Regabofe nos conselhos de gerência (Crónicas do Solnado – 3.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A Coordenadora dos gestores eleitos do sector empresarial do Estado divulgou um documento, segundo o qual, haverá “regabofe” e “corrupção” em grande parte dos conselhos de gerência das empresas públicas.

Na minha opinião, há várias maneiras de ver o problema e ~e melhor não fazer juízos precipitados.

Ora pensem lá bem…

Qual é o empregado de escritório que não fana uns clips de vez em quando, ou não leva para casa um tubo de cola para o filho colar os cromos da bola na caderneta?

Também o empregado da pastelaria não resiste a levar, no fim de um dia de trabalho, dois pastéis de nata e uma bola de Berlim, para comer no caminho.

Claro que cada um se amanha conforme o emprego que tem…

É natural que um ajudante de farmácia tenha sempre no armário da casa de banho uns comprimidos para as dores de cabeça e umas pastilhas para a azia.

A cabeleireira aproveita e leva para casa os frascos de champô e as embalagens de laca que estão no fim. Não prejudica o patrão e sempre poupa no orçamento familiar.

Mas quanto aos gestores de empresas – que hão de eles fazer?

~e que eles não mexem directamente nos produtos que as suas empresas fabricam… Às vezes, nem sabem muito bem o que elas fabricam… Nem precisam!… Passam os dias fechados nos gabinetes, rodeados de relatórios, gráficos e telefones. O negócio deles é gerir, nada mais…

Portanto, é natural que, no fim do dia, quando regressam a casa, se sintam frustrados por irem de mãos a abanar.

Vai daí, acontecem coisas destas, com vem no tal relatório…

Por exemplo, num Banco gastaram-se 50 mil contos na organização de um Encontro, onde se discutiram planos e orçamentos. As despesas incluíram prendas, passeios e jantares de gala… É compreensível… Vocês já experimentaram discutir orçamentos?… Faz cá um buraco no estômago!…

Uma outra empresa pública mandou vir equipamento industrial do estrangeiro e, com o equipamento, vieram também uns caixotes com uns electrodomésticos, aparelhagem de som e mobiliário para uso pessoal dos gestores. Deste modo se pouparam algumas viagens ao estrangeiro. E convenhamos que trazer mobílias numa mala de viagem não dá jeito nenhum…

Diz ainda o relatório que numa outra empresa se utilizam as viaturas para uso particular dos gestores durante os fins de semana.

Então – o que haviam eles de fazer?… usar os carros durante a semana?… ao domingo é que apetece passear!…

Enfim, cada um agarra-se àquilo que pode, que a vida está má até para os gestores das empresas públicas.

Aliás, no aproveitar é que está o ganho – ou não será assim?

A visita de Soares a Londres (Crónicas do Solnado – 26.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A visita de Mário Soares a Londres saldou-se por um honroso empate, mas valeu a pena…

O 1º ministro levou a mala cheia de boas intenções, propondo trocas diversas, mas a sra. Tatcher não esteve pelos ajustes.

Assim, em resumo, era só uma questão de trocar celulose por uma fábrica de papel, e as pirites por cobre e alumínio.

Mas nem a evocação da velha aliança luso-britânica demoveu os ingleses.

Dizem que vão estudar o assunto… É sempre a mesma conversa…

É que nós podíamos trocar uma data de coisas, caramba!

Por exemplo, a gente dava-lhes as conservas e eles ofereciam-nos os Conservadores; eles entregavam-nos os Trabalhistas, e nós, os trabalhadores; com os sociais-democratas, podia ser ela por ela; e em troca do PPM, eles cediam-nos a família real inglesa.

