Bater não resolve nada…

May 21st, 2018

Sou do tempo em que a porrada era uma medida pedagógica.

“Vê lá se queres levar uma chapada nessa cara”, ou “Estás aqui estás a levar”, ou ainda “Levas uma palmada no rabo”, eram expressões que os pais dos miúdos da minha geração usavam com frequência.

A panóplia de castigos físicos era imensa: chapadas, palmadas, estalos, chineladas, tabefes, tareias, sopapos, puxões de orelhas, lamparinas, carolos, chapadões, para já não falar nas reguadas e ponteiradas que apanhávamos na escola, sempre que falhávamos uma pergunta ou quando nos portávamos mal.

Temos que desculpar os pais dos anos 50 e 60 do século passado.

Por um lado, eles também tinham sido criados com porrada, por vezes com cintos e até chicotes.

Por outro lado, que castigos haviam eles de nos infligir? Não nos podiam proibir de mexer no iPad ou no iPhone – o próprio Steve Jobs nasceu em 1955 e também deve ter levado uns sopapos do pai, sempre que era apanhado a tirar macacos do nariz e a enfiá-los na boca.

Por outro lado, se os pais nos proibissem de ver televisão, a malta até agradecia – quem queria ver aqueles dois canais anémicos, a preto e branco?…

Portanto, não lhes restava outra alternativa senão chegarem-nos a roupa ao pêlo, sempre que nos portávamos mal…

Claro que, na maior parte das vezes, verificava-se que as tareias não resolviam coisa nenhuma e os putos ainda faziam pior

Ora, hoje em dia, as agressões físicas deixaram de ser aceites como método pedagógico.

Assim se vê o atraso da claque sportinguista.

De que é que lhes valeu irem bater nos jogadores?

Eles perderam a Taça na mesma!

O Sporting bruneu-se!

May 17th, 2018

Na Malásia há lugar aos novos

May 11th, 2018

Mahathir Mohamad foi eleito primeiro-ministro da Malásia, derrotando estrondosamente o seu rival, Najib Razak.

Até aqui, tudo bem.

Mas a coisa fica melhor quando sabemos que Mohamad governou a Malásia entre 1981 e 2003, à frente do partido de direita, que o próprio Mohamad agora derrotou, à frente de uma coligação de esquerda.

E ainda melhor fica quando percebemos que Mohamad tem 92 anos, sendo o primeiro-ministro eleito, mais velho do mundo!

A vitória de Mohamad, conhecido pelo seu sarcasmo e por gostar que o tratem por faraó, foi conseguida graças a uma aliança com o antigo rival, Anwar Ibrahim.

Ibrahim foi vice-primeiro-ministro, quando Mohamad liderava o governo e foi afastado do poder e preso, em 1999, acusado de sodomia, que é uma prática considerada crime, na Malásia.

Em 2005, estando o agora derrotado Razak no poder, Ibrahim foi novamente preso, e mais uma vez por sodomia.

Agora, o novo (passe a expressão) primeiro-ministro, já afirmou que pretende governar durante dois anos e, depois, passa a pasta a Razak.

A menos que Razak torne a ser apanhado a sodomizar alguém… ou que Mohamad, aos 94 anos, se sinta ainda cheio de pica!

Trumpalhices

May 8th, 2018

Sorrisos coreanos

April 27th, 2018

“Veracruz”, de Olivier Rolin (2016)

April 27th, 2018

Olivier Rolin (França, 1947) é conhecido sobretudo pelo seu romance Tigre de Papel, finalista do Prémio Goncourt de 2003, sendo aind autor de outros romances, como O Meteorologista, Um Caçador de Leões, etc.

Este Veracruz é uma pequena novela, diria quase um conto, que, como diz Le Magazine Littéraire, citada na capa, mistura “amor, morte, ilusões e contrabando” – e uma linguagem pesada, acrescentaria eu…

A história desenrola-se na cidade mexicana de Veracruz, onde um catedrático francês, já entrado na idade, vai dar um ciclo de conferências sobre Proust.

No intervalo das conferências, estando a relaxar no bar El Ideal, conhece Dariana, uma jovem mexicana com quem iria ter um caso de paixão avassaladora, descrito de uma forma muito romântica e, passo a redundância, muito apaixonada.

Depois de alguns dias e noites fogosas (o próprio professor se espanta com o seu renascido vigor sexual), Dariana desaparece sem deixar rasto. O professor procura-a sem sucesso e entrega-se ao álcool, até que um dia, recebe no quarto do seu hotel, um envelope com quatro textos – todos eles sobre uma jovem, Susana, objecto do desejo de vários homens.

