Coronavírus, esse ingrato

Acabei de saber que ainda não há nenhum português infectado com o coronavírus. Foram já testados mais de 50 portugas e todos deram negativo.

Correcção: já existem dois heróicos portugueses infectados, mas estão no Japão e não contam para esta contabilidade. Eles sim, são verdadeiros cidadãos do Mundo – enquanto nós, cá continuamos nesta triste paróquia, sem nenhum caso confirmado.

Até a Nigéria e o Barhein já têm casos de coronavírus – e nós, nada!

Apesar de todos os esforços para acompanharmos o resto da Europa – e estes últimos anos, até nos temos aproximado um pouco da média europeia – apesar de todos os esforços do Centeno, é vê-la muito à frente.

Itália, Alemanha, Espanha, França, Croácia, todos com casos confirmados e Portugal, sempre o mesmo atrasado!…

O que se passa, afinal?

O coronavírus não quer nada connosco? Chega ali a Vilar Formoso e volta para trás? Nunca ouviu falar de Portugal? É daqueles que pensa que somos uma província espanhola?

Ou então, os testes do Ricardo Jorge dão todos negativos porque foram comprados na candonga, por causa das cativações do Centeno.

Seja como for, eu se fosse ao Sexta às Nove ou àquela senhora da TVI, cujo nome me escapa, fazia já uma investigação porque isto traz água no bico e pode muito bem ser a ponta de um iceberg que meta fraude, evasão fiscal e compadrios vários.

O problema é que temos muita gente a contar com o coronavírus para acabar com o Serviço Nacional de Saúde, de uma vez por todas.

Os que defendem os cuidados de saúde privados, por razões óbvias; estão desejando que os tais milhares de infectados caiam nos hospitais públicos para que o caos se instale.

Os que dizem defender o SNS estão em pulgas para que isso aconteça para depois dizerem “nós bem avisámos”. Os das ambulâncias, porque são poucas e o material é obsoleto, os dos enfermeiros porque são poucos e não progridem nas carreias, os dos médicos, porque estão todos à beira da reforma e os serviços de urgência não estão preparados.

E perante tudo isto, o coronavírus faz-nos um manguito e vai infectar para outras paragens.

Ingrato!

Indicadores do SNS – Que diz a isto Sr. Bastonário?

Exerci Medicina durante 40 anos, sempre no SNS, 33 dos quais como Médico de Família e já sabia que o nosso SNS era excelente, universal, tratando todos da mesma maneira e com grande cuidado na prevenção.

A OCDE faz estudos. A OCDE é uma instituição insuspeita; não consta que seja esquerdista…

Segundo a OCDE, nos EUA, morrem 175 pessoas por cada 100 mil por causas que podiam ser evitáveis; a média dos países da OCDE é de 133; em Portugal, o número desce para 110.

No que respeita à taxa de internamento por diabetes, na Alemanha, 209 doentes em cada 100 mil pessoas, são internadas por esses motivo, em França, 151, na Bélgica são 139, na Dinamarca, 92, na Noruega, 77 – em Portugal, apenas 52 (a média na OCDE é de 129!).

Quanto a mortes por enfarte, a média da OCDE é de 115 por 100 mil; na Alemanha, esse número desce para 102, na Noruega, para 66, mas em Portugal é apenas de 51.

Mortes por cancro: média da OCDE – 201 por 100 mil. Dinamarca, por exemplo, 230; Portugal – 196.

Finalmente, sobrevivência de cancro da mama após 5 anos: na OCDE, a média é de 97.4 anos. Portugal é o quarto país com melhor taxa – 98.7 %.

Que merda de SNS nós temos, na verdade!…

“História Libidinosa de Portugal”, de Joaquim Vieira (2019)

Nada destas coisas nos ensinaram no Liceu!

São centenas de bastardos a inundar a História de Portugal e que Joaquim Vieira decidiu investigar e reunir neste volume que escorre facadas no matrimónio.

Praticamente todos os reis tiveram amantes (ou barregãs, termo espantoso) e, consequentemente, filhos ilegítimos, que só não foram mais porque a mortalidade infantil era muito alta.

