“Na Floresta”, de Edna O’Brien (2002)

Edna O’Brien é uma escritora irlandesa que completará, em dezembro, 90 anos.

Em 2002 editou este livro, cuja história se baseia num caso real. Conforme diz a nota da própria autora, em 1994, uma mulher de 29 anos, o seu filho de 3 anos e um padre desapareceram numa localidade irlandesa, sendo depois encontrados, já mortos. O culpado foi um jovem local que, num acesso psicótico, os raptou e matou.

O livro relata todo este episódio nefasto, modificando o nome das personagens e romanceando os acontecimentos. O jovem psicótico chama-se O’Kane e desde muito novo que frequenta casas de correcção; quando regressa à sua aldeia natal, está em plena crise psicótica, com delírios e alucinações auditivas.

O resultado só podia ser trágico.

Apesar de estar bem escrito, com algum lirismo, penso que falta qualquer coisa à descrição de uma crise psicótica particularmente violenta. Pelos vistos, O’Brien, apesar de viver, desde muito jovem, em instituições para jovens problemáticos, nunca foi diagnosticado como esquizofrénico e nunca fez medicação.

A edição da Cavalo de Ferro, em nenhum lado refere que o livro foi editado há 18 anos.

“Os Testamentos”, de Margaret Atwood (2019)

Com esta sequela de A História de Uma Serva, Margaret Atwood ganhou o Booker Prize de 2019.

Quem está à espera de um final decisivo para a distopia inventada pela escritora canadiana, vai ficar desiludido, porque ela se limita a deixar pistas, embora muito fortes, para que nós imaginemos o que se passou, depois da fuga da República de Gilead, de Nicole e de Agnes, e do diário confessional da Tia Lydia.

Atwood construiu este livro com três narradoras: a Tia Lydia, uma das fundadoras de Gilead e que decide escrever uma espécie de diário, em que confessa o seu plano para destruir o que ajudou a criar, Agnes, uma jovem que consegue evitar o seu casamento com o Comandante Judd, tornando-se Tia, e Nicole, a filha de um serva fugitiva, que vive no Canadá, mas que é introduzida em Gilead pelo movimento Mayday, para tentar corroê-lo por dentro.

O livro está escrito para quem leu A História de Uma Serva e só faz sentido, penso eu, se se ler, primeiro aquele. Muitas das particularidades da República de Gilead só se percebem completamente, se se tiver lido o primeiro livro.

Margaret Atwood escreve bem, está à vontade no que respeita a criar suspense e, por isso, o livro prende-nos, do princípio ao fim, mas já não tem aquele sabor de novidade que tinha o seu antecessor.

Gostaria que a autora escrevesse uma prequela. Fiquei sem saber como nasceu Gilead e o que foi a guerra de Manhattan.

“Corpos Celestes”, de Jokha Alharti (2010)

Jokha Alharti nasceu em Omã em 1978 e venceu o Man Booker International Prize de 2019 com este romance curioso, o que não deixa de ser surpreendente, dado tratar-se de uma mulher, nascida num país muçulmano.

O livro conta-nos a história de diversas personagens relacionadas entre si, todas vivendo em Al-Awafi, uma localidade perto de Mascate, a capital. Está dividido em pequenos capítulos, cada um deles dedicado a uma dessas personagens.

O mais interessante do livro nem são as pequenas histórias de cada uma das personagens, mas sim os usos e costumes de Omã que a autora vai revelando ao longo da narrativa. As crendices ligadas ao parto, à saúde, ao casamento, as orações e as rezas a seres fantásticos, como fugir às suas sentenças, e ainda adoração pelos grandes poetas árabes.

As figuras centrais são três irmãs: Mayya, Asma e Khawla.

Mayya casa com Abdallah, por decisão e contrato entre as duas famílias. Asma casa com Khalid com o único objectivo de ter filhos. Kawla recusa-se a casar por contrato e espera pelo regresso de Nasir, que emigrou para o Canadá.

No entanto, outras personagens são importantes no desenrolar da narrativa, como é o caso da escrava Zarifa e de Qamar, uma beduína muito bela, que se torna amante do pai das três irmãs.

Muito curioso.

