Posts Tagged ‘livros’

“Viagens”, de Olga Tokarczuk (2007)

Monday, September 9th, 2019

Olga Tokarczuk é uma escritora polaca nascida em 1962 e que, no ano passado, venceu o Man Booker Internacional com este curioso livro.

Psicóloga de formação e activista de esquerda, Tokarczuk tem sido acusado pelos líderes polacos de direita de denegrir a imagem da Polónia. Só se for por ganhar tantos prémios literários, digo eu, porque, além do importante Man Booker, a escritora tem também sido distinguida com outros prémios, nomeadamente na Alemanha.

Este Viagens é um livro muito curioso porque é formado por pequenas “entradas”, digamos, assim, pequenos textos, a propósito de viagens. Tem, no entanto, um tema a que a escritora volta obsessivamente: as exposições e os museus que mostram plastinação de corpos e partes do corpo humano, ou as colecções de bizarrias encerradas em frascos com formaldeído, como fetos com duas cabeças ou colunas deformadas, etc.

Parece um pouco tétrico, mas não é nada disso. Ao fim e ao cabo, Olga T. fala sobre o corpo humano, sobre a vida e sobre a morte, sobre a viagem que pode ser a da vida, até à morte.

Três histórias sobressaem: a do coração de Chopin, que é secretamente levado de volta para Varsóvia pela sua irmã; a de uma mulher que regressa à sua terra natal para envenenar o seu antigo namorado, moribundo, a pedido deste; e a do homem que está à beira da loucura, depois da mulher e do filho terem desaparecido durante uma viagem à Croácia, para aparecerem dias depois, sem qualquer explicação.

Aconselho.

“O Quarto de Marte”, de Rachel Kushner (2018)

Tuesday, September 3rd, 2019

Rachel Kushner nasceu no Oregon em 1968 e mudou-se para San Francisco em 1979. É autora de três romances premiados: Telex from Cuba (2008), The Flamethrowers (2013) e este The Mars Room (2018), que fez parte da lista finalista do Man Booker Prize desse ano.

O Quarto de Marte é um daqueles livros que se lê de uma penada e ficas com pena de ter acabado.

A protagonista da história é Romy Hall, que está presa e foi condenada a duas penas perpétuas consecutivas. Romy (que diz ter o mesmo nome que a actriz Romy Schneider) vai-nos contando as peripécias da prisão de Stanville e também os seus receios em relação ao filho Jackson, de 10 anos, que ficou com a avó, quando Romy foi presa, e ainda as suas recordações dos desvarios que cometeu em San Francisco.

Pelas suas palavras, ficamos a saber que Romy, como muitas outras pessoas, foi vítima das circunstâncias.

O Quarto de Marte é o nome de uma casa de strip-tease, onde Romy trabalhou, e onde conheceu homens que, depois, a maltrataram e a quem ela aplicou o respectivo correctivo – imaginamos nós, porque o texto nunca refere explicitamente os crimes que ela terá cometido para ter sido condenada a duas prisões perpétuas.

Para além da história de Romy Hall, que percorre todo o livro, conhecemos ainda as histórias de outras personagens, como a de Bo Crawford.

Este pedaço tocou-me especialmente, porque já vou no terceiro Honda Civic consecutivo:

“Vena Hubbard, uma mulher que trabalhava na lavandaria da cadeia, convivera com Bo Crawford e apaixonara-se por ele. Ela começou a sonhar com uma nova vida. Isto veio a saber-se mais tarde, em relatos jornalísticos que procuravam narrar a quebra de segurança na cadeia. Vena e Bo tinham falado em fugir para o México, mas antes de se dirigirem para lá, o seu plano era fazerem uma paragem rápida em casa de Vena para matarem Mack, o marido desta. Depois rumariam à fronteira no carro dela, um Honda Civic. Tinham mapas e as poupanças dela, assim como uma espingarda que pertencia a Mack, que levariam com eles depois de o matarem. (Gordon perguntou a si mesmo se uma espingarda caberia sequer dentro de um Honda Civic”).

Claro que cabe!

Aconselho.

