“Os Engenheiros dos Caos”, de Giuliano Da Empoli 2019)

Empoli foi conselheiro de Matteo Renzi e conhece, por dentro, a política italiana. A partir do fenómeno do Movimento 5 Estrelas, Empoli analisa os movimentos populistas que levaram ao poder personagens como Trump, Bolsonaro, Órban e outros.

Podemos extrapolar para o Ventrusca, sem muito esforço.

“Os defeitos dos líderes populistas transformam-se, aos olhos dos seus eleitores, em qualidades. A inexperiência deles é a prova de que não pertencem ao círculo corrupto das elites e a incompetência deles é a garantia da sua autenticidade.” –  escreve Empoli, na página 17.

O capítulo dedicado à ascensão de Trump e à influência de Steve Bannon, é simplesmente assustador. O modo como o tipo do cabelo amarelo diz uma coisa e, no dia seguinte, o seu contrário – e, sobretudo, como ele consegue que isso o favoreça, deixa-nos de queixo caído.

Por vezes, ficamos um pouco espantados quando percebemos que países do Leste, tantos anos, sob domínio comunista, viram agora à Direita.

Diz Empoli:

“Aos olhos dos conservadores húngaros, checos e polacos, a Europa Ocidental representava um ideal porque, contrariamente ao comunismo, garantia o respeito pelas tradições e pela religião. Não é de espantar, portanto, que eles se tenham sentido enganados quando compreenderam que a norma, no Ocidente, era o multiculturalismo e os casamentos homessexuais”.

Um livro que devia ser leitura obrigatória em algumas bancadas da Assembleia da República.

“A Mais Secreta Memória dos Homens”, de Mohamed Mbougar Sarr (2021)

Trata-se de um livro sobre outro livro.

O outro livro chama-se O Labirinto do Inumano e foi escrito por um senegalês que emigrou para França, um tal Elimane. Esse livro ou é uma obra-prima ou um conjunto de plágios e Elimane desapareceu da circulação e ninguém sabe o que lhe aconteceu. Nunca ficamos a saber, ao certo, de que tratava o livro, embora muitos o tenham lido e tenham ficado fascinados com a escrita de Elimane.

Sarr (Dakar, Senegal, 1990), recebeu o Prémio Goncourt em 2021 graças a este complexo livro, que mistura cartas, mails, notícias de jornal, depoimentos de quem privou com o autor do tal livro e mais.

Confesso que tive alguma dificuldade em seguir o livro que, para mim, me pareceu uma sucessão de pequenas histórias, sendo que o livro de Elimane serve de costura a todos esses retalhos.

“Tempo de Furacões”, de Fernanda Melchor (2017)

Quando comecei a ler este livro lembrei-me logo de outro: O Outono do Patriarca, de Gabriel Garcia Marquez, livro publicado em 1975 e que eu li em 1978.

Lembrei-me desse livro porque, também este, é sempre a andar, sem parágrafos, com uma oralidade muito bem conseguida, como se estivéssemos a ouvir alguém a contar-nos uma história sem pausas, sem sequer respirar. Marquez, no entanto, não facilitou a vida ao leitor porque não colocou pontuação no seu texto, enquanto Fernanda Melchor deu-nos uma grande ajuda, usando vírgulas e pontos finais – mas não parágrafos.

Fernanda Melchor é uma escritora mexicana (Vera Cruz, 1982) e com este livro foi finalista do Booker Internacional de 2020.

A história – que não é o mais importante, penso eu – gira em redor de uma Bruxa, numa localidade perdida do México e de um grupo de pessoas desgraçadas, pobres, drogadas, sem trabalho, que se prostituem, se drogam, se matam, se amedrontam com feitiços, acumulam más decisões e não têm futuro.

A linguagem que a escritora usa é dura.

Página 34:

“ (…) para que a velha finalmente se apercebesse do género de menino que era o seu neto, maricas de merda e cobarde, devasso de merda que nunca agradeceu tudo o que a avó fez por ele, tudo o que teve de lhe suportar, porque se não tivesse sido a avó, o raio do rapaz teria morrido, porque a puta que o pariu tinha-o completamente abandonado e cheio de parasitas, maltratado e cheio de fome numa choça enquanto ela andava na maior a fazer vida de puta na estrada.”

A linguagem é mesmo muito dura.

