Archive for the ‘Coisas Lidas’ Category

“21 Lições para o Século XXI”, de Yuval Noah Harari (2018)

Friday, March 15th, 2019

Depois de lermos, com muito agrado, o primeiro livro deste historiador israelita, Sapiens, avançámos para este, que é o seu terceiro livro, e ainda gostámos mais.

O livro está dividido nas seguintes partes: O Desfio Tecnológico, o Desafio Político, Desespero e Esperança, Verdade e Resiliência.

Cada uma destas partes, encerra diversos capítulos, num total de 21.

Já tinha escrito um texto a propósito de uma passagem deste livro, em que Harari fala dos nacionalismos – está aqui.

Mas todo o livro é citável…

Na impossibilidade de transcrever todo o livro, vou salientar aqui alguns trechos que me tocaram mais.

“Não tenho a menor ideia de como será o mercado de trabalho em 2050. É relativamente consensual que a aprendizagem automática e a robótica irão mudar quase todas as áreas profissionais – da produção de iogurte ao ensino do yoga.”

(pag. 41 – Capítulo Trabalho – Quando fores grande, talvez não tenhas profissão)

“A seguir, combinamos o algoritmo com sensores biométricos e o algoritmo, agora, fica a saber de que modo cada frame do filme influenciou o nosso ritmo cardíaco, a nossa tensão arterial e a nossa actividade cerebral. Enquanto vemos, por exemplo, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, o algoritmo pode reparar que a cena da violação suscitou em nós uma levíssima e quase imperceptível excitação, que quando Vincent dispara sem querer para a cara de Marvin isso nos faz rir com sentimentos de culpa, e que não percebemos a piada do «Big Kahuna Burger» mas que nos rimos na mesma para não parecermos estúpidos. Quando forçamos o riso, usamos músculo  e circuitos cerebrais diferentes dos que accionamos quando algo nos faz rir de verdade.”

(pag. 77; Capítulo Liberdade – A Big Data está de olho em ti)

“Em 2011, irrompeu um escândalo quando o jornal ultraortodoxo de Brooklyn Di Tzeitung publicou uma fotografia oficial do governo de Obama mas apagou digitalmente a secretária de Estado Hillary Clinton. O jornal explicou que se viu forçado a fazê-lo devido às «leis de castidade judaicas». Deu-se um escândalo parecido quando o HaMevaser apagou Angela Merkel de uma fotografia tirada numa manifestação contra o massacre do Charlie Hebdo, não fosse a sua imagem despertar pensamentos libidinosos nas mentes dos leitores devotos. O editor de um terceiro jornal judeu ultraortodoxo, Hamodia, defendeu esta política, explicando que «estamos a seguir milhares de anos de tradição judaica».

(pag. 123 – Capítulo Civilização – Só existe uma civilização no mundo)

“Há mil anos, se adoecêssemos, o sítio onde vivíamos era decisivo. Na Europa, o padre local provavelmente dir-nos-ia que tínhamos provocado a ira de Deus e que, para recuperarmos a nossa saúde, deveríamos doar qualquer coisa à Igreja, fazer uma peregrinação a um local sagrado e rezar com fervor a Deus, pedindo-lhe perdão. Ou, por outro lado, a bruxa da aldeia podia explicar-nos que estávamos possuídos por um demónio e que ela podia expulsá-lo com cânticos, danças e o sangue de um galo preto.
No Médio Oriente, os médicos formados à luz das tradições clássicas podiam explicar-nos que os nossos quatro humores corporais estavam em desequilíbrio e que podíamos harmonizá-los seguindo um dado regime alimentar e tomando poções fedorentas. Na Índia, os peritos ayurvédicos avançariam as suas próprias teorias sobre o equilíbrio entre os elementos corporais, conhecidos como doshas, e recomendar-nos-iam um tratamento de ervas, massagens e posturas de yoga. Médicos chineses, xamãs siberianos, curandeiros africanos, terapeutas ameríndios – todos os impérios, reinos e tribos tinham as suas próprias tradições e os seus respectivos peritos (…). A única coisa comum às práticas medicinais europeias, chinesas, africanas e americanas era o facto de, em todos esses lugares, pelo menos um terço das crianças morrer antes de atingir a idade adulta e a esperança média de vida se situar abaixo dos 50 anos.”