Talvez não fosse mau negócio, mas cheira-me que a sra. Tatcher não iria na conversa…

Trocas as Berlengas pelo rochedo de Gibraltar, o Parque Eduardo VII pelo Hyde Park, e o relógio da rotunda do aeroporto pelo Big Ben, também, não resultava…

Ao fim e ao cabo, os ingleses também têm as suas dificuldades… até vivem numa ilha e tudo…

Podíamos muito bem trocar a nossa greve dos universitários, que é pequenina, pela greve dos mineiros ingleses, que já vai em 8 meses. Mas neste caso, tenho a sensação que ficávamos a perder…

E já que o Jimmy Hagan, que é inglês, veio treinar o Atlético, podíamos demonstrar o nosso agradecimento, enviando o Meirim para o Liverpool que, pelos vistos, só sabe ganhar ao Benfica.

Enfim, as trocas entre as duas nações poderiam ser imensas. Era só uma questão de imaginação e boa vontade.

Se eles têm as Joias da Coroa, nós temos as moedas de cinco coroas; se eles têm o príncipe Carlos, nós temos o Príncipe Real; se eles têm o Paul McCartnhey, nós temos o Marco Paulo; se eles têm as gaitas de foles, nós temos mais buracos que uma gaita.

Mas, apesar de não se ter chegado a acordo nenhum, a visita de Mário Soares a Londres valeu a pena, quanto mais não seja pelos tomates.

De facto, a dama de ferro disse que “que os regimes europeus são mais importantes que o vinho e os tomates”.

 E assim se acabaram as dúvidas angustiantes dos portugueses.

Todos aqueles que temiam que os tomates fossem mais importantes que a democracia, podem ficar descansados.

Os tomates vêm e vão, amadurecem e caem de podres, mas as democracias mantêm.se, sempre frescas e viçosas.

Foi aquilo a que se pode chamar uma afirmação dos tomates!

Vejam se têm cuidado com os… regimes europeus, claro… e façam o favor de ser felizes.

O acordo de pescas (Crónicas do Solnado – 5.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

Passei um fim de semana terrível!

Não consegui dormir, quase não comi, não atendi telefonemas e passei o tempo todo a andar de um lado para o outro!

Nem a maratona de Lisboa me interessou… tinha os nervos à mara…tona de água!

E tudo por causa da questão das pescas com os espanhóis.

Este assunto já cheira a fénico!

Ainda pensei que as coisas ficassem em águas de bacalhau, ou que se fizesse um novo Tratado de Tordesilhas, mas os espanhóis não morderam o anzol.

Como sabem, o governo português denunciou p acordo de pescas, que foi assinado com os castelhanos em 1969.

Quer dizer: parece que a gente sempre vai entrar para a CEE em janeiro do ano que vem, os espanhóis também entram, entra tudo minha gente, e vai daí, o nosso governo achou que o acordo de pescas já não fazia sentido.

Mas os súbditos de Juan Carlos não estão pelos ajustes e querem continuar a sacar-nos a sardinha.

Eu cá não pesco nada disto, mas estudei História no Liceu e não me esqueci dos Filipes.

E se os nuestros hermanos se armam em carapaus de corrida e vêm por aí fora, com uma nova Invencível Armada e acabamos todos à solha?

O porta-voz do governo castelhano garantiu, no sábado passado, que não está nos planos deles invadirem Portugal.

Mas nunca fiando!…

Por enquanto, as coisas estão nas vias diplomáticas, mas sinceramente tenho medo das represálias.

Não sei se já repararam que o Douro, O Tejo e o Guadiana nascem em Espanha… E se eles nos secam os rios?…o que é que a gente faz às pontes?

É que, de Espanha, nem bom vento nem bom casamento… lembrem-se, por exemplo, do caso de Olivença… até hoje!… ficámos a ver navios!

Claro que Mário Soares é amigo de Felipe Gonzalez, se calhar até já foram à pesca juntos – mas parece que Soares é ainda mais amigo de Mitterand, e o 1º ministro espanhol fica escamado com estas coisas.

Convenhamos que o problema é uma pescadinha de rabo na boca, mas, como é costume, quem se lixa é o mexilhão…

Mas por que raio é que os espanhóis querem o nosso peixe?