“A Visita do Brutamontes”, de Jennifer Egan (2010)

Tuesday, August 13th, 2019

Depois de ter lido A Praia de Manhattan, outro romance desta jovem escritora norte-americana, fiquei com curiosidade em ler este A Visita do Brutamontes, vencedor do Pulitzer de 2011.

Não me arrependi.

Este A Visit From the Goon Squad prende-nos do princípio ao fim e prima pela originalidade da escrita.

Egan muda de estilo ao longo do livro, mantendo, no entanto, uma uniformidade a toda a prova (há até um capítulo em forma de Power Point).

O brutamontes aqui é o tempo, que passa pelas pessoas e que tudo muda. As principais personagens do livro são Bennie Salazar, um músico punk que, com a idade deixa de tocar e passa a produtor discográfico, e Sasha, uma sua assistente, cleptomaníaca e que acaba por ser despedida.

Cada capítulo do livro conta-nos uma pequena história, de certo modo relacionada com aquelas duas personagens, embora elas próprias só surjam em três dos treze capítulos.

A acção do romance decorre em Nova Iorque, San Francisco, Nápoles e algures em África e aconselho vivamente a sua leitura.

“Máquinas Como Eu”, de Ian McEwan (2019)

Wednesday, July 31st, 2019

Ian McEwan é um dos escritores vivos que eu mais aprecio. Não me lembro de um único livro dele de que não tenha gostado e já ,li todos os que estão editados em Portugal, começando pelo Amesterdão.

Este Machines Like Me and People Like You veio cair como sopa no mel depois de ter lido os três livros do historiador Harari.

Todas as inquietações que o historiador israelita suscita, no que respeita ao nosso futuro próximo, com o desenvolvimento da inteligência artificial, a substituição dos humanos por robost mais inteligentes e eficazes, o desemprego que daí advém, a formação de legiões de humanos desempregados e ociosos – todas essas e outras inquietações estão espelhadas neste excelente romance.

McEwan consegue juntar ficção científica com realidade alternativa, uma história de amor, um crime e uma mentira, e criar uma obra que agarra do princípio ao fim.

O narrador é Charlie, um trintão apaixonado pela vizinha de cima, Miranda e que vive de investimentos e jogos de bolsa, trabalhando em casa. tendo recebido uma herança, por morte da mãe, decide gastá-la comprando um robot super-sofisticado, o Adão, que fora lançado no mercado há pouco tempo.

A história passa-se no tempo em que Margaret Tatcher era primeira-ministra, mas já existem carros autónomos, a robótica está muito avançada, o brilhante matemático Alan Turing, pioneiro da computação, que faleceu em 1954, está ainda vivo, bem como os quatro Beatles, que continuam a editar discos e a Argentina fascista, vende a guerra das Malvinas.

Charlie, Miranda e o robot vão acabar por formar um improvável triângulo amoroso.

Com estas linhas gerais, poderíamos estar perante uma história pateta, mas graças à mestria de McEwan, temos um romance muito interessante, que levanta muitas questões morais sobre o crime, a culpa, a honestidade, a mentira, o amor.

Cinco estrelas.

“Homo Deus”, de Yuval Noah Harari (2015)

Thursday, July 18th, 2019

Faltava-nos este livro para acabar a trilogia deste historiador israelita – e talvez seja este o livro mais assustador dos três.

Escrevi notas sobre o Sapiens e sobre 21 Lições para o Século 21.

Harari tem uma visão muito bem definida da História do Homo Sapiens e, para ele, ninguém sabe o que vai acontecer daqui até a 2050, mas ele acredita que aquilo a que ele chama de Dataísmo será a nova religião – por outras palavras, quem detiver o maior número de informações (data), será o líder do Universo.

No limite, a espécie humana será secundarizada, como os cavalos o foram na época das máquinas a vapor.

Com uma visão muito nítida da História, Harari escreve de um modo muito convincente e claro.

