Não cultives canabis num campo agrícola e outros conselhos

O Correio da Manhã é um manancial de curiosidades.

Ficamos a saber, por exemplo, que uma mulher pode ser identificada pela polícia na Brandoa pelo simples facto de morder no marido. O pobre do homem foi “transportado ao Hospital Amadora-Sintra com vários ferimentos no corpo” e tudo porque aconteceu um “desentendimento doméstico”.

Pelo contrário, “um homem de 55 anos foi detido pela GNR por agredir a ex-companheira e ter em sua posse uma faca em Tomar”. Se fosse na Brandoa, talvez se safasse…

Já em Oliveira de Azeméis, “um homem de 34 anos foi preso pela PJ por obrigar a companheira a vender o corpo em casa”. Se o tivesse vendido na rua ou num jardim, talvez se safasse… Ou, se não tivesse sido tão garganeiro e, em vez de vender o corpo da mulher, tivesse vendido só partes, um braço ou uma perna, talvez a pena fosse mais leve.

Finalmente, no que à droga diz respeita, dois conselhos do Correio da Manhã:

Segundo a notícia, “um jovem de 19 anos foi detido pela GNR de Barcelos na posse de 25 doses de haxixe. Foi parado numa operação de trânsito e mostrou-se «nervoso»”.

Primeiro conselho: nada de nervos quando se transporta droga. Se se mantiver a calma, nada acontece, a bófia não chateia.

Segundo outra notícia: “um homem de 57 anos foi detido no concelho da Guarda por cultivar canábis num campo agrícola”

Segundo conselho: se quiser cultivar canábis, escolha a varanda, por exemplo.

O Correio da Manhã sempre a ajudar o próximo!

“Seios e Óvulos”, de Mieko Kawakami (2019)

Kawakami nasceu em Osaka (1976) e é conhecida como cantora, escritora e autora de um blog, aparentemente com muito sucesso.

O livro “Seios e Óvulos” parece ter agitado muito aa águas editoriais japonesas, que devem ser dominadas por homens, aparentemente como toda a sociedade. Murakami, outro autor japonês com muito sucesso, diz que “nunca poderei esquecer a sensação de puro deslumbramento que senti quando li pela primeira vez (este livro)”.

É a opinião dele, claro.

Este calhamaço de quase 500 páginas está dividido em dois livros.

No Livro Um, a narradora, Natsuko, recebe na sua casa de Tóquio a irmã, Makiko e a filha desta, adolescente Midoriko. Natsuko está a tentar tornar-se escritora. Makiko é anfitriã num bar manhoso em Osaka, onde todas viviam inicialmente. Midoriko está zangada com a mãe e não lhe fala e responde às suas perguntas escrevendo num caderno. As duas irmãs vêem televisão e bebem cerveja até cair para o lado. Makiko quer operar as mamas, está obcecada com isso. As duas irmãs viveram com a mãe e com a avó, que já faleceram. O pai era um calão alcoólico, que abandonou o lar.

No Livro Dois, Natsuko já publicou um livro, que teve um sucesso relativo, mas está encalhada na escrita do segundo romance, mas, a partir de certa altura, nunca mais se fala nisso porque a sua obsessão é ter um filho a apetir de um dador mais ou menos anónimo. Em tempos, teve uma relação com um homem, mas nunca gostou de ter relações sexuais; doía-lhe e não tinha prazer. Nunca mais quer experimentar – daí, ter de recorrer a um dador para ter um filho. Pelos vistos, no Japão, é possível conhecer um dador num qualquer blogue, encontrar-se com ele num café e ficar com o seu esperma, que ele vai obter na casa de banho do café – ou é assim, ou há algum lost in translation…

Também neste segundo livro, os homens estão praticamente ausentes e as mulheres embebedam-se com frequência.

Na página 363, Rika, uma amiga de Natsuko, diz:

“Quer dizer, um homem nunca pode perceber o que realmente importa para uma mulher. nunca. Quando se diz este tipo de coisas, as pessoas dizem logo que somos tacanhas ou que nunca conhecemos o verdadeiro amor ou qualquer coisa desse género. Dizem que não se podem enfiar todos os homens no mesmo saco assim, mas, infelizmente, é a verdade. Nenhum homem alguma vez compreenderá as coisas que são realmente importantes para uma mulher.