Sempre ouvi dizer que os portugueses são peixe miúdo!…

Se calhar, para eles, tudo o que venha à rede, é peixe…

Bom, o melhor é ir comer uns carapauzinhos com molho à espanhola, a ver se acalmo, e vocês façam o favor de ser felizes.

Sonho (Crónicas do Solnado – 27.4.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

Dizia o poeta que “o sonho comanda a vida”.

O pior é que, depois, muitas vezes, é a vida que estraga o sonho.

É precisamente do sonho que vos venho falar hoje.

Segundo o dicionário, “o sonho é uma associação de imagens frequentemente desconexas e confusas que se formam no espírito de uma pessoa, enquanto dorme”.

Quer isto dizer que sonhar é relativamente barato e não necessita de muitos apetrechos: uma cama e uma almofada, se não formos muito exigentes.

No entanto, os sonhos podem ser inconvenientes.

Por exemplo, não fica nada bem a um polícia passar a noite a sonhar com ladrões…

Nem um espião deverá, em caso algum, sonhar alto…

Assim como não fica nada bem a um cangalheiro, ter sonhos cor-de-rosa.

O sono e o sonho parecem, então, estar intimamente ligados.

Diz-se até que o modo com a gente dorme, pode ter influência sobre os sonhos.

É, portanto, natural que um sujeito que tenha o sono pesado, sonhe com elefantes, tanques de guerra ou feijoadas…

Pelo contrário, uma pessoa com o sono leve terá tendência para sonhar com algodão, plumas ou copos com água mineral…

Por vezes, temos sonhos premonitórios… e recordo o caso daquele meu amigo que, certa noite, sonhou com o número da sorte grande… só que o número estava lá muito ao longe, e como ele é míope, não o conseguiu distinguir. Desde essa noite, passou a dormir sempre de óculos, mas só tem sonhado com matrículas de carros!

Também toda a gente saber que, quando acordamos, raramente nos lembramos dos sonhos.

É por essas e por outras que muitos homens nunca chegam a encontrar a mulher dos seus sonhos…

Mas se o sonho está muito ligado ao sono, bonito, bonito é sonhar acordado.

É graças a isso que a Humanidade tem dado grandes passos em frente e grandes trambolhões.

Qual de nós nunca sonhou acordado?

Pelo menos por enquanto, cada um pode sonhar com aquilo que lhe apetecer e ninguém tem nada com isso.

Só que sonhar é fácil, mas do modo como avida está, o que é difícil é adormecer.

Boa noite e façam o favor de sonhar e  ser felizes.

Remodelação governamental (Crónicas do Solnado – 6.4.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

Hoje sinto-me um contribuinte inquieto.

Parece certo que o governo será remodelado lá para o fim do mês.

Mas afinal – remodelar quem e porquê?

Vem nos manuais que não se altera uma equipa que vende um desafio, a menos que haja lesões.

E esta equipa venceu, pelo menos, o desafio dos 2,8 – ou não venceu?

Há por aí alguém que ainda não tenha pago o imposto retroactivo após estes meses todos?

Se houver que se acuse, que a Direção geral das Contribuições e Impostos agradece.

Mas repito a pergunta: remodelar quem e porquê?

Porventura Maldonado Gonelha não tem estado a tratar bem da saúde?

A sua experiência como membro da Trilateral tem-lhe permitido lidar com os três polos principais da sua pasta: o positivo, o negativo e o neutro.

Melancia estará mal no Mar?

Que se saiba, não enjoa e nunca foi ao fundo. E se o hábito não faz o monge, nome de ministro não faz Ministério. Até porque nem existe nenhum Ministério da Fruta, nem nenhum ministro com nome de peixe.

E quanto a Eduardo Pereira?

