“Conduz o teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk (2009)

Depois de ler o excelente Viagens, desta escritora polaca, fiquei com muita vontade de ler este Conduz o teu Arado…

Claro que, entretanto, o livro tinha desaparecido dos escaparates. Felizmente, a escritora ganhou o Nobel da Literatura e o livro foi reeditado.

Acabei de o ler ontem e não há dúvida que esta senhora merece toda a nossa atenção.

Nascida em 1962, Olga T. tem uma escrita aparentemente simples, mas cheia de camadas.

Este romance é narrado por Janina Duszejko, uma professora reformada que vive num ermo, onde, durante o inverno, toma conta de algumas casas de campo.

Janina é astróloga amadora, vegetariana e grande defensora dos animais; uma vez por semana, ainda dá aulas de inglês, numa vila próxima. Também uma vez por semana, ajuda um jovem da vila a traduzir os poemas de William Blake; é desse escritor a frase que dá o nome ao livro.

A certa altura, um dos poucos vizinhos de Janina aparece morto, aparentemente por se ter engasgado com um osso de uma corça que ele caçara. Mais tarde, morre o presidente do clube de caça da vila, o chefe dos bombeiros, até o padre.

E uma história bucólica começa a transformar-se num romance policial macabro.

Duas frases que destaco:

Página 120: “numa antiga tradição, para lutar contra os pesadelos é preciso contá-los em voz alta para a sanita e, depois, puxar o autoclismo!”

Página 179: “a saúde é um estado incerto e não augura nada de bom. Mais vale viver tranquilo com uma doença, porque assim pelo menos já sabemos do que vamos morrer”.

Aconselho vivamente!

(Edição Cavalo de Ferro; tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz)

“O Coração É O Último A Morrer”, de Margaret Atwood (2015)

Mais uma distopia de Margaret Atwood, mas esta não é tão bem conseguida como a famosa História de uma Serva (a sequela será publicada em Portugal ainda este ano).

Neste The Heart Goes Last, Atwood conta a história de Stan e Charmaine que, após a grande crise económica, estão desempregados e vivem no carro, que é o único bem que mantêm.

Desesperados, tomam conhecimento da Consiliência, uma espécie de cidade-piloto, onde se desenvolve a experiência Positrão.

Nessa cidade experimental, em troca de empregos estáveis, os habitantes aceitam ceder a sua liberdade, mês sim, mês não: num mês, vivem nas suas residências e trabalham nos seus empregos, no mês seguinte, vão para a prisão, onde trabalham gratuitamente, sendo substituídos nos empregos pelo seu cidadão alternante.

A ideia parece-me muito forçada e o desenvolvimento da história ainda mais forçada é, na minha opinião.

Margaret Atwood saíu-se muito bem com a criação da tenebrosa República de Gilead, mas esta Consiliência não me convenceu.

(Edição da Bertrand, tradução de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito)

Outros livros de Margaret Atwood: O Assassino Cego; Grace

“Operação Shylock”, de Philip Roth (1993)

Só este ano a D. Quixote editou esta obra de Roth, publicada originalmente há 16 anos e percebe-se porquê.

De todos os livros que já li do Roth (um dos meus escritores contemporâneos preferidos) – e já foram 19 – este foi o me despertou menos interesse; e confesso que tive alguma dificuldade em acabar de o ler…

Essa dificuldade deve-se ao facto da trama estar completamente relacionada com os judeus, os sionistas, os anti-sionistas, os pró-Israel e os que defendem que os judeus devem regressar aos países onde viviam, antes da criação daquele Estado.

Na base da trama deste livro, está um sósia de Philip Roth, que se faz passar por ele e que advoga o regresso dos judeus à Polónia e a outros países que tinham grandes comunidades judaicas, antes da Segunda Grande Guerra.

O livro é narrado pelo próprio Roth, como fosse um relato de acontecimentos reais e, no final do livro, o autor assegura que qualquer relação com a realidade é pura coincidência e que todas as personagens são fictícias, embora acrescente que esta afirmação não é verdadeira.