“Sete Casas Vazias”, de Samanta Schweblin (2015)

Nascida em Buenos Aires, em 1978, Samanta Schweblin é considerada uma das melhores escritoras em língua espanhola, das gerações mais jovens e dizem ser seguidora do realismo mágico de Julio Cortazar.

Não há dúvida que Samanta S. escreve muito bem e que as suas histórias têm uma mistura de realismo com alguma loucura.

Na melhor destas sete histórias, Lola, uma velha que quer morrer, mas não consegue, vai juntando roupas e objectos pessoais em caixas, que guarda na garagem, ao mesmo tempo que alimenta uma guerra surda contra o marido e desconfia da nova vizinha do lado e do seu filho.

Noutra história, um recém-divorciado visita os dois filhos, que vivem com a ex-mulher e o seu novo companheiro; leva, nessa visita, os seus pais que, por razões que desconhecemos, andam aos pulos no quintal, todos nus.

Na última história, a narradora é uma criança que, nesse dia, faz 8 anos; a sua irmã, de 3 anos, bebe lixívia e os pais, aflitos, pegam nas duas filhas, metem-se no carro e seguem para o hospital. Como o trânsito está entupido, o pai pede à mais velha que tire as cuecas, que são brancas, e ele vai acenando com elas, para assinalar a emergência.

Histórias curiosas e uma escrita que nos prende.

“Conduz o teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk (2009)

Depois de ler o excelente Viagens, desta escritora polaca, fiquei com muita vontade de ler este Conduz o teu Arado…

Claro que, entretanto, o livro tinha desaparecido dos escaparates. Felizmente, a escritora ganhou o Nobel da Literatura e o livro foi reeditado.

Acabei de o ler ontem e não há dúvida que esta senhora merece toda a nossa atenção.

Nascida em 1962, Olga T. tem uma escrita aparentemente simples, mas cheia de camadas.

Este romance é narrado por Janina Duszejko, uma professora reformada que vive num ermo, onde, durante o inverno, toma conta de algumas casas de campo.

Janina é astróloga amadora, vegetariana e grande defensora dos animais; uma vez por semana, ainda dá aulas de inglês, numa vila próxima. Também uma vez por semana, ajuda um jovem da vila a traduzir os poemas de William Blake; é desse escritor a frase que dá o nome ao livro.

A certa altura, um dos poucos vizinhos de Janina aparece morto, aparentemente por se ter engasgado com um osso de uma corça que ele caçara. Mais tarde, morre o presidente do clube de caça da vila, o chefe dos bombeiros, até o padre.

E uma história bucólica começa a transformar-se num romance policial macabro.

Duas frases que destaco:

Página 120: “numa antiga tradição, para lutar contra os pesadelos é preciso contá-los em voz alta para a sanita e, depois, puxar o autoclismo!”

Página 179: “a saúde é um estado incerto e não augura nada de bom. Mais vale viver tranquilo com uma doença, porque assim pelo menos já sabemos do que vamos morrer”.

Aconselho vivamente!

(Edição Cavalo de Ferro; tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz)

“O Evangelho das Enguias”, de Patrik Svensson (2019)

Patrik Svensson é um jornalistas de artes e cultura sueco, nascido em 1972 que, através deste livro, decidiu homenagear o seu pai, um operário que se dedicava ao trabalho duro de asfaltar estradas e, que por causa disso, faleceu com apenas 60 anos de idade.

A infância do autor foi passada numa casa, junto a um riacho, onde, com frequência, ia pescar enguias com o seu pai.

A partir dessas memórias agradáveis e felizes, Svensson estudou a fundo o enigma das enguias, peixe que interessou Aristóteles, Freud e muitos outros.

Esse interesse universal pela enguia está relacionado com os mistérios que envolvem esta espécie que, segundo se pensa, desova no Mar dos Sargaços, embora nunca ninguém tenha visto uma enguia adulta nessas paragens.

Ao longo de vários capítulos, Svensson vai descrevendo os estudos, experiências e descobertas que se fizeram, ao longo dos séculos, relacionadas com as diversas metamorfoses da enguia e, ao mesmo tempo, relata episódios da sua infância, em que entra sempre o seu pai.

Um livro muito curioso, que vale a pena ler.

“O Corpo – um guia para ocupantes”, de Bill Bryson (2019)

Mais um excelente livro deste autor norte-americano, a viver há muitos anos na Grã-Bretanha.