Houve a questão de Vizela, é certo… Ainda não desmantelou nenhuma conspiração, é verdade… Talvez até tenha inaugurado menos quartéis de bombeiros que o seu antecessor, o engenheiro Ângelo Correia. Mas deem tempo ao tempo…

O ministro do Trabalho é sempre um dos mais contestados. Amândio de Azevedo tem-se mantido calmo. E é falso esse rumor segundo o qual alguém terá perguntado ao 1º ministro: “E ao do Trabalho, o que se faz?” – “Olhe, Amândio ao ar!”

É falso! Tudo calúnias!

Poderão dizer que há para aí muitas greves e manifestações de trabalhadores. Mas não será essa a obrigação dos trabalhadores: reivindicar?

Se não forem eles a pedir melhores salários, quem o fará? O ministro?…

As Finanças também vão andando… Ernâni Lopes conseguiu manter o mistério em volta do seu Ministério. E ninguém sabe ao certo se ele é alto desde pequenino, se de facto se ri menos que o presidente Eanes – e até se o seu primeiro nome se escreve, ou não, com agá.

Fez o que lhe era exigido: criou novos impostos e apresentou um orçamento. Há mais alguma coisa a declarar?… se houver, a Direção Geral das Contribuições e Impostos agradece…

Rosado Correia, o ministro do Equipamento Social parece que é um dos que vai sair – mas porquê?… Há muito tempo que o nosso equipamento social é todo em segunda mão e não seria um único ministro que poderia mudar as coisas…

Soares da Costa está mal na Agricultura e Florestas?… Por causa da batata turca ou porque não mandou construir outro pinhal de Leiria?

E poderão vocês aí em casa, comodamente instalados, afirmar que José Augusto Seabra não tem estado à altura dos problemas da Educação? … Olhem que os problemas têm sido bem grandes, obrigando o ministro a pôr-se, muitas vezes, em bicos de pés.

E poderia continuar a desfiar o rosário dos ministérios, mas limito-me a falar de mais um: o Ministério da Defesa.

Diz-se que a melhor defesa é o ataque, mas o professor Mota Pinto é um pacifista… Haverá algo a dizer sobre esta pasta?

Porventura temos alguma responsabilidade na guerra do Líbano? Apoiámos a invasão de Granada? Temos algo a ver com a situação instável na América Latina? Ajudámos militarmente os rebeldes afegãos?

A resposta é – não!

Declarámos guerra a algum país? Efectuámos um raid aéreo para amostra? Estamos a fabricar misseis nucleares?

A resposta é, ainda e sempre, um rotundo não!

Nem sequer fomos invadidos pelos castelhanos, embora eles também não nos tenham invadido Olivença.

Portanto – remodelar quem e porquê?

O 1º ministro, só porque teve uma gripe?

Não!… na minha opinião, deixem estar o governo como está e façam o favor de ser felizes…

Bilhete de identidade para vacas (Crónicas do Solnado – 24.2.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

Que falta de consideração que o governo tem pelas vacas!

Então não é que, desde a semana passada, as vacas portuguesas só podem circular com o respectivo bilhete de identidade!

Vocês pensam que eu estou a brincar, mas olhem que é verdade: saiu no Diário da República, é um diploma legal, foi votado no Conselho de Ministros e tudo!

É claro que isto tem a ver com as vacas tresmalhadas que andam por aí ao deus-dará, sem eira nem beira… os criadores dão-lhe pouca atenção e elas podem até ser o veículo de transmissão de doenças que põem em risco a saúde pública – e com a saúde pública não se brinca!

Portanto, e a partir de agora, se uma vaca quiser transitar por qualquer parte do território nacional, deverá trazer consigo o respectivo bilhete de identidade.

Ainda não tive oportunidade de ver nenhum bilhete de identidade de vaca, embora já tenha visto muitas vacas, quer em trânsito, quer paradas.

