“Mrs. Caliban”, de Rachel Ingalls (1982)

Rachel Ingalls (Boston, 1940 – Londres, 2019) foi autora de diversas novelas e contos e publicou este curto romance em 1982 que, na altura, não despertou grande interesse.

Posteriormente, em 1986, o British Marketing Council considerou Mrs. Caliban como um das vinte novelas norte-americanas mais importantes desde a Segunda Grade Guerra.

Não diria tanto… mas não há duvida que este pequeno romance (125 páginas), editado no ano passado pela Cavalo de Ferro (tradução de Rita Almeida Simões), não deixa de ser curioso.

Conta-nos a história de Mrs. Caliban, uma dona de casa de meia idade, que vive nos subúrbios e tem uma vida triste: o único filho morreu há uns anos e, desde então, o seu casamento com Fred esmoreceu, ao ponto de dormirem em camas separadas. Mrs. Caliban passa a sua vida monótona a ouvir rádio, ver televisão ou a fazer tarefas domésticas.

Até que um dia, uma espécie de monstro anfíbio foge de um instituto científico e entra-lhe pela casa dentro.

Decide chamar-lhe Larry e inicia com ele, uma vida secreta, que lhe transforma os dias.

Esta história, que podia dar pano para mangas e para um daqueles romances de 600 páginas, é contada com frases simples e enxutas e “despachada” em pouco mais de 100 páginas.

Gostei.

Medidas contra a vaga de frio

68. Decorreu, esta tarde, a reunião com os especialistas.

Perante a vaga de frio que atravessamos, e depois de ouvir os especialistas, o governo aconselha o uso de gorro e luvas e, sempre que possível, as pessoas devem manter-se em casa, embora com o devido distanciamento em relação aos aquecedores, lareiras e escalfetas.

Foram estes os conselhos do primeiro-ministro, que se retirou rapidamente, esfregando as mãos e com os lábios roxos.

O líder da Oposição veio criticar o governo, dizendo que estas medidas pecam por tardias; no fim de verão, era previsível que tivéssemos uma vaga de frio e, portanto, o governo devia, então, ter tomado medidas. Agora, é tarde e vamos continuar a tiritar.

Os partidos mais à esquerda, embora concordem com o gorro e as luvas, exigem medidas de apoio à compra de aquecedores e de lenha para todos os operários, camponeses, soldados e marinheiros.

O partido liberal, pelo contrário, não está de acordo com a obrigatoriedade do uso de luvas e gorros e afirma que, se as pessoas quiserem andar de calções e havaianas, estão no seu pleno direito porque o mercado tudo regula.

Finalmente, a extrema-direita exige que acabem com os subsídios para a compra de luvas e gorros para toda aquela malta que não quer trabalhar, incluindo os que vêm de Marrocos.

“O Professor do Desejo”, de Philip Roth (1997)

Este foi o 21º livro de Philip Roth (1933-2018) que li.

Se tivesse começado a leitura da obra deste autor norte-americano por este livro, provavelmente, pensaria que não era uma escrita muito interessante. Este The Professor of Desire (edição D. Quixote do ano passado, com tradução de Francisco Agarez) não é, certamente, o livro mais interessante de Philip Roth e, talvez por isso, a D. Quixote, que tem editado toda a obra de Roth, foi deixando para mais tarde este volume.

No entanto, para quem conhece bem a obra deste escritor judeu, O Professor do Desejo é mais do mesmo: neste livro, o narrador é, mais uma vez, um professor universitário judeu, neste caso, David Kepesh que, enquanto estudante, tentou conquistar todo o rabo de saia e, posteriormente, viveu aventuras sexuais intensas, mas sempre pouco satisfatórias.

Mais tarde, casou com uma gentia, com quem teve um relacionamento intenso e doentio. Divorciado, viveu momentos de depressão recorreu à terapia psicanalítica e acabou por conhecer uma jovem professora do ensino básico e com ela viveu momentos de felicidade e tranquilidade. Seria isso suficiente para este professor, incapaz de se sentir totalmente satisfeito?

Para além destas aventuras e desventuras, os anseios, medos e sonhos da comunidade judaica a viver nos Estados Unidos, está sempre presente como pano de fundo.

Recomendo a leitura, para quem gosta de Philip Roth.