(pag. 133 – Capítulo Civilização – Só existe uma civilização no mundo)

“Então, como deve o estado lidar com o terrorismo? Um combate contra-terrorista bem-sucedido deve fazer-se em três frentes. Primeiro, os governos devem concentrar-se em acções clandestinas contra as redes terroristas. Em segundo lugar, os meios de comunicação não devem perder a perspectiva, evitando a histeria. O teatro do terror não consegue viver sem exposição mediática. Infelizmente, os meios de comunicação oferecem-na de graça, relatando obsessivamente ataques terroristas e inflacionando o seu perigo, uma vez que as peças jornalísticas sobre terrorismo aumentam muito mais as vendas do que as peças sobre diabetes ou poluição atmosférica.”

(pag. 197 – Capítulo Terrorismo – Não entrar em pânico)

“E quanto à bestialidade? Já participei em diversos debates públicos e privados sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e há quase sempre um espertalhão que pergunta: «Se permitimos o casamento entre dois homens, por que não permitir o casamento entre um homem e uma ovelha?». Do ponto de vista secular, a resposta é evidente. As relações saudáveis requerem profundidade emocional, intelectual e até espiritual. Um casamento que não tenha esta profundidade vai deixar o indivíduo frustrado, só e psicologicamente atrofiado. Enquanto dois homens podem certamente satisfazer as necessidades emocionais, intelectuais e espirituais um do outro, um relacionamento com uma ovelha não pode.
(…) E o que dizer de uma relação entre um pai e sua filha? São ambos seres humanos, então qual é o mal? Bom, vários estudos psicológicos já demonstraram que esse tipo de relação inflige um dano imenso e geralmente irreparável nos filhos. Além disso, reflectem e intensificam tendências destrutivas nos pais. A evolução moldou a psique do Sapiens de modo que as relações românticas não se misturem com as relações parentais. Assim, não precisamos de Deus ou da Bíblia para nos opormos ao incesto – basta lermos os estudos psicológicos sobre o assunto.”

(pag. 240 – Capítulo Secularismo – Reconhecer a nossa sombra)

“O poder do pensamento grupal é tão inexorável que é difícil romper com a sua influência mesmo quando as perspectivas em causa parecem bastante arbitrárias. Assim, nos EUA, os conservadores de direita tendem a importar-se menos com coisas como a poluição e as espécies em vias de extinção do que os progressistas de esquerda, motivo pelo qual o Louisiana tem leis ambientais muito mais permissivas do que o Massachussetts. Estamos habituados a esta situação, pelo que damos como banal, mas, na verdade, é surpreendente. Seria de pensar que os conservadores se importariam muito mais com a conservação da velha ordem ecológica e com a protecção das suas terras, as suas florestas e os seus rios ancestrais. Por sua vez, seria de esperar que os progressistas estivessem muito mais abertos a mudanças na natureza, especialmente se o objectivo fosse acelerar o progresso e aumentar a qualidade de vida dos seres humanos. No entanto, uma vez estabelecidas as directrizes partidárias quanto a um tema, devido a várias particularidades históricas, torna-se normal para os conservadores desvalorizarem as preocupações com rios poluídos e com o desaparecimento de aves, ao passo que os progressistas de esquerda tendem a recear qualquer alteração à velha ordem ecológica”.

(pag. 256 – Capítulo Ignorância – Sabemos menos do que julgamos)

Vale a pena ler.

