Falhas de memória

Lembro-me pouco da minha infância.

Penso que tive uma infância feliz, mas não tenho a certeza. Tudo está um pouco esfumado. Lembro-me vagamente de dizer que gostaria de ser bombeiro quando fosse crescido. Ou polícia. Era o que muitos miúdos diziam nessa altura.

Claro que nunca me tornei bombeiro nem polícia. Ou será que fui uma dessas coisas e já não me lembro bem?

A verdade é que já nem me lembro do que fiz ontem ou sequer do que almocei hoje.

A memória está a esboroar-se e a esvair-se, como grãos de areia entre os dedos.

Lembro-me, no entanto, de ter sido banqueiro – também era melhor que não me lembrasse, já que, todos os dias, os meus familiares e o meu advogado mo recordam.

Dizem-me que fui dono de um grande Banco e, pensando bem, espremendo as meninges, consigo lembrar-me disso. Vem-me à memória a cor verde. Por que será?…

Terei tentado ser o banqueiro do povo?

Parece que, afinal, não tive alternativa senão ajudar familiares e amigos e agora acusam-me de ter metido dinheiro ao bolso. Meto as mãos nos bolsos e estão vazios! Onde terei escondido tanto dinheiro? Na Suíça, como diz a acusação? Nem me lembro de ter lá estado alguma vez!

O meu advogado diz que tenho falhas de memória, que sofro de um défice cognitivo; se calhar é verdade.

Foi por isso que vim para a Sardenha, apanhar sol.

Sardenha, onde será isto?…

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