O estilo de Roth é inconfundível, uma escrita avassaladora, que nos invade como uma avalancha, mas o tema, demasiado centrado na questão judaica, fez com que o meu interesse se dispersasse, por vezes.

Aconselho aos fãs…

“Milkman”, de Anna Burns (2018)

Anna Burns (Belfast, 1962) é um escritora da Irlanda do Norte que conseguiu o feito de vencer o Man Booker Prize no ano passado, com este livro.

Diz Kwame Anthony Appiah, membro do júri do Man Booker Prize: “Nenhum de nós leu algo assim antes. A voz incrivelmente distintiva de Anna Burns desafia o pensamento tradicional e ganha forma numa prosa surpreendente e imersiva”.

Milkman está escrito de uma forma muito próxima da oralidade. A narradora é uma jovem de 18 anos, sem nome, designada como filha do meio. Aliás, ninguém tem nome, nesta história. A filha do meio tem um namorado mais ou menos e vários irmãos e irmãs, designadas por irmã um, irmã dois, irmãs mais pequenas – e começa a ser assediada por um paramilitar, apelidado de Leiteiro (não confundir com o leiteiro de verdade, com letra pequena, também conhecido como a pessoa que não gostava de ninguém, mas que acaba por ser o apaixonado da mãe da narradora, que é viúva).

Toda a acção se passa na Irlanda do Norte e envolve católicos e protestantes, forças governamentais e antigoverno, militares e paramilitares, informadores, bombistas e afins – embora o romance nunca refira, explicitamente, o conflito irlandês.

Foi com dificuldade que acabei de ler Milkman. A tal oralidade, às tantas, chateia, porque penso que a autora abusa dessa técnica e torna a escrita confusa e repetitiva.

O membro do júri diz que nunca leu nada assim, foi porque nunca leu O Discurso da Desordem, um livro de António Rebordão Navarro, de 1972, e que é também torrencial e pelo de oralidade e, na minha opinião, muito mais “revolucionário” do que este Milkman.

Li até ao fim, mas com dificuldade e algum fastio.

“O Assassino Cego”, de Margaret Atwood (2000)

Foi com este The Blind Assassin que a canadiana Margaret Atwood venceu o Booker Prize de 2000.

Só agora o li e foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

A narradora é Iris Chase, uma octogenária com um coração doente que vai recordando a sua vida desde a infância, desde o tempo em que o seu avô enriqueceu com fábricas de botões. Depois, veio a Primeira Guerra, a Depressão, a Segunda Grande Guerra e a família Chase vai sofrendo convulsões, dramas e alegrias.

Iris tem uma irmã, Laura, com uma personalidade peculiar – hoje diríamos que seria, talvez, uma Asperger. Logo no início da narração, sabemos que Laura morre num acidente de automóvel, dez dias depois de terminar a Segunda Grande Guerra.

Postumamente, é publicado O Assassino Cego, romance alegadamente escrito por Laura e que é um sucesso instantâneo, mas Iris tem revelações surpreendentes para fazer, no final do livro.

Assim, esta obra de Atwood apresenta a narração de Iris Chase, intercalada com alguns capítulos do livro alegadamente escrito pela irmã e algumas notícias publicadas em jornais da época, relacionadas com a família Chase.

É começar a ler e não querer parar.

Edição Livros do Brasil, tradução de Elsa T. S. Vieira

“O Quarto de Marte”, de Rachel Kushner (2018)

Rachel Kushner nasceu no Oregon em 1968 e mudou-se para San Francisco em 1979. É autora de três romances premiados: Telex from Cuba (2008), The Flamethrowers (2013) e este The Mars Room (2018), que fez parte da lista finalista do Man Booker Prize desse ano.

O Quarto de Marte é um daqueles livros que se lê de uma penada e ficas com pena de ter acabado.

