Galinhas unidas contra Jerónimo de Sousa

September 9th, 2018

A  ANAGAPE (Associação Nacional das Galinhas Patrióticas e de Esquerda) emitiu duro comunicado contra o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, devido ao facto de ele se ter referido ao cu das galinhas como “dito cujo”.

Via-se que a líder da ANAGAPE estava verdadeiramente indignada quando declarou: “se o Jerónimo quer um governo verdadeiramente patriótico e de esquerda, tem que contar com todas as galinhas. Caso contrário, quem vai levar com um pontapé no cu será ele!”

 

 

 

 

“Obra Perfeitamente Incompleta”, de José Sesinando (2018)

September 5th, 2018

Li, com admiração, os textos de José Sesinando publicados no Jornal de Letras e sempre achei estranho que este autor não fosse mais conhecido e divulgado.

Surge agora este livro, na colecção organizada por Ricardo Araújo Pereira e fiquei a saber que José Sesinando era o pseudónimo usado por José Palla e Carmo (1923-1995), tradutor e crítico de literatura, para além de funcionário bancário.

O pseudónimo era usado para os seus textos humorísticos, cheios de trocadilhos e diversos jogos de palavras.

Este volume reúne três livros, dos quais, o primeiro, intitulado Obra Ântuma (por oposição a obra póstuma) é a mais interessante, reunindo textos em prosa que poderiam figurar, tranquilamente, no “nosso” Pão Com Manteiga.

No primeiro texto, Acerca de Música, respigo:

“Mozart foi, como toda a gente sabe, um enfant prodige. Não o foi, porém, durante toda a vida”

“Beethoven atingiu tamanha e tão súbita notoriedade com a Quinta e a Nona Sinfonia que não teve outro remédio senão compor as outras sete”.

“A ópera destina-se, evidentemente, a quem gosta pouco de música e pouco de teatro”.

E muitas mais.

Suspeito que haja muitos mais textos idênticos a este, uma vez que  Sesinando publicava todas as semanas no Jornal de Letras.

Aguardemos…

Mr. Lopes strikes back!

August 20th, 2018

O Sr. Lopes é tramado!

Agora com 62 anos, pai de 5 filhos, reformado desde os 49 anos, chegou à conclusão que o espectro político português necessitava de mais um partido político, ou de que a sua pensão de 3187 euros mensais não era suficiente, e vai de formar um novo Partido!

Claro que tinha que ser um Partido – nunca um Inteiro -, porque o Sr. Lopes é perito em partir as coisas, em deixar coisas a meio.

Já nem se fala nos casamentos que ficaram a meio – são coisas que acontecem…

Mas, vejamos: nomeado secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, em 1986, no primeiro governo de Cavaco; não conclui o mandato porque é eleito deputado ao Parlamento Europeu em 1987, abandonando o cargo 2 anos depois; em 1990, é nomeado secretário de Estado da Cultura no governo de Cavaco Silva, mas demite-se antes do fim do mandato, depois de ter inventado os concertos para violino de Chopin; em 1995, concorre a líder do PSD, contra Fernando Nogueira e Durão Barroso, mas desiste antes da votação final; nesse mesmo ano, é eleito presidente do Sporting, mas desiste ao fim de um ano; em 1996, torna a candidatar-se a chefe do PSD, mas perde para Marcelo Rebelo de Sousa; em 1997, candidata-se a presidente da Câmara de Figueira da Foz e ganha, mas não termina o mandato porque, 3 anos depois, torna a candidatar-se a chefe do PSD, perdendo, desta vez, para Durão Barroso; ficando sem nada para fazer, ganha a Câmara de Lisboa em 2002, mas também não conclui o mandato porque Durão Barroso pira-se para a Europa e Santana é nomeado primeiro-ministro em 2004, mas aguenta-se poucos meses, sendo demitido pelo Presidente Jorge Sampaio, que o tinha nomeado; em 2005 vai a eleições contra Sócrates e perde; em 2008, teimoso, torna a candidatar-se a chefe do PSD, mas perde para Manuela Ferreira Leite; no ano seguinte, é candidato novamente à Câmara de Lisboa, mas perde para António Costa; em 2011, Passos Coelho nomeia-o Provedor da Santa Casa da Misericórdia e António Costa dá-lhe mais 3 anos de mandato, mas Santana não os conclui porque torna a concorrer a chefe do PSD, desta vez contra Rui Rio e perde!

