Posts Tagged ‘romances’

“Veracruz”, de Olivier Rolin (2016)

Friday, April 27th, 2018

Olivier Rolin (França, 1947) é conhecido sobretudo pelo seu romance Tigre de Papel, finalista do Prémio Goncourt de 2003, sendo aind autor de outros romances, como O Meteorologista, Um Caçador de Leões, etc.

Este Veracruz é uma pequena novela, diria quase um conto, que, como diz Le Magazine Littéraire, citada na capa, mistura “amor, morte, ilusões e contrabando” – e uma linguagem pesada, acrescentaria eu…

A história desenrola-se na cidade mexicana de Veracruz, onde um catedrático francês, já entrado na idade, vai dar um ciclo de conferências sobre Proust.

No intervalo das conferências, estando a relaxar no bar El Ideal, conhece Dariana, uma jovem mexicana com quem iria ter um caso de paixão avassaladora, descrito de uma forma muito romântica e, passo a redundância, muito apaixonada.

Depois de alguns dias e noites fogosas (o próprio professor se espanta com o seu renascido vigor sexual), Dariana desaparece sem deixar rasto. O professor procura-a sem sucesso e entrega-se ao álcool, até que um dia, recebe no quarto do seu hotel, um envelope com quatro textos – todos eles sobre uma jovem, Susana, objecto do desejo de vários homens.

O primeiro texto é do padre Inácio, banido da igreja por se deitar com prostitutas e que está loucamente apaixonado por Susana; o segundo texto é do contrabandista Miller, actual companheiro de Susana e que fala dela como uma escrava sexual, a quem agride e humilha; o terceiro é do pai de Susana, que confessa ter morto a mãe para ficar sozinho com a filha e poder abusar dela, como o caçador abusa da presa, até que Miller chegou e a festança acabou; e o último texto é da própria Susana, texto esse que liga as pontas deixadas pelos outros três.

Como já disse, a linguagem usada por Rolin é forte, agressiva, como comprova este pequeno excerto do texto de Susana:

“Estou a ver-te, o duplo impacto empurra-te, esmaga-te, dobra-te no fundo da poltrona, levas as mãos à barriga, queres berrar mas um rio de sangue já te afoga a garganta, cospes bolhas, Miller. Fala mais alto, não te percebo, Miller: queres um broche, é isso? Vais agarrar-me pelo cabelo, deitar-me de joelhos, baixar as tuas calças, empurrar a minha cara contra o teu sexo, obrigar-me a chupar-te, como de costume?Oh! No teu estado, achas mesmo? Pareces estar a sangrar um bocadinho. Estás com o período, Miller?”

A edição portuguesa é da Sextante, com tradução de Joana Cabral e o livro lê-se de uma penada e vale a pena.

 

“A Porta”, de Magda Szabó

Wednesday, April 18th, 2018

Magda Szabó nasceu em 1917, em território húngaro do Império Austro-Húngaro, e morreu em 2007, três anos depois da Hungria ter aderido à União Europeia.A sua longa vida permitiu-lhe ter passado por duas guerras mundiais e por diversas mudanças de regime político. Durante o poder comunista, teve problemas, como muitos outros escritores, tendo estado dez anos impedida de publicar, uma vez que não se conformava com o chamado realismo socialista.

Viveu o suficiente para ainda ver a Hungria transformar-se numa democracia – ironicamente, com ultra-direitista, nacionalista e xenófoba.

Este livro, A Porta, editado em 1987, relata a relação tumultuosa entre a escritora e a sua empregada, Emerence, uma velha senhora de difícil trato, orgulhosa e avessa a grandes amizades.

A narradora, que penso ser a própria Szabó, desenvolve uma relação ambivalente com a sua empregada, que é também uma espécie de porteira do prédio onde ambas vivem. Uma das críticas citadas na contracapa do livro, da London Review of Books, diz “Um dos triunfos alcançados por Szabó foi ter escrito uma obra profundamente política, enraizada na vida doméstica”,

Sinceramente, não entendi a história dessa maneira. A narradora é uma intelectual, católica, que passa o dia a escrever e Emerence é uma mulher-a-dias, que despreza a religião e a educação, que trata mal toda a gente e que acaba por ter um acidente vascular cerebral e morrer, sendo que a escritora se sente culpada pela sua morte .

