Bifexit

March 22nd, 2019

Em Junho de 2016, os britânicos votaram a favor da saída da União Europeia.

A esse movimento original – já que foi a primeira nação a querer sair da UE – decidiram chamar Brexit. Os anglo-saxónicos sempre tiveram jeito para dar nomes às coisas.

Estamos em março de 2019, quase três anos depois do referendo, e os ingleses não conseguem sair da União Europeia.

Em vez de Brexit temos Britstuck.

Os ingleses sempre deram ares de emproados, com a sua monarquia, a sua moeda própria, as suas séries da BBC. Nunca gostaram muito de misturas com os europeus do continente e, na verdade, nunca se sentiram como fazendo parte da Europa.

A Grã-Bretanha sempre teve a mania das grandezas, até pelo nome. Enquanto o palerma do Trump “wants to make America great again”, a Britain sempre foi Great, ao contrário da Bretanha francesa que, por oposição, tem que ser pequena.

No entanto, tirando o Churchill, a Diana e os Beatles, poucos mais nomes sabemos de cor. Todos os outros, são irlandeses (Samuel Beckett, Oscar Wilde, James Joyce, Bernard Shaw…)

Aqui, em Portugal, era costume apelidarmos os ingleses de “bifes”, talvez porque preferissem carne, em vez de peixe – o que não deixa de ser curioso, já que, vivendo numa ilha, seria natural que gostassem mais de peixe.

Mas essa particularidade já demonstrava uma certa bizarria no comportamento – consubstanciada agora com esta dificuldade em sair de um sítio onde nunca quiseram estar.

A pobre da Theresa May já se submeteu a três votações naquele parlamento que nem lugar tem para todos os deputados, e quye é liderado por um tipo que grita “ORDER!” e usa gravatas ridícdulas, e perdeu sempre.

Conseguiu, agora, que a UE prolongasse o prazo da saída por mais um mês, mas o resultado vai ser o mesmo: os deputados britânicos querem sai da Europa, mas não querem sair da Europa.

É pena os Monty Python já estarem reformados… quantos  sketchs fariam eles à conta deste Bifexit!…

“A História de uma Serva”, de Margaret Atwood (1985)

March 22nd, 2019

Só agora me dispus a ler este romance de Margaret Atwood (Otawa, Canadá, 1939), escritora sobejamente conhecida, com inúmeras obras publicadas, entre elas, O Assassino Cego (Booker Prize de 2000).

E só agora o decidi ler porque, mais de trinta anos depois da sua publicação, a sua autora decidiu escrever um segundo livro, que deverá ser uma espécie de continuação do primeiro, e esse facto foi largamente noticiado e acabou por me despertar a curiosidade.

Confesso que o livro não me entusiasmou por aí além. No que respeita a distopias, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1931) e 1984, de George Orwell (1949), estabeleceram níveis difíceis de atingir, muito menos de superar.

No entanto, a história que Atwood inventou está bem urdida e deixa-nos alguma água na boca, na medida em que muita coisa é sugerida, mas pouca coisa é revelada. Por exemplo, como é que os Estados Unidos se transformaram naquela bizarra República de Gileade, onde ficam as colónias, terá havido uma catástrofe nuclear, etc.

O mais curioso do livro acaba por ser a “semelhança” entre essa República de Gileade e a actual administração de Donald Trump. E coloco muitas aspas na semelhança, evidentemente. No entanto, o puritanismo evangélico, um certo desprezo pelas mulheres, a crença na supremacia dos brancos – tudo isso cheira à América de Trump.

No fundo, Margaret Atwood inventou uma espécie de Daesh cristão, décadas antes do próprio Daesh.

Vale a pena ler, quanto mais não seja para podermos ler a sua sequela, a editar já este ano.

Tavares pobre

March 19th, 2019

Há um restaurante muito famoso na Rua da Misericórdia (também conhecida como Rua do Mundo, por razões que a malta de hoje não percebe) – restaurante esse que se chama Tavares, mas que é conhecido como Tavares Rico. O adjectivo “rico” juntou-se ao Tavares por razões óbvias, desde sempre, desde a sua inauguração em 1784. É rico pela decoração, pelos lustres, pelos preços e requinte dos comeres e dos beberes, pelos frequentadores.