Outras obras de Philip Roth: O Caso Shylock (1993), Quando ela Era Boa (1966); Lição de Anatomia (1983); Os Factos (1988); Engano (1990); Goodbye Columbus (1959); Nemesis (2010); A Humilhação (2009); O Complexo de Portnoy (1969); Indignação (2008); O Fantasma Sai de Cena (2008); O Animal Moribundo (2001); Património (1991); Todo-o-Mundo (2006); Pastoral Americana (1997); A Conspiração Contra a América (2004); Casei Com Um Comunista (1998) e ainda O Teatro de Sabbath (1995), O Escritor Fantasma (1979) e A Mancha Humana (2000).

“Poses – Linguagem Corporal na Arte”, de Desmond Morris (2019)

Quando tomei conhecimento da edição deste livro, pensei que seria uma reedição de alguma obra antiga. Será que o Desmond Morris ainda é vivo?

É que um dos primeiros livros que comprei foi, exactamente O Macaco Nu, de Desmond Morris, livro publicado em 1967 e que eu comprei em 1970.

Claro que Desmond Morris está vivo – e bem vivo, pelos vistos, tendo publicado este Poses no ano passado. Nascido em Purton, Reino Unido, em 1928, Morris fará 93 anos este mês.

Poses é uma excelente edição da Bizâncio, com tradução de Maria Carvalho, capa dura, óptimo papel e reproduções irrepreensíveis.

Morris dividiu o livro em nove partes: saudações, bênçãos, estatuto, insultos, ameaças, sofrimento, autoprotecção, erótico e em descanso.

Em cada uma destas partes, mostra-nos como a arte reproduziu estas atitudes do ser humano ao longo dos tempos.

Apenas como exemplo: no capítulo insultos, podemos apreciar obras (pinturas e/ou esculturas) a fazer caretas, a deitar a língua de fora, a levar o polegar ao nariz, a fazer gestos com os dedos, gestos com as mãos, a fazer o manguito ou a mostrar as nádegas.

Ao longo das suas cerca de 300 páginas, podemos admirar obras de inúmeros autores, nomeadamente, Notticelli, Bosch, Gustave Courbet, Paul Cézanne, Dali, Paul Klee, Gustav Klimt, Manet, Matisse, etc. – acompanhadas pela interpretação, sempre curiosa, de Desmond Morris.

Aconselho vivamente.

Trump e a invasão do Capitólio

A 12 de novembro de 1975, operários da construção civil e não só, cercaram a Assembleia da República e sitiaram o governo.

Na altura, o primeiro-ministro, era o almirante Pinheiro de Azevedo, o almirante sem medo.

Zangado, o truculento almirante disse que não gostava de ser cercado e gritou, para quem o quis ouvir, “bardamerda para os fascistas!”

Há versões diferentes, mas todas concordam no bardamerda.

E também todos concordam que Pinheiro de Azevedo, vendo o fumo resultante de gás lacrimogénio, terá gritado: O povo é sereno, é só fumaça!

O que é certo é que era só fumaça, o povo português é mesmo sereno, acabou por dispersar e bardamerda para a revolução, foi o que foi.

Esta semana, no Capitólio norte-americano, não foi só fumaça, até porque aquele povo está longe de ser sereno.

Incentivado pelo derrotado Trump, algumas centenas de manifestantes, onde se destacava uma espécie de veado, de tronco nu e peludo, coberto por uma pele de urso e encimado por um par de cornos, invadiu o Capitólio, conseguiu entrar e interromper os trabalhos de confirmação da vitória de Joe Biden.

A polícia não conseguiu deter os invasores e Trump acabou por ser banido do Twitter e do Facebook, para que não publicasse mais palavras incendiárias.

Tudo acabou com cinco mortos e dezenas de detenções e, muito mais tarde, a sessão foi retomada e Joe Biden e Kamala Harris lá foram confirmados.

Ao vermos as imagens da invasão do Capitólio, não pudemos deixar de nos recordar de imagens semelhantes, em Caracas, por exemplo. A Venezuela de Maduro, que Trump tantas vezes ridicularizou, afinal, não está assim tão longe dos States.

Temos agora dois candidatos a presidente, o liberal Tiago Mayan e o grunho André Ventura que, sempre que querem denegrir os candidatos mais à esquerda, evocam a Coreia do Norte e a Venezuela.

Têm de começar também a citar os Estados Unidos de Trump…

Vacinem os canalizadores primeiro!

O eminente bastonário dos Médicos, depois de ter sido vacinado contra a covid, lembrou-se de questionar as prioridades na vacinação, e propor que se vacinassem, já os idosos que não estão nos lares.

