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“O Ruído do Tempo”, de Julian Barnes (2016)

Friday, March 31st, 2017

Muito interessante, este romance de Barnes, que nos conta a história da relação difícil entre Chostakovitch e a ditadura soviética.

Começo por dizer que Chostakovitch é um dos meus compositores preferidos. Nos anos 70 do século passado, assistimos, no velho S. Luís, à 10ª Sinfonia e emocionei-me. Estávamos lá em cima, no chamado 2º Balcão e, no último andamento, quando as percussões entram em verdadeiro delírio, o músico da tarola, a rufar a toda a brida, deixa fugir uma baqueta, que voa por cima da orquestra, mas ele continua a bater furiosamente no instrumento até ao fim!

A relação de Chostakovitch com Estaline foi muito difícil e o compositor só não terá ido parar à Sibéria porque convinha, ao poder soviético, ter um músico oficial, que personificasse as ideias marxistas-leninistas em relação à arte, nomeadamente, à música. Ainda por cima, Stravinsky tinha sido um traidor e mudara-se de armas e bagagens para o inimigo, isto é, para os States.

Apesar de todas as pressões, Chostakovitch foi resistindo, acabando por ceder muitos anos depois, filiando-se no Partido Comunista na era de Krutchev, o Labrego (como era conhecido à boca pequena…).

O livro de Barnes é muito curioso porque vai contando esta história em pequenos parágrafos, por vezes com apenas meia dúzia de linhas.

E tem tiradas muito boas.

Como esta, sobre o facto de Chosta usar a ironia nas suas composições, como maneira de ludibriar a censura.

“Num mundo ideal, um jovem não devia ser uma pessoa irónica. Nessa idade, a ironia impede o crescimento, atrofia a imaginação. É melhor começar a vida com um estado de espírito animado e sincero, acreditar nos outros, ser franco acerca de tudo e com toda a gente. E depois, quando compreendemos melhor as coisas, desenvolver o sentido da ironia. A progressão natural da vida humana é do optimismo para o pessimismo; e o sentido da ironia ajuda a moderar o pessimismo, ajuda a produzir equilíbrio, harmonia.”

Ou esta, em que Chostakovitch diz o que pensa de Picasso, que apregoava o seu comunismo, mas que nunca viveu sob o jugo soviético:

“(…)tinha Picasso por sacana e por cobarde. Como era fácil ser comunista quando não vivíamos sob o comunismo! Picasso passara a vida a pintar as suas merdas e a celebrar o poder soviético. Mas ai de qualquer artistazinho, a sofrer sob o poder soviético, que tentasse pintar como Picasso.”

Chostakovitch nunca teve a coragem de enfrentar a ditadura. Ou, afinal, ser cobarde exige maior coragem?

“Mas não era fácil ser cobarde. Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói era só preciso ser bravo por um momento – quando puxávamos da pistola, lançávamos a bomba, carregávamos no detonador, eliminávamos o tirano e a nós também. Mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar. (…) Ser cobarde exigia tenacidade, persistência, recusa em mudar – o que tornava isso, de certa maneira, numa espécie de coragem”.

Para o fim da vida, Chostakovitch está cansado e desolado.

“(…)em que ponto é que o pessimismo se torna desolação? As suas últimas músicas de câmara formulavam essa pergunta. Disse ao violista Fyodor Druzhinin que o primeiro andamento do seu Quarteto nº 15 devia ser tocado «de modo que as moscas caiam mortas no ar e a assistência comece a abandonar a sala, de puro tédio»”

The Noise of Time foi editado pela Quetzal e tem tradução de Helena Cardoso.

Gostei muito.

Outras obras de Julian Barnes: Amor & Etc; Arthur & George; O Sentido do Fim

“Quando Ela Era Boa”, de Philip Roth (1966)

Sunday, March 12th, 2017

Só no ano passado, 40 anos depois, a D. Quixote edita mais este romance de Roth, publicado em 1966.

Depois de ter lido mais de uma dúzia de obras de Philip Roth, confesso que este Whe She Was Good não me prendeu como os outros.