(…)

Estão num pedestal a partir do momento em que nascem. Só que não percebem isso. Sempre que precisam de alguma coisa, as mães vêm a correr. São ensinados a acreditar que os seus pénis os tornam superiores e que as mulheres só existem para eles as usarem como bem entenderem. Depois, saem para o mundo, onde tudo se centra neles e nas suas pilas. E são as mulheres que têm de arranjar forma de as coisas funcionarem. Afinal, de onde vem esta dor que os homens sentem? Na opinião deles: vem de nós. A culpa é toda nossa… por serem impopulares, estarem falidos, desempregados. Seja o que for, culpam as mulheres por todos os seus fracassos, por todos os seus problemas. Agora pensa nas mulheres. Independentemente da forma como vires as coisas, quem é realmente responsável pela maior parte da dor que as mulheres sentem? Se pensarmos nisso dessa forma, como é que um homem e uma mulher se podem entender? É estruturalmente impossível”

E esta não é apenas a opinião desta amiga na narradora – é o tom geral do livro. Há dois mundos totalmente separados: o dos homens e o das mulheres e é impossível, aparentemente, haver ligação entre eles.

Para além desta dicotomia, o livro relata alguns fenómenos que desconhecia existirem na sociedade japonesa, propagandeada como tão certinha e direitinha: os sem-abrigo, os bares das anfitriãs em todas as ruas, os banhos comunitários, etc.

Um livro curioso, proveniente de uma sociedade que talvez venha a conhecer melhor em breve.

“Como Mentem as Sondagens”, de Luís Paixão Martins (2023)

Que as sondagens mentem com quantos dentes têm, já a gente sabia, mas confirmámos agora, depois da leitura deste livrinho do consultor LPM, o tal careca de boné, que é apresentado como o tal que conseguiu a maioria absoluta para o António Costa.

Exagero, claro – quem conseguiu essa maioria absoluta foram os eleitores que, borrifando-se nas sondagens que davam um empate técnico entre PS e PSD, decidiram votar em massa no PS.

Paixão Martins, com abundância de citações norte-americanas, explica como as sondagens têm tudo para induzir em erro: a amostra é pequena, o inquérito está mal conduzido, a interpretação dos jornalistas é abusiva e a distribuição dos indecisos é uma catástrofe!

Gostámos de ler e aconselhamos a todos, sobretudo a quem está à espera da próxima sondagem para decidir em quem votar.

“O Historiador”, de Elizabeth Kostova (2005)

Tinha este livro na estante desde 2005. Penso que lhe peguei, em tempos, que o comecei a ler, mas desisti, talvez porque o tema não me interessou e porque era demasiado volumoso para a minha vontade de o ler.

Com efeito, é um calhamaço de 598 páginas, em letra miudinha e o tema do livro não me entusiasma muito – vampiros, mais precisamente, Vlad III Tepes, o Impalador, também conhecido por Drácula.

Elizabeth Kostova (New London, Connecticut, EUA, 1964) escreveu este romance ao longo de dez anos, tendo como inspiração o seu próprio pai, que era professor, e que lhe contava histórias sobre vampiros. Nessa altura, a família vivia na Eslovénia, mas viajava pela Europa, tal como o pai da protagonista do livro.

Histórias de vampiros, mortos-vivos e ofícios correlativos, não são da minha preferência e tive de fazer um esforço para ler este tijolo até ao fim, mas como o li em voz alta, e a minha audiência foi muito compreensiva, consegui ir até ao fim.

Por alguma razão os direitos do livro foram adquiridos pela Sony, por quase 2 milhões de dólares e o filme ainda não chegou sequer à produção. E por alguma razão estava intocável na minha estante há 18 anos!

No fundo, o livro poderia ter um terço do tamanho se Kostova soubesse, ou quisesse, ser mais sintética. Repleto de referências históricas, o livro resume-se à busca pela tumba do Drácula que, afinal, parece que fica em França – ou será que é em Istambul, Bulgária, Roménia, ou até Filadélfia?

Não aconselho.

“Empúsio”, de Olga Tokarczuck (2022)

O excelente livro “Viagens” deu-me a conhecer esta escritora polaca ((Sulechow, 1962). Li-o em 2019, que foi o ano em que Tokarczuck recebeu o Nobel.