Páginas 134/135:

“porque Maurílio trazia-me pelo beicinho com a sua lábia, com as suas cantiguinhas, mas sobretudo com a sua verga; porque eu tinha catorze anos quando o conheci, acabada de chegar a Villa, farta até aos cabelos de cortar limões lá no rancho e de o meu pai arrecadar o dinheiro todo e a gastá-lo a emborrachar-se e a apostá-lo nos galos; até ao dia em que eu soube que andavam por aqui a construir uma estrada nova, para ligar os poços a Puerto, e que diziam que era uma mina de ouro e que havia muito trabalho e eu não sabia fazer nada, só cortar limões, mas vim na mesma para cá sozinha, e qual foi a minha surpresa quando vi que esta terra era ainda mais fodida que Matadepitas, puta que pariu, e o único lugar onde me deram trabalho foi la na fonda da dona Tina, maldita puta velha e cara de caralho, avarenta como só ela. Eu quase tinha de lhe pedir por favor que me pagasse, negra de merda, e dizia que eu ficava com as gorjetas – mas quais? -, se naquela barraca de merda não paravam nem as moscas.”

E dou só mais um exemplo, caso contrário, começo a transcrever o livro todo.

Página 156:

“Eh pá, o Nelson, o que será feito desse paneleiro? Dizem que foi para Matacocuite e que montou um salão de beleza e que já ninguém o trata por Nelson, agora chama-se Evelyn Kristal. Ganda paneleiro, as nalgotas que ele tinha, lembras-te, mano? E de como ele passava à nossa frente a dar ao cu e a fingir que não percebia que nós o estávamos a ver? Ainda era bem novo quando lhe tirámos os três, mas também já estávamos fartos de andar a ver-lhe as nalgas, cheios de tesão, e um dia levámo-lo ali para os lados da via-férrea e entre demos demos-lhe a foda da vida dele, lembras-te mano? O paneleirote até chorava de alegria, não sabia nem o que fazer com tanto caralho!”

Claro que tenho de falar nos tradutores – diria adaptadores, porque a autora não terá escrito termos como “paneleirote” ou “panisgas”, ou “cheio de nove horas” e muitos outros. Os tradutores são Cristina Rodrigues e Artur Guerra que, segundo informação da editora Elsinore, traduziram já centenas de livros desde a década de 1990 e usam, como método de trabalho, lerem tudo em voz alta.

Também este livro merece ser lido em voz alta.

Aconselho vivamente…

“Pequenas Coisas Como Estas”, de Claire Keegan (2021)

Claire Keegan (Wicklow, Irlanda, 1968), foi finalista do Booker Prize de 2022 com este livro.

Depois de ter lido um calhamaço com mais de 600 páginas, despachei este pequeno livro de 80 páginas numa penada.

Por vezes, não é preciso escrever muito para se conseguir o que se pretende. O que esta escritora irlandesa quis foi falar-nos, de um modo simples, de mais uma tragédia relacionada com a igreja católica.

No final do livro, uma nota dá-nos conta das chamadas Lavandarias de Madalena, instituições ligadas a conventos que albergavam raparigas “pecadoras”, aquelas que engravidavam depois de terem sido violadas, ou depois de uma relação ocasional, e que eram solteiras. Diz a nota que essas mulheres eram “escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nessas instituições”. Muitos dos registos dessas lavandarias foram destruídos e não se sabe ao certo quantas mulheres albergaram. Há quem fale em 10 mil, há quem diga que foram 30 mil. Muitas dessas mulheres perderam os seus bebés, muitas perderam as suas vidas. Um relatório recente da Comissão de Investigação dos Lares para Mães Solteiras concluiu que 9 mil crianças morreram em apenas 18 das instituições investigadas. Em 2014, a investigadora Catherine Corless descobriu que 796 bebés morreram entre 1925 e 1961 no lar de Tuam, no condado de Galway.

É sobre isto que trata esta pequena, mas eloquente novela.

Bill Furlong vendia carvão, antracite e lenha. Vivia numa pequena vila irlandesa, com a sua mulher e as suas cinco filhas. Um dia, ao entregar carvão no convento local, deparou-se com uma rapariga presa no reservatório de carvão.

Depois de muito matutar, Bill Furlong tomou uma decisão em relação àquela rapariga. O que fez, não foi nada de especial, mas são Pequenas Coisas Como Estas que podem fazer a diferença.

Vale a pena ler.

“Uma Pequena Vida”, de Hanya Yanagihara (2015)

Yanagihara (Los Angeles, 1974) é uma escritora norte-americana que, com esta obra, foi finalista do Man Booker Prize e do National Book Award.