Mas imagino que o documento em causa deve incluir uma fotografia tipo-passe da vaca, de frente e sem óculos, por causa do reflexo do flash, local e data de nascimento, nome dos pais, altura, sinais particulares, por exemplo, uma mancha na perna direita, tamanho da cauda e configuração das tetas e, obviamente, a impressão digital do casco anterior direito, excepto quando as vacas são canhotas.

O que vale é que o tempo das vacas gordas já lá vai – quando não, as fotografias não cabiam no bilhete de identidade.

Isto quer dizer que, de futuro, as autoridades podem mandar parar uma vaca e pedir-lhe os documentos… Se estiver tudo em ordem, o polícia devolve os papéis ao mamífero, bate-lhe uma pála simpática, e a produtora de leite pode prosseguir o seu caminho em paz…

No entanto, se os documentos não estiverem de acordo com o diploma legal, a vaca é presa para averiguações e o mais certo é ser levada para o matadouro e fuzilada – porque, como se sabe, para as vacas, a pena de morte continua em vigor.

Mas voltando à vaca fria, os documentos que o herbívoro tem que possuir quando quiser transitar em território nacional são os seguintes … tome nota, que pode ser útil: guia de trânsito ou guia sanitário de trânsito, do modelo apropriado ao fim a que os animais se destinam, o bilhete de identidade animal, o cartão do criador, o documento comprovativo de ter sido submetida às intervenções de natureza profilática e sanitária oficialmente exigidas ou o boletim sanitário.

Portanto, meus caros amigos, com todos estes documentos, o melhor é trancarem as vossas vacas em casa; não as deixem andar a transitar por aí à balda…

Isto até para as vacas está difícil!…

Boa noite, cuidado com as vacas tresmalhadas e façam o favor de ser felizes.

Crónicas do Solnado – 3

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

Prisões superlotadas (4.2.1984)

Venho aqui falar em nome dos pequenos e médios ladrões. Larápios, carteiristas e ofícios correlativos.
Bom… para que não haja confusões, eu não sou o porta-voz dessas profissões que são – sem dúvida – as mais antigas do mundo… mas li no jornal uma notícia que me deixou revoltado.
É que a crise ataca todos e não escapa ninguém!
Já não basta um tipo ter que palmar 4 ou 5 carteiras no metropolitano, pondo em risco a sua integridade física… e depois, chega a casa e as carteiras só têm documentos e fotografias da família – num uma nota para amostra!
Andamos todos tesos!
E os pequenos roubos já não dão lucro! É um risco que não vale a pena correr.
Hoje em dia, ou se rouba a sério, assim uma coisa em grande, com estilo, ou mais vale arranjar um emprego, nem que seja com contrato a prazo numa empresa em situação económica difícil!
E depois, ainda por cima, como um azar nunca vem só, andaram a colar aqueles cartazes as estações do Metro, que dizem “cuidado com os carteiristas”!
E as pessoas estão sempre a pau, com a mãozinha a segurar a carteira.
Depois vem um carteirista mais inexperiente, tenta palmar qualquer coisita e pimba!… é apanhado com a boca na botija!
A polícia está farta, já não fecha os olhos a nada e lá vai o larápio para a prisão!
É aqui que entra a notícia… segundo a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, as 48 cadeias portuguesas estão a abarrotar.
6 478 presos! Não cabe nem mais um! Lotação esgotada!
É uma situação que não se registava desde 1967 – há 17 anos, portanto!
Estão a ver isto?!
Se um larápio qualquer for apanhado pela polícia, fica preso onde?…
As escolas são poucas para os alunos.
Os hospitais não chegam para os doentes.
Os edifícios públicos são pequenos para as repartições.
Isto não pode continuar assim!…
Se esta noite mesmo, um polícia de giro capturar algum rato de automóveis, não tem outro remédio senão levá-lo para casa, dar-lhe jantar e depois fechá-lo na despensa, à espera que haja vaga em Alcoentre!
Sinceramente, só vejo uma solução: enquanto não se construírem mais prisões, levem os presos para os museus.
Ao menos assim, os museus portugueses deixavam de estar às moscas.
Boa noite e façam o favor de ser felizes.