Há também um jornalista chamado Tavares, muito famoso na terra dele, que é Portalegre e, por isso mesmo, foi escolhido para organizar as comemorações do 10 de Junho deste ano, pelo Presidente Marcelo.

Assina João Miguel Tavares e eu chamar-lhe-ia Tavares Pobre.

Pobre pelos temas que escolhe para a sua coluna da última página do Público, pobre pela argumentação que usa e que é tristemente fraca, limitada, pobre, numa palavra.

Além desta coluna destacada (acho que é semanal), o Tavares (pobre) faz também parte do Programa Governo Sombra, da TVI e da TSF, onde tem, todas as semanas, a possibilidade de explanar as suas ideias e argumentos. Pobres, quase sempre.

Claro que, por vezes, Tavares acerta. Como é um dos nossos tudistas (especialista em tudo), dá opiniões sobre tudo e mais alguma coisa – o que aumenta as possibilidades de, de vez em quando, dizer coisas acertadas.

Agora, Tavares anda muito preocupado com o facto de, no Governo do Costa, haver muitas relações familiares: há um ministro casado com uma ministra, há um ministro que é pai de uma ministra, parece que também há primos e primas e, talvez amantes.

Na crónica de hoje, Tavares debruça-se sobre o facto de a mulher do novo ministro Pedro Nuno Santos, Catarina Gamboa, ter sido nomeada chefe de gabinete do secretário de Estado adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

No fundo, Tavares acha isto um escândalo, propondo que, no futuro, o símbolo do PS passe a ser um punho, uma rosa e “um bonito bouquet matrimonial”.

É uma piada, claro, porque Tavares é muito engraçado, tendo carreira certa na stand up comedy quando deixar de trabalhar nos jornais.

Parece que o ministro Pedro Nuno Santos decidiu explicar-se, quanto ao facto de a mulher ter sido nomeada chefe de gabinete, explicando que a conhece dos tempos da Juventude Socialista e que se apaixonou por ela porque, como é natural, passavam muito tempo juntos.

Tavares percebe isso e acrescenta que isso também acontece com os jornalistas. E escreve: “passei os primeiros oito anos da minha carreira a trabalhar no Diário de Notícias, e se não tivesse já namorada quando para lá entrei seria difícil não acabar enrolado com alguém da redacção”.

Este é um argumento que deve deixar a mulher do Tavares em brasa. Afinal, no fundo – e como Freud explicaria lendo o texto do Tavares – o homem teve ganas de se enrolar com alguém lá da redacção e só não o fez porque já tinha namorada. Pobre Tavares!…

E Tavares acrescenta: “tirando o tempo que estamos a dormir, passamos o dia todo com aquelas pessoas. Qual é o espanto dos jornalistas casarem com jornalistas e os políticos com políticos? Mas sabem o que é que se dizia (e ainda se diz) dos jornalistas? Que não conhecem o mundo para além das redacções. Que perderam a ligação às pessoas comuns. Que vivem em circuito fechado. Que essa forma de vida é limitada, pobre e pouco saudável.”

Claro que Tavares não corre este risco porque, apesar de passar a vida entre as redacções e os estúdios de televisão, não está casado com uma política.

O que Pedro Nuno Santos devia fazer era obrigar a mulher a ficar em casa a cuidar das coisas domésticas, assim como Vieira da Silva, se fosse um pai como deve ser, obrigaria a filha a cuidar da família, em vez de se meter em políticas.

Tavares ficaria assim mais feliz.

E pobre.

“21 Lições para o Século XXI”, de Yuval Noah Harari (2018)

March 15th, 2019

Depois de lermos, com muito agrado, o primeiro livro deste historiador israelita, Sapiens, avançámos para este, que é o seu terceiro livro, e ainda gostámos mais.

O livro está dividido nas seguintes partes: O Desfio Tecnológico, o Desafio Político, Desespero e Esperança, Verdade e Resiliência.

Cada uma destas partes, encerra diversos capítulos, num total de 21.