Quando terminei a leitura deste calhamaço senti um grande alívio. Por um lado, porque se trata de um tijolo com 684 páginas. Como gosto de ler na cama, segurar neste livro exige alguma preparação física. Por outro lado, senti alívio porque é um livro triste e terrível. No fundo, é um livro sobre o sofrimento, mas também sobre a amizade e o amor.

A história começa com quatro jovens universitários que se tornam amigos para a vida. Todos eles vão ser bem-sucedidos. JB torna-se um artista plástico famoso, Malcolm, um arquitecto de renome, Willem, será um actor consagrado e Jude um advogado implacável. Todos enriquecem graças às suas profissões.

A narrativa, no entanto, centra-se mais em Jude, que tem uma infância tenebrosa, que procura esconder de toda a gente, porque se envergonha dela. Acolhido num convento aos 9 anos, Jude foi vítima de sovas monumentais e também de abusos sexuais repetidos. Um dos irmãos, o irmão Luke, foge com ele, mas, em vez de o libertar, vai usá-lo como prostituto. Abusado por dezenas de clientes, mais tarde vítima de mais maus-tratos, Jude fica com aleijões físicos importantes, mas, pior do que isso, traumas psíquicos de que nunca se vai libertar. Apesar de acabar por conseguir formar-se em Direito e de se tornar num advogado importante numa grande firma, nunca vai conseguir ultrapassar esse trauma e, sempre que se sente em baixo, corta-se. Corta-se com uma lâmina nos braços, até ficar cheio de cicatrizes. Provocando dor física nele próprio, tenta assim ultrapassar a dor psíquica. Em vão. O facto de ter conseguido singrar na vida, ocupando um lugar de destaque na sociedade de advogados de que faz parte, apesar de ser proprietário de um apartamento luxuoso, renovado pelo seu amigo Malcolm, apesar de, juntamente com Willelm, seu companheiro, ter comprado e mandado construir uma casa de campo, apesar até de ter sido adoptado, já adulto, pelo seu antigo professor e pela esposa, apesar do apoio incondicional de Andy, o seu médico e amigo – apesar de tudo isso, não vai conseguir ultrapassar o seu passado de pessoa abusada.

O sofrimento de Jude e a tentativa que os seus amigos fazem, uma e outra vez, para o ajudar, é bem descrita pela autora, em páginas e páginas que se vão sucedendo e que nos deixam perturbados.

Claro que tudo isto é possível porque todas as personagens estão bem na vida, têm posses para viajar, para ter existências confortáveis, sem se preocuparem com os gastos do dia-a-dia. Fosse Jude um dos muitos abusados pobres e o livro terminaria nas primeiras páginas. É um livro perturbador que merece ser lido.

“Lucy à beira-mar”, de Elizabeth Strout (2022)

Elizabeth Strout criou duas personagens muito bem conseguidas: Olive Kitteridge (Olive Kitteridge (2008) e A Segunda Vida de Olive Kitteridge (2019) e Lucy Barton (O Meu Nome é Lucy Barton (2016), Tudo É Possível (2017), Oh William! (2021) .

“Lucy à Beira-Mar” é já o quarto livro que lemos com esta personagem. Trata-se de uma escritora com algum sucesso, que nasceu muito pobre, mas que vive agora confortavelmente devido ao êxito dos seus livros. No entanto, não esquece a sua infância e a sua relação com os pais, já falecidos, e os irmãos, não é fácil. Parece que Lucy tem alguma vergonha do êxito que alcançou e os seus familiares, por seu lado, invejam-na.

A acção deste livro decorre em plena pandemia de covid 19, numa altura em que o número de casos positivos em Nova Iorque era enorme. Para fugir ao covid, Lucy aceita a sugestão do ex-marido, William, para irem viver para uma pequena vila no Maine, onde o covid parece não ter chegado, por enquanto.

Tal como acontece nos restantes livros em que Lucy é a protagonista, vamos sabendo pormenores do dia-a-dia dela, do marido, das filhas de ambos, de alguns amigos. Lucy faz considerações sobre as coisas da vida, sempre com uma linguagem muito simples e directa.

Um livro que é uma boa companhia.

“O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo”, de Rosa Montero (2023)

Montero pensa que a criatividade e a loucura talvez não andem de mãos dadas, mas têm apenas uma parede finíssima a separá-las.

Nascida em 1951, esta escritora espanhola, de quem já li A Boa Sorte, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te e Instruções Para Salvar o Mundo, dá-nos inúmeros exemplos de escritores, uns famosos, outros menos, que lutaram contra a loucura ou que a deixaram tomar conta de si próprios e que a aproveitaram para criar as suas obras.