Eis alguns exemplos:

“Actualmente, comer em excesso é, para a maioria dos países, um problema muito mais grave do que a fome. No século XVIII, Maria Antonieta terá supostamente aconselhado o povo que morria à fome a comer brioches, já que não tinha pão. Hoje, os pobres seguem esse conselho à letra. Enquanto os ricos de Beverly Hills comem alface e tofu cozinhado a vapor com quinoa, nos bairros desfavorecidos e nos guetos, os pobre devoram Twinkies, Cheetos, hamburgueres e pizzas. em 2014, mais de2,1 mil milhões de pessoas tinham excesso de peso enquanto 850 milhões estavam subnutridas. Em 2030 espera-se que metade da humanidade venha a sofrer de excesso de peso. Enquanto, em 2010, a fome e a subnutrição foram responsáveis em conjunto pela morte de um milhão de pessoas, a obesidade matou três milhões.” (pág. 16)

“John Watson, uma sumidade da psicologia infantil nos anos 20 do século passado, aconselhava vivamente os pais a «nunca abraçar ou beijar os filhos, nunca lhes dar colo. Se tiver de ser, dê-lhe um beijo de boas-noites na testa. De manhã, dê-lhes um aperto de mão.». A popular revista Infant Care afirmava que o segredo para criar os filhos era manter a disciplina e prover todas as necessidades materiais das crianças seguindo uma rotina diária inflexível. Um artigo de 1929 dizia aos pais o que fazer quando a criança chorava por comida antes da hora prevista: «Não a segure nem a embale para que ela pare de chorar, e dê-lhe a comida apenas quando for hora disso. Chorar não faz mal ao bebés, mesmo as mais pequenos»”. (pág. 105)

“Uma moderna família judaica que festeje um feriado religioso com um churrasco no quintal está muito mais perto do espírito dos tempos bíblicos do que uma família ortodoxa que passe o tempo a estudar as escrituras numa sinagoga.” (pág. 108)

“Ninguém se chateia com a teoria da relatividade porque esta não põe em causa nenhuma das nossas estimadas crenças. A maioria das pessoas não se preocupa minimamente em saber se o tempo e o espaço são relativos ou absolutos. Se há alguém que pensa que é possível dobrar tempo e espaço, então, faça favor. Força nisso. O que é que isso me interessa? Com Darwin é diferentre porque ele nor roubou as nossas almas. Quem compreende realmente a teoria da evolução, percebe que a alma não existe. Isso assusta não apenas os critãos e os muçulmanos devotos, mas também muitas pessoas sem qualquer crença religiosa em particular mas que, ainda assim, querem acreditar que casa swer humano tem uma essência individual eterna que não sofre alterações ao longo da vida e que permanece intacta mesmo após a morte”. (pág. 122)

“O mesmo acontece quando o sistema de educação decide que os exames de acesso são a melhor forma de avaliar os estudantes. O sistema tem a autoridade suficiente para influenciar os critérios de admissão das universidades e ainda os critérios de contratação quer na função pública quer no sector privado. Assim sendo, os estudantes envidam todos os esforços na obtenção de boas notas. Os cargos mais desejados são ocupados por pessoas que tiveram resultados elevados, que como é natural apoiam o sistema que as levou até ao lugar onde estão. O facto do sistema educativo controlar os exames acrescenta-lhe poder e aumenta a sua influência junto das universidades, dos gabinetes governamentais e do mercado de trabalho. Se alguém contestar e disser: «o diploma de licenciatura é apenas um bocado de papel» e agir de acordo com isso, é muito provável que não vá muito longe” (pág. 193)

“Prova disso é que, ainda hoje, quando o presidente dos EUA faz o juramento na tomada de posse, põe a mão sobre a Bíblia. De uma forma idêntica, em muitos países de todo o mundo, incluindo os EUA e o Reino Unido, as testemunhas em tribunal põem a mão sobre a Bíblia e juram dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Não deixa de ser irónico que jurem dizer a verdade com a mão sobre um livro recheado de tantas ficções, mitos e erros” (pág. 196)

Aconselho vivamente.

“A Morte do Comendador”, Volume III, de Haruki Murakami (2017)

Saturday, July 13th, 2019

Quando terminei a leitura do primeiro volume de A Morte do Comendador, fiquei de pé atrás e escrevi: vou ler o segundo volume e depois digo alguma coisa…

Acabei ontem o segundo volume e posso dizer que não fiquei com o pé atrás – fiquei com os dois.

