“O Corpo – um guia para ocupantes”, de Bill Bryson (2019)

February 3rd, 2020

Mais um excelente livro deste autor norte-americano, a viver há muitos anos na Grã-Bretanha.

Desta vez, Bryson debruça-se sobre o corpo humano e fala-nos dele com abundância de estatísticas, notas históricas e bom humor, como é seu timbre.

Começando na pele e no cabelo, passando pelos diversos órgãos internos e terminando na morte, Bryson consegue uma obra honesta, sem falsas verdades, tão comuns em livros sobre temas médicos.

Bryson deve ser um verdadeiro rato de biblioteca, pesquisando tudo e mais alguma coisa e conseguindo, com esse trabalho de sapa, encontrar histórias curiosas; como esta, na página 89, sobre a “moda” das lobotomias, técnica inventada por Egas Moniz:

“Nos Estados Unidos, um médico chamado Walter Jackson Freeman ouviu falar do processo de Moniz e tornou-se o seu acólito mais entusiástico. Ao longo de quase 40 anos, Freeman percorreu o país a fazer lobotomias a praticamente todos os pacientes que lhe colocavam à frente. Numa dessas viagens, lobotomizou 225 pessoas em 12 dias.”

No capítulo dedicado aos microorganismos, Bryson cita um estudo curioso, na página 130:

“Num estudo chamado “Bacterial Transfer Associated with Blowing Out Candles on Birthday Cakes”, a equipa de Dawson descobriu que soprar para apagar as velas de um bolo aumentava a cobertura de bactérias em cima dele, em 1400%.”

Na página 316 Bryson cita o caso de outro cirurgião compulsivo:

“Henry Cotton convenceu-se de que os distúrbios psiquiátricos não se deviam a perturbações do cérebro, mas sim a intestinos com malformações congénitas, e embarcou num programa de cirurgias para o qual não tinha, aparentemente, qualquer aptidão. Conseguiu matar 30% dos seus pacientes e não curou nenhum – porque, na verdade, nenhum tinha algum problema que pudesse ser curado. Cotton entusiasmou-se também com a extracção de dentes e arrancou quase 6500 dentes (uma média de 10 por paciente), num único ano, 1921, sem recorrer a qualquer anestesia.”

Falar de coisas sérias com um toque de humor, sem ser idiota, não é nada fácil, mas Bryson consegue-o.

Um exemplo, na página 357, sobre reprodução:

“É um pouco difícil saber o que pensar sobre os espermatozóides. Por um lado, são heróicos: os astronautas da biologia humana, as únicas células concebidas para sair do nosso corpo e explorar outros mundos. Por outro lado, são idiotas desorientados. Quando vão parar ao útero, parecem curiosamente mal preparados para a única tarefa que a evolução lhes atribuiu”.

Depois de ter escrito livros de viagens, de ter dissertado sobre as peculiaridades dos ingleses e dos americanos, de ter abordado as várias divisões de uma casa, de ter escrito uma história de quase tudo – Bryson escreve agora, com brilhantismo, sobre o corpo humano.

Aconselho vivamente.

(Edição Bertand, tradução de Elsa T. S. Vieira)

Outros livros de Bill Bryson: Made in America, Notas Sobre um País Grande, Por Aqui e Por Ali, Crónicas de Uma Pequena Ilha, A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, Em Casa – Breve História da Vida Privada, 1927 – Aquele Verão, Regresso à Pequena Ilha.

Um partido sexy que tira para fora

January 27th, 2020

O CDS tem um novo líder.

Chama-se Francisco Rodrigues dos Santos, mas todos lhe chamam Chicão.

Quando era pequenino, era o Chiquinho, mas depois foi para o Colégio Militar e passou a ser Chicão.

Chiquinho era mariquinhas de mais para um aluno do Colégio Militar.

Chicão tem 31 anos e diz que é conservador.

Foi ao Congresso do CDS acompanhado pela noiva. Note-se que não é namorada, é noiva, que é um estatuto muito mais sério.