Depois desse livro, li todos os que foram publicados em Portugal: “Conduz o Teu Arado Sobre os Corpos dos Mortos”, “Outrora e Outros Tempos”, “Casa de Dia, Casa de Noite” e “Histórias Bizarras”.

Todas essas leituras fizeram com que Olga Tokarczuck se tornasse uma das minhas escritoras preferidas.

E surgiu, agora, este “Empúsio” – neologismo que é uma amálgama linguística de Empusa, figura mitológica grega e Simpósio.

A acção decorre em 1913 na cidade termal de Gorbersdorf, na Baixa Silésia. É lá que existe um famoso sanatório que permite a cura da tuberculose, graças a um conjunto de tratamentos que consistem, fundamentalmente, em repouso, boa alimentação, caminhadas, duches e massagens. Embora o bacilo de Koch já fosse conhecido, ainda não existiam os anti-tuberculostáticos, nem a BCG.

A principal personagem é um jovem engenheiro hidráulico, de Lviv, chamado Mieczyslaw. Está alojado na Hospedaria para Cavalheiros, onde vai conviver com mais quatro ou cinco personagens, todos homens, claro. Aproveitam as caminhadas e as refeições para, depois de beberem boas quantidades de uma tintura alcoólica, discutirem assuntos importantes como a morte, a religião, a arte, a democracia ou, acima de tudo, as mulheres, que eles menosprezam.

Diz Lukas (pág. 52):

“- As mulheres são por natureza mais delicadas e mais sensíveis e, por isso, tendem com facilidade a agir impensadamente”

Diz outro (pág. 54):

“- Nos homens, a força de vontade ajuda a combater alguma das tentações da loucura, mas as mulheres, que praticamente são desprovidas dela, não têm armas para lutar”

Diz o médico, o Dr. SemperweiB (pág. 173)

“- Cozinheira… Sabe que a culpa dos nossos fracassos é das nossas mães. São elas que moldam a nossa atitude para com o mundo e os nossos corpos. São estas as mais recentes descobertas de uma ciência chamada psicanálise. (…)

São as mães – prosseguiu – que contagiam os filhos com uma emotividade excessiva, o que faz com que fiquem vulneráveis a muitas doenças e fraquezas do espírito e, principalmente, a efeminação interior. A mulher, mutável e sempre instável, não é capaz de incutir no filho a consciência de que o mundo é o nosso desafio, que as suas leis são duras e a sua ordem exige de nós uma atitude sólida, com os pés bem assentes na terra, em vez de sucumbir a ilusões.”

Sobre a democracia e ideologias (pág. 120):

“- Bom senso e racionalismo. Tudo o que é mau advém de invenções e ideologias. Não há necessidade de acrescentar o que quer que seja ao mundo; o mundo é como vemos. É como é. Há leis que podem ser descritas. O seu número é finito. Algumas delas, ainda não as conhecemos. Deus existe e criou o mundo. Os seres humanos são, por natureza, canalhas; logo, precisam de ser controlados e de aprender constantemente. Os ricos são ricos porque são talentosos e têm bons contactos. Foi sempre assim e assim será sempre. A liberdade e a democracia podem existir, mas sem exageros. Os dez mandamentos são a matriz de todo o europeu, seja ele alemão, italiano ou romeno. Tem de haver algum tipo de ordem.”

Olga Tokarczuck escreve isto livro num tom irónico – aliás, o subtítulo demonstra essa ironia: “romance de terror naturopático”.

Ao que parece, todos os anos, aparece, na montanha que rodeia a aldeia onde fica o sanatório, o corpo de um homem jovem, todo esfrangalhado. Existem uns seres sobrenaturais – Tuntschi. Serão mulheres que emergem da Natureza?

O final é duplamente surpreendente: descobrimos quem está a narrar toda esta história e o protagonista sofre algo de inesperado.

