Toda a verdade sobre o coronavírus

Chegou o momento de falar verdade sobre o coronavírus.

Em primeiro lugar, dizer que é essencial que, antes de escrevermos ou dizermos a palavra “coronavírus”, devemos sempre precedê-la do adjectivo “novo”. Não será correcto dizer, por exemplo, o “horrível coronavírus”, o “destrutivo coronavírus”, nem mesmo “a merda do coronavírus” – mas sempre, o “novo coronavírus”.

Em segundo lugar, dizer que os técnicos de Saúde Pública, sobretudo os portugueses, há muito tempo que nos escondem a verdade.

Como é possível que ainda haja pessoas que acreditam no que os médicos e epidemiologistas dizem, quando temos tantas provas expostas por milhares de utilizadores do Facebook e do Whatsapp, que mostram exactamente o contrário?

Dizem os especialistas, por exemplo, que o vírus foi transmitido por um morcego a um pangolim que, vendido para consumo num mercado de Wuhan, na China, desencadeou a epidemia.

Claro que esta versão é tão incrível que vê-se mesmo que foi inventada pelas autoridades chinesas para esconder a verdade.

E a verdade é que este novo coronavírus foi desenvolvido em laboratório para ser lançado em território norte-americano, para lixar a economia yankee, mas um tubo de ensaio cheio de vírus partiu-se e os bichos espalharam-se pela cidade de Wuhan.

Como já se percebeu, graças a dezenas de posts nas redes sociais, os chineses fizeram de conta que nada daquilo tinha acontecido e, quando decidiram actuar, já o novo coronavírus (notem que o adjectivo “novo” nunca falha) estava à solta.

E quanto a Portugal?

É tudo pior, como é evidente.

O SNS não está preparado, não há pessoal médico e de enfermagem, máscaras, nem vê-las, e, apesar da ministra dizer que já encomendaram um milhão delas, sabemos que é tudo mentira. Toda a gente viu no facebook que só encomendaram 250 mil e que são feitas na China, portanto, já devem vir contaminadas de origem.

E o número de infectados que eles dizem, todos sabemos que não corresponde à verdade. São muitos mais. Os hospitais estão um caos, como comprovam diversas mensagens de voz divulgadas pelo insuspeito Whatsapp. Há até algumas de médicos. Há uma mensagem de uma médica que, coitadinha, quase que chora, a dizer que o hospital onde ela trabalha está praticamente juncado de mortos.

Esta é outra mentira propalada pelas fontes oficiais, a de que só estão nove doentes em cuidados intensivos.

Como é possível afirmar isto quando vemos, dia após dia, no Facebook e não só, que são centenas. Ainda ontem, numa loja perto da minha casa, uma senhora que tinha ar de ser entendida, me assegurou que já tinham morridos várias pessoas com o novo coronavírus – eles é que estão a esconder isto de todos nós…

E é esta a verdade sobre a epidemia do novo coronavírus.

Tudo o resto é fantasia…

Meet Vincent Van Gogh

Montaram uma enorme tenda no Terreiro das Missas, mesmo em frente ao Palácio de Belém, mas o ilustre inquilino não está lá. Marcelo decidiu colocar-se em quarentena voluntária na sua casa; há alguns dias, recebeu, em Belém, alunos de algumas turmas de uma escola de Felgueiras e, dias depois, soube-se que um desses alunos testou positivo para o novo coronavírus.

Como bom hipocondríaco, Marcelo recolheu-se a casa, até porque, tendo já feito um cateterismo, é um doente de risco.

Voltando à Exposição… não é uma coisa absolutamente espectacular e imperdível, mas não há dúvida que Meet Vincent Van Gogh é uma maneira inovadora de tomar contacto com a vida e obra do pintor.

Ao longo de várias salas, vamos percorrendo alguns locais por onde Van Gogh passou e viveu, um café, o quarto, o hospital psiquiátrico.

Podemos sentar-nos e tentar desenhar, como ele desenhou, sentir as camadas de tinta dos seus óleos, em reproduções 3D, entrar no seu quarto e tirar uma foto – aliás, tirar muitas fotos. Diversos écrans permitem-nos estudar algumas das suas pinturas e as técnicas que ele usou. As cartas que Van Gogh trocou com o irmão Theodor servem de pano de fundo à sua biografia

No final, um painel junta diversas homenagens ao pintor e um outro, muito maior, junta reproduções de todas as suas obras.

Vale a pena visitar.

“Essa Gente”, de Chico Buarque (2019)

Um livrinho que se lê em duas penadas.