Chicão quer um CDS mais encostado à direita. Um CDS onde os militantes se cumprimentem com um único beijinho. Sabemos que é contra a adopção por casais do mesmo sexo, contra o casamento entre homossexuais e contra o aborto.

Como o lugar das mulheres deve ser em casa, a tratar da prole numerosa, a nova direcção do CDS só tem homens. A política é coisa de homens, evidentemente.

No seu discurso, disse que, “Quando o combate aperta até fascistas somos todos”. Todos, os do CDS, presume-se.

Portanto, já sabemos ao que o Chicão vem…

Disse, também, que quer transformar o CDS num partido sexy.

Ora, sendo contra o aborto, ou opta pela abstinência, ou tira para fora.

Indicadores do SNS – Que diz a isto Sr. Bastonário?

January 25th, 2020

Exerci Medicina durante 40 anos, sempre no SNS, 33 dos quais como Médico de Família e já sabia que o nosso SNS era excelente, universal, tratando todos da mesma maneira e com grande cuidado na prevenção.

A OCDE faz estudos. A OCDE é uma instituição insuspeita; não consta que seja esquerdista…

Segundo a OCDE, nos EUA, morrem 175 pessoas por cada 100 mil por causas que podiam ser evitáveis; a média dos países da OCDE é de 133; em Portugal, o número desce para 110.

No que respeita à taxa de internamento por diabetes, na Alemanha, 209 doentes em cada 100 mil pessoas, são internadas por esses motivo, em França, 151, na Bélgica são 139, na Dinamarca, 92, na Noruega, 77 – em Portugal, apenas 52 (a média na OCDE é de 129!).

Quanto a mortes por enfarte, a média da OCDE é de 115 por 100 mil; na Alemanha, esse número desce para 102, na Noruega, para 66, mas em Portugal é apenas de 51.

Mortes por cancro: média da OCDE – 201 por 100 mil. Dinamarca, por exemplo, 230; Portugal – 196.

Finalmente, sobrevivência de cancro da mama após 5 anos: na OCDE, a média é de 97.4 anos. Portugal é o quarto país com melhor taxa – 98.7 %.

Que merda de SNS nós temos, na verdade!…

“O Coração É O Último A Morrer”, de Margaret Atwood (2015)

January 13th, 2020

Mais uma distopia de Margaret Atwood, mas esta não é tão bem conseguida como a famosa História de uma Serva (a sequela será publicada em Portugal ainda este ano).

Neste The Heart Goes Last, Atwood conta a história de Stan e Charmaine que, após a grande crise económica, estão desempregados e vivem no carro, que é o único bem que mantêm.

Desesperados, tomam conhecimento da Consiliência, uma espécie de cidade-piloto, onde se desenvolve a experiência Positrão.

Nessa cidade experimental, em troca de empregos estáveis, os habitantes aceitam ceder a sua liberdade, mês sim, mês não: num mês, vivem nas suas residências e trabalham nos seus empregos, no mês seguinte, vão para a prisão, onde trabalham gratuitamente, sendo substituídos nos empregos pelo seu cidadão alternante.

A ideia parece-me muito forçada e o desenvolvimento da história ainda mais forçada é, na minha opinião.

Margaret Atwood saíu-se muito bem com a criação da tenebrosa República de Gilead, mas esta Consiliência não me convenceu.

(Edição da Bertrand, tradução de Ana Falcão Bastos e Cláudia Brito)

Outros livros de Margaret Atwood: O Assassino Cego; Grace

“História Libidinosa de Portugal”, de Joaquim Vieira (2019)

January 9th, 2020

Nada destas coisas nos ensinaram no Liceu!

São centenas de bastardos a inundar a História de Portugal e que Joaquim Vieira decidiu investigar e reunir neste volume que escorre facadas no matrimónio.

Praticamente todos os reis tiveram amantes (ou barregãs, termo espantoso) e, consequentemente, filhos ilegítimos, que só não foram mais porque a mortalidade infantil era muito alta.