Crónicas do Solnado – 2

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

O Amor (7.1.1984)

Gostaria hoje de vos falar do Amor.
Sinceramente não sei o que me deu na cabeça para escolher este tema, mas já consultei o médico, que me garantiu que não é nada de grave.
Segundo o Grande Dicionário de Língua Portuguesa, amor é “o conjunto de fenómenos cerebrais e afectivos que formam o instinto, o sentimento que impele os seres para o que lhes parece belo, grandioso e digno; a afeição de uma a outra pessoa de sexo diferente, ligação espiritual, grande amizade, benevolência, simpatia, carinho, tendência ou instinto que aproxima os animais para a reprodução, sensualidade, desejo carnal, ambição, cobiça, culto, veneração, entusiasmo, admiração, vivo sentimento de gosto por alguma coisa, compaixão, caridade, coisa ou pessoa bonita, preciosa ou bem apresentada, favor, graça, mercê, concessão – e ainda, planta da família das leguminosas papileonáceas, também chamada Carrapicho ou Marmelada-de-cavalo.
Isto é tudo rigorosamente verdade e vem no tal dicionário.
Não admira, portanto, que ninguém saiba ao certo o que é o amor.
Camões dizia que “amor é fogo que arde sem se ver”.
Florbela Espanta afirmou que “neste mundo vaidoso, o amor é nada” e, no entanto, queria “amar, amar perdidamente”.
Bocage escrevia: “vivo de Amor, de Amor suspiro e canto”.
E Alberto Caeiro disse simplesmente que “amor é uma companhia”.
De qualquer modo, a gente imagina que o amor é uma coisa bonita e que dá muito jeito em certas épocas, como o Natal, a Páscoa, o Dia Mundial da Paz e a Primavera.
Mas, na linguagem corrente, o amor é uma coisa terrível.
Diz-se que o amor é louco e que o amor é cego.
Uma desgraça nunca vem só…
Na década de 60, tornou-se famosa a frase “fazer o amor e não a guerra”.
Vinte anos depois é possível verificar os resultados deste conselho tão bem intencionado.
Aliás, muitos anos antes, mesmo muitos anos, já alguém respeitável tinha dito “amai-vos uns aos outros” e foi o que se viu…
Ora, nunca se diz apenas “amo-te”. É preciso acrescentar sempre alguma coisa. E então diz-se, por exemplo: “amo-te muito!”… ou “amo-te à brava!”… “amo-te comó caraças!”… “amo-te tanto que era capaz de me esgatanhar todo!”…
Parece, portanto, que o amor ou é muito, ou não vale a pena.
É um dos poucos casos em que a qualidade não interessa – o que importa é a quantidade.
Antigamente, era fácil descobrir quando é que alguém amava. Dizia-se “não anda a comer nada… está apaixonado!…”
Concluiu-se que o amor emagrecia…
No entanto, também se dizia: “a moça anda com boas cores… há moiro na costa…”
Conclui-se que o amor fazia bem à saúde, para além de ser maometano.
Só contradições…
E quando se está pelo beicinho, entrega-se o coração à pessoa amada e ficamos numa situação desesperada. Ficar sem coração e preso pelo beiço deve ser, de facto, muito incómodo.
Acrescente-se que a malta nova não ama – grama.
E quando a coisa é mesmo a sério, não grama – quilograma!
Em conclusão: teoricamente, o amor parece complicado, mas, quando se passa à prática, até é bastante simples, acessível e barato!
Boa noite e façam o favor de amar e ser felizes.

Nota: em 1983, ninguém se escandalizava com esta noção do Dicionário – “a afeição de uma a outra pessoa de sexo diferente” – mudam-se os tempos…

Raul Solnado

Lidei algum tempo com o Raul Solnado, nos anos 80 do século passado. Escrevi alguns textos, que ele depois interpretava, dando-lhes, muitas vezes, a graça que eles não tinham.