Tive dificuldade em perceber alguma segunda leitura do texto – até porque me pareceu confuso em algumas passagens,

Por exemplo, na página 220:

“Penso, vezes sem conta, que, no fundo, tudo se desenrolou de uma forma muito simples. Emerence já não fazia pesar os seus problemas insolúveis sobre os raros parentes e o círculo mais ou menos definido das suas relações, tudo ela resolvera pessoalmente, num gesto autoritário, à maneira de um grande chefe guerreiro. Quando não se tem mais nada a fazer por si mesmo, porque já não se pode, convém, então, pôr um ponto final na coisa, pois, quando a humanidade caminhar há muito à escala das estrelas, os que estiverem vivos estarão longe de imaginar que, por uma chávena de cacau, nos entregámos a tristes combates, sós ou contra outros, mas, mesmo nessa altura, nunca se poderá corrigir o destino de quem não tem lugar na vida de ninguém”.

Não percebi!… Parece que falta aqui qualquer coisa.

E passagens destas são frequentes, o que tornou a leitura deste livro um pouco penosa.

“A Gorda”, de Isabela Figueiredo (2016)

Monday, March 19th, 2018

Confesso que há muito tempo que não lia um livro de um autor português e confesso que fiquei muito surpreendido com este romance de Isabela Figueiredo, uma jornalista e professora de português, nascida em Moçambique e que veio para Portugal em 1975.

A gorda do romance, é também professora, filha de colonos portugueses, retornados a Portugal após o 25 de Abril e grande parte da acção decorre em Almada, Costa da Caparica, Cova da Piedade – e talvez, também por isso, identifiquei-me muito com esta história.

Maria Luísa é a protagonista e é uma lutadora: luta contra uma mãe castradora e um pai problemático, luta contra o seu corpo, cada vez mais pesado e disforme, luta contra uma paixão, que a consome e que não consegue ultrapassar.

A certa altura, Maria Luísa decide fazer psicanálise:

“A triagem remeteu-me para a psicanalista do Campo de Santana, na qual passaria os cinco anos seguintes a matar o papá. Recebeu-me num final de tarde em que combinámos as condições da terapia. Sugeriu, à chegada, que me sentasse num cadeirão à sua frente, mas respondi que o meu corpo não cabia no espaço formado pelo assento, e que, se tal viesse acontecer, nesse dia estaria curada.”

A relação entre Maria Luísa e a mãe é de conflito permanente:

“Digo, «estou muito constipada. Mal consigo abrir os olhos hoje, mãe, dói-me a cabeça e o corpo…». Logo me responde, «ora deixa-me cá. Estive para nem me levantar. É que nem consiguia vestir. Se tivesses as dores que tenho nos braços e na coluna, até chegar à cabeça… parecem facas a espetar-se. Já tomei dois Voltaren, mas faz-me um mal ao estômago! Tens de me trazer mais Omeprazol. O fígado também não anda grande coisa; sinto umas picadas. Depois é o intestino, tu já sabes, sempre o mesmo problema. Tens que ir à farmácia que me indicou a dona Luciana e perguntar se têm um medicamento novo cujo nome me há de mandar. É que não há nada, nada que me esvazie os intestinos, até tenho a barriga dura, carrega aqui! E com tudo isto não dormi nada!»”

Aconselho vivamente.

“Jesus na Escola”, de J. M. Coetzee (2016)

Monday, February 26th, 2018

Três anos depois de A Infância de Jesus (2013), J. M. Coetze publicou este Jesus na Escola, uma sequela que me decepcionou.

Se, no primeiro livro, a estranheza das situações criavam uma certa aura de mistério que permitiam diversas interpretações, neste segundo livro, o absurdo de alguns acontecimentos são apenas isso mesmo – absurdos.

Ao colocar Jesus nos títulos dos livros, quando nenhum dos personagens se chama Jesus, Coetzee deve ter tido alguma intenção: transformar tudo isto numa parábola? Não me parece… e daí…

Nesta sequela, Simon, Inês e David – o pai que não é pai, a mãe que não é mãe, e o filho que não é filho – fogem de Novilla e vão para Estrella (outra escolha que não parece ser ao acaso: todas as restantes personagens têm nomes castelhanos, excepto o assassino).

Como David não está recenseado, não pode ir para uma escola pública. Por esse motivo, Simon e Inês inscrevem-no na Academia de Dança, dirigida por um idoso Siñor Arroyo e pela sua jovem esposa, Maria Magdalena. Nessa Academia, David vai aprender a dançar os números, seja lá o que isso for…

Coisas estranhas se passam nessa Academia de Dança, onde um empregado chamado Dmitri está apaixonado pela patroa; por vezes, professores e alunos fazem excursões até à praia, onde se passeiam todos nus…

Às tantas, Dmitri viola e estrangula a Maria Magdalena e é sentenciado a ser internado no Hospital Psiquiátrico (a outra opção era as minas de sal).