Já tinha escrito um texto a propósito de uma passagem deste livro, em que Harari fala dos nacionalismos – está aqui.

Mas todo o livro é citável…

Na impossibilidade de transcrever todo o livro, vou salientar aqui alguns trechos que me tocaram mais.

“Não tenho a menor ideia de como será o mercado de trabalho em 2050. É relativamente consensual que a aprendizagem automática e a robótica irão mudar quase todas as áreas profissionais – da produção de iogurte ao ensino do yoga.”

(pag. 41 – Capítulo Trabalho – Quando fores grande, talvez não tenhas profissão)

“A seguir, combinamos o algoritmo com sensores biométricos e o algoritmo, agora, fica a saber de que modo cada frame do filme influenciou o nosso ritmo cardíaco, a nossa tensão arterial e a nossa actividade cerebral. Enquanto vemos, por exemplo, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, o algoritmo pode reparar que a cena da violação suscitou em nós uma levíssima e quase imperceptível excitação, que quando Vincent dispara sem querer para a cara de Marvin isso nos faz rir com sentimentos de culpa, e que não percebemos a piada do «Big Kahuna Burger» mas que nos rimos na mesma para não parecermos estúpidos. Quando forçamos o riso, usamos músculo  e circuitos cerebrais diferentes dos que accionamos quando algo nos faz rir de verdade.”

(pag. 77; Capítulo Liberdade – A Big Data está de olho em ti)

“Em 2011, irrompeu um escândalo quando o jornal ultraortodoxo de Brooklyn Di Tzeitung publicou uma fotografia oficial do governo de Obama mas apagou digitalmente a secretária de Estado Hillary Clinton. O jornal explicou que se viu forçado a fazê-lo devido às «leis de castidade judaicas». Deu-se um escândalo parecido quando o HaMevaser apagou Angela Merkel de uma fotografia tirada numa manifestação contra o massacre do Charlie Hebdo, não fosse a sua imagem despertar pensamentos libidinosos nas mentes dos leitores devotos. O editor de um terceiro jornal judeu ultraortodoxo, Hamodia, defendeu esta política, explicando que «estamos a seguir milhares de anos de tradição judaica».

(pag. 123 – Capítulo Civilização – Só existe uma civilização no mundo)

“Há mil anos, se adoecêssemos, o sítio onde vivíamos era decisivo. Na Europa, o padre local provavelmente dir-nos-ia que tínhamos provocado a ira de Deus e que, para recuperarmos a nossa saúde, deveríamos doar qualquer coisa à Igreja, fazer uma peregrinação a um local sagrado e rezar com fervor a Deus, pedindo-lhe perdão. Ou, por outro lado, a bruxa da aldeia podia explicar-nos que estávamos possuídos por um demónio e que ela podia expulsá-lo com cânticos, danças e o sangue de um galo preto.
No Médio Oriente, os médicos formados à luz das tradições clássicas podiam explicar-nos que os nossos quatro humores corporais estavam em desequilíbrio e que podíamos harmonizá-los seguindo um dado regime alimentar e tomando poções fedorentas. Na Índia, os peritos ayurvédicos avançariam as suas próprias teorias sobre o equilíbrio entre os elementos corporais, conhecidos como doshas, e recomendar-nos-iam um tratamento de ervas, massagens e posturas de yoga. Médicos chineses, xamãs siberianos, curandeiros africanos, terapeutas ameríndios – todos os impérios, reinos e tribos tinham as suas próprias tradições e os seus respectivos peritos (…). A única coisa comum às práticas medicinais europeias, chinesas, africanas e americanas era o facto de, em todos esses lugares, pelo menos um terço das crianças morrer antes de atingir a idade adulta e a esperança média de vida se situar abaixo dos 50 anos.”

