“A Barata”, de Ian McEwan (2019)

November 26th, 2019

Lê-se de uma penada (tem pouco mais de 100 páginas e o livro tem formato pequeno) e é uma brincadeira com alguma graça.

Ian McEwan não gosta do Brexit, acha que é uma ideia estúpida e decidiu contribuir, à sua maneira, para a discussão.

Socorreu-se de Kafka e da sua Metamorfose e usou-a ao contrário: uma barata deambula por Londres e entra no 10 de Downing Street. Quando acorda, é o primeiro ministro do Reino Unido. Demora um pouco a habituar-se a ter apenas quatro membros e a ter uma língua dentro da boca, mas depressa se adapta e começa logo a ter ideias.

Quando chega ao Conselho de Ministros desse dia, descobre que todos os ministros, menos o dos Negócios Estrangeiros, são baratas que sofreram a metamorfose. E põe em marcha o seu plano: instituir o regressismo.

Se o brexit é uma estupidez e vai ser implementado, porque não o regressismo, que consiste em inverter o fluxo do dinheiro: os trabalhadores pagam para trabalhar e recebem dinheiro quando vão às compras.

Claro que este primeiro ministro-barata é Boris Johnson, assim como Archie Tupper, o presidente norte-americano, é Donald Trump – mas isso nunca é referido, obviamente.

Custa só 11 euros e ajuda a passar uma parte da tarde divertida

(Editora Gradiva, tradução de Maria do Carmo Figueira)

José Mário Branco (1942-19.11.2019)

November 25th, 2019

Tomei contacto com a música de José Mário Branco, pela primeira vez, em novembro de 1971, no extinto Cinema Roma.

Encontrei notícia desse encontro aqui, num texto de Rogério Santos, Estudos da Rádio em Portugal.

Diz o autor: “De indicativo musical composto pela banda Pop Five Music Incorporated, o programa (Página Um) (…) fez emissões ao vivo (…) do cinema Roma, aqui a estrear os discos de José Mário Branco (Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades) e de Sérgio Godinho (Os Sobreviventes) (novembro de 1971). Os discos foram apresentados faixa a faixa pelos autores, em entrevista em directo, conduzida por Adelino Gomes. Como os músicos viviam exilados em Paris, no palco puseram-se duas cadeiras, e, no lugar deles, um gravador e as bobinas da música. O espectáculo foi público e estiveram cerca de 50 pessoas”

Eu fui uma dessas 50 pessoas.

Em novembro de 1971, tinha 18 anos e não perdia uma emissão do Programa de rádio Página Um, da Rádio Renascença, apresentado por José Manuel Nunes e com reportagens de Adelino Gomes (que haveria de ser meu colega jornalista na redacção da RTP, depois do 25 de Abril).

O Programa passava música anglo-saxónica e música de intervenção portuguesa (Zeca Afonso e quejandos).

Os Pop Five Musica Incorporated era uma banda pop-rock que integrou, entre outros, o irmão de Sérgio Godinho, Paulo Godinho, David Ferreira, Tó Zé Brito, Miguel Graça Moura.

Lembro-me que, sentado na plateia do cinema Roma, fiquei logo fascinado com a música do José Mário Branco. Como era possível aquela sonoridade num disco de um português?

Todas as músicas eram excelentes: Cantiga para pedir 2 tostões, Cantiga do fogo e da guerra, O charlatão, Queixa das almas jovens censuradas, Nevoeiro, Mariazinha, Casa comigo Marta, Perfilados de medo, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Os arranjos eram todos diferentes do que tinha ouvido até aí. Era possível fazer uma música de intervenção com qualidade e moderna!

Claro que comprei o disco, assim que saiu em Portugal, e acompanhei a carreira do José Mário Branco, mesmo naquele período mais ou menos louco do GAC (tenho os vinis todos e, ainda hoje, cantamos, em coro, Na herdade de Albernoa… e destaco o grande Pois Canté!).

Como não gosto muito de fado, a carreira do José Mário Branco como produtor de discos de fado, nomeadamente, do Camané, passou-me ao lado – mas não posso esquecer o Inquietação e aquela espécie de melopeia/manifesto anti-FMI, que ainda hoje me emociona e tenho dificuldade em ler todo aquele arrazoado, sem um nó na garganta.

Os meus sinceros agradecimentos a José Mário Branco

“Milkman”, de Anna Burns (2018)

November 19th, 2019

Anna Burns (Belfast, 1962) é um escritora da Irlanda do Norte que conseguiu o feito de vencer o Man Booker Prize no ano passado, com este livro.