A protagonista da história é Romy Hall, que está presa e foi condenada a duas penas perpétuas consecutivas. Romy (que diz ter o mesmo nome que a actriz Romy Schneider) vai-nos contando as peripécias da prisão de Stanville e também os seus receios em relação ao filho Jackson, de 10 anos, que ficou com a avó, quando Romy foi presa, e ainda as suas recordações dos desvarios que cometeu em San Francisco.

Pelas suas palavras, ficamos a saber que Romy, como muitas outras pessoas, foi vítima das circunstâncias.

O Quarto de Marte é o nome de uma casa de strip-tease, onde Romy trabalhou, e onde conheceu homens que, depois, a maltrataram e a quem ela aplicou o respectivo correctivo – imaginamos nós, porque o texto nunca refere explicitamente os crimes que ela terá cometido para ter sido condenada a duas prisões perpétuas.

Para além da história de Romy Hall, que percorre todo o livro, conhecemos ainda as histórias de outras personagens, como a de Bo Crawford.

Este pedaço tocou-me especialmente, porque já vou no terceiro Honda Civic consecutivo:

“Vena Hubbard, uma mulher que trabalhava na lavandaria da cadeia, convivera com Bo Crawford e apaixonara-se por ele. Ela começou a sonhar com uma nova vida. Isto veio a saber-se mais tarde, em relatos jornalísticos que procuravam narrar a quebra de segurança na cadeia. Vena e Bo tinham falado em fugir para o México, mas antes de se dirigirem para lá, o seu plano era fazerem uma paragem rápida em casa de Vena para matarem Mack, o marido desta. Depois rumariam à fronteira no carro dela, um Honda Civic. Tinham mapas e as poupanças dela, assim como uma espingarda que pertencia a Mack, que levariam com eles depois de o matarem. (Gordon perguntou a si mesmo se uma espingarda caberia sequer dentro de um Honda Civic”).

Claro que cabe!

Aconselho.

“A Visita do Brutamontes”, de Jennifer Egan (2010)

Depois de ter lido A Praia de Manhattan, outro romance desta jovem escritora norte-americana, fiquei com curiosidade em ler este A Visita do Brutamontes, vencedor do Pulitzer de 2011.

Não me arrependi.

Este A Visit From the Goon Squad prende-nos do princípio ao fim e prima pela originalidade da escrita.

Egan muda de estilo ao longo do livro, mantendo, no entanto, uma uniformidade a toda a prova (há até um capítulo em forma de Power Point).

O brutamontes aqui é o tempo, que passa pelas pessoas e que tudo muda. As principais personagens do livro são Bennie Salazar, um músico punk que, com a idade deixa de tocar e passa a produtor discográfico, e Sasha, uma sua assistente, cleptomaníaca e que acaba por ser despedida.

Cada capítulo do livro conta-nos uma pequena história, de certo modo relacionada com aquelas duas personagens, embora elas próprias só surjam em três dos treze capítulos.

A acção do romance decorre em Nova Iorque, San Francisco, Nápoles e algures em África e aconselho vivamente a sua leitura.

“A Morte do Comendador”, Volume III, de Haruki Murakami (2017)

Quando terminei a leitura do primeiro volume de A Morte do Comendador, fiquei de pé atrás e escrevi: vou ler o segundo volume e depois digo alguma coisa…

Acabei ontem o segundo volume e posso dizer que não fiquei com o pé atrás – fiquei com os dois.

Murakami, o aclamado escritor, é mesmo um escritor da moda e consegue publicar dois volumes de uma história inverosímil, que mistura realidade com o submundo da fantasia, só tolerável porque, sendo japonês, é assim uma espécie de “realismo fantástico” asiático.

Para além da banalidade das frases feitas, que já tinha notado, destaque para três tiques insuportáveis: a descrição minuciosa de coisas do dia-a-dia que, se no caso do norueguês Knausgard pode ser novidade, no caso deste japonês, é enfadonho; a igualmente minuciosa descrição das fatiotas que os personagens usam; e, finalmente, a obsessão pelos seios da Marie, a personagem de 13 anos, que tem o peito “liso como uma tábua”, mas que tem esperança que as mamas possam crescer e caber numa copa 3C (verídico!).