Mas antes, não resisto a transcrever este excelente pedaço de prosa (pág. 243):

“Para já, sentimos os odores dos seus corpos que, saindo das camisolas, se elevam e ligam uns com os outros; são todos diferentes. Fommer cheira a pó, levemente almiscarado, um cheiro a papel seco, como se farfalhasse – o cheiro de uma pele velha, ressequida, de um porta-moedas desgastado. Lukas tem um cheiro forte – é um odor a medo e prontidão para a luta, a auréola invisível de um guerreiro insatisfeito que, tendo perdido a força física, participa numa guerra à distância, gritando ordens e comentando as jogadas dos estrategas. O cheio de August era completamente diferente – espalha vapores orgânicos de matéria podre, em breve consumidos por processo de putrefação e de decomposição das partículas do corpo; está rodeado de um cheiro a leite azedo, de despensa onde ficaram esquecidas reservas de comida, um cheiro já incontrolável mas ainda susceptível de se camuflar com água-de-colónia e um requintado sabonete para barbear. Por seu lado, Opitz está envolto numa nuvem de carboneto – um cheiro que faz ranger os dentes e salivar. Não há odor que possa ultrapassá-lo. Em contrapartida, Wojnicz espalha amplamente o seu cheiro, sem o saber. Enxota todos os outros cheiros, relegando-os para segundo plano, e domina-os; apesar de exalar esse odor, sente-se perdido e inseguro. É como se as suas feromonas estivessem carregadas de electricidade, avassaladoras, semelhantes ao cheio do pêlo de uma raposa ou de um cabrito que foge do caçador.”

Mais um grande livro de Olga Tokarczuck, traduzido do polaco, como sempre, por Teresa Fernandes Swiatkiewicz.

“As Sete Luas de Maali Almeida”, de S. Karunatilaka (2022)

Karunatilaka nasceu em Colombo, Sri Lanka, em 1975 e com este livro ganhou o Booker Prize.

É um livro estranho e tive alguma dificuldade em seguir esta narrativa por várias razões; por um lado, o ponto de partida não me é muito agradável: um fotógrafo, Maali Almeida, está morto e vagueia pelos meandros da capital do Sri Lanka, em busca de quem o matou e porquê. Almeida, um homossexual não assumido e jogador inveterado, escondeu algures umas caixas com fotografias comprometedoras para alguns dos notáveis do seu país.

O autor mistura a realidade do seu país com a mitologia do Sri Lanka. Na minha opinião, há espíritos, demónios e fantasmas a mais e, muitas vezes, perdi-me na narrativa.

Para quem tencione ler, aconselho a aprender, primeiro, um pouco sobre a mitologia do Sri Lanka.

“A Misteriosa Chama da rainha Loana”, de Umberto Eco (2004)

Este romance de Umberto eco estava esquecido na nossa estante desde que o comprámos na feiro do Livro de 2005, sei lá porquê.

Mas chegou a vez dele, lido em voz alta nos últimos dias.

Eco inventa a personagem do sexagenário Yambo que, depois de sofrer um AVC fica com amnésia seleccionada – isto é, recorda-se de episódios da História, mas deixou de saber quem é, não reconhece a mulher, as filhas e os netos.

Depois de ter alta, Yambo refugia-se numa casa de campo da família, onde, quando jovem passou os anos da Segunda Grande Guerra e é nessa casa que vasculha o sótão e descobre livros, revistas, jornais, discos e outras coisas que, a pouco e pouco, o vão ajudar a reconstituir a sua memória.

Este foi o truque que Umberto Eco (1932-2016) usou para escrever um livro baseado nas suas próprias memórias da juventude. Partilho algumas dessas memórias, embora Eco tenha nascido mais de 20 anos antes de mim. Alguns dos seus heróis, continuaram a ser os meus, sobretudo através do Mundo de Aventuras, como é o caso do Flash Gordon, Fantasma, Dick Tracy e outros.

Nas suas investigações no sótão, Yambo encontrou, por exemplo, alguns números da revista A Defesa da Raça. Em Itália, o fascismo sempre foi mais declarado do que em Portugal:

“Havia fotos de aborígenes comparadas com as de um macaco, outras que mostravam o resultado monstruoso do cruzamento entre uma chinesa e um europeu (mas eram fenómenos de degeneração que, segundo parecia, só aconteciam em França). Falava-se bem da raça japonesa e evidenciavam-se os estigmas imprescindíveis da raça inglesa, mulheres com papada, cavalheiros rubicundos com nariz de alcoólicos, e uma ilustração mostrava uma mulher com o capacete britânico, impudicamente coberta por algumas folhas do Times em forma de fato de ballet; a mulher olhava-se ao espelho e Times, ao contrário, lia-se Semit. Quanto aos judeus propriamente ditos, era só escolher: era uma coleção de narizes aduncos e barbas desgrenhadas, de bocas porcinas e sensuais com dentes saídos, de crânios braquicéfalos, de maçãs de rosto marcadas e olhos tristes de Judas hierosolimita, de ventres incontinentes e de tubarões de fraque, com a corrente do relógio em ouro no colete, as mãos rapaces estendidas para as riquezas dos povos proletários.”