O livro conta a história de Lucy Nelson, do seu pai alcoólico e da sua mãe algo pateta, de como Lucy se deixa seduzir, aos 18 anos, por Roy, três anos mais velho, mas muito infantil, e traça o retrato de uma América provinciana e retrógrada; no entanto, o habitual sarcasmo de Roth está ausente, o que torna o livro um tanto incaracterístico.

Outros livros de Philip Roth: “Goodbye, Columbus“, “Némesis“, “A Humilhação“, “O Complexo de Portnoy“, “Indignação“, “O Fantasma Sai de Cena“, “O Animal Moribundo“, “Património“, “Todo-o-Mundo“, “Pastoral Americana“, “A Conspiração Contra a América“, “Casei com um Comunista“.

“Numa Casca de Noz”, de Ian McEwan (2016)

Sunday, October 30th, 2016

No ano em que celebra o 400º aniversário da morte de Shakespeare, Ian McEwan decidiu homenagear o bardo escrevendo uma pequena variação a Hamlet.

numa-casca-de-nozTrudy está grávida, fim de tempo, e planeia envenenar o marido e pai da criança, de conluio com Claude, irmão do marido.

A originalidade do Nutshell (Gradiva, tradução de Ana Falcão Bastos), é que toda a história é narrada pelo feto que, à medida que vai contando as peripécias da trama, vai fazendo comentários ao incómodo que lhe provoca as relações sexuais, sobretudo quando a sua mãe é penetrada por Claude, que é um bocado bruto e algo estúpido, contrastando com seu pai, editor, livreiro e poeta; o feto descreve-nos também as sensações que tem quando a sua mãe bebe uns copos a mais, ou quando ela está ansiosa, ou sonolenta ou excitada.

Prestes a nascer, o feto divaga, por exemplo, sobre o facto de nascer no Reino Unido:

“Vou herdar uma situação de modernidade (higiene, férias, anestésicos, candeeiros de leitura, laranjas no Inverno) e habitar um canto privilegiado do planeta – a Europa Ocidental bem alimentada e livre de pestes. A velha Europa, esclerótica, relativamente generosa, atormentada pelos seus fantasmas, vulnerável aos opressores, insegura, destino de eleição de milhões de infelizes. A minha vizinhança imediata não vai ser a próspera Noruega – a minha primeira opção devido ao seu gigantesco fundo soberano e às suas generosas prestações sociais; nem a segunda, a Itália, devido à cozinha regional e ao declínio abençoado pelo sol; nem sequer a terceira, a França, pelo seu pinot noir e auto-estima confiante. Em vez disso, vou herdar um reino não tão unido quanto isso, governado por uma estimada rainha idosa, onde um príncipe-empresário, famoso pelas suas boas obras, pelos elixires que usa (essência de couve-flor para purificar o sangue) e pela sua ingerência inconstitucional, aguarda com impaciência a coroa. Será essa a minha pátria, e terá de servir. Podia ter visto a luz do dia na Coreia do Norte, onde a sucessão é igualmente incontestada, mas onde há escassez de liberdade e de alimentos”.

São tiradas destas, da autoria de um feto em fim de tempo, que tornam o livro diferente, já que a história em si, não tem nada de especial.

Curioso.

Outras obras deste autor: A Balada de Adam HenryMel, Na Praia de Chesil, Cães Pretos, Entre Lençóis, Jardim de Cimento, Solar.

“História Secreta”, de Donna Tartt (1992)

Saturday, October 8th, 2016

De Donna Tartt já tinha lido o aclamado O Pintassilgo, editado há três anos.

historia-secretaEste História Secreta foi o primeiro romance que Tartt publicou e trata-se de uma história estranha, sobretudo devido aos personagens.

A história, que se pretende secreta, é narrada por Richard, um estudante de ascendência modesta, que consegue uma bolsa para estudar na Universidade de Hampden. Aí, conhece e junta-se a um grupo de estudantes provenientes de famílias abastadas que estudam sob a influência de um carismático professor de Estudos Clássicos.

Esse grupo de alunos é tudo menos banal: são quatro rapazes e uma rapariga que vivem num mundo à parte, quase num universo paralelo, muito influenciados pela cultura grega e pelos princípios de honra, obediência, compaixão, lealdade e sacrifício.

