Epidemiologista bom, epidemiologista mau

A pandemia do novo coronavírus veio revelar algo que desconhecíamos: Portugal tem dezenas de epidemiologistas, tantos que muitos poderiam ser exportados para países mais necessitados, tipo Bangla Desh, Suazilândia ou mesmo Afeganistão.

Quase todos os serviços noticiosos dos vários canais televisivos contam com um epidemiologista dando palpites sobre a evolução da pandemia em Portugal.

Na verdade, nem todos são, de facto, epidemiologistas de formação. Há os que costumam comentar incêndios, outros são mais conhecidos por darem opiniões económicas, e há ainda os que são “tudistas”, isto é, especialistas em tudo.

No entanto, mesmo não sabendo sequer soletrar a palavra “epi-de-mio-lo-gia”, todos têm uma opinião sobre a Covid e o modo como as autoridades estão a enfrentar a pandemia.

Neste capítulo, os epidemiologistas dividem-se em bons e maus, dependendo do ponto de vista do órgão de comunicação social.

Se o referido órgão quiser informar a população, os epidemiologistas bons são os que estão a trabalhar, na DGS ou no Instituto Ricardo Jorge, por exemplo; e os epidemiologistas maus são os que estão em casa, a ver os outros trabalhar. Para os primeiros, faz-se o que se pode para dominar a pandemia; para os segundos, nunca se está a fazer o suficiente.

Se, pelo contrário, o órgão de comunicação quiser audiência, puxando pela controvérsia, epidemiologista bom é o que está a ver, epidemiologista mau é o que está a trabalhar. Para o primeiro, tudo o que as autoridades estão a fazer está errado ou já devia ter sido feito há mais tempo, enquanto que, para o segundo, está tudo bem porque está feito com as autoridades.

E depois, ainda há o epidemiologista nem bom nem mau, como é o caso do infecciologista que a RTP convidou para comentar o Covid. Trata-se de um senhor simpático, com ar de avozinho, e que diz coisas óbvias e contraditórias. Já o ouvi dizer, há tempos, que quanto mais se testa, mais casos positivos vamos encontrar, e ontem ouvi-o dizer que, não é bem assim, porque se os testes dão positivo, é por esses casos existem. La Palice não diria melhor.

Depois, temos ainda o bastonário da Ordem dos Médicos e o dirigente do Sindicato Independente dos Médicos. O primeiro é oftalmologista e o segundo é anestesista, no entanto, ei-los a explanar opiniões sobre a epidemia como verdadeiros epidemiologistas.

Ontem, por exemplo, ouvi o do SIM exigir, pela enésima vez, a realização de testes a todos os médicos. Quando? Diariamente? De dois em dois dias? É que um teste negativo num dia não quer dizer que o médico não vá, nessa noite, para uma rave em Carcavelos e apanhe o Covid e o vá transmitir a toda a enfermaria nos dias seguintes.

Por outro lado, o bastonário que, desde o princípio da pandemia ainda não deu, que se saiba, um único contributo para a solução do problema, está sempre pronto a deitar gasolina na fogueira; ontem, sugeriu que talvez seja necessário fechar o Algarve.

Com epidemiologistas destes, estamos mas é fo-di-dos!

O Covid 19 transmitido pelo Senhor

No domingo de Páscoa, algumas almas caridosas decidiram levar o Senhor a beijar aos velhinhos dos lares.

Num lar em Vila Verde, o senhor prior trouxe o crucifixo que, nesta época do ano, toma o nome específico de compasso e uma das empregadas do lar, devidamente mascarada, levou-o a cada um dos velhinhos, para que o beijassem. Entre cada beijoca, a empregada limpava a saliva do velhinho do corpo do Senhor, com um paninho, sempre o mesmo.

Enquanto a empregada ia oferecendo o crucifixo a cada velhinho, o padre ia cantando Aleluia, Aleluia, mas não era a do Leonard Cohen, e o padre estava desafinado. Via-se que alguns dos idosos beijavam o Senhor com alguma displicência, fruto, talvez, de perturbações neurológicas próprias da idade avançada.

Alguém filmou esta cena pungente e colocou-a no Facebook, para que todos pudessem ver como se celebra a Páscoa em Vila Verde, em tempos de pandemia.

No vídeo, vê-se a empregada a dar o crucifixo a beijar a um velhinho muito trôpego que, coitadinho, lambuza o corpo do Senhor todo; a empregada limpa-o com o paninho e oferece o crucifixo ao velhinho seguinte, que recusa beijar o Senhor. Algum ateu, certamente. Como podem aceitar ateus destes em lares tão pios?

Há outro vídeo que circula por aí, feito numa rua de Barcelos e que mostra uma senhora, também muito pia, segurando um crucifixo XL. Os crentes, guardando a devida distância entre si, por causa do coronavírus, atravessam a estrada, à vez, para beijar o Senhor.

Finalmente, num outro lar, em Melgaço, a própria directora do lar decidiu levar o Senhor a beijar aos velhinhos residentes. Entre cada ósculo, borrifava o corpo do Senhor com um desinfectante em spray. Esta piedosa senhora foi mais longe, visitando também alguns velhinhos que ainda vivem nas respectivas residências. Anunciava a sua chegada com o tilintar de um sininho, oferecia uma máscara ao idoso e ele beijava o Senhor através da máscara.

A razão deste pormenor, escapou-me. Por que raio é que os velhotes internados não tiveram direito a uma máscara? A culpa é do Governo, que não fornece máscaras em quantidade suficiente.

A directora deste lar de Melgaço explicou, no Facebook, que os velhinhos estavam há muito tempo sem visitas, muito tristes e desanimados e, assim, levando-lhes o Senhor a beijar, eles ficaram mais felizes.

E mais infectados, acrescento eu – mas isto sou eu, um ateu empedernido, que nunca beijou o Senhor…

Perante estes casos, percebe-se melhor por que razão há muitos mais casos de coronavírus do Norte do que no resto do país.

Por isso, penso que as autoridades de Saúde deveriam divulgar o seguinte aviso:

A DGS ACONSELHA:

FAÇA O TESTE DO COVID 19 ANTES DE BEIJAR O SENHOR