A infância de Yambo foi passada durante o tempo de Mussolini e o jovem sentia-se dividido entre a Igreja e o pecado, entre o fascismo e o esquerdismo do avô.

“Revejo uma cena rápida, que talvez se tenha passado alguns anos antes. Pergunto:

– Mãe, o que é uma revolução?

– É quando os operários vão para o governo e cortam a cabeça aos empregados de escritório como teu pai.”

Na adolescência, Yambo começa a contactar com adultos que se opõem ao regime fascista. Um deles, Gragnola, achava que quase todos eram fascistas.

Certo dia, Yambo perguntou-lhe quem era Hegel.

“- Hegel não era panteísta, e o teu Melzi é um ignorante. Giordano Bruno, esse sim, era panteísta. Um panteísta diz que Deus está em todo o lado, até mesmo naquela cagadela de mosca que vês ali. Imagina o gozo, estar em todo o lado é como estar em lado nenhum. Bom, para Hegel, não era Deus, mas o Estado que devia estar em todo o lado, portanto, era um fascista.

– Mas não viveu há mais de cem anos?

– E que importa? A Joana d’Arc também, uma autêntica fascista. Os fascistas sempre existiram. Desde os tempos… desde os tempos de Deus. O próprio Deus. Um fascista.”

Mais um bom livro de Umberto Eco, ainda por cima, ricamente ilustrada com imagens das inúmeras publicações que Yambo descobre no sótão.

“Baumgartner”, de Paul Auster (2023)

Auster é outro dos meus autores contemporâneos preferidos, a par de Philip Roth, mas este livro não merece ombrear com muitos outros que já li. Aliás, penso que li todos os livros de Auster publicados em Portugal, excepto o penúltimo A Vida Interior de Martin Frost.

Paul Auster está a envelhecer (tem 76 anos) e este Baumgartner tem o envelhecimento como tema central.

Baumgartner é um professor universitário e escritor de setenta e poucos anos, que perdeu a mulher há dez anos, mas que continua a viver com ela no seu pensamento. Chamava-se Anna e também era professora e poeta e tradutora. Curiosamente, traduzia poemas de Fernando Pessoa (página 63):

“(…) o Prémio Pen de Tradução atribuído em 1997 a Anna pelos seus Selected Poems of Fernando Pessoa…”

Todo o livro gira à volta do dia-a-dia de Baumgartner que, a propósito disto e daquilo vai recordando episódios da sua vida, o que torna o livro um pouco repetitivo e maçador.

Às tantas, Baumgartner inicia um curto relacionamento com outra professora (o livro é só professores universitários, cientistas e outros que tais) e aqui, salvo melhor opinião, Paul Auster mete o pé na argola.

Na página 86 diz:

“Com Anna, a diferença de idades fora apenas de dois anos e meio. Com Judith é de dezasseis, e aos quarenta e quatro anos ela ainda corre a toda a velocidade, ao passo que ele já não corre, arrasta os pés (nos seus melhores dias) e chega mesmo a rastejar (nos piores).”

Ora, fazendo as contas, se Judith tem 44 anos e Baumgartner tem mais 16, terá 60 anos. e, pelos vistos, aos 60 anos, já não pode com uma gata pelo rabo.

O problema é que, na página seguinte, Auster diz o seguinte:

“E quando pensar (a Judith) em como a vida se lhe apresentará daqui a dez ou vinte anos, a perspectiva de dormir ao lado de um homem de oitenta ou noventa anos pode levá-la a fugir a sete pés”.

Se Baumgartner, na página anterior, tinha 60 anos, como é que aqui aparece com 80 ou 90?

Parece-me que Auster é que já não pode com uma gata pelo rabo…

Aconselho apenas aos fãs.