Desta vez, Bryson debruça-se sobre o corpo humano e fala-nos dele com abundância de estatísticas, notas históricas e bom humor, como é seu timbre.

Começando na pele e no cabelo, passando pelos diversos órgãos internos e terminando na morte, Bryson consegue uma obra honesta, sem falsas verdades, tão comuns em livros sobre temas médicos.

Bryson deve ser um verdadeiro rato de biblioteca, pesquisando tudo e mais alguma coisa e conseguindo, com esse trabalho de sapa, encontrar histórias curiosas; como esta, na página 89, sobre a “moda” das lobotomias, técnica inventada por Egas Moniz:

“Nos Estados Unidos, um médico chamado Walter Jackson Freeman ouviu falar do processo de Moniz e tornou-se o seu acólito mais entusiástico. Ao longo de quase 40 anos, Freeman percorreu o país a fazer lobotomias a praticamente todos os pacientes que lhe colocavam à frente. Numa dessas viagens, lobotomizou 225 pessoas em 12 dias.”

No capítulo dedicado aos microorganismos, Bryson cita um estudo curioso, na página 130:

“Num estudo chamado “Bacterial Transfer Associated with Blowing Out Candles on Birthday Cakes”, a equipa de Dawson descobriu que soprar para apagar as velas de um bolo aumentava a cobertura de bactérias em cima dele, em 1400%.”

Na página 316 Bryson cita o caso de outro cirurgião compulsivo:

“Henry Cotton convenceu-se de que os distúrbios psiquiátricos não se deviam a perturbações do cérebro, mas sim a intestinos com malformações congénitas, e embarcou num programa de cirurgias para o qual não tinha, aparentemente, qualquer aptidão. Conseguiu matar 30% dos seus pacientes e não curou nenhum – porque, na verdade, nenhum tinha algum problema que pudesse ser curado. Cotton entusiasmou-se também com a extracção de dentes e arrancou quase 6500 dentes (uma média de 10 por paciente), num único ano, 1921, sem recorrer a qualquer anestesia.”

Falar de coisas sérias com um toque de humor, sem ser idiota, não é nada fácil, mas Bryson consegue-o.

Um exemplo, na página 357, sobre reprodução:

“É um pouco difícil saber o que pensar sobre os espermatozóides. Por um lado, são heróicos: os astronautas da biologia humana, as únicas células concebidas para sair do nosso corpo e explorar outros mundos. Por outro lado, são idiotas desorientados. Quando vão parar ao útero, parecem curiosamente mal preparados para a única tarefa que a evolução lhes atribuiu”.

Depois de ter escrito livros de viagens, de ter dissertado sobre as peculiaridades dos ingleses e dos americanos, de ter abordado as várias divisões de uma casa, de ter escrito uma história de quase tudo – Bryson escreve agora, com brilhantismo, sobre o corpo humano.

Aconselho vivamente.

(Edição Bertand, tradução de Elsa T. S. Vieira)

Outros livros de Bill Bryson: Made in America, Notas Sobre um País Grande, Por Aqui e Por Ali, Crónicas de Uma Pequena Ilha, A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, Em Casa – Breve História da Vida Privada, 1927 – Aquele Verão, Regresso à Pequena Ilha.

“O Coração É O Último A Morrer”, de Margaret Atwood (2015)

Mais uma distopia de Margaret Atwood, mas esta não é tão bem conseguida como a famosa História de uma Serva (a sequela será publicada em Portugal ainda este ano).

Neste The Heart Goes Last, Atwood conta a história de Stan e Charmaine que, após a grande crise económica, estão desempregados e vivem no carro, que é o único bem que mantêm.

Desesperados, tomam conhecimento da Consiliência, uma espécie de cidade-piloto, onde se desenvolve a experiência Positrão.

Nessa cidade experimental, em troca de empregos estáveis, os habitantes aceitam ceder a sua liberdade, mês sim, mês não: num mês, vivem nas suas residências e trabalham nos seus empregos, no mês seguinte, vão para a prisão, onde trabalham gratuitamente, sendo substituídos nos empregos pelo seu cidadão alternante.

A ideia parece-me muito forçada e o desenvolvimento da história ainda mais forçada é, na minha opinião.

Margaret Atwood saíu-se muito bem com a criação da tenebrosa República de Gilead, mas esta Consiliência não me convenceu.