 

 

“A Praia de Manhattan”, de Jennifer Egan (2017)

Thursday, February 21st, 2019

Jennifer Egan (Chicago, 1962) ganhou o Prémio Pulitzer de 2011 com o romance A Visita do Brutamontes (está ali na prateleira para ler) e com este A Praia de Manhattan parece ter-se afirmado como uma das mais importantes escritoras norte-americanas da actualidade.

A acção deste novo livro de Egan passa-se nos anos 40 do século passado, durante a Segunda Grande Guerra e a protagonista, Anna, percorre todo o livro, desde os tempos em que, ainda criança, acompanha o pai nas suas visitas a dirigentes sindicais do Porto de Nova Iorque mais ou menos relacionados com as máfias irlandesa e italiana, até à sua mudança para a Califórnia, por motivos de força maior, que só a leitura deste excelente livro revelará.

O pai de Anna vai desaparecer de cena, assim como a sua irmã deficiente, e até a sua mãe, ex-bailarina, e Anna, sozinha, acaba por arranjar trabalho no Porto, como soldadora e, pouco depois, torna-se uma das primeiras mulheres a mergulhar com escafandro.

Para além de uma história muito rica de peripécias, em que as personagens são consistentes e credíveis, o principal destaque deste livro vai para a narrativa verdadeiramente cinematográfica. Com efeito, ao lermos o livro, estamos a “ver” as cenas num écran.

Não me admira nada que este livro seja, em breve, adaptado ao cinema, como já aconteceu com outro romance de Jennifer Egan, O Circo Invisível (2014).

Recomendo.

Edição Quetzal, tradução de Vasco Teles de Menezes.

“Sapiens – História Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari (2013)

Sunday, January 13th, 2019

Harari (Haifa, Israel, 1976) é um professor de História que se tornou conhecido mundialmente com este calhamaço de 500 páginas em que descreve a História da Humanidade.

O Homo sapiens começa por ser um animal insignificante e, depois da revolução cognitiva, da revolução agrícola e da revolução científica, transforma-se numa espéice de um deus, capaz de acabar consigo próprio.

De um modo muito claro, Harari vai-nos mostrando como essa evolução foi possível.

Na impossibilidade de transcrever todo o livro, deixo aqui, apenas, algumas passagens:

“A grande maioria da comunicação humana é composta por mexericos. (…) Acha que os professores de História falam sobre os motivos subjacentes à Primeira Guerra Mundial quando se encontram para almoçar, ou que os físicos nucleares aproveitam as pausas para café das conferências científicas para falarem de quarks? Por vezes. Mas o mais comum é coscovilahrem sobre a professora que apanhou o marido com outra, ou o propósito da altercação entre o chefe do departamento e o reitor, ou acerca dos rumores de que um colega usou os fundos de uma investigação para comprar um Lexus. Por norma, os mexericos centram-se nas infrações. Os divulgadores de rumores são o «quarto Estado» original: jornalistas que informam a sociedade e, assim, nos protegem de trapaceiros e parasitas”. (pag 37)

“De todas as actividades humanas colectivas, a mais difícil de organizar é a violência. Dizer que uma ordem social é mantida pela força militar suscita, de imediato, a questão: o que mantém a ordem militar? É impossível organizar um exército apenas pela coerção. Pelo menos, alguns dos comandantes e dos soldados têm de acreditar verdadeiramente nalguma coisa, seja em Deus, na honra, na pátria, na virilidade ou no dinheiro.” (pag 138)

“Tal como duas notas musicais opostas tocadas em conjunto fazem desenvolver uma melodia, também a discórdia nos nossos pensamentos, ideias e valores nos obriga a pensar, a reavaliar e a criticar. A coerência é apanágio das mentes obtusas”. (pag 200)