Ora bem, o que fazer a um Partido, ao qual se adere em 1976 e que nunca nos escolhe para chefe?

Santana concorreu contra Fernando Nogueira, Durão Barroso, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio – e perdeu sempre.

Portanto, era lógico que mandasse o PSD à merda e formasse novo Partido.

Chama-se Aliança e, finalmente, o Sr. Lopes é chefe de um Partido.

Não vai durar muito…

Nota: este texto é escrito em português de antes do acordo ortográfico de 1990, negociado pelo Sr. Lopes…

“Mulheres”, de Charles Bukowski (1978)

August 6th, 2018

Ao ler este livro de Bukowski (1920-1974) é forçoso pensar em Henry Miller (1891-1980). Os pontos de contacto são vários: ambos os autores foram carteiros, antes de começarem a viver da escrita, ambos viveram vidas atribuladas, ambos escreveram sobre sexo.

Talvez esteja a dizer algo que não corresponde à verdade, mas parece-me que Bukowski foi beber aos escritos de Miller, publicados nos anos 40 e 50 (Sexus, Nexus, Plexus, os Trópicos e, sobretudo, Opus Pistorum, o romance pornográfico que Miller escreveu a um dólar por página).

Mas Bukowski é mais duro que Miller e, sobretudo, muito mais obsceno.

Este Mulheres é só beber, vomitar e foder.

Se Bukowski ainda fosse vivo, estaria a ser linchado pelo movimento MeToo.

Neste livro, é uma mulher atrás de outra, que ele fode e deita fora, para ir foder outra, e o livro é uma sucessão de encontros e desencontros, sempre com o objectivo de foder, depois de se beber muito e de se vomitar ainda mais.

Parece escabroso – e é – mas o livro acaba por ter interesse por isso mesmo: procurar entender o vazio da vida de Henry Chinasky (alter ego do autor) que, chegado aos 50 anos, vive sozinho, embebedando-se todos os dias, ganhando a vida lendo poemas em clubes de má fama e dizendo que se tornou escritor para poder dormir até ao meio-dia. E ter sexo com muitas mulheres, claro – mulheres que querem foder com um escritor, que também bebem muito, snifam coca, fumam ganzas e têm vidas de merda.

Outro livro de Bukowski: Música para Aguardente

 

“O Clube dos Anjos”, de Luis Fernando Verissimo (1998)

July 28th, 2018

Luis Fernando Veríssimo (Brasil, 1936) é um autor multifacetado, que vai do jornalismo ao teatro e ao romance, passando pelos argumentos para televisão.

Um toque de humor percorre as suas obras.

Neste O Clube dos Anjos, um grupo de amigos se junta periodicamente para experimentar pratos de culinária mais ou menos sofisticados.

Depois da morte de um dos seus membros, vítima, aparentemente, de complicações da Sida, surge um cozinheiro misterioso, de nome Lucídio (semelhante a Lucifer), que sew propõe cozinhar para o clube. E vai cozinhando os pratos preferidos de cada um dos membros que, após cada jantar, morrem, possivelmente envenenados.

Apesar de saberem que estão a ser liquidados jantar após jantar, os membros restantes do grupinho não desistem e marcam novo jantar.

Uma pequena novela divertida, embora o número de elementos do grupo (dez), faça com que a história se estique demasiado, acho eu…

“Em Louvor das Mulheres Maduras”, de Stephen Vizinczey (1965)

July 20th, 2018

“Uma obra prima… longe dos fantasmas e das neuroses…” – diz o Le Monde e “Um clássico da literatura erótica, subtilmente complexo, bem-humorado, inteligente”, diz o La Vanguardia, citados na contracapa.

Com estas citações e com a foto da sobrecapa, um nu de Jaromir Funke, estava à espera de um livro semelhante às epopeias de Henry Miller.

E afinal, não passa de um livrinho inocente, nada explícito e até um pouco chato.