Em resumo, parece que J. M. Coetzee se deixou levar pelo encantamento deste “novo mundo” que inventou e, na minha opinião, estragou tudo…

Outros livros de J. M. Coetze: No Coração desta Terra (1976); O Homem Lento (2005); Diário de Uma Ano Mau (2007); A Vida e o Tempo de Michael K. (1983)

“Swing Time”, de Zadie Smith (2016)

Tuesday, February 13th, 2018

Zadie Smith nasceu em Londres em 1975, filha de mãe jamaicana e pai inglês, tal como a narradora deste romance. Em criança, gostava de sapateado e, quando adolescente, considerou a hipótese de uma carreira como actriz de musicais, tal como Tracey, a amiga da narradora de Swing Time.

As duas amigas cresceram num bairro social dos subúrbios de Londres e as descrições que Zadie Smith faz desses ambientes remeteu-me para o Bairro do Pica-Pau Amarelo, perto do qual trabalho há décadas.

A mãe da narradora é uma activista, que estuda e luta pelos direitos das minorias.

Diz a protagonistas, sobre a mãe:

“Nunca se submetia, por exemplo, ao culto da «impecabilidade» reinante no bairro – a paixão dos fatos de treino reluzentes, das coruscantes jóias falsas, dos dias inteiros passados no cabeleireiro, dos filhos com ténis de cinquenta libras, dos sofás pagos a prestações ao longo de vários anos – se bem que também não condenasse completamente nenhuma destas coisas. As pessoas não são pobres por terem tomado opções erradas, gostava de dizer a minha mãe, tomam opções erradas porque são pobres”.

Esta última frase aplica-se a muitos dos meus doentes, habitantes dos bairros sociais do Monte de Caparica…

As duas amigas querem ser bailarinas e adoram os musicais de Hollywood, sobretudo os de Fred Astaire, mas também admiram Michael Jackson. Frequentam aulas de dançam e treinam todas as tardes.

Quando chega a adolescência e os seus conflitos, começam a afastar-se.

A narradora diz:

“Eu, pelo contrário, tinha sido completamente apanhada desprevenida pela adolescência, continuando a trautear canções de Gershwin no fundo da sala de aula enquanto, à minha volta, os círculos de amizade começavam a formar-se e a consolidar-se, definidos pela cor, classe, dinheiro, código postal, nacionalidade, música, droga, política, desporto, aspiração, língua, sexualidade… um dia dei a volta naquele enorme jogo de cadeiras musicais e verifiquei que não havia lugar para mim. Sem saber o que fazer, fiz-me gótica.”

Separadas pela vida, a narradora torna-se assistente pessoal de uma artista pop norte-americana, com ascendência africana que tem muitos pontos comuns com algumas reais bem conhecidas: filhos de pais diferentes criados por amas, fundação de escolas para crianças das aldeias africanas… – enquanto Tracey, a amiga de infância, consegue ser bailarina em alguns shows musicais mas acaba de volta ao bairro social, com três filhos, um de cada pai.

Tal como aconteceu com o novo romance de Arundathi Roy, também esta nova história de Zadie Smith me desiludiu um pouco. Penso que quis abarcar coisas demais na mesma história e que acabou por ter material a mais…

Chegamos ao fim da história sem algo de palpável. Vale a pena lutar para sair do círculo vicioso do bairro social e do estigma de ser diferente, não vale a pena fazer nada porque tudo acaba com a morte (a mãe da narradora morre com cancro da mama), mesmo os que saltam de estrato social não conseguem ajudar os seus congéneres porque confundem desenvolvimento com caridade?…

Muitas questões que Zadie Smith expõe mas não desenvolve e o livro acaba por ser “apenas” mais uma história…

“O Ministério da Felicidade Suprema”, de Arundhati Roy (2017)

Friday, December 1st, 2017

Vinte anos depois de O Deus das Pequenas Coisas, esta escritora indiana publica o seu segundo romance, recebido com aplauso generalizado.

Não posso dizer que não me agradou, mas confesso que estava à espera de algo diferente.