(pag. 133 – Capítulo Civilização – Só existe uma civilização no mundo)

“Então, como deve o estado lidar com o terrorismo? Um combate contra-terrorista bem-sucedido deve fazer-se em três frentes. Primeiro, os governos devem concentrar-se em acções clandestinas contra as redes terroristas. Em segundo lugar, os meios de comunicação não devem perder a perspectiva, evitando a histeria. O teatro do terror não consegue viver sem exposição mediática. Infelizmente, os meios de comunicação oferecem-na de graça, relatando obsessivamente ataques terroristas e inflacionando o seu perigo, uma vez que as peças jornalísticas sobre terrorismo aumentam muito mais as vendas do que as peças sobre diabetes ou poluição atmosférica.”

(pag. 197 – Capítulo Terrorismo – Não entrar em pânico)

“E quanto à bestialidade? Já participei em diversos debates públicos e privados sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e há quase sempre um espertalhão que pergunta: «Se permitimos o casamento entre dois homens, por que não permitir o casamento entre um homem e uma ovelha?». Do ponto de vista secular, a resposta é evidente. As relações saudáveis requerem profundidade emocional, intelectual e até espiritual. Um casamento que não tenha esta profundidade vai deixar o indivíduo frustrado, só e psicologicamente atrofiado. Enquanto dois homens podem certamente satisfazer as necessidades emocionais, intelectuais e espirituais um do outro, um relacionamento com uma ovelha não pode.
(…) E o que dizer de uma relação entre um pai e sua filha? São ambos seres humanos, então qual é o mal? Bom, vários estudos psicológicos já demonstraram que esse tipo de relação inflige um dano imenso e geralmente irreparável nos filhos. Além disso, reflectem e intensificam tendências destrutivas nos pais. A evolução moldou a psique do Sapiens de modo que as relações românticas não se misturem com as relações parentais. Assim, não precisamos de Deus ou da Bíblia para nos opormos ao incesto – basta lermos os estudos psicológicos sobre o assunto.”

(pag. 240 – Capítulo Secularismo – Reconhecer a nossa sombra)

“O poder do pensamento grupal é tão inexorável que é difícil romper com a sua influência mesmo quando as perspectivas em causa parecem bastante arbitrárias. Assim, nos EUA, os conservadores de direita tendem a importar-se menos com coisas como a poluição e as espécies em vias de extinção do que os progressistas de esquerda, motivo pelo qual o Louisiana tem leis ambientais muito mais permissivas do que o Massachussetts. Estamos habituados a esta situação, pelo que damos como banal, mas, na verdade, é surpreendente. Seria de pensar que os conservadores se importariam muito mais com a conservação da velha ordem ecológica e com a protecção das suas terras, as suas florestas e os seus rios ancestrais. Por sua vez, seria de esperar que os progressistas estivessem muito mais abertos a mudanças na natureza, especialmente se o objectivo fosse acelerar o progresso e aumentar a qualidade de vida dos seres humanos. No entanto, uma vez estabelecidas as directrizes partidárias quanto a um tema, devido a várias particularidades históricas, torna-se normal para os conservadores desvalorizarem as preocupações com rios poluídos e com o desaparecimento de aves, ao passo que os progressistas de esquerda tendem a recear qualquer alteração à velha ordem ecológica”.

(pag. 256 – Capítulo Ignorância – Sabemos menos do que julgamos)

Vale a pena ler.

 

 

O Juiz

March 10th, 2019

Ficou mesmo satisfeito com aquela sentença.

Deu-lhe muito trabalho; obrigou-o a consultar a Bíblia e o Alcorão, mas fundamentou a sua decisão com frases elaboradas e certeiras. Pelo menos, era o que ele achava. O marido tinha dado uns socos na mulher, tinha-lhe partido a cana do nariz e deslocado a articulação temporo-maxilar, mas era compreensível: ele tinha-a apanhado em flagrante, a beijar o rapaz do talho, com língua e tudo!

Um homem não pode tolerar ser enganado assim pela própria mulher com quem está casado.

Mas enfim, se calhar, ele devia ter tido mais cuidado… os socos foram muitos e com força talvez excessiva. Condenou-o a seis meses de pena suspensa.

E voltou para casa com a sensação de ter feito justiça.

Quando entrou em casa, a Lurdes, sua esposa, estava sentada no sofá da sala, a ler o jornal e percebeu logo, pela sua cara, que ia haver discussão.