Para além das aulas muito pouco ortodoxas com o tal professor, o grupo apenas se interessa por outra coisa: álcool. Penso que os protagonistas passam mais metade do livro bêbados ou a caminho. Também fumam muito e, uma vez por outra, tomam drogas.

Embora nunca seja referido em que época se passa esta história, percebe-se que será mais ou menos nos anos 90 do século passado; no entanto, embora se fale uma ou duas vezes em computadores portáteis, os estudantes fazem os seus trabalhos em máquinas de escrever.

As experiências mais ou menos esotéricas que o grupo leva a cabo, no sentido de se aproximarem o mais possível do hábitos da cultura helénica, acabam por levar a uma morte acidental, facto que altera completamente a vida destes jovens.

Um romance estranho, que nos capta a atenção, mesmo quando, aparentemente, não se passa nada.

“Em Busca do Carneiro Selvagem”, de Haruki Murakami (1982)

Tuesday, July 26th, 2016

transferirDefinitivamente, este aclamado escritor japonês não me consegue encher as medidas, para usar uma frase feita, como ele gosta tanto de usar.

Já tinha lido Kafka à Beira-Mar e tinha ficado decepcionado, pelo que deixei esta história do carneiro para mais tarde. Agora, achei que talvez já estivesse preparado para mais um livro de Murakami, mas confesso que me custou ir até ao fim!

A história do carneiro é uma patetice pegada, na minha modesta opinião e dizer, como dizem algumas críticas, que Murakami mistura realidade com fantasia e que a narrativa tem um toque de romance policial, vou ali e já venho (mais outra frase feita…)

E esta adoração por frases feitas não pode ser só defeito da tradução. Em meia dúzia de páginas encontramos as seguintes: não podia com uma gata pelo rabo, por que carga de água, a dar para o torto, pormenores de lana-caprina, a ponta de um corno, enquanto o diabo esfrega um olho, etc, etc.

No que respeita à história propriamente dita, só vos digo que é tão entediante que nem me apetece resumi-la.

Arruma-se o Murakami definitivamente na prateleira e não se fala mais no assunto.

A Amiga Genial, 3º e 4º volumes (2013/14), de Elena Ferrante

Sunday, June 12th, 2016

Continuamos sem saber quem é Elena Ferrante: será uma mulher ou um homem, jovem ou madura?

historia de quem vaiO segredo continua a ser a alma do negócio e, em boa parte, o êxito dos livros de Ferrante também têm a ver com isso. De tal modo assim é que, este ano, Elena Ferrante até já foi finalista do Booker Prize.

E justifica-se tanto alarido em volta desta escritora (vamos partir do princípio que é uma mulher).

Em parte, sim.

Crónicas do Mal de Amor, de 2012, que reunia três novelas, já revelavam uma autora inovadora, diferente. Classificaram-na de feminista, mas penso que apenas pelo facto de as protagonistas das suas histórias serem mulheres. A principal “inovação” das suas histórias era serem “reais”, credíveis, contemporâneas.

historia da menina perdidaMas a piéce de resistance é esta tetralogia, A Amiga Genial, cujos dois primeiros volumes me entusiasmaram muito mais que os dois seguintes (ver A Amiga Genial e História do Novo Nome).

Ao longo destes quatro volumes, Ferrante conta-nos a história de Elena Greco (ela própria?) que, nascida num bairro social de Nápoles, consegue subir na escala social e transformar-se numa escritora de sucesso e de Lila, a sua amiga de infância, que se manteve toda a vida no bairro mas que Elena sempre julgou ser a mais inteligente, a mais dotada, a amiga genial, que poderia ter sido tudo na vida, mas que acabou por não ser nada, sobretudo depois de lhe ter desaparecido a filha (núcleo da história do 3ºvolume).

O que mais surpreende nestes quatro calhamaços é a descrição do dia a dia, do vulgar quotidiano da vida das pessoas, destas pessoas e as grandes questões filosóficas são as da vida dessas mesmas pessoas. Por essa razão, há quem compare Elena Ferrante ao escritor norueguês Knausgard, embora eu ache que este é muito mais obsessivo com os pormenores do quotidiano que Ferrante.

Em resumo: deu-me muito prazer ler esta tetralogia de Elena Ferrante, seja lá quem ela for, mas penso que a coisa podia ter sido resumida, que há muitas páginas empasteladas e que, por vezes, a narrativa roça um pouco a telenovela, com as devidas e enormes diferenças, sobretudo tudo o que respeita à vida amorosa de Elena.

