“Tudo é Possível”, de Elizabeth Strout (2017)

Este é o terceiro livro da série Lucy Barton, da autoria de Elizabeth Strout.

Começámos pelo fim, “Oh William”, de 2021 e, como o livro nos despertou curiosidade, lemos o primeiro da série, “O Meu Nome é Lucy Barton”, de 2016.

Se nos outros dois livros desta série, Lucy Barton, a escritora que veio de uma família extremamente pobre, é a narradora, neste “Tudo é Possível”, ficamos a conhecer as histórias de outras personagens que Barton refere nos seus livros.

São histórias simples de pessoas simples e Lucy Barton surge apenas como personagem periférica dessas histórias.

Dos três livros, este pareceu-me o menos interessante…

“O Acontecimento”, de Annie Ernaux (2000)

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Annie Ernaux. Claro que o facto de esta escritora francesa , nascida na Normandia em 1940, ter ganho o Nobel deste ano, me despertou a curiosidade – sobretudo depois de ter lido uma entrevista sua que veio publicada no Expresso.

Comecei por ler este “O Acontecimento”, publicado há 22 anos. É um livrinho que se lê num par de horas porque não chega às 90 páginas.

Ernaux, que afirma que todos os seus livros são biográficos, tem a coragem de contar como, em 1963, se submeteu a um aborto clandestino, que a fez sentir-se humilhada, abandonada e em risco de vida. Afinal, ela era uma estudante universitária e, no entanto, no que respeita ao problema que enfrentava, tanto fazia.

Embora nunca tenhamos passado por nada de semelhante, sabemos muito bem o que era, uma década depois, continuar a basear a anticoncepção no famoso método Ogino e não ter ninguém que nos informasse melhor.

Annie Ernaux descreve os factos numa linguagem simples, mas emotiva e consegue transmitir-nos a angústia por que passou nesses tempos.

Vou já iniciar a leitura de mais um livro desta escritora francesa.

O Coiso e a tradutora dos livros de Olga Tokarczuk

Deparei-me com este simpático comentário no Coiso:

“Sou a tradutora de Olga Tokarczuk e queria felicitá-lo pelas publicações que tem feito sobre os livros da escritora polaca. Espero que nunca deixe de o fazer. Saiu no Expresso um artigo meu onde menciono o seu blogue – uma forma de reconhecimento pelo seu trabalho. Parabéns!”

A Revista do Expresso estava ainda à espera de ser lida, mas fui logo buscá-la e encontrei um texto escrito pela tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz, onde ela refere:

“A boa recepção de Olga Tokarczuk em Portugal pode ser analisada à luz do conceito de fidelidade, porque entre os agentes do processo. editor, tradutor e leitor – se desenvolveu um relacionamento profícuo, manifesto no facto de os livros da escritora nobelizada serem simultaneamente best-sellers e long-sellers, bem como no facto de terem surgido no ciberespaço blogues literários (por exemplo, “Palavras Sublinhadas” e “O Coiso – aqui desde 1999”) que dissertam sobre os seus sucessivos livros, elogiando o carácter inovador da sua estrutura narrativa, a escrita fluida repleta de passagens memoráveis e pensamentos aforísticos, as personagens inesquecíveis e os enredos imaginativos, bem como a imprevisibilidade do desenrolar dos acontecimentos.”

Teresa Fernandes traduz os livros de Tokarczuk do polaco para português e percebe-se, pelo que diz neste texto, que o faz com prazer porque, também ela, deve ser (é certamente) uma fã da escritora polaca.

Quanto ao facto de O Coiso ser um blogue literário, não diria tanto… limito-me a escrever meia dúzia de opiniões sobre os livros que vou lendo.

“A Mulher de Cabelo Ruivo”, de Orhan Pamuk (2016)

Dez anos depois de receber o Prémio Nobel, Pamuk publicou este livro que gira todo em torno do mito de Édipo e da lenda de Shahnameh. Enquanto naquele é o filho que mata o pai, nesta lenda oriental, é o pai que mata o filho.

O livro está dividido em três partes; nas duas primeiras, o narrador é Cem, que, em jovem, antes de entrar para a Faculdade, esteve a ajudar um mestre a escavar um poço, em busca de água. Durante esse mês em que esteve a ajudar nas escavações, Cem conheceu uma mulher de cabelo ruivo, dez anos mais velha, com a qual acabou por se envolver sexualmente. Ela era actriz e representava uma cena do Shahnameh que fazia a assistência chorar.

Entretanto, a escavação acabou mal: quando o mestre escavava no fundo do poço, Cem deixou cair o balde em cima dele, pensou tê-lo matado e abandonou o local, sem o socorrer.

Mais tarde, Cem tornou-se um grande empresário da construção civil. Casado e sem filhos, passou os seus tempos livres a viajar pelo mundo com a mulher, procurando livros, pinturas, esculturas, que tivessem a ver com o mito de Édipo. No auge do seu sucesso como empresário, decidiu comprar os terrenos onde estava o poço que ajudou a escavar e acabaria por descobrir que, afinal, tinha um filho.