“A 23 de agosto de 1572, os católicos franceses, que realçavam a importância das boas acções, atacaram comunidades de porotestantes franceses que enalteciam o amor de Deus pela humanidade. Neste ataque, o dia do massacre de São Bartolomeu, foram chacinados entre 5000 e 10000 protestantes em menos de 24 horas. Quando o Papa, em Roma, soube o que tinha acontecido em França, ficou de tal forma feliz, que organizou orações festivas para celebrar a ocasião e contratou Giorgio Vasari para decorar uma das salas do Vaticano com um fresco do massacre (a sala está hoje encerrada aos visitantes). Foram mortos mais cristãos por outros cristãos nessas 24 horas do que pelo Império Romano politeísta durante toda a sua existência”. (pag 255)

“Os nossos primos chimpazés raramente se lavam e nunca mudam de roupa. Também não nos sentimos enojados pelos facto dos nossos cães e gatos domésticos não tomarem banho nem mudarem de pelagem, todos os dias. Fazemos-lhes festas, abraçamo-los e beijamo-los constantemente. Muitas vezes, as crianças pequenas das sociedades ricas não gostam de tomar banho e são necessários anos de educação e disciplina parental para adoptarem este hábito supostamente atraente. É tudo uma questão de expectativas.” (pag 448)

Vale a pena ler.

Edição Elsinore, tradução de Rita Carvalho e Guerra

“A Bastarda de Istambul”, de Elif Shafak (2007)

Wednesday, December 5th, 2018

Elif Shafak (Estraburgo, 1971) é uma escritora turca que escreve em inglês e colabora com jornais como o Guardian, o New York Times ou o Independent.

Este romance, publicado, em primeiro lugar, na Turquia e só um ano depois em Inglaterra, causou alguma polémica e a autora foi levada a tribunal, acusada de “denegrir a identidade turca”.

A razão para esta acusação, que acabou por não ser provada, reside na essência deste romance: as relações entre turcos e arménios, tendo como pano de fundo o genocídio dos arménios, sempre negado pelos turcos.

No entanto, a história principal do livro é a de Asya, uma bastarda, filha de pai incógnito – embora acabemos por saber quem foi o pai nas últimas páginas.

A mãe de Asya, Zeliha, é uma jovem habitante de Istambul que gosta de provocar, usando mini-saias escandalosamente curtas, piercings e tatuagens.

Asya e a mãe vivem numa casa só de mulheres, com as três irmãs de Zeliha e a avó materna.

Cada uma das tias tem as suas particularidades e a sua história e todas elas se cruzam com as histórias de arménios.

Os 18 capítulos têm, como títulos, ingredientes das várias refeições tipicamente turcas que vão sendo referidas na história, começando com “canela”, continuando com “cascas de laranja”, “figos secos”… e acabando com “cianeto de potássio”.

Um livro curioso e que vale a pena ler.

Edição Jacarandá, com tradução de Maria João Freire de Andrade.

“A Mais Nova Profissão do Mundo”, de Alface (2006)

Tuesday, October 30th, 2018

Alface era o pseudónimo do escritor José Alfacinha da Silva, nascido em Montemor-o-Novo em 1949 e falecido, por AVC súbito, em 2007.

Este livrinho de contos estava esquecido numa das minhas prateleiras e desencantei-o há pouco tempo, quando fizemos uma grande limpeza na biblioteca.

Trata-se de um livro um pouco irregular, que junta contos muito bem esgalhados, como o de abertura, Pombinhos, e toda a série de textos curtos sob as designações Narrativas e Lugares, com outros textos menos conseguidos e alguns mesmo um pouco enfadonhos.

De qualquer modo, diverti-me bastante ao lê-lo.

“Um Artista do Mundo Flutuante”, de Kazuo Ishiguro (1986)

Friday, October 19th, 2018

Muito curioso este romance do Prémio Nobel de 2017.

Conhecido, sobretudo, pela obra Os Despojos do Dia, com a qual ganhou o Man Booker Prize de 1989, Kazuo Ishiguro (Nagasaki, Japão, 1954), conta-nos a história de um pintor profissional, especialista em pinturas do chamado mundo flutuante, o mundo das gueixas e dos locais de diversão nocturna, muito em voga no Japão de antes da 2ª Grande Guerra.