Outros livros de Paul Auster: 4 3 2 1; Relatório do Interior; Diário de Inverno; Palácio da Lua; Sunset Park; Invisível; Homem na Escuridão; Mr. Vertigo; Viagens no Scriptorium; As Loucuras de Brooklyn; O Livro das Ilusões; Experiências com a Verdade; Timbuktu

“Zuckerman Libertado”, de Philip Roth (1981)

Roth escreveu quatro livros em que Nathan Zuckerman (seu alter ego) é protagonista: O Escritor Fantasma (1979), publicado por cá em 2017, este Zuckerman Libertado, A Lição de Anatomia (1983), publicado cá em 2015 e A Orgia de Praga (1985), que penso nunca ter sido publicado em Portugal.

Sendo uma parte importante da obra de Philip Roth, não percebo por que razão os quatro livros da série Zuckerman não foram editados em Portugal pela ordem cronológica, o que faria todo o sentido.

Tudo começou com o excelente O Complexo de Portnoy, que Roth publicou em 1969 (editado por cá em 2010), um livro que expunha as idiossincrasias dos judeus, sobretudo no que respeita ao sexo, mas não só. Sendo Roth judeu, o livro foi muito mal recebido pelos seus congéneres, embora tenha tido êxito assinalável noutras latitudes.

Roth decidiu então criar um alter ego, Nathan Zuckerman, autor de um livro chamado Carnovsky, onde as idiossincrasias dos judeus são dissecadas. Zuckerman vai sofrer as consequências do que escreveu e é disso que estes quatro livros tratam.

Este Zuckerman Libertado é o segundo dessa série e conta-nos as paranóias que assaltam o escritor, que pensa que está a ser perseguido e que querem vingar-se do livro que escreveu, raptando a sua mãe.

Roth é divertido e, como diz uma citação que consta da contracapa “desde Henry Miller ninguém como ele aprendeu a ser tão divertido, compassivo, brutal e lamentoso no espaço de um parágrafo”.

Um exemplo (página 165):

“- Newark! (…) Que sabes tu de Newark, menino da mamã? Eu li a porra do livro. Para ti é chop suey aos domingos no chinês do centro da cidade! Para ti é fazer de índio leni-lenape na récita do liceu. Para ti é o tio Max em camisola interior, a regar os rábanos à noite! E o Nick Etten na primeira base pelos Bears! Nick Etten! Atrasado mental! Atrasado mental! Newark é um negro com uma navalha! Newark é uma puta com sífilis! Newark é drogados a cagar no portal da tua casa e a pegar fogo a tudo! Newark é vigilantes hispânicos à caça de escarumbas armados de chaves de rodas! Newark é a bancarrota! Newark é cinzas! Newark é entulho e sujidade! Se fores dono de um carro em Newark ficarás a saber tudo sobre Newark! Então poderás escrever dez livros sobre Newark! Cortam-te a garganta por uns pneus radiais! Cortam-te os tomates por um relógio Bulova! E a pichota para se divertirem, se fores branco!”

Foi o 22º livro de Philip Roth que li e espero mesmo que editem o quarto livro desta série.

Outros livros de Roth: O Professor do Desejo; Operação Shylock; Quando Ela Era Boa; Os Factos; Engano; Goodbye Columbus; Nemésis; A Humilhação; Indignação; O Fantasma Sai de Cena; O Animal Moribundo; Património; Todo-o-Mundo; Pastoral Americana; A Conspiração Contra a América; Casei Com Um Comunista

“Gravidade Zero”, de Woody Allen (2002)

Por que raio Woody Allen decidiu publicar mais este livro?

Porque pode.

É um livro chato, sem grande graça, cheio de referências demasiado nova-iorquinas para poderem ser totalmente compreendidas por lisboetas, mesmo que esses lisboetas, como é o meu caso, já tenham ido a Nova Iorque e vejam muitas séries norte-americanas.

Penso que me sorri duas vezes. Na página 119, quando conta que “os meus pais esperavam gémeos. Ficaram devastados quando viram que vinha só eu. Não souberam lidar com o facto. Nos meus primeiros anos, vestiram-me de gémeos. Dois chapéus, quatro sapatos.” E na página 164, quando escreve que “A mãe, Ruth, era uma mulher habitualmente zangada que elevava o queixume à condição de arte”.

O resto do livro, é mesmo chato.

Depois de várias histórias curtas, sem pilhéria nenhuma, o livro termina com uma história mais longa, de cerca de cinquenta páginas, que começa muito bem, com a descrição de uma família, onde se incluiu a tal Ruth, mas depois descamba para um rol de lugares-comuns, terminando com um final pífio.

Não recomendo.