Indecisão autárquica

Jaime Rodrigues aceitou concorrer à autarquia.

Ficou espantado pelo convite, feito por um partido de Direita, uma vez que era conhecido no concelho por ser um tipo desde sempre ligado à Esquerda. Mas ficou, também, lisonjeado. Finalmente, havia alguém que lhe dava o devido valor como economista com trabalhos publicados.

Durante anos de militância na Esquerda, o seu valor tinha sido ignorado e agora, um partido de Direita convidava-o – que havia de fazer senão aceitar?

Assim que se soube que Rodrigues aceitara o convite para ser candidato em lugar elegível pelo partido de Direita, começaram a chover as críticas.

Companheiros que, antes, nunca tinham ligado ao trabalho de Rodrigues, consideravam, agora, que era uma traição o facto de ele ter aceitado aquele convite. Muitos disseram que alguns partidos de Esquerda estavam a pensar convidá-lo para candidato – mas assim, nem pensar!

Rodrigues começou a sentir-se dividido. No fundo, sempre se considerara uma pessoa de Esquerda, mas a sua vaidade levara-o a aceitar o convite da Direita.

Deveria voltar atrás e rejeitar o convite e esperar que algum partido da Esquerda o convidasse, ou devia fazer orelhas moucas às críticas e manter a sua decisão?

Esta dúvida terrível começou a interferir com o sono de Jaime Rodrigues.

À noite, demorava horas até conseguir conciliar o sono e, quando ele chegava, era um sono inquieto, repleto de pesadelos.

Certa vez, acordou a meio da noite com a nítida sensação de que a cómoda, que estava ao lado da cama, se transformava num monstro horrível. Suado e com o coração a mil, sentou-se na cama e olhou para a cómoda. Não estava lá monstro nenhum, apenas um móvel antigo, que tinha comprado num antiquário há uns dez anos.

Mas a cena repetiu-se algumas noites mais tarde e Rodrigues iria jurar que a cómoda transformada em monstro, abrira uma bocarra imensa, pronta para o engolir.

Cada vez mais assustado, decidiu consultar um entendido nessas coisas.

Contou-lhe da cómoda que se transformava em monstro a meio da noite. O entendido sossegou-o: não andaria sob grande stress? Rodrigues disse que sim e falou na sua indecisão autárquica. O entendido sorriu e disse que era essa dúvida existencial que estava a criar monstros na mente de Rodrigues. Claro que era impossível uma cómoda transformar-se em monstro!…

Não era.

Na noite seguinte, a cómoda engoliu Jaime Rodrigues, de um só golpe.

Os entendidos, nem sempre entendem tudo…

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