Claro que o livro é datado (1965), mas os de Miller ainda são mais antigos (Sexus é de 1949).

Vizinczey nasceu na Hungia e tem agora 85 anos, vivendo no Canadá há décadas. Em Louvor das Mulheres Maduras diz ser “as recordações amorosas de András Vajda”, um jovem húngaro, que emigra para a Áustria e, depois, para o Canadá e que não se interessa por mulheres jovens, preferindo as mais velhas, mesmo que casadas.

O livro terá vendido mais de 3 milhões de exemplares e já foi adaptado para o cinema.

Parabéns ao Vizinczey!

Eu não gostei, a não ser desta frase deliciosa, sobre as relações entre os casais no Canadá: “magicava muito sobre a aridez das relações entre os sexos, a distância que parecia haver mesmo entre muitos casais. Pensei que tinha qualquer coisa a ver com o facto de as casas de banho não terem bidés.”

Valerá a pena ir ver este filme?

July 13th, 2018

Finalmente aposentado, tenho tempo e disponibilidade para voltar a ir ao cinema com regularidade. Nos últimos, digamos, dez anos, fiquei tão absorvido com a minha profissão que só episodicamente fui ao cinema, ao contrário do que acontecia quando tinha 20 ou 30 anos, em que era rara a semana em que não ia ao cinema.

Na semana passada fui ver o novo filme de Gus Van Sant, de que gostei, e vi a apresentação do novo filme de Paul Schrader.

O nome de Paul Schrader é bem conhecido.

Foi ele que escreveu os argumentos do estupendo Taxi Driver, de Scorcese, de Obsession, de Brian de Palma (ambos de 1976) e American Gigolo (1980), que também dirigiu; escreveu ainda o argumento de Raging Bull, que Scorcese também dirigiu, em 1980.

Vi todos.

E também vi Cat People, com a Natacha Kinski (1982), que realizou, e The Mosquito Coast (1986), com o Harrison Ford, cujo argumento escreveu.

Estes cartões de visita seriam suficientes para me convencer a ir ver o seu novo filme, First Reformed (título em português, No Coração da Escuridão, sei-lá-porquê!).

No entanto, como o senhor está com 71 anos e, no trailer, vi o protagonista, Ethan Hawke, vestido de padre e com um colete de explosivos, pensei que talvez fosse melhor ler uma crítica antes de ir ver o filme.

Hoje, deparei com a crítica de um senhor chamado Vasco Câmara, no suplemento Ipsilon, do Público.

Começa por dizer isto:

“Fazendo resistência passiva-agressiva ao template cinematográfico dos dias de hoje, No Coração da Escuridão, violenta os dados da cronologia e, sendo um filme realizado em 2017 por Paul Schrader, coloca-se ao lado de Blue Collar (1978), de Hardcore-A Rapariga da Zona Quente (1979) e de American Gigolo (1980), três títulos iniciais da filmografia do realizador.”

Ora, portanto, valerá a pena ir ver o filme, pergunto eu?

Por enquanto, não sabemos.

Mais à frente, o Sr. Câmara diz:

“É que o presente para Schrader, nesses anos, era o corpo. Apresentara-se-lhe quando aterrou em Los Angeles. Sobre as experiências do sensualista dar-nos-ia conta American Gigolo, o filme do Call Me de Blondie/Giorgio Moroder e do “visual” (via Ferdinando Scarfiotti, que estava ali por causa da art direction no Conformista de Bertolucci). Por estar indexado ao chic de um tempo, American Gigolo talvez não se tenha deixado ver convenientemente. Por exemplo, a forma como ao mesmo tempo se embriagava (Schrader transformava o corpo no ginásio; exercitava-se no contacto físico, que estivera ausente da família, nos clubes gay, o que não representava “perigo”, segundo ele, era coreografias), oferecia resistência, arredando os corpos de Richard Gere e de Lauren Hutton do espectáculo para, com a contenção, permitir uma deflagração final. Era uma subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema.”

Senti uma bofetada na cara.

Está claro que, apesar de ter um curso superior e de me considerar um tipo interessado por cinema, literatura, pintura e todas as artes em geral, não percebo porra nenhuma desta merda, ao contrário do Sr. Câmara.