Isto é que são horas de chegar, gritou ela.

Desculpou-se com a complexidade da sentença, mas ela não quis saber.

Vai mas é fazer o jantar que estou cheia de fome! – vociferou a D. Lurdes, e atirou-lhe com o cinzeiro, não lhe acertando por pouco.

E não te esqueças de apanhar essas beatas do chão, ouviste?!

O juiz meteu a cabeça entre os ombros, colocou o avental e encaminhou-se para a cozinha, com uma lágrima ao canto do olho direito…

  • in “Histórias (ainda) Mais Desgraçadas”, a publicar este ano

“A Favorita”, de Yorgos Lanthimos (2018)

March 9th, 2019

A rainha Ana, de Inglaterra, que reinou apenas entre 1702 e 1707, é interpretada por Olivia Colman e esse desempenho valeu-lhe o óscar por melhor actriz.

Ana foi uma rainha fraca e doente; consta que sofreu 17 abortos, pelo que não teve nenhum herdeiro e da sua fraca saúde se aproveitava Lady Sarah (Rachel Weisz) que, segundo o filme, acabava por tomar decisões pela rainha.

Além de lhe usurpar o poder, Lady Sarah também partilhava a cama da rainha. Só que entre ambas acaba por se intrometer Abigail (Emma Stone), uma ex-dama, caída em desgraça mas que, graças às suas manhas e, mais uma vez, às fraquezas da rainha, consegue subir de criada a Lady, passando, também, pela cama da rainha.

E é neste triângulo amoroso que se vai desenrolando a história, tendo, como pano de fundo, uma guerra com a França e a disputa entre os tories e os whigs.

O desempenho das três actrizes é óptimo, a história está bem contada, a decadência da corte inglesa está bem demonstrada e o realizador consegue fazer um filme histórico sem cair na produção BBC-like, como poderia ter acontecido.

Gostei.

Cozinho para as eleições

March 8th, 2019

Este título do Público fez-me espécie:

“Cataplana de Costa foi mais vista do que arroz de Cristas”

Conheço cataplanas de tamboril e de marisco e arroz de ervilhas ou de cenoura, mas nunca tinha ouvido falar de cataplana de Costa, muito menos de arroz de Cristas.

Fui investigar.

Parece que existe um programa de televisão, chamado Programa da Cristina, que tem muito sucesso. Descobri que essa tal Cristina, de apelido Ferreira, é uma mulher que subiu as pulso, tendo passado de feirante a apresentadora de televisão em poucos anos, auferindo agora um ordenado de jogador de futebol (gosto muito do verbo auferir…).

Descobri até que o próprio Presidente Marcelo telefonou à tal Cristina, a dar-lhe os parabéns pelo programa – coisa que nunca fez comigo, ao longo de todos estes anos de dedicação à escrita. Mas enfim, continua a haver filhos e enteados…

Esse tal Programa da Cristina é diário e há umas semanas foi lá a líder do CDS, Assunção Cristas, e cozinhou, em directo, um arroz de atum.

Fiquei mais descansado.

Afinal o arroz não era de Cristas, era de atum.

Dias depois, o primeiro-ministro, António Costa, também foi ao programa e cozinhou uma cataplana de peixe.

Tudo explicado!

Ora, o Público relatava na notícia com aquele título que, enquanto o arroz de Cristas foi visto por 493 mil pessoas, a cataplana do Costa foi vista por 745 mil pessoas.

Não chega à maioria absoluta, mas anda lá perto…

Se a Cristina for esperta, leva ao seu programa o Rui Rio, para cozinhar uma francesinha, o Jerónimo de Sousa, para fazer umas pataniscas e a Catarina Martins, para preparar um prato vegan, à escolha.

Quanto ao Santana Lopes, se fosse ao tal programa, teria que se contentar com restos…

País de cobardolas

March 7th, 2019

O governo decidiu assinalar hoje um dia de luto nacional pelas mulheres vítimas de violência doméstica.

Foram 28 mulheres assassinadas no ano passado e nestes dois meses, já foram mortas 19 mulheres!

