Abaixo as normas de aprumo da PSP!

Em nome da ALAABOC (Associação de Larápios, Arrombadores, Assaltantes, Bandidos e Ofícios Correlativos), venho manifestar a minha revolta contra as novas normas de aprumo impostas aos agentes da polícia.

Como é possível a malta agarrar na barba dos chuis e torcê-la, se é proibido os gajos usarem barbas compridas?

Quando os polícias nos apanham, como é que vamos conseguir arrancar-lhes os piercings, puxarmos os brincos e os colares, se eles estão proibidos de usarem tudo isso?

E quanto às tatuagens?

Era uma maneira que nós tínhamos para identificar tipos da bófia, quando estavam de folga – olha, ali vai aquele chui com a tatuagem da cruz suástica na nuca! E pumba, saltávamos em cima do sacana e partíamos-lhe os cornos.

Agora, tudo isso nos é vedado porque as tatuagens estão proibidas aos polícias, pelo menos aquelas mais giras, tipo as racistas e as nazis!

A ALAABOC está a organizar uma megamanifestação, juntamente com alguns dos 150 sindicatos da polícia, para exigir, junto do Governo, o fim destas normas de aprumo.

Abaixo o aprumo na PSP!

Viva a bandalheira!

“Ressurgir”, de Margaret Atwood (1972)

É o segundo romance desta escritora canadiana, bem diferente das distopias que escreveu posteriormente.

A narradora é uma jovem que se desloca, com o namorado e um casal amigo, à ilha onde viveu com os pais, durante a infância. O seu pai desapareceu e o seu objectivo é encontrá-lo.

No entanto, ao chegar à ilha e à velha casa de madeira, antigas memórias vêm à superfície, bem como dúvidas sobre a sua relação com o actual namorado, com o irmão distante, com os pais.

A pouco e pouco, a protagonista vai-se identificando com a natureza selvagem da ilha, com o lago, a floresta e, no fim, quase questiona a sua espécie.

Livro curioso, cuja atmosfera me fez lembrar alguns romances de Patricia Highsmith, porque estamos sempre à espera que qualquer coisa de muito trágico aconteça.

“Amália – Ditadura e Revolução”, de Miguel Carvalho (2020)

Ora aqui está um calhamaço que excedeu as minhas expectativas.

Miguel Carvalho, jornalista e repórter da Visão, escreveu uma longa reportagem sobre Amália Rodrigues e o modo como ela se relacionou com a Ditadura e, depois, com a Revolução.

Amália Rodrigues atingiu o topo graças ao regime fascista? Pelo contrário, Amália subiu por mérito próprio e, às escondidas, apoiava as famílias dos antifascistas presos pela ditadura? Após o 25 de Abril, a sua demonização pela esquerda foi injusta?

Isto podia ser um assunto a provocar bocejos, mas Miguel Carvalho torna-o interessante, vivo, graças a um trabalho ciclópico de pesquisa, com recolha de entrevistas publicadas em inúmeros jornais e revistas, para além de outras fontes (programas de rádio e televisão, por exemplo).

A lista de entrevistados pelo autor (da qual eu, orgulhosamente, faço parte) inclui mais de 90 nomes.

O índice onomástico, ocupa 27 páginas, incluindo nomes que eu conheci muito bem, como Álvaro Belo Marques, Raul Solnado, Júlio Isidro, Fialho Gouveia, etc.

A bibliografia consultada ultrapassa as 15 páginas.

Estes números servem apenas para mostrar o trabalho hercúleo que Miguel Carvalho desenvolveu para escrever este livro.

A minha modesta contribuição, relacionada com a rubrica Os Intocáveis, está na página 257.

Na página 456, está uma frase excelente de Zeca Afonso: “Não se mata um governante em Portugal, há 75 anos”. E eu actualizo: há 120 anos que não se mata um governante em Portugal!..

Claro que o livro de Miguel Carvalho é sobre Amália, mas, no fundo, é um retrato de Portugal, desde os anos 40, até aos nossos dias.

Recomendo e aconselho.