Um exemplo na página 184:

“Menshiki chegou às onze e vinte. assim que ouvi o Jaguar, vesti o blusão de cabedal e fui ao seu encontro. ele saiu do carro com um corta-vento azul-escuro acolchoado, calças de ganga pretas justas e sapatos desportivos de pele. Tinha um lenço leve em volta do pescoço.”

Outro exemplo, na página 414:

“Já no fim da chamada, Marie confidenciou-me que o peito se tinha desenvolvido (…)
‘Ainda não estão completamente crescidos, mas para lá caminham – murmurou ela em jeito de confidência.”

Para já não falar nas personagens de cerca de 60 centímetros que saem de um quadro pintado a óleo e surgem como Ideias, arrastando o protagonista para o submundo, onde é preciso atravessar uma espécie de rio das Metáforas e para não falar sequer na possibilidade de o mesmo protagonista ter engravidado a ex-esposa durante um sonho.

Não há pachorra para estas japonisices

“Sabrina”, de Nick Drnaso (2018)

Nick Drnaso (1989, Palos Hills, Ilinois) é um autor de novelas gráficas norte-americano.

“Sabrina” conseguiu ser a primeira novela gráfica a ser nomeada para o Booker Prize.

As críticas foram entusiásticas e unânimes e, por exemplo, Zaddie Smith (a escritora britânica de ascendência jamaicana) considera-a uma obra-prima, “maravilhosamente escrita e desenhada, possuindo todo o poder político da polémica e em simultâneo, toda a delicadeza da verdadeira grande arte.”

Confesso que não fiquei tão entusiasmado, depois de ler e ver as quase 200 páginas de “Sabrina”.

O fio da história é isso mesmo, um fio. Sabrina, que nós nunca chegamos a conhecer, desaparece e, mais tarde, ficamos a saber que foi assassinada.

O que o autor nos mostra são as reacções de amigos e familiares e como as suas vidas são alteradas pelo desaparecimento de Sabrina.

A história é contada em quadradinhos muito despojados, minimalistas; os desenhos são muito simples, geométricos e as figuras humanas têm poucas expressões faciais. Todos parecem tristes e deprimidos e é esse o tom geral da novela: tristeza e depressão.

Para quem, como eu, está habituado à banda desenhada, digamos, clássica (do Astérix aos heróis da Marvel), este Nick Drnaso abriu uma nova porta, sem dúvida.

Mas, como romance, prefiro os que não têm bonecos…

“Grace”, de Margaret Atwood (1996)

Em 1843, no Canadá, Grace Marks, com apenas 16 anos, foi condenada pela participação no assassínio do seu patrão e da sua governante e amante. Depois de muita polémica, o Tribunal condenou à morte por enforcamento o moço da estrebaria, que teria sido o assassino material de ambos e Grace, embora acusada de ter sido a instigadora e cúmplice, foi condenada a prisão perpétua, devido à sua juventude.

Margaret Atwood fez um trabalho exaustivo de investigação, estudando os jornais da época, livros e revistas, que mencionaram em abundância aqueles crimes, estudou, certamente, outras publicações contemporâneas, onde foi buscar informações sobre sessões espíritas, mesmerismo e hipnotismo, usos e costumes das criadas, o que elas usavam para tirar nódoas, como cozinhavam, o que faziam para corar roupas, etc – e como toda essa informação escreveu este romance muito interessante, quase todo na primeira pessoa, com a voz de Grace Marks.

Gostei muito do livro, não só pela linguagem coloquial da Grace Marks, mas também pela personagem do Dr. Jordan, um jovem psiquiatra, que se interessa pelo caso e que, através de entrevistas a Grace, tenta compreender a personalidade da alegada criminosa, à luz das novas teorias psiquiátricas, quando o Freud ainda não tinha nascido…

Vale a pena ler.