O primeiro texto é do padre Inácio, banido da igreja por se deitar com prostitutas e que está loucamente apaixonado por Susana; o segundo texto é do contrabandista Miller, actual companheiro de Susana e que fala dela como uma escrava sexual, a quem agride e humilha; o terceiro é do pai de Susana, que confessa ter morto a mãe para ficar sozinho com a filha e poder abusar dela, como o caçador abusa da presa, até que Miller chegou e a festança acabou; e o último texto é da própria Susana, texto esse que liga as pontas deixadas pelos outros três.

Como já disse, a linguagem usada por Rolin é forte, agressiva, como comprova este pequeno excerto do texto de Susana:

“Estou a ver-te, o duplo impacto empurra-te, esmaga-te, dobra-te no fundo da poltrona, levas as mãos à barriga, queres berrar mas um rio de sangue já te afoga a garganta, cospes bolhas, Miller. Fala mais alto, não te percebo, Miller: queres um broche, é isso? Vais agarrar-me pelo cabelo, deitar-me de joelhos, baixar as tuas calças, empurrar a minha cara contra o teu sexo, obrigar-me a chupar-te, como de costume?Oh! No teu estado, achas mesmo? Pareces estar a sangrar um bocadinho. Estás com o período, Miller?”

A edição portuguesa é da Sextante, com tradução de Joana Cabral e o livro lê-se de uma penada e vale a pena.

 

“Dicionário Sentimental do Adultério”, de Filipa Melo (2017)

April 26th, 2018

Filipa Melo é jornalista desde 1990 e tem já um extenso currículo, colaborando em inúmeras publicações e também nas televisões.

No ano passado, a Quetzal editou-lhe este curioso dicionário que me proporcionou algumas horas de puro entretenimento.

De A a Z, a autora vai contando pequenas anedotas, factos históricos, citações célebres, definições, estatísticas, opiniões – tudo relacionado com o adultério e ofícios correlativos, digamos assim…

Claro que não podia faltar a brejeirice mais requintada, como é o caso do poema de Martim Soares, escrito por volta de 1240, e que diz assim (página 40):

Pero Rodrigues, da vossa mulher/ não acrediteis no mal que vos digam
Tenho eu a certeza que muitos vos quer/ Quem tal não disser quer fazer intriga
Sabia que outro dia quando eu a fodia/ enquanto gozava, pelo que dizia
muito me mostrava que era vossa amiga

Na página 66, conta-se a história de D. João V e de um jantar que ofereceu a um padre que estava farto de ouvir, em confissão, o rei vangloriar-se das suas aventuras extra-conjugais.

Ao longo do jantar foram sendo servidas diversas iguarias mas, para o padre, apenas canja de galinha.

Quando, finalmente, o padre indagou por que motivo só lhe serviam canja de galinha e nada de trutas, perdizes ou javalis, D. João V terá retorquido: “Está a ver, senhor padre… nestas coisas de comeres, não há como variar. Nem sempre galinha, nem sempre rainha”.

Na página 73, a entrada “Efeito Coolidge” conta-nos a história da visita do Presidente dos EUA, Calvin Coolidge, e da sua mulher, a uma fazenda experimental:

“Caminhando um pouco adiante do marido, esta (a mulher) chegou primeiro ao galinheiro, onde o funcionário responsável a informou de que o galo copulava cerca de dez vezes por dia. Então, ela pediu-lhe: «Diga isso ao meu marido, se faz favor».

Ao receber o recado, Coolidge perguntou: «Mas o galo copula sempre com a mesma galinha?». O funcionário garantiu-lhe que não. Não, senhor, o galo copulava com uma galinha diferente de cada vez. Então, foi a vez de Coolidge pedir: «Diga isso à minha mulher, se faz favor».

Mas não se pense que o dicionário se limita a estas pequenas, mas deliciosas, anedotas; há muito mais material para nos entretermos.

Aconselho.

25 de Abril sempre!

April 25th, 2018

Quanto mais não fosse, só para nos vermos livres da retórica de luminárias como o ex-presidente Américo Tomaz ou o então governador de Moçambique, Pimentel dos Santos, valeu a pena o 25 de Abril.