E entre essas barregãs, muitas eram freiras que, embora casadas com Cristo, recebiam no seu regaço os membros viris da realeza…

Um exemplo (pág. 62):

“Sendo as suas (de D. Dinis) visitas às religiosas feitas durante a noite, D. Isabel, ao saber por antecipação de uma dessas incursões, terá aguardado o marido a meio do percurso de ida, acompanhada por damas da corte com archotes acesos, dizendo ao rei quando surgiu: «Ide vê-las. Nós alumiamos o vosso caminho». E assim teriam nascido os nomes de Lumiar (a meio caminho do trajecto) e de Odivelas» (onde ficava o Mosteiro de Odivelas, onde D. Dinis ia molhar o bico…)

O livro está organizado por ordem cronológica, começando com a fundação de Portugal e das aventuras extraconjugais de D. Afonso Henriques e vai por ali fora, seguindo as várias dinastias.

Para além da listagem de amantes e de bastardos, Vieira conta-nos também outras histórias curiosas, como esta, na página 245, sobre a fealdade de D. João VI e da sua futura esposa Carlota Joaquina.

Ambos seriam tão feios que o marquês de Bombelles afirmou “ser preciso «fé, esperança e caridade para consumar este ridículo casamento: a fé para acreditar que a infanta é uma mulher; a esperança para crer que dela nascerão filhos; e a caridade para resolver fazer-lhos»”

Terminada a monarquia, também a República teve os seus episódios libidinosos (curiosa a história em volta de Balsemão e do seu ilegítimo) e Joaquim Vieira relata alguns deles, terminando relatando a tendência que José Sócrates mostrou para ajudar mulheres em aflições de dinheiro, sugerindo que, por vezes, também ele se socorria de senhoras da mais velha profissão do mundo.

O livro termina com esta frase curiosa:

“Ditosa pátria que tais filhos tem, empenhados, dia após dia, em dar continuidade à história libidinosa da nação”.

Aconselho a leitura (edição Oficina do Livro)

“Musicofilia”, de Oliver Sacks (2008)

December 22nd, 2019

Mais um livro curioso do neurologista/escritor Oliver Sacks.

Originalmente publicado em 2007, Sacks fez uma nova edição no ano seguinte, revista e aumentada, incluindo muitos testemunhos que recebeu depois da publicação da primeira edição.

Como médico, confesso a minha ignorância em relação a muitas coisas de que Sacks fala, nomeadamente da importância da musicoterapia no tratamento de algumas doenças neurológicas, nomeadamente, nas demências. Desconheço se em Portugal existem musicoterapeutas, mas parece que nos Estados Unidos, são mais ou menos vulgares, pelo menos em determinados hospitais.

Fiquei a saber coisas bem interessantes sobre ouvido absoluto, savants, doença de Williams, etc.

Como é possível, por exemplo, que doentes amnésicos consigam cantar muitas canções, recordando os versos sem hesitação, para não falar na doente que canta canções em mais de dez línguas, sem saber falar nenhuma delas.

Só um exemplo, retirado da página 220:

O distúrbio da fala mais comum é a gaguez e aqui – e os gregos e os romanos sabiam-no bem – mesmo aqueles que gaguejam tanto que o que dizem se torna quase incompreensível, conseguem quase sempre cantar de forma fluente e livre e, através do canto ou optando por um discurso cantante, podem muitas vezes ultrapassar ou contornar a sua gaguez”.

Agora que temos um deputada cuja gaguez é, por vezes, insuportável, a Joacine Katar Moreira, deputada do LIVRE, talvez fosse boa ideia dar-lhe este livro a ler e sugerir que passasse a intervir na Assembleia da República, a cantar…

Os leitores do Expresso elegem Ventura!

December 21st, 2019

Todos os anos, o Expresso elege as figuras nacional e internacional do ano.

A redacção escolhe um lote de candidatos e, depois, procede-se à votação.

Este ano, escolheram para candidatos a figuras nacionais do ano, o cardeal Tolentino Mendonça, António Costa, Margarida Matos Rosa, Jorge Jesus, Joacine Katar Moreira e o fascista André Ventura.

Para figuras internacionais do ano, escolheram Donald Trump, Boris Johnson, Ursula Von Der Leven e Greta Thunberg.