Murakami, o aclamado escritor, é mesmo um escritor da moda e consegue publicar dois volumes de uma história inverosímil, que mistura realidade com o submundo da fantasia, só tolerável porque, sendo japonês, é assim uma espécie de “realismo fantástico” asiático.

Para além da banalidade das frases feitas, que já tinha notado, destaque para três tiques insuportáveis: a descrição minuciosa de coisas do dia-a-dia que, se no caso do norueguês Knausgard pode ser novidade, no caso deste japonês, é enfadonho; a igualmente minuciosa descrição das fatiotas que os personagens usam; e, finalmente, a obsessão pelos seios da Marie, a personagem de 13 anos, que tem o peito “liso como uma tábua”, mas que tem esperança que as mamas possam crescer e caber numa copa 3C (verídico!).

Um exemplo na página 184:

“Menshiki chegou às onze e vinte. assim que ouvi o Jaguar, vesti o blusão de cabedal e fui ao seu encontro. ele saiu do carro com um corta-vento azul-escuro acolchoado, calças de ganga pretas justas e sapatos desportivos de pele. Tinha um lenço leve em volta do pescoço.”

Outro exemplo, na página 414:

“Já no fim da chamada, Marie confidenciou-me que o peito se tinha desenvolvido (…)
‘Ainda não estão completamente crescidos, mas para lá caminham – murmurou ela em jeito de confidência.”

Para já não falar nas personagens de cerca de 60 centímetros que saem de um quadro pintado a óleo e surgem como Ideias, arrastando o protagonista para o submundo, onde é preciso atravessar uma espécie de rio das Metáforas e para não falar sequer na possibilidade de o mesmo protagonista ter engravidado a ex-esposa durante um sonho.

Não há pachorra para estas japonisices

“Sabrina”, de Nick Drnaso (2018)

Monday, June 17th, 2019

Nick Drnaso (1989, Palos Hills, Ilinois) é um autor de novelas gráficas norte-americano.

“Sabrina” conseguiu ser a primeira novela gráfica a ser nomeada para o Booker Prize.

As críticas foram entusiásticas e unânimes e, por exemplo, Zaddie Smith (a escritora britânica de ascendência jamaicana) considera-a uma obra-prima, “maravilhosamente escrita e desenhada, possuindo todo o poder político da polémica e em simultâneo, toda a delicadeza da verdadeira grande arte.”

Confesso que não fiquei tão entusiasmado, depois de ler e ver as quase 200 páginas de “Sabrina”.

O fio da história é isso mesmo, um fio. Sabrina, que nós nunca chegamos a conhecer, desaparece e, mais tarde, ficamos a saber que foi assassinada.

O que o autor nos mostra são as reacções de amigos e familiares e como as suas vidas são alteradas pelo desaparecimento de Sabrina.

A história é contada em quadradinhos muito despojados, minimalistas; os desenhos são muito simples, geométricos e as figuras humanas têm poucas expressões faciais. Todos parecem tristes e deprimidos e é esse o tom geral da novela: tristeza e depressão.

Para quem, como eu, está habituado à banda desenhada, digamos, clássica (do Astérix aos heróis da Marvel), este Nick Drnaso abriu uma nova porta, sem dúvida.

Mas, como romance, prefiro os que não têm bonecos…

“Grace”, de Margaret Atwood (1996)

Tuesday, June 4th, 2019

Em 1843, no Canadá, Grace Marks, com apenas 16 anos, foi condenada pela participação no assassínio do seu patrão e da sua governante e amante. Depois de muita polémica, o Tribunal condenou à morte por enforcamento o moço da estrebaria, que teria sido o assassino material de ambos e Grace, embora acusada de ter sido a instigadora e cúmplice, foi condenada a prisão perpétua, devido à sua juventude.