E entre essas barregãs, muitas eram freiras que, embora casadas com Cristo, recebiam no seu regaço os membros viris da realeza…

Um exemplo (pág. 62):

“Sendo as suas (de D. Dinis) visitas às religiosas feitas durante a noite, D. Isabel, ao saber por antecipação de uma dessas incursões, terá aguardado o marido a meio do percurso de ida, acompanhada por damas da corte com archotes acesos, dizendo ao rei quando surgiu: «Ide vê-las. Nós alumiamos o vosso caminho». E assim teriam nascido os nomes de Lumiar (a meio caminho do trajecto) e de Odivelas» (onde ficava o Mosteiro de Odivelas, onde D. Dinis ia molhar o bico…)

O livro está organizado por ordem cronológica, começando com a fundação de Portugal e das aventuras extraconjugais de D. Afonso Henriques e vai por ali fora, seguindo as várias dinastias.

Para além da listagem de amantes e de bastardos, Vieira conta-nos também outras histórias curiosas, como esta, na página 245, sobre a fealdade de D. João VI e da sua futura esposa Carlota Joaquina.

Ambos seriam tão feios que o marquês de Bombelles afirmou “ser preciso «fé, esperança e caridade para consumar este ridículo casamento: a fé para acreditar que a infanta é uma mulher; a esperança para crer que dela nascerão filhos; e a caridade para resolver fazer-lhos»”

Terminada a monarquia, também a República teve os seus episódios libidinosos (curiosa a história em volta de Balsemão e do seu ilegítimo) e Joaquim Vieira relata alguns deles, terminando relatando a tendência que José Sócrates mostrou para ajudar mulheres em aflições de dinheiro, sugerindo que, por vezes, também ele se socorria de senhoras da mais velha profissão do mundo.

O livro termina com esta frase curiosa:

“Ditosa pátria que tais filhos tem, empenhados, dia após dia, em dar continuidade à história libidinosa da nação”.

Aconselho a leitura (edição Oficina do Livro)

O milagre das Glock

Conta a lenda que o dono de uma empresa avícola, de nome Manuel Gonçalves das Neves, aceitou exportar para a Guiné-Bissau, umas quantas pistolas Glock e respectivas munições, gamadas à PSP por João Paulino e António Laranjinha, especialistas na matéria.

Preparando-se para enviar para a Guiné um carregamento de ovos produzidos pelas galinhas da sua empresa, foi abordado pela Judiciária, que o terá interrogado:

“Manuel, que levais aí, senhor?”

“São ovos, senhor polícia, são ovos!…” – exclamou Manuel.

Foram ver e eram mesmo ovos!

Só que, entre os ovos, estavam também carregadores e munições para as Glock fanadas.

E o empresário foi preso, o que foi uma injustiça, já que ele pretendia, apenas, ajudar os guineenses a defenderem-se.

Que é feito dos jornalistas?

A greve dos motoristas de matérias perigosas pôs a nu, mais uma vez, a falência de uma profissão que já foi das mais prestigiadas: o jornalismo.

Hoje, à hora do almoço, os primeiros 40 minutos do jornal da Sic foram todos ocupados por reportagens relacionadas com a greve e com a requisição civil decretada pelo governo. Os directos sucederam-se, de norte a sul do país, e a imagem era sempre a mesma: um repórter, de microfone na mão, com um posto de combustíveis por pano de fundo. Ficámos a saber como estavam os depósitos numa bomba de Albufeira, numa outra em Coimbra, no Porto, em Lisboa, em Castelo Branco e apareceu até uma repórter a anunciar que, em Trancoso, havia duas bombas quase secas!

Penso que os habitantes de Nelas, Ferreira do Alentejo, Venda das Raparigas e Freixo de Espada à Cinta devem ter ficado lixados por não falarem nas suas bombas de gasolina.

E que novidades, portanto, notícias, transmitiram todos estes excelsos jornalistas?

Nenhuma!

Tudo o que disseram já se se sabia desde ontem: os serviços mínimos não estavam a ser cumpridos na sua totalidade e o governo decretou uma requisição civil parcial.

O resto é reality show, é transformar um acontecimento numa telenovela. Sim, uma telenovela, porque foi dito que os grevistas têm provas de que os patrões querem subornar trabalhadores para furarem a greve, e que os patrões querem fritar o advogado porta-voz do sindicato, e que os polícias não querem conduzir os camiões, e ouvimos cidadãos apanhados pelos repórteres a darem a sua opinião, como se estivessem no Facebook ou nos famigerados fóruns, onde toda a gente dá palpites sobre tudo – e eu gostava de saber onde está o jornalismo?

Esta maneira de dar notícias demonstra a preguiça do jornalismo de hoje: em vez de procurar, investigar e, depois, editar a informação, põe-se o microfone em frente da malta que vai a passar e a notícia está dada.

Vergonhoso!

25 de Abril Sempre!

Em novembro/dezembro de 1973 estávamos em plena crise petrolífera, por causa da guerra israelo-árabe.