Diz Kwame Anthony Appiah, membro do júri do Man Booker Prize: “Nenhum de nós leu algo assim antes. A voz incrivelmente distintiva de Anna Burns desafia o pensamento tradicional e ganha forma numa prosa surpreendente e imersiva”.

Milkman está escrito de uma forma muito próxima da oralidade. A narradora é uma jovem de 18 anos, sem nome, designada como filha do meio. Aliás, ninguém tem nome, nesta história. A filha do meio tem um namorado mais ou menos e vários irmãos e irmãs, designadas por irmã um, irmã dois, irmãs mais pequenas – e começa a ser assediada por um paramilitar, apelidado de Leiteiro (não confundir com o leiteiro de verdade, com letra pequena, também conhecido como a pessoa que não gostava de ninguém, mas que acaba por ser o apaixonado da mãe da narradora, que é viúva).

Toda a acção se passa na Irlanda do Norte e envolve católicos e protestantes, forças governamentais e antigoverno, militares e paramilitares, informadores, bombistas e afins – embora o romance nunca refira, explicitamente, o conflito irlandês.

Foi com dificuldade que acabei de ler Milkman. A tal oralidade, às tantas, chateia, porque penso que a autora abusa dessa técnica e torna a escrita confusa e repetitiva.

O membro do júri diz que nunca leu nada assim, foi porque nunca leu O Discurso da Desordem, um livro de António Rebordão Navarro, de 1972, e que é também torrencial e pelo de oralidade e, na minha opinião, muito mais “revolucionário” do que este Milkman.

Li até ao fim, mas com dificuldade e algum fastio.

O Coiso – na net há 20 anos!

November 18th, 2019

O Coiso saiu à rua, pela primeira vez, em 7 de Março de 1975 e afirmava ser “o semanário de maior penetração no país”.

Era feito nas tipografias do saudoso jornal República, e tinha como principais mentores, o director comercial desse jornal, Álvaro Belo Marques, o Ruy Lemos (director), o grande Mário-Henrique Leiria (chefe de redacção), o José António Pinheiro e eu próprio. Os cartoons e bonecos em geral estavam a cargo do Carlos Barradas, Carlos Brito, Fred – e muitos outros colaboraram nessa pequena loucura durante 11 semanas.

Depois, o jornal República fechou, vítima dos acontecimentos turbulentos do chamado prec (processo revolucionário em curso), e O Coiso acabou. Ainda se publicaram mais dois números, com uma redacção muito desfalcada, e O Coiso murchou de vez.

Sempre senti O Coiso como meu, por razões que eu cá sei e, por isso, em novembro de 1999, meti O Coiso na net.

E, com maior ou menor assiduidade, O Coiso cá tem andado – e já lá vão 20 anos!

Parabéns ao Coiso!

“Tudo no Seu Lugar”, de Oliver Sacks (2019)

November 18th, 2019

É sempre um prazer ler um livro escrito por alguém que, além de neurologista e psiquiatra, tinha múltiplos interesses, como química e botânica, entre muitos outras disciplinas.

Sacks nasceu em Londres em 1933 e morreu em Manhattan, em 2015, depois de ter sido diagnosticado com metástases hepáticas de um melanoma do olho.

Viveu e fez toda a sua carreira de neurologista em Nova Iorque e escreveu mais de uma dezena de livros.

Este Everything in It’s Place: First Loves and Last Tales, foi publicado já depois da sua morte e reúne textos dispersos, que saíram no New Yorker, Discover, Three-penny Review e outras publicações.

Os temas são os mais diversos, desde a descrição de uma reunião de amantes de fetos, que os vão observar nas paredes do túnel da Park Avenue, em Manhattan, até várias histórias de doentes com situações neurológicas bizarras, passando por textos sobre química, ginko bilobas, o movimento dos elefantes (será que eles correm ou apenas andam mais depressa?), etc.

Ainda só tinha lido dois livros de Sacks, o inevitável O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (1985) e O Tio Tungsténio (2001), mas depois de ler mais este, já tenho ali outro na calha…

(Edição Relógio de Água, tradução de Marta Mendonça)

“A Rainy Day in New York”, de Woody Allen (2019)

November 12th, 2019

Woody Allen nunca desilude. Os seus filmes são todos iguais, e todos diferentes. Claro que já não há aquela surpresa que causaram “Annie Hall” ou “Manhattan”, mas há sempre uma história bem contada, com diálogos inteligentes, algumas boas piadas e muito romantismo, sem ser piegas.

Desta vez, Allen escolheu novamente New York como cenário de fundo, embora o filme se passe, quase todo, em interiores. Imagino que fazer cenas tendo, como pano de fundo, a Brooklyn Bridge, o Empire State, o East River, a Broadway, deveria sair muito caro – portanto, temos a cena final no Central Park e já vamos com sorte.