Não estou de acordo!

Já vos aconteceu acordarem num domingo de manhã com a casa inundada porque rebentou o cano da sanita?

Experimentem, e vão ver que não é agradável.

Telefonámos para o Sr. Leonel, o canalizador aqui da região. A esposa informou que não podia vir porque estava em isolamento profilático; pelos vistos, esteve num congresso de canalizadores e andavam por lá uns colegas assintomáticos, mas infectados com o bicho. Resultado: todos em isolamento durante dez dias; por conseguinte, não há canalizadores nos próximos tempos.

É por isso que eu acho que os canalizadores deviam ser vacinados já nesta primeira fase.

“Os Doentes do Dr. Garcia”, de Almudena Grandes (2017)

Almudena Grandes (Madrid, 1960), conhecida, sobretudo, pelo livro “As Idades de Lulu”, lançou “Os Doentes do Doutor Garcia” em 2017, e a Porto Editora editou-o agora, com tradução de Helena Pitta.

Na capa, diz-se que se trata de “um arrebatador romance de espionagem”, mas os espiões são apenas uma pequena parte desta história, que começa nos anos 30 do século XX e se prolonga atá ao final dos anos 70, com a acção a desenrolar-se em Madrid e Buenos Aires.

Pelo livro passam centenas de personagens; tantas que a autora se sentiu na obrigação de fazer uma lista. No final do livro, podemos consultar essa longa lista, verificando quais as personagens reais e quais a que Almudena Grandes inventou para construir a história.

São duas, as principais personagens: o Dr. Garcia e o seu amigo Manuel Benitez. São ambos republicanos e, depois de Franco assumir-se como ditador e depois de Hitler perder a guerra, envolvem-se numa rede que safa criminosos de guerra, enviando-os para a Argentina com identidades falsas. O objectivo dos dois amigos, é infiltrarem-se nessa rede e, depois, denunciá-la aos americanos, que andavam atrás dos nazis fugidos.

Não foi fácil seguir esta história ao longo das suas mais de 700 páginas, sobretudo devido ao grande número de personagens que, ainda por cima, têm, por vezes, dois nomes, o verdadeiro e o falso…

No entanto, fiquei a conhecer um pouco mais da história da guerra civil espanhola, da colaboração dos falangistas com os nazis, de Péron com Franco e do modo como os norte-americanos acabaram por apoiar o ditador espanhol, já que ele era anti-Estaline.

A autora termina o romance com uma frase reveladora da sua posição política: “Pela honra da República”.

McCartney III (2020)

A desculpa é a seguinte: Paul McCartney esteve confinado por causa da covid 19 e decidiu gravar um disco, em que toca todos os instrumentos, tal como já tinha acontecido no disco de 1970, o primeiro a solo, depois do fim dos Beatles, e no de 1980.

Portanto, este é o McCartney III, o terceiro disco em que o ex-Beatle canta, faz os coros, toca todos os instrumentos e produz o disco.

Temos de dar algum desconto, porque o homem tem 78 anos e, com o passado que tem, pode fazer o que lhe apetece, mas o disco é banal e ouve-se sem nenhum sobressalto.

Como ele diz, na canção Seize the Day, “dinossaurs and Santa Clauss will stay indoors tonight”.

É o que apetece, quando se ouve este disco, ficar em casa.

Por que raio este ancião lançou mais um disco?

Porque pode.

Acredito que lhe deve ter dado muito gozo, mas… o que já foi, não volta a ser…

“Epidemias e Sociedade”, de Frank M. Snowden (2019)

Aqui está um livro oportuno e que todos os “especialistas” televisivos deviam ler, antes de fazerem os seus comentários alarves sobre a pandemia do coronavírus.

Frank M, Snowden é o pseudónimo do professor de História da Medicina da Faculdade de Yale, de seu nome Andrew Downey Orrick (N. 1946).

O livro começou como um curso de licenciatura na Universidade de Yale, tentando responder às preocupações sobre as epidemias emergentes, caso do ébola, gripe das aves e SARS. As aulas destinavam-se a alunos de Medicina e a cientistas em post-graduação.

Snowden pegou nessas aulas e transformou-as neste excelente calhamaço de quase 700 páginas, abordando as três epidemias da peste, a varíola, a influência da febre amarela, da disenteria e do tifo nas grandes derrotas de Napoleão, as correntes médicas de Paris, o movimento sanitário e a teoria dos germes, as epidemias de cólera, a tuberculose, a malária na Sardenha, a poliomielite, o VIH/sida, a SARS e o ébola.