Margaret Atwood fez um trabalho exaustivo de investigação, estudando os jornais da época, livros e revistas, que mencionaram em abundância aqueles crimes, estudou, certamente, outras publicações contemporâneas, onde foi buscar informações sobre sessões espíritas, mesmerismo e hipnotismo, usos e costumes das criadas, o que elas usavam para tirar nódoas, como cozinhavam, o que faziam para corar roupas, etc – e como toda essa informação escreveu este romance muito interessante, quase todo na primeira pessoa, com a voz de Grace Marks.

Gostei muito do livro, não só pela linguagem coloquial da Grace Marks, mas também pela personagem do Dr. Jordan, um jovem psiquiatra, que se interessa pelo caso e que, através de entrevistas a Grace, tenta compreender a personalidade da alegada criminosa, à luz das novas teorias psiquiátricas, quando o Freud ainda não tinha nascido…

Vale a pena ler.

“A Morte do Comendador”, de Haruki Murakami (2017)

Tuesday, April 23rd, 2019

Os livros de Murakami deixam-me ambivalente. Por um lado, a sua escrita simples, directa, quase coloquial, a sua capacidade para contar histórias, fazendo-as correr suavemente, como se fosse fácil, cativam-me – e a prova é que li este primeiro volume de uma penada.

Por outro lado, esta “mania” que Murakami tem de misturar a realidade com cenas do Outro Mundo, irrita-me um bocado.

Foi por isso que, depois de ler, de enfiada, Em Busca do Carneiro Selvagem, Kafka à Beira-Mar , e A Rapariga que Inventou um Sonho, fiquei farto de Murakami por sete anos.

Recaí agora.

A Morte do Comendador conta-nos a história de um pintor retratista de 36 anos, recém divorciado, que se retira para as montanhas, para uma casa que pertenceu a outro pintor, já falecido. No sótão dessa casa descobre um quadro intitulado A Morte do Comendador.

Entretanto, trava conhecimento com um homem muito rico e pinta o seu retrato. Durante a noite, ouve um sino e descobre que o som vem de uma espécie de cripta. Ele e o seu novo amigo conseguem escavar a tal cripta e, aparentemente, está vazia mas, dias depois, o pintor é visitado por um ser do Além, vestido como o comendador do quadro.

Estão a ver por que me irrito com Murakami?…

Quanto às frases feitas, são à pazada. Por exemplo, só nas páginas 122 e 123, encontrei: insistir na tecla, nunca as vira mais gordas, como tínhamos vindo ao mundo, estás mortinho por saber, vender o seu peixe.

E no entanto… e no entanto, vou ler o segundo volume e depois digo alguma coisa…

“A História de uma Serva”, de Margaret Atwood (1985)

Friday, March 22nd, 2019

Só agora me dispus a ler este romance de Margaret Atwood (Otawa, Canadá, 1939), escritora sobejamente conhecida, com inúmeras obras publicadas, entre elas, O Assassino Cego (Booker Prize de 2000).

E só agora o decidi ler porque, mais de trinta anos depois da sua publicação, a sua autora decidiu escrever um segundo livro, que deverá ser uma espécie de continuação do primeiro, e esse facto foi largamente noticiado e acabou por me despertar a curiosidade.

Confesso que o livro não me entusiasmou por aí além. No que respeita a distopias, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1931) e 1984, de George Orwell (1949), estabeleceram níveis difíceis de atingir, muito menos de superar.

No entanto, a história que Atwood inventou está bem urdida e deixa-nos alguma água na boca, na medida em que muita coisa é sugerida, mas pouca coisa é revelada. Por exemplo, como é que os Estados Unidos se transformaram naquela bizarra República de Gileade, onde ficam as colónias, terá havido uma catástrofe nuclear, etc.

O mais curioso do livro acaba por ser a “semelhança” entre essa República de Gileade e a actual administração de Donald Trump. E coloco muitas aspas na semelhança, evidentemente. No entanto, o puritanismo evangélico, um certo desprezo pelas mulheres, a crença na supremacia dos brancos – tudo isso cheira à América de Trump.

No fundo, Margaret Atwood inventou uma espécie de Daesh cristão, décadas antes do próprio Daesh.

Vale a pena ler, quanto mais não seja para podermos ler a sua sequela, a editar já este ano.