado com a sua vida, pessoal e profissional e nós também ficamos um pouco enfadados porque o filme não anda nem desanda.

Mais uma vez, o título em português (“Pânico em Hollywood”), não faz qualquer sentido.

“Les Invasions Barbares”, de Denys Arcand

Um sessentão rezingão e mulherengo, Remy, está na fase terminal de um cancro, num quarto de um hospital de Montréal. A sua ex-mulher pede ajuda ao filho de ambos, um jovem homem de negócios com pouco em comum com o pai.

O filho é um tipo ambicioso e rígido, cumpridor das regras do jogo; o pai é um ex-esquerdista, que foi adepto de todas as modas políticas, que bebeu, fumou e fodeu sem grande tino. Aparentemente, pouco têm a dizer um ao outro, mas a aproximação da morte do pai, faz com que ambos acabem por se aproximar também.

Para além de diálogos muito divertidos e inteligentes, o filme mostra-nos o aparente caos em que vivem os hospitais do Canadá. Nunca imaginei que pudesse ser assim tão parecido com os hospitais portugueses. Sempre pensei que o Canadá, como país inventado que é, tivesse um bom serviço de saúde.

O filme faz também uma feroz crítica aos sindicatos, aos quais é preciso subornar para se obter o que se devia ter direito.

Finalmente, o filme faz um apelo indirecto à eutanásia, já que Remy acaba por morrer com uma overdose de heróina, ministrada por uma das suas amigas.

O filme ganhou o óscar por melhor filme estrangeiro em 2004.

Uma sessão cultural no Império

Quando escrevi sobre as sessões de cinema dos meus 18 anos, esqueci-me que também havia as “sessões culturais”, no Império – aquele cinema enorme que está agora transformado em templo da igreja Maná.

No dia 10 de Março de 1971, fui ver o “Easy Rider” – e não há dúvida que foi uma sessão cultural. Para mim – e para muitos como eu – este filme, realizado por Dennis Hopper em 1969, foi o primeiro a mostrar pessoas sob o efeito de drogas psicadélicas.

Com Dennis Hopper e Peter Fonda, “Easy Rider” é um “road movie”, em que dois amigos, montados nas históricas Harley Davidson, atravessam a América, de Los Angeles a New Orleans, em busca do sentido da vida (?). Lá para o meio do filme, aparece um advogado drogado, que acaba por ser assassinado e cujo papel é interpretado por um Jack Nicholson, em início de carreira.

A banda sonora ainda hoje é bem audível, com “Born to be Wild”, dos Steppenwolf à cabeça, e ainda “The Pusher”, da mesma banda, “I Wasn’t Born to Follow”, dos Byrds, “The Weight” por The Band, e outras mais “alternativas”, como uns tais “Electric Prunes” e o seu “Kyrie Eleison” (cheguei a comprar o álbum que, entretanto, desapareceu nas brumas da memória…).

Não há dúvida de que foi uma sessão cultural…

Soirées no Politeama

Eu sou do tempo em que as sessões de cinema eram apenas duas e tinham nomes franceses: a matiné e a soirée. Claro que também havia a sessão da meia-noite, no Politeama, mas era só ao sábado.

O Politeama era a sala preferida da malta, embora também gostássemos do Condes, do Avis, do Tivoli, do Império ou do S. Jorge.

Foi no Politeama que vi muitos westerns-spaghetti, com o Clint Eastwood ou o Giluliano Gemma.

No dia 21 de Janeiro de 1971, fui à sessão da noite ver “Borsalino“, um filme que Jacques Deray realizara no ano anterior. Alain Delon e Jean-Paul Belmondo formavam um par de actores franceses muito em voga e interpretavam os papéis de dois escroques marselheses dos anos 30.

Deray tinha ficado célebre entre a juventude portuguesa porque, em 1969, tinha realizado “La Piscine“, também com Alain Delon e ainda com a maminhas da Romy Schneider. Vi-as no Tivoli, muito emocionado…

O bilhete de cinema custava, em 1971, 19 escudos (0.09 euros).

“The Wrestler”, de Darren Aronofsky

wrestlerO wrestling não me diz nada, nunca fui capaz de ver um combate até ao fim, acho todo aquele folclore um pouco ridículo e, portanto, a minha expectativa era baixa, em relação a este filme.

No entanto, fiquei agradavelmente surpreendido. Mickey Rourke (nomeado para o óscar de melhor actor) faz um “underacting” de que gostei muito. Aliás, o filme é, todo ele, “low profile”, em contraste com os meios onde a acção se desenvolve: os ringues de wrestling e os bares de strip-tease.

Rourke faz o papel de um velho lutador, que tenta esconder a idade enchendo os músculos de anabolizantes e que tenta enganar a solidão com uma strip-teaser (Marisa Tomei, nomeada para óscar de melhor actriz secundária).