“Outrora e Outros Tempos”, de Olga Tokarczuk (1992)

Foi o primeiro grande sucesso desta escritora polaca que, no ano passado, foi galardoada com o Nobel.

Depois de ter lido Viagens (2007) e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos (2009), estava com curiosidade em ler este livro, escrito mais de dez anos antes – e verifiquei que Tokarczuk encontrou mesmo uma nova maneira de escrever romances.

Este Outrora e Outros Tempos podia ser um calhamaço de 600 páginas, já que a acção decorre numa aldeia polaca, e percorre a Grande Guerra, a crise que se lhe seguiu, a Segunda Grande Guerra, a ocupação nazi, a ocupação soviética, o regime comunista, a passagem para a democracia liberal.

No entanto, Tokarczuk resolve este “problema” com textos curtos, cada um deles dedicado a um dos habitantes da aldeia. É o exemplo de Mísia; assistimos ao seu nascimento, à sua infância, ao seu casamento, ao nascimento dos seus filhos, à sua velhice e à sua morte.

E o mesmo se passa com as restantes personagens, nas quais, a escritora inclui objectos, casas, móveis, árvores, porque todas elas fazem parte da aldeia.

Gostei.

A Feira do Novo Banco, a Festa do Livro e a Auditoria do Avante

Está tudo muito zangado porque a Direcção Geral da Saúde não divulga a auditoria à Festa do Avante.

Os comunistas, que a organizam, fecham-se em copas e dizem que os Trabalhadores e o Povo (tudo Com Letra Grande) estão a ser impedidos no seu direito de darem pulos no concerto dos Xutos e de gritarem vivas nos discursos do avô Jerónimo.

Se tivéssemos um Governo Patriótico e de Esquerda (também Sempre com Letra Grande), outro Amanhã cantaria!

Há quem faça a comparação entre  a Festa do Livro e a Auditoria do Avante e diga: por que raio o Presidente Marcelo Robalo de Sousa pode ir comprar livros, dos quais apenas lê as badanas (segundo José António Ressabiado Saraiva, director do Pasquim O Sol) à Festa do Livro e não pode ir beber umas minis à Auditoria do Avante?

Toda a gente já viu o Presidente Sousa a beber minis em diversos cafés e pastelarias, portanto, por que não no Avante?

Acaso as minis comunistas são menos frescas e saborosas? Têm, por acaso, menos espuma?

As televisões têm passado reportagens, muito bem elaboradas por sinal, de comerciantes da Amora que decidiram fechar as portas durante os três dias que dura a Auditoria do Avante. São papelarias, salões de beleza e imobiliárias. Dizem que até uma funerária vai fechar naqueles três dias, como forma de protesto. Os comerciantes dizem que, com tantos comunas, pode dar-se o caso de a infeção comunista alastrar na Amora…

Assim, com as portas fechadas, será impossível aos comunas que vão ao Avante, irem comprar cigarros às tabacarias, apartamentos às imobiliárias ou mesmo caixões à funerária.

Bem feita!

Quanto à Feira do Novo Banco, sabe-se que a DGS limitou a 16 mil milhões o valor dos prejuízos, mas ninguém sabe quem vai fiscalizar o cumprimento desta regra.

Ouvi ontem um proeminente pneumologista dizer que deviam ser técnicos de Saúde Pública a fazê-lo, mas não estou a ver a Dra. Graça Freitas a fiscalizar o António Ramalho, do Novo Banco, a ver se ele está a vender os imóveis a um preço que não foda a pandemia!

A Desordem dos Médicos

Conflito de interesses: estou inscrito na Ordem dos Médicos desde 1977 e continuo a pagar as quotas regularmente.

Sempre trabalhei no SNS: Hospitais Civis de Lisboa, entre 1978 e 1985, e como médico de família no mesmo Centro de Saúde, desde 1985 até à reforma, em 2018. Durante alguns meses, fiz estágio de Saúde Pública em Armamar e fiz Serviço Médico à Periferia em Mourão; fiz ainda o Serviço Militar Obrigatório, como médico, em Évora.