Está escrito como um diário e em tom coloquial, usando, muitas vezes, palavras e expressões especificamente brasileiras que quase precisariam de tradução. O que vale é que o famigerado Acordo Ortográfico proporcionou uma unidade da língua portuguesa…

O protagonista da história é Duarte, um escritor de 66 anos que já teve os seus dias, tendo publicado diversos romances com muito êxito.

Agora, está encravado na escrita de um romance e não consegue dar-lhe a volta. Entretanto, está falido e, do ponto de vista emocional, saltita entra as duas ex-mulheres e uma holandesa muito mais jovem, namorada de um vigilante de praia.

Com algumas bicadas ao governo de Bolsonaro, sem nunca o nomear, e com passagens em que se mistura o sonho com a realidade, é um livro que se lê com agrado, mas que não deixa muitas saudades.

(Edição Companhia das Letras)

Leituras da aura e ofícios correlativos

Se eu quiser abrir um consultório médico, não me basta ter o curso de Medicina.

Tenho que encontrar um espaço que preencha todas as condições que a lei exige, nomeadamente, lavatório em todos os gabinetes, saída de emergência, acesso a pessoas com deficiência. Além disso, tenho que me inscrever na Entidade Reguladora da Saúde.

A coisa dá tanto trabalho que mais vale, por exemplo, começar a ler auras.

Li na Visão desta semana que abriu, ali para os lados do Estoril, um novo estúdio de ioga.

Uma das suas proprietárias disse à revista que “também temos terapias holísticas, medicina chinesa, life coach, fazemos leitura da aura, equilíbrio de chakras e meditação com óleos essenciais, como o de hortelã-pimenta para despertar e o de lavanda para relaxar”.

Acrescente-se que esta menina estava a estudar Gestão em Madrid mas “congelei a matrícula, não gostava do curso”. Então, durante umas férias, iniciou-se no ioga através do You Tube.

Ora aí está o que é!

Andei eu a queimar as pestanas durante 6 anos, mais os dois de internato e mais a especialização, quando o YouTube me daria a capacidade para equilibrar chakras ou meditar com hortelã-pimenta.

Sou mesmo totó!

“Conduz o teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk (2009)

Depois de ler o excelente Viagens, desta escritora polaca, fiquei com muita vontade de ler este Conduz o teu Arado…

Claro que, entretanto, o livro tinha desaparecido dos escaparates. Felizmente, a escritora ganhou o Nobel da Literatura e o livro foi reeditado.

Acabei de o ler ontem e não há dúvida que esta senhora merece toda a nossa atenção.

Nascida em 1962, Olga T. tem uma escrita aparentemente simples, mas cheia de camadas.

Este romance é narrado por Janina Duszejko, uma professora reformada que vive num ermo, onde, durante o inverno, toma conta de algumas casas de campo.

Janina é astróloga amadora, vegetariana e grande defensora dos animais; uma vez por semana, ainda dá aulas de inglês, numa vila próxima. Também uma vez por semana, ajuda um jovem da vila a traduzir os poemas de William Blake; é desse escritor a frase que dá o nome ao livro.

A certa altura, um dos poucos vizinhos de Janina aparece morto, aparentemente por se ter engasgado com um osso de uma corça que ele caçara. Mais tarde, morre o presidente do clube de caça da vila, o chefe dos bombeiros, até o padre.

E uma história bucólica começa a transformar-se num romance policial macabro.

Duas frases que destaco:

Página 120: “numa antiga tradição, para lutar contra os pesadelos é preciso contá-los em voz alta para a sanita e, depois, puxar o autoclismo!”

Página 179: “a saúde é um estado incerto e não augura nada de bom. Mais vale viver tranquilo com uma doença, porque assim pelo menos já sabemos do que vamos morrer”.

Aconselho vivamente!

(Edição Cavalo de Ferro; tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz)

Coronavírus, esse ingrato

Acabei de saber que ainda não há nenhum português infectado com o coronavírus. Foram já testados mais de 50 portugas e todos deram negativo.

Correcção: já existem dois heróicos portugueses infectados, mas estão no Japão e não contam para esta contabilidade. Eles sim, são verdadeiros cidadãos do Mundo – enquanto nós, cá continuamos nesta triste paróquia, sem nenhum caso confirmado.

Até a Nigéria e o Barhein já têm casos de coronavírus – e nós, nada!

Apesar de todos os esforços para acompanharmos o resto da Europa – e estes últimos anos, até nos temos aproximado um pouco da média europeia – apesar de todos os esforços do Centeno, é vê-la muito à frente.

Itália, Alemanha, Espanha, França, Croácia, todos com casos confirmados e Portugal, sempre o mesmo atrasado!…

O que se passa, afinal?