A fotografia mantém-se sombria, ao longo de todo o filme, Rourke nunca eleva a voz e tudo acaba mal, como devia.

Gostei.

“Frost/Nixon”, de Ron Howard

nixonAo contrário de “Milk”, este filme de Ron Howard conseguiu prender a minha atenção do princípio ao fim, apesar de abordar um episódio muito específico da história recente dos EUA, episódio que desconhecia em absoluto.

Já depois de ter resignado, Richard Nixon (Frank Langella) é convidado para uma entrevista por um entertainer de segunda categoria, David Frost (Michael Sheen), conhecido por apresentar programas de entretenimento muito superficiais.

Nixon exigiu 600 mil dólares pela entrevista e Frost tentou, em vão, encontrar quem o patrocinasse. Decidiu, então, avançar sozinho, como produtor independente e vender, depois, a entrevista às grandes cadeias de televisão.

Com a ajuda de dois ou três assessores, conseguiu o que ninguém conseguira: levar Nixon a admitir que actuara com intenção no caso Watergate.

Com um bom ritmo e diálogos excelentes, este “Frost/Nixon” foi uma agradável surpresa.

“Milk”, de Gus Van Sant

milkSe eu disser que “Milk” não me aqueceu nem arrefeceu, posso ser acusado de homofobia, mas não é o caso.

Por qualquer razão, que não tem a ver com preconceitos, o filme não me tocou, como outros filmes sobre grupos específicos da sociedade, que são marginalizados.

Notável, de facto, a interpretação de Sean Penn, que lhe valeu, este ano, o óscar para melhor actor. O filme ganhou, ainda, o óscar para melhor argumento original e não se percebe bem porquê, uma vez que se “limita” a contar uma história verídica: a luta de Harvey Milk pela igualdade de direitos dos homossexuais.

A luta dos homossexuais norte-americanos pode ter sido (e ainda ser) uma luta digna da nossa solidariedade mas, neste filme, os poderosos inimigos dos gay são de tal modo caricaturados que o filme não conseguiu convencer-me.

“Doubt”, de John Patrick Shanley

duvidaMeryl Streep interpreta o papel de freira chefe, mázona, na Saint Nicholas Church School e foi nomeada pela enésima vez para o óscar de melhor actriz.

Philip Seymour Hoffman é o padre Flynn e foi nomeado para o óscar de melhor actor.

Amy Adams é a freira boazinha, professora de História e Viola Davis é  mãe do único aluno de raça negra – ambas foram nomeadas para o óscar de melhor actriz secundária.

Shanley adaptou para o cinema a peça de teatro que ele próprio escreveu e levou à cena em 2004 e foi nomeado para o óscar de melhor argumento adaptado.

E apesar destas 5 nomeações, não posso dizer que o filme me tenha tocado.

Será que o padre Flynn é pedófilo, sentou o miúdo negro no colo e o acariciou, enquanto lhe lia a Bíblia?

Who cares?

Claro que a Streep é boa actriz, claro que o Hoffman é capaz de ser bom atrás, mas não chega para prender a minha atenção.

“The Reader”, de Stephen Daldry

leitorLi críticas contraditórias a este filme, que proporcionou a Kate Winslet, este ano, o óscar para melhor actriz. Eu gostei.

Adaptado de uma novela do escritor alemão Der Vorleser, publicado em 1995, “The Reader” começa na Alemanha dos anos 50, contando-nos a história de uma pica-bilhetes trintona que, certo dia, ao ajudar um miúdo de 15 anos que está mal disposto, acaba por o levar para a cama e iniciá-lo.

Assim, na primeira parte do filme, Hanna Schmitz (Kate Winslet), come o rapazinho, Michael (David Kross) dezenas de vezes, antes ou depois de ele lhe ler “A Odisseia”, de Homero, contos de Tchekov ou, até, bandas desenhadas do Tintin.

Só que, entretanto, o grande segredo de Hannah fica exposto e ela desaparece da vida de Michael, para reaparecer muitos anos mais tarde, quando ele já é interpretado por Ralph Fiennes.

Afinal, Hanna tinha sido membro das SS e tinha trabalhado num campo de concentração, tendo sido responsável directa pela morte de centenas de mulheres. E não sabia ler nem escrever.

Dois segredos terríveis, na vida daquela mulher que, no entanto, prefere que se descubra que pertenceu às SS, do que se saiba que, afinal, é analfabeta. A vergonha de ser iletrada é maior.

O filme expõe a culpa do povo alemão: nenhum alemão desconhecia o que se passava nos campos de concentração; nenhum alemão é inocente.

Claro que este tema não é tão desenvolvido como, por exemplo, no livro “As Benevolentes“, de Jonathan Littell e, por isso, alguns críticos, como o do Guardian, detestaram o filme.

Mas estamos perante isso mesmo: um filme e um filme tem que prestar, sobretudo, entretenimento. Se queres um profundo debate de ideias, lê um livro.

Digo eu, claro.