Recomendo vivamente.

“Lição de Anatomia”, de Philip Roth (1983)

Thursday, June 9th, 2016

The Anatony Lesson é o terceiro dos quatro livros que Roth escreveu tendo Nathan Zuckerman como principal personagem.

licao de anatomiaZuckerman é um escritor judeu que alcançou a notoriedade e a fortuna com um livro (Carnovsky), no qual zurze a comunidade judaica, sobretudo pela sua hipocrisia no que respeita ao sexo.

No fundo, Zuckerman é Roth e Carnovsky é O Complexo de Portnoy. Só que Zuckerman é ainda mais excessivo e agresivo que Roth. Está com 40 anos, teve dois casamentos falhados, tem várias namoradas mas uma dor cervical, com irradiação para os ombros, impede-o de escrever.

A dor crónica está a dar cabo da vida de Zuckerman; até para ter relações, o pobre do homem tem que ficar deitado no chão, com a cabeça apoiada num livro, enquanto a namorada faz todo o trabalho.

Cito a página 18: “O coito, o felatio, e o cunilingus eram práticas que Zuckerman aguentava mais ou menos sem dor, desde que estivesse de barriga para cima e com a cabeça apoiada no dicionário de sinónimos.”

A páginas tantas, Zuckerman – que já consultou todos os médicos e similares e que já está dependente de analgésicos opióides, álcool e marijuana – decide que quer tirar o curso de medicina. No fundo, pensa que só assim conseguirá resolver a sua dor, mas também porque chega à conclusão que a profissão médica tem muito mais significado do que a de escritor.

Cito a página 100: “(Os médicos) têm cinquenta conversas sérias por dia com pessoas carentes. De manhã à noite, são bombardeadas por histórias, e nenhuma é inventada por eles. Histórias à espera de uma conclusão fiável, definitiva e útil. Histórias com um propósito claro e prático: cure-me. Ouvem com atenção todos os pormenores e depois entram em acção.”

Iconoclasta como sempre Roth, através de Zuckerman, zurze nas religiões. Zuckerman, depois de ter consultado diversos médicos, sem resultado, estava quase a virar-se para a religião, em busca de um milagre.

Cito a página 130: “a astrologia está mesmo aí ao virar da esquina. Pior ainda, o cristianismo. Rende-te à sede da magia médica e serás levado ao limite extremo da loucura humana, à mais absurda de todas as quimeras concebidas pela humanidade em sofrimento – aos Evangelhos, à almofada do nosso mais destacado dolorologista, o curandeiro vudu, Dr. Jesus Cristo.”

Para terminar, um das muitas citações possíveis, em que Zuckerman começa a falar e nunca mais se cala, num discurso torrencial que me fez lembrar algumas tiradas de Henry Miller que, aliás, é citado no livro.

Cito a página 173: “Se há coisa que não suporto é a hipocrisia. A dissimulação. A negação das nossas piças. A disparidade da vida tal como a vivi na rua, que era cheia de sexo e punhetas e sempre a pensar em cona, e as pessoas que dizem que não deve ser assim. Como conseguir o que queríamos – essa era a questão. Essa era a única questão. Essa era a maior questão que existia. Continua a ser. É assustadora por ser tão grande – e no entanto quem disser isso é um monstro.”

Não é dos melhores livros de Roth, mas vale a pena ler, sobretudo para quem, como eu, gosto muito deste escritor norte-americano, nascido em 1933 em Newark e que, infelizmente, já anunciou publicamente que fechou a loja e não vai publicar mais nada.

Outros livros de Philip Roth: “Goodbye, Columbus“, “Némesis“, “A Humilhação“, “O Complexo de Portnoy“, “Indignação“, “O Fantasma Sai de Cena“, “O Animal Moribundo“, “Património“, “Todo-o-Mundo“, “Pastoral Americana“, “A Conspiração Contra a América“, “Casei com um Comunista“.