O coronavírus não quer nada connosco? Chega ali a Vilar Formoso e volta para trás? Nunca ouviu falar de Portugal? É daqueles que pensa que somos uma província espanhola?

Ou então, os testes do Ricardo Jorge dão todos negativos porque foram comprados na candonga, por causa das cativações do Centeno.

Seja como for, eu se fosse ao Sexta às Nove ou àquela senhora da TVI, cujo nome me escapa, fazia já uma investigação porque isto traz água no bico e pode muito bem ser a ponta de um iceberg que meta fraude, evasão fiscal e compadrios vários.

O problema é que temos muita gente a contar com o coronavírus para acabar com o Serviço Nacional de Saúde, de uma vez por todas.

Os que defendem os cuidados de saúde privados, por razões óbvias; estão desejando que os tais milhares de infectados caiam nos hospitais públicos para que o caos se instale.

Os que dizem defender o SNS estão em pulgas para que isso aconteça para depois dizerem “nós bem avisámos”. Os das ambulâncias, porque são poucas e o material é obsoleto, os dos enfermeiros porque são poucos e não progridem nas carreias, os dos médicos, porque estão todos à beira da reforma e os serviços de urgência não estão preparados.

E perante tudo isto, o coronavírus faz-nos um manguito e vai infectar para outras paragens.

Ingrato!

“O Evangelho das Enguias”, de Patrik Svensson (2019)

Patrik Svensson é um jornalistas de artes e cultura sueco, nascido em 1972 que, através deste livro, decidiu homenagear o seu pai, um operário que se dedicava ao trabalho duro de asfaltar estradas e, que por causa disso, faleceu com apenas 60 anos de idade.

A infância do autor foi passada numa casa, junto a um riacho, onde, com frequência, ia pescar enguias com o seu pai.

A partir dessas memórias agradáveis e felizes, Svensson estudou a fundo o enigma das enguias, peixe que interessou Aristóteles, Freud e muitos outros.

Esse interesse universal pela enguia está relacionado com os mistérios que envolvem esta espécie que, segundo se pensa, desova no Mar dos Sargaços, embora nunca ninguém tenha visto uma enguia adulta nessas paragens.

Ao longo de vários capítulos, Svensson vai descrevendo os estudos, experiências e descobertas que se fizeram, ao longo dos séculos, relacionadas com as diversas metamorfoses da enguia e, ao mesmo tempo, relata episódios da sua infância, em que entra sempre o seu pai.

Um livro muito curioso, que vale a pena ler.

“Parasitas”, de Bong Joon-ho (2019)

Não costumo ligar muito ao facto de um determinado filme ganhar o Óscar; já enfiei alguns barretes com filmes vencedores do prémio do melhor filme.

Desta vez, no entanto, fiquei curioso.

Quando o filme estreou, não lhe dei a devida atenção (aquele preconceito: filme coreano? deve ser uma seca…).

O facto de ter ganho o óscar, no entanto, acabou por me despertar a curiosidade.

Acresce o facto do Pedro ter dito que o viu três vezes – e eu confio no gosto cinematográfico do meu filho.

Mesmo assim, se, por qualquer motivo, eu não tivesse ido ver o filme, o facto do palerma do Trump ter dito, num comício, que não percebia por que raio é que “Parasitas” ganhou o óscar, teria sido suficiente para eu ir a correr vê-lo.

É um grande filme – atrevo-me a dizer, Tarantino style, com as devidas e enormes diferenças, a começar por ser feito por coreanos.

O filme conta-nos a história de uma família de pai, mãe, filho e filha, todos desempregados e a viver numa cave de um bairro muito degradado.

Um amigo do filho arranja-lhe um trabalho: dar explicações de inglês a uma adolescente, filha de um casal bem instalado na vida, com casa desenhada por arquitecto famoso, com governanta e tudo.

O rapaz é um sucesso como explicador e, com manhas e artimanhas, toda a sua família acaba a trabalhar para os ricalhaços: a sua irmã, como professora de arte, o pai, como motorista e a mãe, como governanta.

O filme está cheio de situações hilariantes, diálogos e cenas bizarras. Lembrei-me do Tarantino por causa desses diálogos, digamos, deslocados (o rapaz diz, como alguma frequência, “isto é muito metafórico!”) e por algumas cenas, como aquela em que a governanta e o marido dançam, ao som de um disco de um cantor italiano dos anos 70.

O final, é apoteótico, com quatro mortes e uma lição de moral.

Muito bom!