A GNR e a PSP recebeu 26.439 queixas de violência doméstica em 2018 e parece que o número até desceu ligeiramente, em relação a 2017.

Como é possível continuar a dizer que o povo português é bonzinho, que o povo é que sabe, que a sabedoria popular é que vale?

Somos um país de cobardes, que agredimos as nossas mulheres, violentamos as nossas crianças e incendiamos as nossas florestas.

Exagero?…

É tudo uma questão de educação – ou falta dela.

E todos temos a culpa: as famílias, a escola, a comunicação social, os governantes.

Uma depressão chamada Laura

March 6th, 2019

Agora as depressões têm nome.

Os serviços meteorológicos de Portugal, Espanha e França, decidiram dar nome às depressões, como já se faz há muito tempo com os ciclones e tufões, e mesmo com os bebés…

Assim, no princípio do ano faz-se uma lista, por ordem alfabética, alternando um nome feminino com um masculino.

Para 2019 ficou assim: Adrian, Beatriz, Carlos, Diana, Etienne, Flora, Gabriel, Helena, Isaias, Julia, Kyllian, Laura, Miguel, Nicole, Oscar, Patricia, Roberto, Sara, Teo, Vanessa e Walid.

Em primeiro lugar, acho mal não haver tempestades Quevedo, Ursula, Yuri e Zacarias.

Depois, espanta-me que os nomes que estão mais in não estejam representados, caso de Gonçalo, Carlota, Rodrigo, Mateus, Constança, sei lá!…

Neste momento, estamos à espera da Laura. Trata-se de uma depressão centrada a noroeste da Península Ibérica e em deslocamento para nordeste em direcção às Ilhas Britânicas. Espera-se vento forte e agitação marítima, há possibilidade de chuva intensa e persistente, com perigo de cheias.

Portanto, na minha opinião, estes fenómenos atmosféricos não se deviam chamar depressões.

Associamos depressão a um estado mais ou menos letárgico, em que a adinamia toma conta do corpo, só apetecendo estar quietinho, a um canto, esperando que a crise passe.

Ora, ventos fortes, chuva intensa, ondas enormes, árvores a cair, ruas alagadas, é agitação demais para uma depressão.

É por isso que o nome correcto para estes fenómenos deveria ser crises de pânico.

Assim sendo, tenham cuidado que vem aí a crise de pânico Laura!

Daqui a 10 anos…

March 4th, 2019

Quando eu ler isto daqui a 10 anos…

Os britânicos, em referendo, decidiram sair da União Europeia mas, na prática, não o estão a conseguir. Se calhar, queriam sair assim, sem mais nem menos, mas a UE não foi na conversa e foi aprovado um acordo, que teve a assinatura da primeira-ministra Theresa May, mas não teve a aprovação do Parlamento britânico. Conservadores e Trabalhistas dizem querer sair da UE, mas não assim – então como?

Ninguém sabe e, a 29 deste mês, acaba o prazo estabelecido e, ou o Reino Unido adia a saída ou sai sem acordo, o que parece ser catastrófico.

À beira da catástrofe está a Venezuela, dominada por um Presidente que veste fatos de treino coloridos e que se diz herdeiro de Símon Bolívar. Este é o Presidente que dizem ser usurpador, Nicolas Maduro, seguidor de Hugo Chávez, e que surge na TV rodeado de milhares de apoiantes, todos vestidos com cores garridas, as da bandeira da Venezuela. Mas há outro presidente, Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional e que se auto-proclamou presidente interino, e que se passeia pelo Brasil, Colômbia, Argentina e Equador, colhendo apoios. Num arremedo de Guerra Fria, em tempos de aquecimento global, os Estados Unidos apoiam Guaidó e a Rússia apoia Maduro. No meio, fica o povo, pelos vistos, cheio de fome.

Na Rússia manda o Putin, nos Estados Unidos, Donald Trump. Putin foi agente do KGB, deixa-se fotografar em tronco nu, a pescar ou a andar a cavalo, caminha com as pernas arqueadas, gingando o tronco, parece um vilão saído dos filmes do 007. Trump é um calmeirão bronco, com gravatas até à braguilha, cabelo oxigenado e preso com laca e pele bronzeada por solário. Nunca trabalhou na vida – especulou, sempre, e não acredita no aquecimento global, nem na evolução das espécies, julgo eu. Aliás, ele próprio é a prova de que Darwin, se calhar, estava errado – a espécie não está a evoluir, continuam a surgir gerações espontâneas de idiotas.