As filas para as bombas de gasolina eram a regra e só podíamos pôr 20 litros por bomba. A 21 de novembro, os jornais noticiavam que a velocidade máxima tinha sido estabelecida nos 100 km/hora na autoestrada (ah! ah! ah!), que terminava ali para os lados de Aveiras de Cima, e 80 km/hora fora das localidades.

No entanto, a principal notícia ficava escondida e tinha a ver com os estudantes universitários.

Um decreto-lei determinava que as Universidades podiam recusar a matrícula a estudantes.

E porquê?

Porque tinham tido más notas? Porque não tinham conseguido a média necessária para entrar na Universidade?

Parece que não.

As Universidades podiam recusar a inscrição de estudantes que “justificadamente fossem considerados como prejudiciais à disciplina dos estabelecimentos”. (notícia de 25/11/1973)

Cerca de um mês depois, a 12.12.1973, o jornal República noticiava que a Faculdade de Letras tinha suspenso dez alunos e que no Instituto Superior Técnico, dois estudantes tinham sido presos depois da polícia ter invadido a sala de alunos.

E ainda há quem queira 300 salazares!…

O cavalo da Madonna

Desde que a Madonna vive em Lisboa, nunca mais dormi descansado.

Só de pensar que a alguns quilómetros da minha almofada, a cabeça da Madonna também pode estar deitada, dormindo placidamente, deixa-me cheio de fernicoques.

É que a Madonna é a compositora de obras sublimes como “Papá não me dês sermões” e “Como uma virgem”, peças musicais de rara beleza e complexidade que fazem de Madonna uma das maiores compositoras da actualidade.

E o facto de ela ter escolhido Lisboa para uma das suas residências, é motivo de orgulho para todos nós.

Foi por isso, com espanto, que tomei conhecimento da decisão de Basílio Horta, presidente da Câmara de Sintra, decisão essa que consistiu em proibir a Madonna de levar um cavalo para dentro de um palácio do século 19.

A moça queria apenas gravar um videoclip, ou, como diríamos antigamente, um teledisco, e parece que o cavalo era essencial.

Basílio, fazendo lembrar o primo do Eça, disse que há coisas que o dinheiro não paga, e fez um manguito à Madonna.

Os semanários dividiram-se.

O Sol, jornal conservador, conotado com a direita, na sua secção “Sol e Sombra”, que cheira a tauromaquia, coloca o Basílio à sombra, criticando a sua atitude.

O Expresso, jornal que dá uma no cravo e outra na ferradura, na sua secção “Altos e Baixos”, coloca o Basílio ao alto, dando-lhe os parabéns pela decisão.

Na minha opinião, ambos estão errados.

Madonna tem ajudado muito o turismo, sabendo-se que muitos estrangeiros vêm a Lisboa, na esperança de topar a cantora, por isso, Basílio Horta devia ter pegado na Madonna e no cavalo e enfiá-los aqui, em Ranholas. O teledisco ficava bem, de certeza.

Mais vale cultivar mirtilos do que casar com um ministro

A comunicação social anda alvoroçada com a endogamia ou o nepotismo do governo de António Costa.

Ora, segundo os dicionários, endogamia é o “enlace matrimonial entre pessoas que pertencem ao mesmo grupo familiar, social, étnico, religioso”; ou ainda, “reprodução com alta frequência de cruzamento entre indivíduos que apresentam consanguinidade

Quanto a nepotismo, define-se como “valimento de que gozavam junto de certos papas os seus sobrinhos ou parentes“, ou, por extensão, “favoritismo excessivo dado a parentes ou amigos por pessoa bem colocada”.

Dizer que os ministros e ministras consanguíneos se andam a reproduzir com alta frequência, ou que estão a ser favorecidos por certos papas, parece-me excessivo…