Não vou comentar estas escolhas. Os jornalistas do Expresso lá sabem por que carga de água metem no mesmo saco um treinador de futebol que ganhou a Taça dos Libertadores e um primeiro-ministro que conseguiu concluir quatro anos de governo com o apoio do PCP, um cardeal que foi nomeado responsável pelo arquivo do Vaticano e um tipo que comenta jogos de futebol e que foi eleito para o Parlamento por um partido chamado Chega!, com ponto de exclamação e tudo…

As escolhas internacionais são muito mais coerentes: um presidente, um primeiro ministro, uma líder da União Europeia e uma activista pelo clima.

No que respeita à escolha da figura internacional do ano, a redacção do Expresso escolheu a Greta Thunberg.

Escolha óbvia. A adolescente sueca arrastou multidões, trouxe a discussão das alterações climáticas para as primeiras páginas e conseguiu irritar muita gente.

Já no que respeita à escolha da figura nacional, o Expresso decidiu-se pelo cardeal Tolentino Mendonça – decisão corporativa, já que o cardeal colabora com o Expresso há alguns anos, com uma coluna semanal. De resto, que importância tem para o comum dos portugueses o facto do cardeal ter sido nomeado para um cargo importante no Vaticano? Poderá vir a ser Papa? E depois?…

Mas o que mais me interessa nesta iniciativa do Expresso é que o semanário decidiu pôr à votação dos leitores a escolha das figuras do ano.

É uma atracção fatal.

Abomino programas do estilo fórum, em que os ouvintes/telespectadores são convidados a dar a sua opinião sobre tudo. O Sr. Vitorino, reformado de cascais, telefona a dizer a sua douta opinião sobre os incêndios, as inundações ou Orçamento do Estado, assim como sobre as carreiras fluviais do Tejo ou os novos passes sociais.

Desta maneira, as estações de rádio e televisão enchem horas de emissão com opiniões bacocas e, muitas vezes, ideias erradas, nunca contrariadas e que passam como verdadeiras.

E qual foi o resultado da votação dos leitores do Expresso?

Simples: André Ventura e Donald Trump!

Trump conseguiu 52% dos votos dos leitores do Expresso, enquanto Ventura arrebatou 89% dos votos!

Espectacular!

Isto quer dizer que quase 9 em cada 10 leitores do Expresso acham que André Ventura foi a figura nacional mais importante de 2019.

Se eu fosse director do Expresso, demitia-me!…

“Operação Shylock”, de Philip Roth (1993)

December 17th, 2019

Só este ano a D. Quixote editou esta obra de Roth, publicada originalmente há 16 anos e percebe-se porquê.

De todos os livros que já li do Roth (um dos meus escritores contemporâneos preferidos) – e já foram 19 – este foi o me despertou menos interesse; e confesso que tive alguma dificuldade em acabar de o ler…

Essa dificuldade deve-se ao facto da trama estar completamente relacionada com os judeus, os sionistas, os anti-sionistas, os pró-Israel e os que defendem que os judeus devem regressar aos países onde viviam, antes da criação daquele Estado.

Na base da trama deste livro, está um sósia de Philip Roth, que se faz passar por ele e que advoga o regresso dos judeus à Polónia e a outros países que tinham grandes comunidades judaicas, antes da Segunda Grande Guerra.

O livro é narrado pelo próprio Roth, como fosse um relato de acontecimentos reais e, no final do livro, o autor assegura que qualquer relação com a realidade é pura coincidência e que todas as personagens são fictícias, embora acrescente que esta afirmação não é verdadeira.

O estilo de Roth é inconfundível, uma escrita avassaladora, que nos invade como uma avalancha, mas o tema, demasiado centrado na questão judaica, fez com que o meu interesse se dispersasse, por vezes.

Aconselho aos fãs…

“A Barata”, de Ian McEwan (2019)

November 26th, 2019

Lê-se de uma penada (tem pouco mais de 100 páginas e o livro tem formato pequeno) e é uma brincadeira com alguma graça.