Daquele parágrafo imperial, retiro a menção à Blondie e ao Giorgio Moroder, que conheço da música pop dos anos 80, mas reconheço a minha ignorância quanto ao senhor Ferdinando Scarfiotti.

No que respeita aos ginásios gay, reconheço que não percebi nada: Schrader é gay? Richard Gere é que é gay? Ou será Lauren Hutton, ou a Blondie?

E onde raio está a “subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema”?!

São demasiadas palavras em ão: contenção, deflagração, frustração, violentação!

Não li mais nada por que não!

Por favor, ajudem-me: hei de ir ver o filme, ou não?…

“A Vida é um Tango”, de Cristina Norton (2018)

July 12th, 2018

Cristina Norton nasceu na Argentina em 1948, mas vive em Portugal há 30 anos. Autora de romances, livros infantis e livros de contos, publicou este ano este A Vida é um Tango, uma colectânea de histórias mais ou menos trágico-cómicas.

As histórias são todas muito acessíveis e a autora conta-as de modo muito simples, o que não é um defeito, na minha opinião.

No entanto, a qualidade das histórias é um pouco irregular: algumas são bem esgalhadas, outras são fraquinhas, outras ainda têm um desfecho que se pretende surpreendente, mas que, no entanto, se desconfia logo desde o início.

Em resumo, um livro despreocupado, excelente para ler em voz alta.

“Don’t worry, he wont get far on foot”, de Gus Van Sant (2018)

July 6th, 2018

John Callahan (1951-2010) foi um cartunista norte-americano, sarcástico, politicamente incorrecto, que, devido ao seu alcoolismo, sofreu um acidente de viação que o deixou tetraplégico aos 21 anos.

Preso a uma cadeira de rodas, continuou a beber durante anos, até conseguir, graças ao clássico programa dos alcoólicos anónimos e à ajuda de uma espécie de guru, deixar o álcool e começar a desenhar.

Os seus cartoons são sarcásticos e altamente provocadores; num deles, um pedinte de raça negra e cego, estende o chapéu, pedindo trocos, dizendo “sou cego e negro e não tenho jeito para a música, ajude-me!”

Joaquin Phoenix é um excelente actor e faz um tetraplégico convincente e Gus Van Sant dirige o filme de forma escorreita.

Sabe bem ver uma história bem contada, sem rodriguinhos, nem “modernices”.

Gostei!

E foi o nosso primeiro filme com bilhetes sénior!

Bigre – mélo burlesque

July 5th, 2018

Assistimos ontem ao espectáculo de abertura do 35º Festival de Teatro de Almada.

“Bigre – mélo burlesque”, é um espectáculo da Compagnie Le Fils du Grand Réseau (Brest/França), da autoria de Pierre Guillois, com a ajuda de Agathe L’Huiller e Olivier Martin-Salvan.

Em 2017, este espectáculo ganhou o prémio Moliére para Melhor Comédia e foi votada como o melhor espectáculo no 34º Festival de Almada, razão pela qual tivemos direito a mais uma representação.

Foi ontem, no palco grande da Escola António da Costa e já não me ria tanto há muito tempo.

No palco, três águas furtadas contíguas. Na primeira, vive um adepto das novas tecnologias, obcecado pela limpeza, na segunda, um acumulador de tralha que dorme numa rede e estende roupa numa corda improvisada, que implica com o candeeiro, e na terceira, uma inquilina desastrada, dada a biscates.

Os três vão protagonizar uma série de gags, qual deles o mais cómico.

Descrevê-los é impossível.

Parece incrível como é possível, ao vivo, e em directo, conseguir todos aqueles “efeitos especiais”, graças a um excelente trabalho de bastidores, a uma banda sonora óptima e um jogo de luzes impecável – porque não há texto, vivendo a acção disso mesmo, da acção dos três protagonistas, cujos nomes são: Bruno Fleury, Eleonore Auzou-Connes e Jonathan Pinto-Rocha.

Cinco estrelas.

O youtube tem pedaços do espectáculo, que vale a pena espreitar…

https://ctalmada.pt/bigre-melo-burlesque/