Tudo isto começou pelo facto do António Costa ter nomeado a filha do ministro Vieira da Silva, Mariana, como ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, para além do facto de já existir, no governo, marido e mulher, nas pessoas de Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, e Ana Paula Vitorino, ministra do Mar.
Os jornalistas escavaram e descobriram que a mulher de Pedro Nuno Santos, novo ministro das Infraestruturas, é directora-geral de qualquer coisa e que, neste governo, os exemplos de relações familiares se multiplicam, havendo namoradas de secretários-gerais, mulheres a dias que já trabalharam na casa de alguns directores gerais, primos de adjuntos que se casaram com ex-namoradas de actuais ministros e até, ao que parece, sogras e genros, tios e tias, madrinhas e muitos padrinhos.
A mesma comunicação social que encheu primeiras páginas com a passagem de testemunho de Belmiro de Azevedo para o seu filho Paulo, ou a de Américo Amorim para a sua filha Paula, escandaliza-se, agora, com a filha do ministro e esposa do ministro.
Ainda por cima, Pedro Nuno Santos, desculpou-se, numa carta, dizendo que tudo isto era natural, que conhecia a sua mulher desde os tempos da Juventude Socialista, que faziam trabalho político em conjunto, muitas horas por dia e que, naturalmente, se tinha apaixonado por ela.
Claro que está a ser gosado com abundância.
A mim, parece-me natural que os ministros nomeiem familiares da sua confiança para os ajudar nas suas tarefas, desde que esses familiares tenham habilitações para as funções que vão desempenhar.
Seria estranho que Pedro Nuno Santos, sendo casado com uma mulher capaz de exercer as funções para que foi nomeada, preferisse que tivessem nomeado outra pessoa qualquer.
Entretanto, o Tribunal Constitucional decidiu arquivar o processo por incompatibilidade em que era visado João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e Desporto, por ter acumulado com este cargo, durante 22 meses, a gerência de uma empresa familiar de produção de mirtilos.
Ora, se produzir familiarmente mirtilos não é incompatível com fazer parte do Governo, deixem lá os membros desta grande família socialista nomearem-se uns aos outros.
Só se estraga uma família…

Os desdentados de Setúbal

O jornal regional Sem Mais trazia, esta semana, uma notícia preocupante.

Diz o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas que a falta de dinheiro afasta a população dos consultórios e, por essa razão, 13% da população do distrito de Setúbal não tem um único dente!

Quer dizer que, em cada 100 setubalenses, 13 são desdentados. Mas desdentados como deve ser, isto é, sem um único dente. Resta saber a percentagem dos que têm apenas um dente para segurar a placa, ou dos que têm dois ou três dentitos – o que, no fundo, é quase a mesma coisa.

No caso dos dentes, não se pode aplicar aquele ditado – “vão-se os anéis, fiquem os dentes”.

A malta de Setúbal prefere ficar com os anéis e está-se lixando para os dentes.

Mas não são só os setubalenses a poderem orgulhar-se de ter a boca vazia de dentes. Basta ver as reportagens dos telejornais, em que elementos da população são entrevistados na rua, como testemunhas de mais um incêndio, ou a propósito da vizinha que foi esmurrada pelo ex-marido, ou sobre a mais recente vaga de calor. E é vê-los a exibir um único incisivo inferior, muitas vezes podre, ou sorrindo para a câmara, sem caninos superiores e inferiores, com uma espécie de balizas laterais, onde caberia uma bola de hóquei.

Uma excelente medida eleitoralista do António Costa – além dos passes a 40 euros, que tanto irritam a Oposição – seria oferecer próteses dentárias a todos os desdentados.

Isso é que seria um verdadeiro murro nos dentes do Rui Rio…

O Juiz

Ficou mesmo satisfeito com aquela sentença.

Deu-lhe muito trabalho; obrigou-o a consultar a Bíblia e o Alcorão, mas fundamentou a sua decisão com frases elaboradas e certeiras. Pelo menos, era o que ele achava. O marido tinha dado uns socos na mulher, tinha-lhe partido a cana do nariz e deslocado a articulação temporo-maxilar, mas era compreensível: ele tinha-a apanhado em flagrante, a beijar o rapaz do talho, com língua e tudo!

Um homem não pode tolerar ser enganado assim pela própria mulher com quem está casado.

Mas enfim, se calhar, ele devia ter tido mais cuidado… os socos foram muitos e com força talvez excessiva. Condenou-o a seis meses de pena suspensa.

E voltou para casa com a sensação de ter feito justiça.

Quando entrou em casa, a Lurdes, sua esposa, estava sentada no sofá da sala, a ler o jornal e percebeu logo, pela sua cara, que ia haver discussão.

Isto é que são horas de chegar, gritou ela.

Desculpou-se com a complexidade da sentença, mas ela não quis saber.

Vai mas é fazer o jantar que estou cheia de fome! – vociferou a D. Lurdes, e atirou-lhe com o cinzeiro, não lhe acertando por pouco.

E não te esqueças de apanhar essas beatas do chão, ouviste?!

O juiz meteu a cabeça entre os ombros, colocou o avental e encaminhou-se para a cozinha, com uma lágrima ao canto do olho direito…

  • in “Histórias (ainda) Mais Desgraçadas”, a publicar este ano