Com efeito, são inúmeros os exemplos. Rosa Montero gosta, especialmente, de Sylvia Plath (1932-1963), Virginia Woolf (1882-1941) e Emmanuel Carrère (1957). Plath suicidou-e com a cabeça dentro do fogão da cozinha, Woolf suicidou-se metendo-se no mar, vestindo um sobretudo cheio de pedregulhos, e Carrère, embora não se tenha suicidado, sofre de uma perturbação bipolar.

Mas há muitos outros exemplos de criadores suicidas, alcoólicos ou loucos – e Montero compara-se com eles, em certa medida, embora nunca assuma nenhuma doença mental ou vício de substâncias aditivas.

A sua tese é que a criatividade está ligada a mentes diferentes das mentes das pessoas, digamos, comuns, banais.

Tem razão, certamente, mas não penso que seja absolutamente necessário dar as mãos à loucura para ser criativo – e poderia elencar uma lista de nomes de autores que criaram grandes obras sem estarem a entrar e sair de instituições psiquiátricas. Apesar disso, recomendo.

“Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas”, de António Mega Ferreira (2022)

Este foi o último livro publicado por Mega Ferreira (1949-2022) e é um pequeno dicionário de palavras que caíram em desuso.

O autor aproveita cada uma dessas palavras para recordar momentos da sua infância ou da sua adolescência e, como Mega Ferreira nasceu poucos anos antes de mim, muitas dessas recordações tiveram eco em mim.

Podia citar várias passagens deste pequeno livro, mas esta é muito significativa. A propósito da palavra capelista, escreve:

“No meu trajecto infantil para a escola da Rua das Pedras Negras, passava todos os dias por duas capelistas. A maior, situada defronte da igreja de São Cristóvão, propunha, além das retrosarias que lhe davam razão, sabonetes (Musgo Real), pó de talco (Ausonia), pasta de dentes (Couto), creme de depilação (Taky), borrachas de apagar (Inexca) e lápis (Viarco), latinhas de creme Nivea e os rebuçados do Dr. Bayard.”

O livro apresenta-se em forma de dicionário e ainda na letra C, encontra-se a palavra comboios que, apesar de tudo, está outra vez a usar-se mais, talvez devido à prolongada greve dos maquinistas. Mas o que Mega Ferreira nos conta nesta entrada do seu Roteiro, é que morou, durante algum tempo em Mem Martins, o que é uma coincidência. Penso que ele terá morado aí na mesma altura em que eu morava no Algueirão. E, morando na linha de Sintra, ia todos os dias para Lisboa de comboio e…

“Ora, o comboio da linha de Sintra foi o veículo através do qual me fiz ao mundo. Conheci comerciantes e funcionários públicos, bancários e militares, estudantes e jornalistas, solicitadores e comissionistas, professores e despachantes de alfândega (profissão que caiu em desuso, entretanto). Andava-se menos, muito menos, de automóvel, nessa época. No comboio, jogava-se à sueca, lia-se o Diário de Notícias e o Século (as senhoras eram muito da Crónica Feminina), e os mais novos, todos estudantes, discutiam política, às vezes veladamente, outras nem tanto.”

Um livro muito curioso, que aconselho.

“O Princípio de Tudo”, de D. Graeber e D. Wengrow (2021)

Não foi fácil a leitura deste calhamaço de mais de 700 páginas…

David Graeber (1961-2020), foi um antropólogo norte-americano e Wengrow (1972) é um arqueólogo britânico.

Ambos são autores desta obra que mostra uma nova interpretação para as sociedades humanas mais antigas. Como nasceram civilizações por nós ignoradas, com organizações sociais completamente diferentes das que estamos habituados a ouvir falar? será que todos os povos passaram pela mesma evolução, desde os pequenos clãs ou bandos até aos Estados mais complexos? Ou será que a narrativa a que estamos habituados está desactualizada?

Estes dois autores vão descrevendo inúmeros exemplos de novas descobertas que põem em causa esta narrativa. Houve povos que viveram em anarquia, sem reis nem chefes, que praticaram a agricultura apenas em parte do ano, enquanto noutra parte voltavam à recoleção. Desconhecemos e ignoramos o que se passou na América pré-colombiana e toda a História da humanidade é demasiado eurocêntrica.

Embora esta obra esteja escrita numa linguagem acessível, nem sempre é fácil seguir o raciocínio dos autores, sobretudo para quem nunca estudou estes assuntos.