“Crónicas do Mal de Amor”, de Elena Ferrante (2012)

Saturday, February 27th, 2016

Depois de ler A Amiga Genial, fiquei fã da escrita desta misteriosa autora italiana e procurei, em vão, esta colectânea das suas primeiras três novelas.

cronicas do mal de amorEncontrei o livro já no final do ano passado e li-o em paralelo com o terceiro volume daquela saga napolitana das duas amigas (o segundo volume, História do Novo Nome, também já está na prateleira dos lidos).

Pelos vistos, Elena Ferrante está na moda e até merece textos na revista The New Yorker. Este Crónicas do Mal de Amor junta as três primeiras novelas da escritora: Um estranho Amor (1999), Os Dias de Abandono (2002)  e A Filha Obscura (2006).

Na primeira novela, uma filha vai ao funeral da mãe que se suicidou e descobre que, nos últimos tempos, ela terá tido um romance serôdio com um antigo namorado não correspondido. Na segunda, um mulher abandonada pelo marido, que se apaixonou por uma jovem, desespera-se, sozinha com os dois filhos e com um cão. Na terceira novela, uma professora divorciada a passar férias sozinha, rouba uma boneca a uma criança, na praia, sem saber muito bem porquê.

Estas três situações servem para as protagonistas recordarem momentos da sua infância, sempre passadas em Nápoles; são mulheres azedas, cujas vidas foram amargas e todas elas têm razão de queixa das suas mães e da sua infância.

A linguagem de Ferrante é crua, por vezes mesmo explícita, não se coibindo de uns palavrões sempre que são necessários. É uma escrita escorreita, sem rodriguinhos, mas que torna as personagens reais e credíveis.

Aconselho vivamente.

 

“História do Novo Nome”, de Elena Ferrante (2012)

Tuesday, December 8th, 2015

Este é o segundo volume da tetralogia L’Amica Geniale, da italiana Elena Ferrante.

história do novo nomeContinua a história de Elena e da sua amiga Lila, duas habitantes de um bairro pobre de Nápoles, cujas vidas, embora sempre ligadas, vão ter percursos muitos díspares.

O primeiro volume (A Amiga Genial), terminava com o casamento de Lila, aos 16 anos, com o dono da charcutaria, enquanto Elena não sabia ainda se haveria, ou não, de continuar os estudos.

Neste segundo volume, enquanto Lila vai caindo em diversos abismos, mantendo sempre a sua altivez, Elena, mais mansa, continua a estudar e, brilhante e disciplinada como é, acaba a licenciatura e até publica um livro.

Embora cada vez mais distantes, as duas amigas continuam unidas.

Ao contrário do que é habitual, não destaco nenhuma passagem do livro, porque todo ele é um conjunto perfeito. Para além da história ser boa, a autora, cujo verdadeiro nome continua uma incógnita, tem uma escrita envolvente.

Na estante, já tenho o terceiro volume, mas vou resistir-lhe e pegar no terceiro calhamaço do Knausgard.

“HHhH – Operação Antropóide”, de Laurent Binet (2009)

Sunday, October 25th, 2015

HHhHVencedor do Prémio Goncourt para primeira obra, este romance de estreia de Laurent Binet é, de facto, inovador.

Inovador no modo como Binet nos conta a história, lutando constantemente contra a tentação de romanceá-la.

A chamada Operação Antropóide consistiu no plano para assassinar Reinhardt Heydrich, o chefe dos Serviços Secretos nazis, da Gestapo, o inventor da “solução final” para extermínio dos judeus.

Heydrich era conhecido como o “Himmlers Hirn heibst Heydrich” (o braço direito de Himmler – daí o título do livro).

Depois de muito planearem, dois pára-quedistas, um checo e outro eslovaco, conseguem matar o “carrasco de Praga” mas, depois de muitas mortes de inocentes, acabam também por ser apanhados e suicidam-se, juntamente com outros companheiros da resistência checa, depois de oito horas de cerco.

Claro que isto dava para escrever um daqueles romances de 600 páginas sobre a 2ª Guerra Mundial, mas Binet tenta descrever os factos de uma maneira quase jornalística e, quando a escrita lhe foge para o romance, autocritica-se imediatamente.

A 2ª Guerra Mundial é uma fonte inesgotável de histórias e não é fácil escrever mais um livro sobre esse tema, e escrevê-lo de forma diferente.

Gostei.