(Edição da Bertrand, tradução de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito)

Outros livros de Margaret Atwood: O Assassino Cego; Grace

“História Libidinosa de Portugal”, de Joaquim Vieira (2019)

Nada destas coisas nos ensinaram no Liceu!

São centenas de bastardos a inundar a História de Portugal e que Joaquim Vieira decidiu investigar e reunir neste volume que escorre facadas no matrimónio.

Praticamente todos os reis tiveram amantes (ou barregãs, termo espantoso) e, consequentemente, filhos ilegítimos, que só não foram mais porque a mortalidade infantil era muito alta.

E entre essas barregãs, muitas eram freiras que, embora casadas com Cristo, recebiam no seu regaço os membros viris da realeza…

Um exemplo (pág. 62):

“Sendo as suas (de D. Dinis) visitas às religiosas feitas durante a noite, D. Isabel, ao saber por antecipação de uma dessas incursões, terá aguardado o marido a meio do percurso de ida, acompanhada por damas da corte com archotes acesos, dizendo ao rei quando surgiu: «Ide vê-las. Nós alumiamos o vosso caminho». E assim teriam nascido os nomes de Lumiar (a meio caminho do trajecto) e de Odivelas» (onde ficava o Mosteiro de Odivelas, onde D. Dinis ia molhar o bico…)

O livro está organizado por ordem cronológica, começando com a fundação de Portugal e das aventuras extraconjugais de D. Afonso Henriques e vai por ali fora, seguindo as várias dinastias.

Para além da listagem de amantes e de bastardos, Vieira conta-nos também outras histórias curiosas, como esta, na página 245, sobre a fealdade de D. João VI e da sua futura esposa Carlota Joaquina.

Ambos seriam tão feios que o marquês de Bombelles afirmou “ser preciso «fé, esperança e caridade para consumar este ridículo casamento: a fé para acreditar que a infanta é uma mulher; a esperança para crer que dela nascerão filhos; e a caridade para resolver fazer-lhos»”

Terminada a monarquia, também a República teve os seus episódios libidinosos (curiosa a história em volta de Balsemão e do seu ilegítimo) e Joaquim Vieira relata alguns deles, terminando relatando a tendência que José Sócrates mostrou para ajudar mulheres em aflições de dinheiro, sugerindo que, por vezes, também ele se socorria de senhoras da mais velha profissão do mundo.

O livro termina com esta frase curiosa:

“Ditosa pátria que tais filhos tem, empenhados, dia após dia, em dar continuidade à história libidinosa da nação”.

Aconselho a leitura (edição Oficina do Livro)

“Musicofilia”, de Oliver Sacks (2008)

Mais um livro curioso do neurologista/escritor Oliver Sacks.

Originalmente publicado em 2007, Sacks fez uma nova edição no ano seguinte, revista e aumentada, incluindo muitos testemunhos que recebeu depois da publicação da primeira edição.

Como médico, confesso a minha ignorância em relação a muitas coisas de que Sacks fala, nomeadamente da importância da musicoterapia no tratamento de algumas doenças neurológicas, nomeadamente, nas demências. Desconheço se em Portugal existem musicoterapeutas, mas parece que nos Estados Unidos, são mais ou menos vulgares, pelo menos em determinados hospitais.

Fiquei a saber coisas bem interessantes sobre ouvido absoluto, savants, doença de Williams, etc.

Como é possível, por exemplo, que doentes amnésicos consigam cantar muitas canções, recordando os versos sem hesitação, para não falar na doente que canta canções em mais de dez línguas, sem saber falar nenhuma delas.

Só um exemplo, retirado da página 220:

O distúrbio da fala mais comum é a gaguez e aqui – e os gregos e os romanos sabiam-no bem – mesmo aqueles que gaguejam tanto que o que dizem se torna quase incompreensível, conseguem quase sempre cantar de forma fluente e livre e, através do canto ou optando por um discurso cantante, podem muitas vezes ultrapassar ou contornar a sua gaguez”.

Agora que temos um deputada cuja gaguez é, por vezes, insuportável, a Joacine Katar Moreira, deputada do LIVRE, talvez fosse boa ideia dar-lhe este livro a ler e sugerir que passasse a intervir na Assembleia da República, a cantar…