Como diz o Evening Standart na contracapa: “uma intensa parábola política que nos diz muito sobre a Turquia actual”.

Sinceramente, não me entusiasmou muito…

Outro livro de Pamuk: O Museu da Inocência (2008)

Expresso: Torturar a realidade

Estamos em crise. A inflação ronda os 10%, coisa que não se via há mais de 30 anos. Saímos da pandemia para uma guerra na Europa.

Apesar disso tudo, a economia cresce e vemos os restaurantes cheios, as ruas a abarrotar, os centros comerciais a transbordar, bons carros nas ruas, e muita gente sorridente, com bom ar. Estarão felizes?

Parece que não…

Segundo o Expresso, “Crise faz disparar roubo de comida nos supermercados”. A acompanhar este título bombástico, vemos uma foto de latas de atum dentro de caixas com alarme.

Oh diabo! Isto está assim tão mau?!

Fui ler a notícia, da autoria de Joana Pereira Bastos.

No interior do jornal, a jornalista titula:

“Conservas e pacotes de leite então entre os produtos mais roubados. Seguranças apanham cada vez mais idosos e pais que levam comida para os filhos. «São roubos para comer», alertam os supermercados.”

Quem são, afinal, esses seguranças que “apanham cada vez mais idosos e pais que levam comida para os filhos”. Lê-se a notícia e percebemos que esses seguranças se resumem a Edson Alves, segurança num supermercado da Areosa. O Edson deve ser uma boa alma, porque diz: “Prefiro que me peçam. Não sou rico, mas posso oferecer alguma coisa. Eu próprio vou à caixa pagar”.

Portanto, idosos e pais da Areosa, já sabem: em vez de roubarem, peçam ao Edson, que ele paga.

Ainda segundo a notícia, esses são “«roubos para comer», alertam os supermercados”.

E que supermercados são esses?

A mesma notícia diz que “o Auchan garante que «não tem verificado aumento de furtos em nenhuma das lojas»”.

Em que ficamos?

O que vale é que a jornalista descobriu “o responsável de uma das maiores cadeias, que prefere não ser identificado”, que diz que “está a haver um problema grave de quebra de stock por furto”.

Esta cadeia de supermercados devia perguntar ao Auchan o que lá fazem para não serem roubados, caramba!

A diligente jornalista foi também ouvir a opinião do presidente da Associação Nacional de Vigilância e Segurança Privada, que – qual sociólogo – afirma “nos últimos dois ou três meses nota-se um aumento muito significativo dos furtos de alimentos por parte de pessoas que já não conseguem sobreviver com o seu salário ou pensão. Estão desesperadas e escondem na mala ou no casaco pacotes de leite ou latas de atum para comer ou dar aos filhos”.

Este facto só vem demonstrar o falhanço rotundo do Banco Alimentar e iniciativas similares, que tão bem ajudaram as famílias durante a pandemia e que, agora, deixam os pais e os idosos desesperarem.

Voltando ao Edson, a jornalista escreve que no supermercado onde ele trabalha, a gerência, face ao aumento dos furtos, decidiu colocar alarmes no polvo congelado e na picanha e diminuir o número as quantidades de produtos expostos nas prateleiras, como acontece com o café”.

Não há dúvida de quem está desesperado para arranjar comida para os filhos, opta por roubar polvo e picanha, a 13 e 20 euros o quilo, respectivamente. Se vamos roubar, ao menos que roubemos alguma coisa de jeito!

E depois de nos batermos com um excelente polvo à lagareiro, ou um naco de picanha, sabe bem um cafezinho, roubado, claro!…

Quando temos uma ideia preconcebida, arranjamos a realidade de modo que ela satisfaça essa ideia.

Assim vai o Expresso, cada vez mais pasquim…

“O Meu Nome É Lucy Barton”, de Elizabeth Strout (2016)

Depois de ter lido “Oh William!”, fiquei com curiosidade em ler os dois livros anteriores que Elizabeth Strout escreveu, dando vida à personagem da escritora Lucy Barton.

Neste primeiro livro, Lucy conta episódios passados durante o seu internamento de 9 semanas num hospital, devido a uma apendicite que correu mal. Nesse internamento, Lucy é visitada pela mãe, que vive longe e a quem não via há anos. Lucy nasceu num meio pobre; ela, os pais e os irmãos, viveram numa garagem durante anos e a relação de Lucy com os pais sempre foi muito má, com muita falta de carinho.

Apesar de ser uma escritora com algum sucesso, Lucy não deixou de ser uma mulher simples e isso reflecte-se na sua escrita. Ao longo de 170 páginas, E. Strout, pela voz de Lucy B, vai-nos contando episódios da vida, como se estivesse sentada connosco, na nossa casa.

Elizabeth Strout encontrou um tom e conseguiu explorá-lo bem, pelo menos, nestes dois livros.

O estranho caso da hóstia diabólica

Marcelo Rebelo de Sousa anda numa roda viva e o saltitar dos fusos horários estão a dar-lhe cabo dos nervos.