Gatsby (Timothée Chalamet) é um jovem universitário que gosta muito de Manhattan e leva a sua namorada, Ashleigh (Elle Fanning) para um fim de semana em que lhe deveria mostrar a cidade. Ela vai fazer uma entrevista de uma hora a um realizador de cinema famoso, para ser publicada no jornal da Faculdade.

Só que, além da entrevista, ela se vê envolvida em diversas peripécias relacionadas com a fauna do cinema, acabando no apartamento de um actor mais ou menos famoso, e ele deambula pela cidade, sempre debaixo de uma chuva copiosa e, como vê todos os seus planos falhados, acaba por contratar uma prostituta para se fazer passar pela sua namorada numa festa organizada pela mãe dele.

E há, ainda, a irmã mais nova de uma antiga namorada de Gatsby.

Gostei de ver estes actores muito jovens; Timothée Chalamet tem todos os tiques de Woody Allen (por que será?).

Hora e meia de entretenimento garantido.

O milagre das Glock

November 8th, 2019

Conta a lenda que o dono de uma empresa avícola, de nome Manuel Gonçalves das Neves, aceitou exportar para a Guiné-Bissau, umas quantas pistolas Glock e respectivas munições, gamadas à PSP por João Paulino e António Laranjinha, especialistas na matéria.

Preparando-se para enviar para a Guiné um carregamento de ovos produzidos pelas galinhas da sua empresa, foi abordado pela Judiciária, que o terá interrogado:

“Manuel, que levais aí, senhor?”

“São ovos, senhor polícia, são ovos!…” – exclamou Manuel.

Foram ver e eram mesmo ovos!

Só que, entre os ovos, estavam também carregadores e munições para as Glock fanadas.

E o empresário foi preso, o que foi uma injustiça, já que ele pretendia, apenas, ajudar os guineenses a defenderem-se.

A posse da tomada

November 3rd, 2019

(Fotos publicadas na Visão desta semana)

“O Assassino Cego”, de Margaret Atwood (2000)

October 26th, 2019

Foi com este The Blind Assassin que a canadiana Margaret Atwood venceu o Booker Prize de 2000.

Só agora o li e foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

A narradora é Iris Chase, uma octogenária com um coração doente que vai recordando a sua vida desde a infância, desde o tempo em que o seu avô enriqueceu com fábricas de botões. Depois, veio a Primeira Guerra, a Depressão, a Segunda Grande Guerra e a família Chase vai sofrendo convulsões, dramas e alegrias.

Iris tem uma irmã, Laura, com uma personalidade peculiar – hoje diríamos que seria, talvez, uma Asperger. Logo no início da narração, sabemos que Laura morre num acidente de automóvel, dez dias depois de terminar a Segunda Grande Guerra.

Postumamente, é publicado O Assassino Cego, romance alegadamente escrito por Laura e que é um sucesso instantâneo, mas Iris tem revelações surpreendentes para fazer, no final do livro.

Assim, esta obra de Atwood apresenta a narração de Iris Chase, intercalada com alguns capítulos do livro alegadamente escrito pela irmã e algumas notícias publicadas em jornais da época, relacionadas com a família Chase.

É começar a ler e não querer parar.

Edição Livros do Brasil, tradução de Elsa T. S. Vieira

Exposição de Miguel Palma no CCB

October 22nd, 2019

Chama-se “(Ainda) O Moderno Desconforto” e mostra muitas obras deste artista-performer, nascido em Lisboa há 55 anos.

Para um leigo como eu, a Exposição reúne uma série de engenhocas (não digo geringonças, porque o termo está estafado) muito curiosas.

Logo à entrada, temos uma ambulância verdadeira; olhando lá para dentro, como os mirones fazem nos acidentes, podemos ver o simulacro de um acidente, com automóveis miniatura; mais à frente, um tanque de guerra projecta uma série de imagens coladas aleatoriamente. Depois, nas duas salas da Exposição, encontramos diversas peças que merecem referência.

Ao acaso, falo na mesa de pingue-pongue com buracos que parecem ter sido causados por obuses, ou a barra de ferro com um pequeno televisor na extremidade, onde podemos ver uma ginasta romena evoluindo na barra olímpica (a peça chama-se Barra Comaneci!).

A ironia aliada à tecnologia. Mas há muito mais: uma máquina que tritura diversos electrodomésticos, um Google Plane que, na sua base, tem o céu estampado e que, em cima, tem fotos da Terra, e ainda a viatura em que o autor se fez transportar há uns anos e que é um verdadeiro bólide feito à mão (na foto).

Gostei e recomendo.