A primeira parte do romance, aquela que se centra sobre a personagem de Anjum, um(a) hijra, um homem que se sente mulher e se comporta como tal, é avassaladora. Alguém diz que faz lembrar os Cem Anos de Solidão. Não há dúvida que é uma escrita torrencial, com descrições arrepiantes da Índia. Estive em Nova Delhi e Agra durante dois dias, há quase 15 anos mas, pelas descrições de Roy, as coisas parece que continuam na mesma.

Depois, o romance centra-se muito nos problemas de Caxemira e na sua luta pela independência, pelos ódios entre muçulmanos e hindus, e penso que perde gás.

Roy traça um retrato nada simpático da Índia, dos seus ódios internos, do sistema de castas, da degradação, da porcaria.

Nas páginas 113 e 114, da corrupção:

“O verão da ressurreição da cidade, tinha sido também o verão das fraudes – fraudes do carvão, fraudes do ferro, fraudes de habitação, fraudes de seguro, fraudes postais, fraudes de licenças telefónicas, fraudes imobiliárias, fraudes das barragens, fraudes de irrigação, fraudes de armas e munições, fraudes de bombas de gasolina, fraudes de vacinas contra a poliomielite, fraudes das contas da electricidade, fraudes dos manuais escolares, fraudes dos profetas, fraudes de auxílio à seca, fraudes de matrículas de automóveis, fraudes de listas de eleitores, fraudes de cartões de identificação – nas quais políticos, homens de negócios, homens de negócios-políticos e políticos-homens de negócios tinham arrebatado quantias inimagináveis de dinheiros públicos”.

A Índia é um subcontinente e a bagunça de etnias, castas, interesses políticos e económicos, é de tal ordem, que admira que, sendo também uma potência nuclear, ainda não se tenha desencadeado nenhum conflito à escala universal.

Sobre Caxemira, escreve Roy:

“Que nenhum de nós, os que lutavam por ela (Caxemira) – caxemirenses, indianos, paquistaneses, chineses (também têm um pedaço dela: Aksai Chin, que fazia parte do velho reino de Jammu e Caxemira), ou, na verdade, panhadis, gujjars, dogras, pastós, shins, ladakhis, baltis, gilgitis, purikis, wakhis, yashkuns, tibetanos, mongóis, tártaros, mon. kowars – nenhum de nós, santo ou soldado, tinha o direito de reclamar para si a beleza verdadeiramente celestial daquele lugar”.

Na minha curta visita a Nova Delhi, numa alucinante viagem de autocarro até Agra, vi centenas de pessoas vivendo nas bermas da estrada, lavando-se, defecando, comendo, com barracas feitas de plásticos e estacas. Pelos vistos, tudo continua na mesma.

Página 273:

“A alguns quilómetros do sítio onde estava deitada, sem conseguir dormir, três homens tinham morrido esmagados na noite anterior, depois de um camião se ter despistado na estrada. Talvez o condutor tivesse adormecido. Na televisão diziam que os sem-abrigo, no verão, estavam agora a dormir à beira de estradas com muito trânsito. Tinham descoberto que os vapores dos escapes dos camiões e autocarros que passavam eram um repelente de mosquitos eficaz e os protegiam do surto de dengue que já matara várias centenas de pessoas na cidade.”

É esta a ideia com que fiquei da Índia, se é que se pode ficar com uma ideia de uma nação tão imensa como a Índia em apenas dois dias.

Em resumo, Arundhati Roy escreveu outro grande romance, mas não me tocou muito.

 

“Purity”, de Jonathan Franzen (2015)

Friday, October 13th, 2017

Acabei, finalmente, a leitura deste Purity, o segundo romance que leio de Jonathan Franzen.

E digo finalmente porque foi um pouco difícil ir seguindo esta história complexa, ao longo de quase 700 páginas.

Já tinha lido Liberdade, outro tijolo de Franzen, e este Purity é, também, uma história que se desenrola ao longo de décadas.

Os cenários são vários: Berlim, no tempo da República Democrática da Alemanha, os Estados Unidos e a selva da Bolívia.

A personagem central é Purity Tyler, uma jovem que vive numa espécie de comunidade de ocupas e que não sabe quem é o seu pai. A sua mãe, Anabel, é herdeira de uma fortuna de milhões, mas vive isolada e trabalha como empregada de mesa.

Há também Andreas Wolf, um alemão da RDA, que comete um assassínio e nunca é apanhado e, mais tarde, funda uma organização do tipo Wikileaks (aliás, esta personagem cheira a Assange que se farta).