Do pouco tempo que passámos juntos, recordo uma pessoa afável e com uma inteligência aguçada.

Recordo, também, o nervosismo que senti quando me convidou para escrever, juntamente com ele e com o Mário Zambujal, o “Lá em Casa Tudo Bem”. Percebi que aquela não era a minha guerra: uma coisa era escrever uns epigramas e um textos despreocupados para o Pão Comanteiga, outra era escrever uma série de televisão para o Raul Solnado. Acabei por desistir, depois de 12 semanas de grande ansiedade e 12 episódios escritos e re-escritos, com muita ajuda do Zambujal e do Solnado.

Mas foi uma honra ter colaborado com o Solnado que, apesar da diferença de idades e de estatuto, sempre me tratou como um igual.

Recordo um dos textos que escrevi para ele:

“Venho aqui falar em nome dos pequenos e médios ladrões, larápios, carteiristas e ofícios correlativos.

Bom… para que não haja confusões, não sou o porta-voz dessas profissões que são, sem dúvida, as mais antigas do mundo… mas li no jornal uma notícia que me deixou revoltado.

É que a crise ataca todos e não escapa ninguém!

Já não basta um tipo ter que palmar quatro ou cinco carteiras no Metro, pondo em risco a sua integridade física. Depois, chega a casa e as carteiras só têm documentos e fotografias da família – nem uma nota para amostra!

Andamos todos tesos!

E os pequenos roubos já não dão lucro! É um risco que não vale a pena correr!

Hoje em dia, ou se rouba a sério, assim uma coisa em grande, com estilo, ou mais vale arranjar um emprego, nem que seja com contrato a prazo numa empresa em situação económica difícil.

E depois, ainda por cima, como um azar nunca vem só, andaram a colar aqueles cartazes nas estações do Metro, que dizem “cuidado com os carteiristas”!

E as pessoas estão sempre a pau, com a mãozinha a segurar a carteira.

Depois vem um carteirista mais inexperiente, tanta palmar qualquer coisa e pimba!… é apanhado com a boca na botija!

A polícia está farta, já não fecha os olhos a nada e lá vai o larápio para a prisão!

Para a prisão?!… Mas qual prisão?!…

É aqui que entra a notícia: segundo a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, as 48 cadeias portuguesas estão a abarrotar!

6 478 presos! Não cabe nem mais um ! Lotação esgotada!

É uma situação que não se registava desde 1967 – há 17 anos, portanto!

Estão a ver isto?!

Se um larápio qualquer for apanhado pela polícia, fica preso onde?…

As escolas são poucas para os alunos;

Os hospitais não chegam para os doentes;

Os edifícios públicos são pequenos para as repartições.

Isto não pode continuar assim!…

Se esta noite mesmo, um polícia de giro capturar algum rato de automóveis, não tem outro remédio senão levá-lo par casa, dar-lhe jantar e depois fechá-lo na despensa, à espera que haja vaga em Alcoentre.

Sinceramente, só vejo uma solução: enquanto não se conseguirem mais prisões, levem os presos para os museus.

Seria a única maneira de os nossos museus deixarem de estar às moscas!

Boa noite e façam o favor de ser felizes.”

- esta crónica foi para o ar no programa televisivo “Fim de semana”, a 4/2/1984. De Dezembro de 1983 a Junho de 1984, escrevi crónicas que o Raul Solnado interpretava, melhorando-as com as suas “buchas”.

Colaborei, também com o Raul Solnado na escrita de crónicas semanais no Programa da Manhã da Rádio Comercial, entre Outubro de 1984 e Março de 1985.

Finalmente, fui co-autor, com ele e com o Mário Zambujal, dos primeiros 12 episódios da primeira sitcom portuguesa, “Lá em Casa Tudo Bem”.

Foi o Solnado quem me propôs para membro da Sociedade Portuguesa de Autores, em 1984.