Apesar do livro ter sido lançado antes do aparecimento do novo coronavírus, Snowden, de certo modo, já previa o aparecimento de uma nova pandemia e alertava para o facto de o mundo, apesar de todos os ensinamentos do passado, não estar preparado para a enfrentar.

Uma imagem com texto, livroDescrição gerada automaticamenteO autor acrescentou uma pequena introdução, já este ano, onde diz, nomeadamente que “como todas as pandemias, a do covid 19 não é um acontecimento acidental e aleatório”.

Snowden faz questão de contextualizar todas as pandemias, mostrando-nos que todas têm contornos sociológicos bem definidos, atacando, quase sempre, as classes mais pobres. Por outro lado, a luta contra as pandemias tem sido, quase sempre, titubeante, por razões económicas, ideológicas e políticas.

Cito apenas três ou quatro passagens do livro, apenas para mostrar o tom do texto.

Sobre a varíola nos Estados Unidos:

“Devemos acrescentar aqui o facto de que as mortes espontâneas dos americanos nativos foram às vezes reforçadas por genocídios intencionais. O precedente foi estabelecido pelo oficial do exército britânico, Sir Jeffery Amherst, que introduziu o genocídio na América do Norte quando deu deliberadamente cobertores infectados com varíola aos nativos americanos, para os «reduzir».

Sobre a tuberculose e o medo que ela provocou, quando a epidemia se espalhou no final do século 19:

“os bancos esterilizavam as moedas e o Departamento do Tesouro retirava as notas antigas e emitia substitutas não contaminadas. De acordo com o Laboratório de Pesquisa de Nova Iorque, os testes determinaram que as moedas de penny sujas apresentavam uma média de vinte e seis bactérias vivas cada uma e as notas sujas, setenta e três mil.

As barbas e os bigodes deixaram de ser preferência, depois de terem estado na moda durante a maior parte da segunda metade do século XIX. As bactérias poderiam aninhar-se entre os bigodes e cair no prato de outra pessoa, ou passar de lábios durante um beijo”.

Com a erradicação da varíola e o quase desaparecimento da poliomielite, mais o advento dos antibióticos, as autoridades de saúde de todo o mundo pensaram que tinham ganho a guerra contra as doenças infecciosas:

“em 1992, o governo federal dos Estados Unidos atribuiu apenas 74 milhões de dólares para a vigilância das doenças infecciosas, enquanto os funcionários da saúde pública davam prioridade a outras preocupações, como as doenças crónicas, u usio do tabaco, a geriatria e a degradação do ambiente.”

Quanto à recente epidemia do ébola e a falta de preparação dos países africanos para a enfrentar, Snowden dá uma valente chapada nos liberais:

“Um tal grau de falta de preparação resultou de uma combinação de circunstâncias, que ainda se verificam hoje. Uma é o tratamento da saúde como uma mercadoria no mercado, em vez de ser um direito humano. Bem antes da erupção do ébola, as decisões do mercado evitaram que a África Ocidental tivesse as ferramentas para enfrentar a emergência. As farmacêuticas priorizaram o tratamento das doenças crónicas das nações industrializadas, onde se pode ter lucros, em detrimento do desenvolvimento de drogas e vacinas para as doenças infecciosas dos pobres.”

Portanto, estamos perante uma obra fundamental para perceber as pandemias, incluindo a do coronavírus.

O livro foi editado por cá em outubro passado, pelas Edições 70. A tradução é de Alexandra Cardoso, Pedro Vidal e Rui Santos. A este triunvirato apenas tenho de chamar a atenção para a página 470, onde se diz “esplenomegália, um doloroso inchaço do pâncreas”.

Não é. Esplenomegália é o aumento do volume do baço…

Alguém levantou uma pedra..

E de lá começaram a sair lacraus há muito escondidos.

Santana Lopes, Cavaco Silva e até Passos Coelho.

Gostava de saber o que o PPC diria a esses queixinhas que andam para aí, choramingando por causa das medidas do estado de emergência.

Agora com o seu novo look descapotável, Passos Coelho parece querer voltar à ribalta.

Quando o PSD se estatelar nas autárquicas, estará pronto para triturar o Rui Rio e regressar, triunfante, para gáudio do Vent$ra…