Foi o funeral do Eduardo dos Santos em Luanda e o da rainha Isabel, em Londres, foi o périplo pela Califórnia e o stress do jogo de beisebol, foram os tapetes de Arraiolos em Malta e a missa em Nicósia.

À chegada a Lisboa, os jornalistas perguntaram-lhe qual era o seu comentário aos mais de 400 casos de abuso sexual de menores por parte de senhores eclesiásticos.

Marcelo disse que até nem era um número particularmente levado.

Quantas criancinhas teriam de ser abusadas para que o presidente considerasse o número aceitável?

Na minha opinião, a culpa foi da hóstia cipriota, que devia estar possuída pelo demónio e assim turvou o pensamento do nosso querido presidente.

“Mr. Loverman”, de Bernardine Evaristo (2013)

Bernardine Evaristo venceu o Booker Prize de 2019 com o excelente Rapariga, Mulher Outra (ex-aequo com Os Testamentos, de Margaret Atwood), e este Mr. Loverman, de 2013, parece uma espécie de teste para esse outro.

O livro é narrador por Barry Walker, natural de Antígua, mas emigrado em Londres desde os anos 60. Barry é casado, tem duas filhas adultas, mas a sua grande paixão, desde os tempos de Antígua, é o seu conterrâneo Morris.

Barry e Morris têm uma vida clandestina há décadas, mas isso está a ser cada vez mais difícil. Como pode Barry assumir a sua homossexualidade?

Bernardine Evaristo escreve com uma mistura de inglês e patuá e neologismos e o tradutor, Miguel Romeira, deve ter-se visto em palpos de aranha para conseguir o que eu acho ser uma excelente tradução.

“- Querida, essa tua comida é sublime, tu nasceu para cozinhar. Nunca pensou em abrir um restaurante? (…)

Mulher mais melindrosa…”

A esposa de Barry é a Carmel, com quem ele se casou ainda jovem lá em Antígua – e outra coisa não poderia fazer, porque ninguém, na sua terra, aceitaria a sua homossexualidade. Depois de ter feito as duas filhas, Barry nunca mais tocou em Carmel, mas ela também tem os seus segredos.

Barry Walker é um emigrante bem-sucedido, mas, se algum nacionalista surgir no seu caminho, não hesita em ir-se embora.

“Se em algum momento esse país começar a nazificar e outro Hitler de merda subir ao poder, posso sempre mudar-me para outro sítio mais seguro. Os mais novos desconhecem que houve um deputado conservador chamado Enoch Powell que fez o discurso «Riso de Sangue» contra a imigração, ou um movimento nos anos 70 para «mandar os pretos para a sua terra», ou que tivemos de viver paredes-meias com o ódio da Frente Nacional Britânica.”

Na página 275, esta afirmação de Barry Walker é surpreendente:

“Se África importou alguma coisa, não foi a homossexualidade, mas a homofobia, por influência dos missionários europeus, que viam a homossexualidade como um pecado. Veja-se o caso de Angola antes do colonialismo: os homossexuais eram aceites e não perseguidos. Foram os portugueses a criminalizar a homossexualidade.”

Lá mais para o fim do livro, Barry começa a assumir-se e a sua filha mais nova consegue arrastá-lo para um bar gay, onde um dos seus amigos se sai com esta:

“O Lola não o está a aborrecer, não? Já começou com aquela conversa maçadora de que Jesus era uma lésbica africana?”

Um livro divertido, não tão conseguido como o que deu o prémio a Bernardine Evaristo, mas que vale a pena ler.

“Elizabeth Finch”, de Julian Barnes (2022)

Gosto de ler o que este escritor britânico escreve. Gosto da sua escrita elegante e do seu sentido de humor. Este “Elizabeth Finch” é já o décimo livro que leio de Julian Barnes, e talvez o que menos me interessou.

Elizabeth Finch dá aulas de Cultura e Civilização a adultos. A sua pose, a sua maneira de pensar, desperta em Neil, um seu aluno e narrador do livro, uma tenção que roça o amor. Quando morre, Elizabeth deixa a esse seu aluno os seus cadernos de apontamentos e Neil decide organizar aquilo que poderá vir a ser uma biografia da professora.

No fundo, penso que Barnes utilizou este subterfúgio para nos falar de Justiniano, o Apóstata, imperador romano “escritor prolífico, que ditava com tanta rapidez que os seus taquígrafos eram muitas vezes incapazes de o acompanhar. (…) Um texto central é «Contra os Galileus», no qual ele expõe as suas objeções à religião cristã.”

Elizabeth Finch, servindo-se do exemplo de Justiniano, que dizia, por exemplo, que o cristianismo destruía os seus inimigos em nome do amor, acrescentava que “um dos segredos do êxito da religião cristã foi ter sabido servir-se sempre dos melhores cineastas”.

Um livro curioso, apenas isso.

Outros livros de Julian Barnes: Nada a Temer (2008); A Única História (2018); O Homem do Casaco Vermelho; O Ruído do Tempo (2016); O Sentido do Fim (2011); Arthur & George (2005); Amor & Etc (2000);