Ian McEwan não gosta do Brexit, acha que é uma ideia estúpida e decidiu contribuir, à sua maneira, para a discussão.

Socorreu-se de Kafka e da sua Metamorfose e usou-a ao contrário: uma barata deambula por Londres e entra no 10 de Downing Street. Quando acorda, é o primeiro ministro do Reino Unido. Demora um pouco a habituar-se a ter apenas quatro membros e a ter uma língua dentro da boca, mas depressa se adapta e começa logo a ter ideias.

Quando chega ao Conselho de Ministros desse dia, descobre que todos os ministros, menos o dos Negócios Estrangeiros, são baratas que sofreram a metamorfose. E põe em marcha o seu plano: instituir o regressismo.

Se o brexit é uma estupidez e vai ser implementado, porque não o regressismo, que consiste em inverter o fluxo do dinheiro: os trabalhadores pagam para trabalhar e recebem dinheiro quando vão às compras.

Claro que este primeiro ministro-barata é Boris Johnson, assim como Archie Tupper, o presidente norte-americano, é Donald Trump – mas isso nunca é referido, obviamente.

Custa só 11 euros e ajuda a passar uma parte da tarde divertida

(Editora Gradiva, tradução de Maria do Carmo Figueira)

José Mário Branco (1942-19.11.2019)

November 25th, 2019

Tomei contacto com a música de José Mário Branco, pela primeira vez, em novembro de 1971, no extinto Cinema Roma.

Encontrei notícia desse encontro aqui, num texto de Rogério Santos, Estudos da Rádio em Portugal.

Diz o autor: “De indicativo musical composto pela banda Pop Five Music Incorporated, o programa (Página Um) (…) fez emissões ao vivo (…) do cinema Roma, aqui a estrear os discos de José Mário Branco (Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades) e de Sérgio Godinho (Os Sobreviventes) (novembro de 1971). Os discos foram apresentados faixa a faixa pelos autores, em entrevista em directo, conduzida por Adelino Gomes. Como os músicos viviam exilados em Paris, no palco puseram-se duas cadeiras, e, no lugar deles, um gravador e as bobinas da música. O espectáculo foi público e estiveram cerca de 50 pessoas”

Eu fui uma dessas 50 pessoas.

Em novembro de 1971, tinha 18 anos e não perdia uma emissão do Programa de rádio Página Um, da Rádio Renascença, apresentado por José Manuel Nunes e com reportagens de Adelino Gomes (que haveria de ser meu colega jornalista na redacção da RTP, depois do 25 de Abril).

O Programa passava música anglo-saxónica e música de intervenção portuguesa (Zeca Afonso e quejandos).

Os Pop Five Musica Incorporated era uma banda pop-rock que integrou, entre outros, o irmão de Sérgio Godinho, Paulo Godinho, David Ferreira, Tó Zé Brito, Miguel Graça Moura.

Lembro-me que, sentado na plateia do cinema Roma, fiquei logo fascinado com a música do José Mário Branco. Como era possível aquela sonoridade num disco de um português?

Todas as músicas eram excelentes: Cantiga para pedir 2 tostões, Cantiga do fogo e da guerra, O charlatão, Queixa das almas jovens censuradas, Nevoeiro, Mariazinha, Casa comigo Marta, Perfilados de medo, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Os arranjos eram todos diferentes do que tinha ouvido até aí. Era possível fazer uma música de intervenção com qualidade e moderna!

Claro que comprei o disco, assim que saiu em Portugal, e acompanhei a carreira do José Mário Branco, mesmo naquele período mais ou menos louco do GAC (tenho os vinis todos e, ainda hoje, cantamos, em coro, Na herdade de Albernoa… e destaco o grande Pois Canté!).

Como não gosto muito de fado, a carreira do José Mário Branco como produtor de discos de fado, nomeadamente, do Camané, passou-me ao lado – mas não posso esquecer o Inquietação e aquela espécie de melopeia/manifesto anti-FMI, que ainda hoje me emociona e tenho dificuldade em ler todo aquele arrazoado, sem um nó na garganta.

Os meus sinceros agradecimentos a José Mário Branco