Regabofe nos conselhos de gerência (Crónicas do Solnado – 3.11.1984)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

A Coordenadora dos gestores eleitos do sector empresarial do Estado divulgou um documento, segundo o qual, haverá “regabofe” e “corrupção” em grande parte dos conselhos de gerência das empresas públicas.

Na minha opinião, há várias maneiras de ver o problema e ~e melhor não fazer juízos precipitados.

Ora pensem lá bem…

Qual é o empregado de escritório que não fana uns clips de vez em quando, ou não leva para casa um tubo de cola para o filho colar os cromos da bola na caderneta?

Também o empregado da pastelaria não resiste a levar, no fim de um dia de trabalho, dois pastéis de nata e uma bola de Berlim, para comer no caminho.

Claro que cada um se amanha conforme o emprego que tem…

É natural que um ajudante de farmácia tenha sempre no armário da casa de banho uns comprimidos para as dores de cabeça e umas pastilhas para a azia.

A cabeleireira aproveita e leva para casa os frascos de champô e as embalagens de laca que estão no fim. Não prejudica o patrão e sempre poupa no orçamento familiar.

Mas quanto aos gestores de empresas – que hão de eles fazer?

~e que eles não mexem directamente nos produtos que as suas empresas fabricam… Às vezes, nem sabem muito bem o que elas fabricam… Nem precisam!… Passam os dias fechados nos gabinetes, rodeados de relatórios, gráficos e telefones. O negócio deles é gerir, nada mais…

Portanto, é natural que, no fim do dia, quando regressam a casa, se sintam frustrados por irem de mãos a abanar.

Vai daí, acontecem coisas destas, com vem no tal relatório…

Por exemplo, num Banco gastaram-se 50 mil contos na organização de um Encontro, onde se discutiram planos e orçamentos. As despesas incluíram prendas, passeios e jantares de gala… É compreensível… Vocês já experimentaram discutir orçamentos?… Faz cá um buraco no estômago!…

Uma outra empresa pública mandou vir equipamento industrial do estrangeiro e, com o equipamento, vieram também uns caixotes com uns electrodomésticos, aparelhagem de som e mobiliário para uso pessoal dos gestores. Deste modo se pouparam algumas viagens ao estrangeiro. E convenhamos que trazer mobílias numa mala de viagem não dá jeito nenhum…

Diz ainda o relatório que numa outra empresa se utilizam as viaturas para uso particular dos gestores durante os fins de semana.

Então – o que haviam eles de fazer?… usar os carros durante a semana?… ao domingo é que apetece passear!…

Enfim, cada um agarra-se àquilo que pode, que a vida está má até para os gestores das empresas públicas.

Aliás, no aproveitar é que está o ganho – ou não será assim?

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