Durante toda a minha carreira profissional, nunca fui apoiado pela Ordem dos Médicos. Nunca frequentei cursos de actualização organizados pela Ordem, nunca senti necessidade de pedir apoio da Ordem. No entanto, para exercer, fui obrigado a inscrever-me como associado.

Quando deixei a especialidade de Psiquiatria para me dedicar à carreira de médico de família, foi o Estado que me forneceu a Formação em Exercício, um curso que frequentei, ao mesmo tempo que continuava a trabalhar no Centro de Saúde. No final dessa Formação, fiz um exame público e fui considerado especialista em Medicina Geral e Familiar. No entanto, para obter esse grau pela Ordem dos Médicos, teria de pagar uma determinada quantia. Achei que era injusto pagar por algo que a Ordem nunca ofereceu: formação. Por isso, para a Ordem dos Médicos continuei a ser, até ao fim, um simples médico de clínica geral.

Durante os 33 anos que trabalhei como Médico de Família no mesmo Centro de Saúde, frequentei diversos cursos de actualização de conhecimentos, muitos organizados pelo SNS, alguns pela indústria farmacêutica e alguns ainda, organizados por Fundações, nomeadamente, o Instituto de Cardiologia de Almada.

Nenhum organizado pela Ordem dos Médicos.

Ao longo de toda a minha carreira de 40 anos, a Ordem apenas serviu como instituição a quem paguei as quotas, sempre a tempo e horas, e que nunca se dignou sequer saber quem eu sou.

Era assim como ser sócio do Benfica e nunca ir assistir aos jogos…

Claro que nós sabíamos que a Ordem existia e lá estava, caso precisássemos dela, sobretudo em questões legais.

Felizmente, também, nunca precisei da Ordem por essas razões.

Mais eis que, desde que o Dr. Miguel Guimarães se tornou Bastonário, a Ordem se transformou numa espécie de partido político.

Miguel Guimarães aparece mais vezes nos telejornais que o líder da Oposição – e, se calhar, não é por acaso.

O homem ataca tanto o governo que até a minha irmã pensava que ele era do PCP!…

Mas não, o Dr. Guimarães é, sobretudo, um criador de problemas, já que não está interessado em fazer parte das soluções.

De todas as suas intervenções televisivas recordo aquela em que, a propósito de uma oferta de emprego para médicos, na Galiza, ele veio dizer, compungido, que, em Espanha, a profissão de médico era apreciada e venerada e, por isso, os salários eram como deviam ser. Dias depois, quando se soube que, afinal os tais salários principescos correspondiam quase a trabalho escravo, não vi o Dr. Guimarães vir dizer que, afinal, em Espanha, a profissão médica era menosprezada.

Nunca ouvi da boca daquele oftalmologista, uma palavra de elogio ao SNS.

Oftalmologista, sim…

Mas não há dúvida que vê tudo deturpado…

“O Golfinho”, de Mark Haddon (2019)

Li dois excelentes livros deste escritor britânico (Northampton, UK, 1962), “O Estranho Caso do Cão Morto” (2003) e “Um Pequeno Inconveniente” (2006).

No entanto, este “O Golfinho” (no original “The Porpoise”) deixou-me com sabor a pouco.

O livro começa com a história trágica de uma mulher grávida que sofre um acidente de avião. Ela morre, mas a bebé sobrevive.

A bebé chama-se Angélica, e o pai, Philipe, é um tipo super-rico, que cria a filha longe da sociedade e, em breve, começa a violá-la.

De repente, Angélica já é uma adolescente e vive isolada de tudo e de todos, sofrendo as violações do pai. Surge um jovem que a tenta libertar, mas as coisas não correm bem e ele é obrigado a fugir.

E eis que o jovem se transforma em Péricles, príncipe de Tiro e a história passa para a Grécia Antiga, ou coisa que o valha.

E, mais à frente, ainda há de passar por Shakespeare, e voltar à Grécia, e depois à actualidade, com Angélica a fazer greve de fome e… em resumo, uma confusão, sem ponta por onde se lhe pegue…

Não gostei…

Mas afinal, o disco é bom ou é uma merda?