E, claro, o pai de Purity, jornalista independente, que também não sabe que tem uma filha e que é o elo de ligação entre esta malta toda, uma vez que conheceu Andreas pouco depois da queda do muro de Berlim.

A história é boa mas dá tantas voltas que me custou acabar a coisa.

“A Vegetariana”, de Han Kang

Saturday, August 19th, 2017

O título deste pequeno livro da coreana Han Kang é enganador.

Claro que tudo começa porque Yeong-hye decide tornar-se vegetariana, depois de um sonho assustador, que mete carne estralhaçada e sangue, mas isto é apenas um pormenor.

A Vegetariana é um romance duro e violento sobre a solidão e as relações estranhas entre familiares quando algo foge à chamada normalidade.

Han Kang é uma sul-coreana nascida em 1970 e que, com este romance, ganhou o Man Booker Internation Prize do ano passado (curioso, uma mulher ganhar o Man Book Prize…).

O facto da autora ser coreana não é alheio a uma certa estranheza no tema da história, acho eu…

O livro, de apenas 190 páginas, contrariando os espessos tijolos que estão agora “na moda”, está dividido em três partes.

Na primeira parte, ficamos a saber quem é Yeong-hye, uma mulher jovem, casada com o Sr. Cheong, muito formal, e que, de repente, tem um sonho aterrador e decide tornar-se vegetariana. Este facto deixa o marido e toda a família dela estupefactos e, num almoço em que todos se reúnem, o pai de Yeong-hye tenta obrigá-la, à força, a comer carne. Ela corta os pulsos e é internada num hospital psiquiátrico.

Na segunda parte, o cunhado de Yeong-hye, que foi quem a impediu de sangrar até à morte e a levou ao hospital, está obcecado por ela e por uma pequena mancha mongólica que ela tem junto às nádegas. Depois de ela ter alta do hospital psiquiátrico, procura-a. Ele faz vídeo-arte e convence-a a deixar-se pintar. Pinta-lhe todo o corpo com flores (ela fica ainda mais vegetariana). Ele pinta-se também. Acabam na cama, depois de algumas páginas de intenso erotismo.

Na terceira parte, a irmã de Yeong-hye, In-hye, depois de os ter encontrado na cama, expulsa o marido da sua vida e interna a irmã, novamente, num hospital psiquiátrico. Foi sempre ela que assumiu todos os problemas da família. Tem um filho pequeno. Conhecemos um pouco da infância das duas irmãs, como ela sempre cuidou de Yegon-hye e sempre a defendeu do pai. Mas Yegon-hye está cada vez mais “vegetariana”. Deixa de comer. Passa horas a fazer o pino, para que as mãos sejam as raízes, quer transformar-se em árvore.

O resto fica por vossa conta.

Uma coisa é certa: Han Kang conseguiu que eu imaginasse estes três personagens, que criasse, na minha cabeça, uma figura humana para cada um deles, coisa que, por exemplo, Paul Auster não conseguiu com as suas quatro versões de Archie Ferguson, no calhamaço “4 3 2 1”.

Recomendo.

“4 3 2 1”, de Paul Auster (2017)

Tuesday, August 8th, 2017

Acabei, finalmente, a leitura do último livro de Paul Auster, um calhamaço de 870 páginas, candidato ao Booker Prize deste ano.

Gosto de Auster e penso que já li todos os seus livros. Gostei, sobretudo da Trilogia de Nova Iorque, mas há muitos outros títulos que merecem destaque (ver no fim deste texto).

Paul Auster sempre gostou de destacar a influência do acaso na vida das pessoas; como a nossa vida pode mudar devido a um episódio fortuito que muda completamente o rumo dos acontecimentos. Neste calhamaço, o escritor decidiu desenvolver esta sua obsessão.

Que pena não podermos viver mais do que uma vida! De facto, uma única vida parece pouco para realizarmos tudo o que sonhamos!

O herói deste romance é um judeu chamado Archie Ferguson. Paul Auster deu-lhe quatro vidas diferentes. Numa delas, o pai de Ferguson é dono de uma loja de electrodomésticos e morre dentro dessa loja, durante um incêndio; noutra, o pai é um excelente homem de negócios e vai abrindo sucursais e acaba por se tornar um tycoon do ramo; numa outra das vidas possíveis, o pai de Ferguson mantém-se um simples e honesto comerciante.