Ono é um pintor na reforma, viúvo e com duas filhas adultas; perdeu o filho na guerra e a mulher, num bombardeamento.

Antes da guerra, Ono era um defensor do Japão antigo, imperial, estanque às influências ocidentais. Foi com esse espírito que apoiou a entrada do país na guerra.

No entanto, com a derrota e rendição do Japão, Ono vê o seu país, as suas filhas, os seus genros e até o seu único neto, de 8 anos, cada vez mais adeptos de um novo país, virado para o exterior, adoptando, de certo modo, o american way of life, embora com algumas diferenças. Até o seu neto elege como heróis Popeye e outros personagens da banda desenhada norte-americana.

A filha mais nova está preste a casar-se mas Ono teme que o seu passado possa influenciar as negociações para o casamento – até porque o Japão pode estar a ocidentalizar-se, mas ainda continua com tiques do passado, nomeadamente no que respeita ao modo como os casamentos são negociados entre as famílias dos noivos, com recurso a detectives que pesquisam a existência de “podres” no passado das ditas famílias.

A acção do livro decorre entre 1948 e 1950 e a narrativa é comovente.

Vale a pena ler.

“Alguma Coisa Tem que Chover”, de Karl Ove Knausgard (2010)

Monday, October 15th, 2018

Foi com alguma relutância que comecei este 5º volume da obra do norueguês Knausgard, com o título genérico A Minha Luta.

O primeiro volume – A Morte do Pai – surpreendeu toda a gente. Surpreendeu, sobretudo, pelo estilo autobiográfico romanceado, com a descrição minuciosa de gestos do dia a dia, enrolar um cigarro, lavar a loiça, despejar o lixo. Surpreendeu pelo modo desabrido como Knausgard falava do seu pai e do seu alcoolismo, da sua avó paterna e da sua demência.

O segundo volume – Um Homem Apaixonado – mantinha a mesma dinâmica e intensidade, mas o mesmo não posso dizer dos volumes 3 e 4 – A Ilha da Infância e Dança no Escuro. Nestes dois volumes, o estilo tornou-se repetitivo e já foi difícil acabar a leitura de mais esses dois tijolos.

Este Alguma Coisa Tem que Chover passa-se todo em Bergen, entre os 19 e 0s 32 anos de Knausgard e, por momentos, volta a ter a dinâmica do primeiro volume.

O mais curioso nestas quase 600 páginas é, sem dúvida, o modo de vida do autor, entre os 19 anos e os 28, idade com que publicou o primeiro romance. O homem vive de bolsas de estudo, estudando muito pouco, e de subsídios vários do Estado, passando os dias bêbado e sem escrever porra nenhuma. Com toda a honestidade, descreve palermices como bater punhetas com livros de arte com pinturas de mulheres nuas, noite passadas nos bares de Bergen em que bebe até ao oblívio, dias e dias em que tenta escrever e não escreve nada!

Aos 2o anos, eu era pai do meu primeiro filho e comecei a trabalhar como jornalista um ano depois; aos 27 era médico. Nessas idades, Knausgard embebedava-se e fazia coisa nenhuma. E é isso que este volume descreve – quanto mais não fosse, este 5º volume teria essa “virtude”.

Finalmente, aos 28 anos, Knausgard publica o seu primeiro romance e é um grande sucesso; no entanto, nos quatro anos seguintes, a sua vida continua na mesma: bebedeiras e aluguer de casas em zonas isoladas, para que o escritor conseguisse criar. Patético!

O “sofrimento” dos escritores está bem espelhado neste livro.

Será que Knausgard se apercebe que, deste modo, desmascara toda esta encenação do sofrimento?

“Sessenta Contos”, de Dino Buzzati (1958)

Tuesday, October 2nd, 2018

Dino Buzzatti (1906-1972), foi autor italiano cujos contos foram muito saudados, ganhando, com eles, o prémio Strega.