Vale a pena transcrever algumas passagens.

Esta, na página 155, é dedicada aos liberais:

“A sabedoria convencional também nos transmite que, assim que se verifica um excedente material, há também o surgimento de especialistas de ofícios a tempo inteiro, guerreiros e sacerdotes que o reclamam e vivem às custas de parte dele (ou, no caso dos guerreiros, que passam a maior parte do tempo a tentar descobrir novas formas de o roubar uns aos outros): e, sem demora, começam a aparecer os comerciantes, os advogados e os políticos. Estas novas elites, como Rousseau enfatizou, bão agrupar-se para proteger os seus ativos, pelo que o advento da propriedade privada é seguido, inexoravelmente, pela ascensão do Estado”

Em certas sociedades, ser-se político exigia muito mais do que actualmente, como na Mesoamérica, em Tlaxcala:

“Aqueles que aspiravam um papel no conselho de Tlaxcala, longe de terem de demonstrar carisma pessoal ou a capacidade de superar os rivais, faziam-no num espírito de autodesvalorização – quase vergonha. Era-lhe exigido que se subordinassem ao povo da cidade. Para garantir que esta subordinação não era uma mera encenação, cada um tinha de se sujeitar a provações, começando pela exposição obrigatória à humilhação pública, encarada como a recompensa adequada à ambição, e depois – com o ego em farrapos – a um longo período de reclusão, no qual o aspirante a político sofria os tormentos do jejum, da privação do sono, sangria e de um rigoroso regime de instrução moral. A iniciação terminava com uma «saída» do recém-constituído funcionário público num ambiente festivo de celebração.”

Quanto à definição de Estado:

“Contudo, talvez o primeiro a tentar a desenvolver uma definição sistemática tenha sido Rudolf van Ihering, um filósofo alemão que, no final do século XIX, defendeu que um Estado era qualquer instituição que reclamava o monopólio de uso legítimo da força coerciva dentro de um determinado território (…). Segundo esta definição, um governo é um «Estado» se reivindicar uma certa extensão de terra e defender que, dentro das suas fronteiras, é a única instituição cujos agentes podem matar pessoas, agredi-las, cortar-lhes partes do copor ou prendê-las em cadeias, com von Ihering salienta, que pode decidir sobre quem mais possui o direito de o fazer em seu nome.”

E este velho adágio mongol, que ainda hoje está bem actual:

“Conquistar o mundo a cavalo é fácil; o difícil é desmontar e governar”.

E só mais uma, mostrando que, se a invenção da lâmpada pode ter sido revolucionária, há outras invenções que a História ignora e que podem ser ainda mais importantes:

“Sempre que nos sentamos para tomar o pequeno-almoço, é provável que beneficiemos de uma dúzia de tais invenções pré-históricas. Quem foi a primeira pessoa a descobrir que poderíamos fazer crescer o pão crescer através da adição daqueles microrganismos a que chamamos fermentos? Não fazemos ideia, mas temos quase a certeza de que foi uma mulher e muito provavelmente não seria considerada «branca» se tentasse imigrar para um país europeu acutal; e sabemos que a proeza dela continua a enriquecer as vidas de milhares de milhões de pessoas”.

Vale a pena ler.

“A Segunda Vida de Olive Kitteridge”, de Elizbeth Strout (2019)

Mais um grande romance simples de Elizabeth Strout, que venceu o Pulitzer com o anterior romance dedicado a esta personagem por ela criada.

Olive Kitteridge foi professora de matemática na pequena cidade do Maine, Crosby. Está reformada, sobreviveu ao seu primeiro marido, Henry, um farmacêutico muito popular naquela cidade e, agora, neste segundo volume, casa-se com Jack, um viúvo com muito dinheiro, que gosta de viajar em primeira classe, coisa que Olive abomina.

Como é habitual nos romances de Strout, embora Olive seja a protagonista, há muitas outras histórias para contar. São histórias simples, de encontros e desencontros, de algumas tragédias, de coisas que acontecem às pessoas. Olive Kitteridge tem algum relacionamento com os protagonistas destas histórias, porque foi professora de matemática de todas elas.

Olive vai envelhecendo e acaba por ir viver para uma residência para idosos e, mesmo aí, as histórias vão acontecendo.

Mais um grande livro sobre pessoas verdadeiras, embora de ficção.

Outros livros de Elizabeth Strout – Tudo é Possível; O Meu Nome é Lucy Barton; Oh William!; Olive Kitteridge