Não só na América. Por cá, também.

Agora surgiu um juiz, chamado Neto Moura, que acha que o facto de um homem rebentar o tímpano da sua companheira com um soco, não é violência extrema, porque não foi usada nenhuma arma. O mesmo juiz também escreveu que, segundo a Bíblia, uma das piores ofensas que podem ser feitas a um homem, será o adultério – e por isso mesmo, foi benevolente na condenação do ex-companheiro e do amante que sovaram uma mulher, usando uma moca de pregos.

Muitos comentadores ficaram indignados com estas decisões do juiz e chamaram-lhe nomes; em resposta, ele avisou que os vai processar por injúria. Espero bem que o juiz não lhes rebente os tímpanos, nem os sove com a moca de pregos porque, entre os que vai processar estão duas moças, duas Joanas, a Amaral Dias e a Mortágua que, coitadas, não merecem tal sorte.

Quem também não merece tal sorte são os clientes do Novo Banco, ex-Banco Espírito Santo.

Quando foi anunciado que o BES estava na fossa, tanto o Governo do Passos Coelho, como o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, apresentaram uma solução que – garantiram eles – ia salvar o Banco. Criaram um Banco bom e um Banco mau e, para o Banco bom, supostamente, só passaram as coisas boas.

O pequenino Marques Mendes, em 2014, dizia que o Banco bom nunca precisaria do dinheiro do Estado (ver aqui), mas agora vem dizer que Mário Centeno enganou a malta porque, afinal, vai ser preciso meter lá mais mil e tal milhões de euros. Mas, espera lá, quem era ministro das Finanças em 2014?… Então não era a pê-ésse-dê Maria Luís Albuquerque?…

Mas já estamos habituados a estas mudanças de opinião: quando se está no Governo, diz-se preto, quando se está na oposição, diz-se branco, ou vice-versa.

Um bom exemplo é a Dona Assunção Cristas. Quem a oiça hoje falar – o que acontece todos os dias, em todos os telejornais – pensará que ela nasceu este ano para a política, que nunca esteve no Governo, que nunca tomou nenhuma decisão em Conselho de Ministros, sobre as rendas de casa, sobre o SNS, sobre o Novo Banco, sobre tudo e mais alguma coisa. Cristas é pura, inocente e virgem – salvo seja!…

Enquanto isto, o Costa, com aquele seu ar de Buda satisfeito, tenta passar entre os pingos da chuva – que, aliás, está escassa – mas vai ter vários fogos para apagar até às eleições, em outubro.

A começar pelos professores, que querem que lhes seja contado o tempo de progressão na carreira, que foi congelado, os tais 9 anos e alguns meses. O problema é que, ao descongelar esse tempo para os professores, o Governo tem que fazer o mesmo para todas as restantes carreiras da Função Pública.

Depois, há os enfermeiros, que querem começar a carreira a ganhar 1600 euros e, aos 57 anos, reformarem-se sem penalizações. Para isso, seria preciso aumentar todas as carreiras que exigem licenciatura (técnicos superiores, psicólogos, fisioterapeutas, etc) e considerar muitas outras carreiras como sendo de risco. Em breve estaríamos como na Grécia, em que a única carreira que não era de risco era a de guarda-livros (seria?…)

E há ainda os magistrados, os guardas-prisionais, os auxiliares de toda a espécie, os bombeiros, os sapadores, os das fronteiras, os estivadores, camionistas, guardas-florestais, funileiros, pintores e ofícios correlativos.

Se fosse ao Costa, dava tudo a todos e entregava o Governo ao Rui Rio, ao Santana Lopes ou até ao Conan Osíris que, pelos vistos, tem, agora, a aprovação de todos porque é moderno e bué da giro.

Vão mas é dar banho ao cão!…