Deliciem-se com estes dois nacos, datados de Julho de 1973…

Desmanches

April 24th, 2018

Está deprimido, costuma desmaiar, tem insónia, sente nervosismo ou medo, tem dores de cabeça constantes, sofre de maldição hereditária, tem vícios, vive na miséria, está atolado de dívidas, foi à falência, é vítima de inveja e/ou de bruxaria, costuma ouvir vozes espirituais, vê vultos, é infeliz no amor, pensa em matar-se ou tem problemas familiares?

Esta igreja resolve todos estes problemas – mas só às sextas-feiras, que nos outros dias da semana tem mais que fazer…

Em compensação, nesse dia, há quatro turnos para desmanchar todo o mal: às 8, às 10, às 15 e às 20 horas.

Pressupõe-se que, se o mal for muito complicado, não deve escolher a sessão das 8 da manhã porque só terá duas horas para resolver o problema – já que há outra sessão logo às 10 horas. Talvez seja recomendável a sessão das 15.

Deve ser o caso, por exemplo, da maldição hereditária, sobretudo quando ela já vem do tempo dos bisavós.

Também deve ser complicado se a pessoa sofrer de mais males simultaneamente.

Convenhamos que estar deprimido, ter um vício, ser vítima de bruxaria, ouvir vozes, ver vultos e ser infeliz no amor, tudo ao mesmo tempo, para além de ser uma grande maçada, deve ser muito difícil de desmanchar.

No entanto, há uma coisa que não compreendo: esta lista foi feita aleatoriamente ou por ordem de frequência? Quer dizer, sem dúvida que a depressão, os desmaios, o nervosismo, a insónia e o medo devem ser dos males mais frequentes, por isso ocupam os dois primeiros lugares, mas colocar os problemas familiares em 12º lugar, parece-me errado.

De qualquer modo, ficam a saber: a IURD desmancha tudo isto e aqui bem perto, na Cova da Piedade.

Bem haja!

“A Porta”, de Magda Szabó

April 18th, 2018

Magda Szabó nasceu em 1917, em território húngaro do Império Austro-Húngaro, e morreu em 2007, três anos depois da Hungria ter aderido à União Europeia.A sua longa vida permitiu-lhe ter passado por duas guerras mundiais e por diversas mudanças de regime político. Durante o poder comunista, teve problemas, como muitos outros escritores, tendo estado dez anos impedida de publicar, uma vez que não se conformava com o chamado realismo socialista.

Viveu o suficiente para ainda ver a Hungria transformar-se numa democracia – ironicamente, com ultra-direitista, nacionalista e xenófoba.

Este livro, A Porta, editado em 1987, relata a relação tumultuosa entre a escritora e a sua empregada, Emerence, uma velha senhora de difícil trato, orgulhosa e avessa a grandes amizades.

A narradora, que penso ser a própria Szabó, desenvolve uma relação ambivalente com a sua empregada, que é também uma espécie de porteira do prédio onde ambas vivem. Uma das críticas citadas na contracapa do livro, da London Review of Books, diz “Um dos triunfos alcançados por Szabó foi ter escrito uma obra profundamente política, enraizada na vida doméstica”,

Sinceramente, não entendi a história dessa maneira. A narradora é uma intelectual, católica, que passa o dia a escrever e Emerence é uma mulher-a-dias, que despreza a religião e a educação, que trata mal toda a gente e que acaba por ter um acidente vascular cerebral e morrer, sendo que a escritora se sente culpada pela sua morte .

Tive dificuldade em perceber alguma segunda leitura do texto – até porque me pareceu confuso em algumas passagens,

Por exemplo, na página 220:

“Penso, vezes sem conta, que, no fundo, tudo se desenrolou de uma forma muito simples. Emerence já não fazia pesar os seus problemas insolúveis sobre os raros parentes e o círculo mais ou menos definido das suas relações, tudo ela resolvera pessoalmente, num gesto autoritário, à maneira de um grande chefe guerreiro. Quando não se tem mais nada a fazer por si mesmo, porque já não se pode, convém, então, pôr um ponto final na coisa, pois, quando a humanidade caminhar há muito à escala das estrelas, os que estiverem vivos estarão longe de imaginar que, por uma chávena de cacau, nos entregámos a tristes combates, sós ou contra outros, mas, mesmo nessa altura, nunca se poderá corrigir o destino de quem não tem lugar na vida de ninguém”.

Não percebi!… Parece que falta aqui qualquer coisa.

E passagens destas são frequentes, o que tornou a leitura deste livro um pouco penosa.