Um dos Ferguson morre, vítima de um raio, durante uma tempestade, quando ainda é adolescente; outro, morre atropelado em Londres, ao atravessar uma rua, depois de olhar para o lado errado; o terceiro Ferguson morre num incêndio. Daí o título: o livro começa com 4 vidas que acabam por ser uma única.

Todos nós passámos por isto: e se eu tivesse feito isto, em vez daquilo, se tivesse aceite esta proposta e não aquela, se tivesse ido por ali, em vez de ter ido por aqui? Como seria a minha vida se?…

Ao contar as histórias destes quatro Ferguson, Auster aproveita para contar, também, um pouco da História dos Estados Unidos, com especial incidência nos anos 60 do século passado; Ferguson nasce em 1947 e, nos anos 60, está em plena adolescência e, conforme a versão da sua vida, está mais ou menos envolvido nas actividades políticas, nas manifestações estudantis, na luta contra a guerra do Vietname.

É, sem dúvida, uma obra de fôlego, até pela dimensão, e uma ideia muito bem esgalhada; no entanto, penso que não seria preciso escrever tantas páginas. Auster, por vezes, perde-se nos pormenores dos primos e primas do herói, das minudências do dia-a-dia, sendo demasiado exaustivo nas descrições, o que torna a leitura um pouco fastidiosa. Quantidade não é obrigatoriamente qualidade e, embora, hoje em dia, me pareça que os escritores se sentem obrigados a escrever verdadeiros tijolos, um pouco mais de comedimento não fazia mal nenhum.

Vale a pena ler, mas é preciso um bom bícepete para segurar o calhamaço…

Outras obras de Paul Auster: Timbuktu; Experiências com a Verdade; O Livro das Ilusões; As Loucuras de Brooklyn; Viagens no Scriptorium; Mr. Vertigo; Homem na Escuridão; Invisível; Sunset Park; Palácio da Lua; Relatório do Interior; Diário de Inverno

Os 50 anos dos Cem Anos de Solidão

Wednesday, June 7th, 2017

No passado dia 5 deste mês, fez 50 anos que foi publicado o livro mais famoso de Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão.

Quatro dias antes, tinham passado 50 anos sobre o lançamento do Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Estes dois aniversários estão ligados na medida em que Garcia Marquez, durante os quatro meses que esteve fechado em casa a escrever o romance, tinha sempre música a tocar, nomeadamente, dos Beatles.

Ambas as obras me marcaram muito e ao ler o texto que a Revista do Expresso publicou no passado sábado (O livro que ele não derrotou), ao recordar as peripécias que envolveram a escrita dos Cem Anos, quase que fiquei com vontade de reler o livro.

Garcia Marquez desempregou-se para escrever os Cem Anos e durante quatro meses fechou-se numa pequena sala na sua casa e escreveu. Mercedes, a sua mulher, tratava do resto, nomeadamente dos dois filhos, mas o dinheiro começou a escassear e foram obrigados a penhorar e depois vender o Opel, que era o orgulho do escritor. Em seguida, penhoraram as poucas jóias, a televisão e até o frigorífico, além de terem ficado a dever ao talhante, que lhes continuou a vender carne e até à tabacaria, onde Marquez comprava os três maços de cigarros que devorava todos os dias.

Há muitos pormenores como estes que se tornaram lendários, assim como o livro, e alguns deles talvez tenham sido inventados e tornados realidade depois de terem sido contados tantas vezes.

No entanto, acho que não vou reler os Cem Anos de Solidão porque tenho receio de ficar desiludido.

Li-o em Maio de 1978, com 25 anos, numa edição da Europa-América e todo aquele “realismo mágico”, como lhe chamam, me fascinou. Durante anos, se me perguntassem qual o melhor livro que tinha lido até então, diria, sem hesitação, Cem Anos de Solidão.

Passaram 40 anos e, entretanto, li milhares de livros e já não sou capaz de dizer qual é, para mim, o melhor livro que já li. Aliás, quanto mais livros leio, quanto mais música oiço, menos capaz sou de fazer listas de best of

É por isso que acho que li os Cem Anos de Solidão na altura certa e quero ficar com aquela boa recordação do livro, que uma nova leitura talvez estragasse.

Já agora, quanto ao outro cinquentenário, o do Sgt Pepper’s, continuo a preferir, de longe, o White Album e até o Abbey Road, embora perceba que o Sgt. Pepper’s tenha sido um marco.

Sabiam que, entre muitas outras inovações, foi a primeira vez que as letras das canções apareceram impressas na capa do disco?…