Os contos misturam uma espécie de realidade absurda com uma visão fantástica e muitos deles são alegorias ou parábolas que, embora datadas (a edição é de 1958), continuam a ser muito actuais (nem todas, sejamos realistas…)

Gostei particularmente dos contos Sete Andares, O Cão que Viu Deus, Não Esperavam Outra Coisa e O Burguês Enfeitiçado.

Tirando dois ou três contos mais longos, todas as restantes narrativas não ocupam mais do que duas ou três páginas.

Vale a pena ler, em pequenas doses (digamos, dois ou três contos por dia…)

“Obra Perfeitamente Incompleta”, de José Sesinando (2018)

Wednesday, September 5th, 2018

Li, com admiração, os textos de José Sesinando publicados no Jornal de Letras e sempre achei estranho que este autor não fosse mais conhecido e divulgado.

Surge agora este livro, na colecção organizada por Ricardo Araújo Pereira e fiquei a saber que José Sesinando era o pseudónimo usado por José Palla e Carmo (1923-1995), tradutor e crítico de literatura, para além de funcionário bancário.

O pseudónimo era usado para os seus textos humorísticos, cheios de trocadilhos e diversos jogos de palavras.

Este volume reúne três livros, dos quais, o primeiro, intitulado Obra Ântuma (por oposição a obra póstuma) é a mais interessante, reunindo textos em prosa que poderiam figurar, tranquilamente, no “nosso” Pão Com Manteiga.

No primeiro texto, Acerca de Música, respigo:

“Mozart foi, como toda a gente sabe, um enfant prodige. Não o foi, porém, durante toda a vida”

“Beethoven atingiu tamanha e tão súbita notoriedade com a Quinta e a Nona Sinfonia que não teve outro remédio senão compor as outras sete”.

“A ópera destina-se, evidentemente, a quem gosta pouco de música e pouco de teatro”.

E muitas mais.

Suspeito que haja muitos mais textos idênticos a este, uma vez que  Sesinando publicava todas as semanas no Jornal de Letras.

Aguardemos…

“Mulheres”, de Charles Bukowski (1978)

Monday, August 6th, 2018

Ao ler este livro de Bukowski (1920-1974) é forçoso pensar em Henry Miller (1891-1980). Os pontos de contacto são vários: ambos os autores foram carteiros, antes de começarem a viver da escrita, ambos viveram vidas atribuladas, ambos escreveram sobre sexo.

Talvez esteja a dizer algo que não corresponde à verdade, mas parece-me que Bukowski foi beber aos escritos de Miller, publicados nos anos 40 e 50 (Sexus, Nexus, Plexus, os Trópicos e, sobretudo, Opus Pistorum, o romance pornográfico que Miller escreveu a um dólar por página).

Mas Bukowski é mais duro que Miller e, sobretudo, muito mais obsceno.

Este Mulheres é só beber, vomitar e foder.

Se Bukowski ainda fosse vivo, estaria a ser linchado pelo movimento MeToo.

Neste livro, é uma mulher atrás de outra, que ele fode e deita fora, para ir foder outra, e o livro é uma sucessão de encontros e desencontros, sempre com o objectivo de foder, depois de se beber muito e de se vomitar ainda mais.

Parece escabroso – e é – mas o livro acaba por ter interesse por isso mesmo: procurar entender o vazio da vida de Henry Chinasky (alter ego do autor) que, chegado aos 50 anos, vive sozinho, embebedando-se todos os dias, ganhando a vida lendo poemas em clubes de má fama e dizendo que se tornou escritor para poder dormir até ao meio-dia. E ter sexo com muitas mulheres, claro – mulheres que querem foder com um escritor, que também bebem muito, snifam coca, fumam ganzas e têm vidas de merda.

Outro livro de Bukowski: Música para Aguardente