“O Corpo – um guia para ocupantes”, de Bill Bryson (2019)

Mais um excelente livro deste autor norte-americano, a viver há muitos anos na Grã-Bretanha.

Desta vez, Bryson debruça-se sobre o corpo humano e fala-nos dele com abundância de estatísticas, notas históricas e bom humor, como é seu timbre.

Começando na pele e no cabelo, passando pelos diversos órgãos internos e terminando na morte, Bryson consegue uma obra honesta, sem falsas verdades, tão comuns em livros sobre temas médicos.

Bryson deve ser um verdadeiro rato de biblioteca, pesquisando tudo e mais alguma coisa e conseguindo, com esse trabalho de sapa, encontrar histórias curiosas; como esta, na página 89, sobre a “moda” das lobotomias, técnica inventada por Egas Moniz:

“Nos Estados Unidos, um médico chamado Walter Jackson Freeman ouviu falar do processo de Moniz e tornou-se o seu acólito mais entusiástico. Ao longo de quase 40 anos, Freeman percorreu o país a fazer lobotomias a praticamente todos os pacientes que lhe colocavam à frente. Numa dessas viagens, lobotomizou 225 pessoas em 12 dias.”

No capítulo dedicado aos microorganismos, Bryson cita um estudo curioso, na página 130:

“Num estudo chamado “Bacterial Transfer Associated with Blowing Out Candles on Birthday Cakes”, a equipa de Dawson descobriu que soprar para apagar as velas de um bolo aumentava a cobertura de bactérias em cima dele, em 1400%.”

Na página 316 Bryson cita o caso de outro cirurgião compulsivo:

“Henry Cotton convenceu-se de que os distúrbios psiquiátricos não se deviam a perturbações do cérebro, mas sim a intestinos com malformações congénitas, e embarcou num programa de cirurgias para o qual não tinha, aparentemente, qualquer aptidão. Conseguiu matar 30% dos seus pacientes e não curou nenhum – porque, na verdade, nenhum tinha algum problema que pudesse ser curado. Cotton entusiasmou-se também com a extracção de dentes e arrancou quase 6500 dentes (uma média de 10 por paciente), num único ano, 1921, sem recorrer a qualquer anestesia.”

Falar de coisas sérias com um toque de humor, sem ser idiota, não é nada fácil, mas Bryson consegue-o.

Um exemplo, na página 357, sobre reprodução:

“É um pouco difícil saber o que pensar sobre os espermatozóides. Por um lado, são heróicos: os astronautas da biologia humana, as únicas células concebidas para sair do nosso corpo e explorar outros mundos. Por outro lado, são idiotas desorientados. Quando vão parar ao útero, parecem curiosamente mal preparados para a única tarefa que a evolução lhes atribuiu”.

Depois de ter escrito livros de viagens, de ter dissertado sobre as peculiaridades dos ingleses e dos americanos, de ter abordado as várias divisões de uma casa, de ter escrito uma história de quase tudo – Bryson escreve agora, com brilhantismo, sobre o corpo humano.

Aconselho vivamente.

(Edição Bertand, tradução de Elsa T. S. Vieira)

Outros livros de Bill Bryson: Made in America, Notas Sobre um País Grande, Por Aqui e Por Ali, Crónicas de Uma Pequena Ilha, A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, Em Casa – Breve História da Vida Privada, 1927 – Aquele Verão, Regresso à Pequena Ilha.

Um partido sexy que tira para fora

O CDS tem um novo líder.

Chama-se Francisco Rodrigues dos Santos, mas todos lhe chamam Chicão.

Quando era pequenino, era o Chiquinho, mas depois foi para o Colégio Militar e passou a ser Chicão.

Chiquinho era mariquinhas de mais para um aluno do Colégio Militar.

Chicão tem 31 anos e diz que é conservador.

Foi ao Congresso do CDS acompanhado pela noiva. Note-se que não é namorada, é noiva, que é um estatuto muito mais sério.

Chicão quer um CDS mais encostado à direita. Um CDS onde os militantes se cumprimentem com um único beijinho. Sabemos que é contra a adopção por casais do mesmo sexo, contra o casamento entre homossexuais e contra o aborto.

Como o lugar das mulheres deve ser em casa, a tratar da prole numerosa, a nova direcção do CDS só tem homens. A política é coisa de homens, evidentemente.

No seu discurso, disse que, “Quando o combate aperta até fascistas somos todos”. Todos, os do CDS, presume-se.

Portanto, já sabemos ao que o Chicão vem…

Disse, também, que quer transformar o CDS num partido sexy.

Ora, sendo contra o aborto, ou opta pela abstinência, ou tira para fora.