Há muito tempo que não compro discos e confesso que estou um pouco arredado das novidades musicais.

No entanto, continuo a deitar um olho às críticas aos novos discos, que surgem, por exemplo, no Público ou no Expresso.

Já sei, por experiência própria, que o facto de o crítico atribuir uma ou cinco estrelas a um determinado disco, pode não querer dizer nada.

E digo por experiência própria porque já enfiei alguns barretes, à custa das cinco estrelas. Recordo o caso do cd triplo “69 Love Songs”, dos Magnetic Fields, que mereceu cinco estrelas por parte dos críticos, que elogiavam o seu autor Stephin Merritt, como se de um génio se tratasse.

Para mim, aquilo não passa de 69 pequenas cançonetas, a maior parte delas indigentes, sem qualquer originalidade.

Vem isto a propósito de mais um título bombástico, atribuído ao novo disco de Jarvis Cocker, dos Pulp, agora a solo.

A revista do Expresso gasta duas páginas com este tipo.

Uma das páginas é toda ocupada com uma foto do tal Jarvis, um senhor de 56 anos que, apesar do seu metro e oitenta e seis, calça botins de tacão alto. Apresenta-se em pose “artística”, com um pé no ar, casaco e gravata e aspecto de quem foi apanhado desprevenido.

Conheço os Pulp e acho que as suas canções são histriónicas e pouco interessantes. No entanto, o título do artigo de Luís Guerra, no Expresso, deixa-me na expectativa.

Diz ele, em título:

“25 anos depois da bola de espelhos e dos contos de alcova de “Different Class”, Jarvis Cocker dança a desagregação do mundo com o escapismo de sábado à noite”

Mas que raio de merda é esta?!

Como é que um tipo, que não passa de um cantor pop, consegue que a desagregação do mundo e o escapismo do sábado à noite se conjuguem como tema de dança?

O que quererá dizer o crítico?

Se tivéssemos paciência para ler a prosa que ocupa toda a segunda página da revista do Expresso, encontraríamos pérolas como esta:

“Com os Pulp, Jarvis Cocker substituiu matizes e impressões por canções, adornando com arabescos sentimentais a suposta vacuidade da literatura de cordel”.

Ora, um gajo que substitui matizes e impressões por canções, só pode ser um génio que,

“transformou sintomas em diagnósticos, suspeitas em delito, fluidos em transe”.

Depois de ler isto, fico com a impressão de que o Jarvis é uma espécie de médico-cantor. Um tipo diz que está com febre, e o Jarvis diagnostica síndroma depressivo e compõe logo uma canção.

A Direcção-Geral da Saúde inglesa devia contratá-lo para tentar resolver o problema do Covid.

E afinal, o disco é bom, ou é uma seca?

Diz o crítico:

“Mais cronista do que profeta, Jarvis Cocker transporta para 2020 algumas das suas obsessões mais estimadas, envolvendo em neurose os pontos negros na parede, mas desembrulhando a paranoia como um mestre da guerra formado em coreografia”.

E quem não percebe, é porque não consegue desembrulhar a paranoia…

Rui Rio chega-se ao Chega

Rui Rio gostava muito de ser primeiro ministro antes de morrer. Depois, já não lhe daria tanto gozo…

O problema é que, à esquerda, o Costa, está de costas voltadas, e, olhando à direita, Rio vê o CDS lá muito longe, escondido atrás de 3% das intenções de voto.

Um pouco mais perto, está o Chega, com cerca de 7%.

Mas o que é o Chega?

Rio é sexagenário e pertence à velha guarda, ao tempo em que os partidos tinham, no seu nome, algo de esclarecedor, tipo, socialista, comunista, liberal, esquerda, direita, democrata-cristão, centro – enfim, qualquer coisa que indicasse a ideologia do partido.

Mas Chega?!…

Chega de quê?

Chega de democracia?

É verdade que o Chega é liderado por um homem que já foi militante do PSD. Nesse caso, é de supor que Chega signifique “chega de social democracia”!

Mesmo assim, Rui Rio afirmou que, caso o Chega se tornasse mais macio, que seria possível uma coligação.

Em resposta, Ventura, o líder do Chega, disse que, por ele, até podia considerar uma coligação com o PSD, desde que este deixasse de ser a dama de honor do PS.

Foi assim que, esta noite, tive um pesadelo que me fez suar e me obrigou a tomar um alprazolam!

Nesse pesadelo, Rui Rio era primeiro-ministro e André Ventura era presidente da República e eu não conseguia emigrar!

“O Olhar do Outro”, de Maria Filomena Mónica (2020)

Sempre achei curiosa a leitura de comentários de visitantes estrangeiros ao nosso país, depois do terramoto de 1755. Li-os, esporadicamente, em artigos de jornal.

Maria Filomena Mónica fez-nos o favor de ler dezenas de publicações em que diversos autores estrangeiros comentam visitas ao nosso país, desde o século 18 ao século 20.

A lista de autores é extensa, começando com Giuseppe Baretti, logo a seguir ao terramoto, e passando por muitos outros, uns mais conhecidos que outros; destaco, apenas, William Beckford, Lord Byron, Joseph Forrester, Hans Christian Andersen, Mark Twain, Miguel Unamuno, Saint-Exupéry, Simone de Beauvoir, Sartre, Gabriel Garcia Marquez e Enzensberger.

Os diversos turistas que por cá passaram até ao final do século 19 e princípio do século 20 foram unânimes em considerar os portugueses feios, porcos e maus, as ruas de Lisboa sujas e cheias de cães e mendigos, os nobres uns pedantes iletrados e o povo, uma cambada de analfabetos, sujos e maltrapilhos.

Claro que uns mais e outros menos, acharam que o país era bonito, o povo é que nem por isso.

As coisas melhoraram um pouco, à medida que o século 20 foi avançando e, depois da revolução de abril, as visitas foram sobretudo políticas. Destas, destaco os escritos de Gabriel Garcia Marquez, que, sobre a euforia post-25 de abril, escreveu:

“Toda a gente fala e ninguém dorme. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixo da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada… Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz”.

Nem todos os visitantes do século 19 disseram mal dos trabalhadores portugueses. Forrester, que esteve por cá em 1831, escreveu:

“Têm uma aparência desleixada, mas isso deve-se a serem pobres, andarem mal calçados e estarem mal alimentados. Mas são alegres, felizes, espertos, generosos, hospitaleiros, honestos, trabalhadores, sóbrios, sofredores, perseverantes e destituídos de ambições.”

Tantos adjectivos, deixam-nos confusos!

Oswald Crawfurd visitou Portugal em 1866, mas esta sua frase podia ter sido escrita actualmente:

“Se for suficientemente rico, um nobre português vive em Lisboa ou no Porto e se tiver uma casa no campo, apenas a visita um ou dois meses no outono; e, mesmo quando é o caso, muitas vezes prefere a miséria de um casebre na praia, entre uma multidão, à vida no interior do país.”

A primeira vez que Simone de Beauvoir veio a Portugal foi em 1945, em plena ditadura salazarista.

Eis o que escreveu:

“Desde que uma miúda seja crescida, como aquela que vi a remexer nos caixotes de lixo do Porto – isto é, que tenha aí uns 14 ou 12 anos – procurará ganhar dinheiro seja de que maneira for. Das 194 prostitutas que haviam sido tratadas num centro de saúde, 43% eram menores; o governo dá uma carteira profissional às mulheres desde que tenham 14 anos.”

E mais à frente:

“O povo português sempre foi pobre. Mas desde 1939 que o custo de vida aumentou 140% e, nalguns produtos, até mais, uma vez que um fato completo que, antes da guerra, custava 350 escudos, agora custa entre 1200 a 1500… Uma lei proíbe que as pessoas andem descalças no interior da cidade de Lisboa, bem como nos arredores, mas esta gente tira os chinelos porque não os quer gastar… pois não tinha possibilidade de comprar outros (sapatos)”.

O último visitante, Enzensberger, conclui:

“Se as estatísticas fossem verdadeiras, a maior parte dos portugueses estavam mortos.”

Livro muito curioso e que fazia muita falta.