“Em Louvor das Mulheres Maduras”, de Stephen Vizinczey (1965)

July 20th, 2018

“Uma obra prima… longe dos fantasmas e das neuroses…” – diz o Le Monde e “Um clássico da literatura erótica, subtilmente complexo, bem-humorado, inteligente”, diz o La Vanguardia, citados na contracapa.

Com estas citações e com a foto da sobrecapa, um nu de Jaromir Funke, estava à espera de um livro semelhante às epopeias de Henry Miller.

E afinal, não passa de um livrinho inocente, nada explícito e até um pouco chato.

Claro que o livro é datado (1965), mas os de Miller ainda são mais antigos (Sexus é de 1949).

Vizinczey nasceu na Hungia e tem agora 85 anos, vivendo no Canadá há décadas. Em Louvor das Mulheres Maduras diz ser “as recordações amorosas de András Vajda”, um jovem húngaro, que emigra para a Áustria e, depois, para o Canadá e que não se interessa por mulheres jovens, preferindo as mais velhas, mesmo que casadas.

O livro terá vendido mais de 3 milhões de exemplares e já foi adaptado para o cinema.

Parabéns ao Vizinczey!

Eu não gostei, a não ser desta frase deliciosa, sobre as relações entre os casais no Canadá: “magicava muito sobre a aridez das relações entre os sexos, a distância que parecia haver mesmo entre muitos casais. Pensei que tinha qualquer coisa a ver com o facto de as casas de banho não terem bidés.”

Valerá a pena ir ver este filme?

July 13th, 2018

Finalmente aposentado, tenho tempo e disponibilidade para voltar a ir ao cinema com regularidade. Nos últimos, digamos, dez anos, fiquei tão absorvido com a minha profissão que só episodicamente fui ao cinema, ao contrário do que acontecia quando tinha 20 ou 30 anos, em que era rara a semana em que não ia ao cinema.

Na semana passada fui ver o novo filme de Gus Van Sant, de que gostei, e vi a apresentação do novo filme de Paul Schrader.

O nome de Paul Schrader é bem conhecido.

Foi ele que escreveu os argumentos do estupendo Taxi Driver, de Scorcese, de Obsession, de Brian de Palma (ambos de 1976) e American Gigolo (1980), que também dirigiu; escreveu ainda o argumento de Raging Bull, que Scorcese também dirigiu, em 1980.

Vi todos.

E também vi Cat People, com a Natacha Kinski (1982), que realizou, e The Mosquito Coast (1986), com o Harrison Ford, cujo argumento escreveu.

Estes cartões de visita seriam suficientes para me convencer a ir ver o seu novo filme, First Reformed (título em português, No Coração da Escuridão, sei-lá-porquê!).

No entanto, como o senhor está com 71 anos e, no trailer, vi o protagonista, Ethan Hawke, vestido de padre e com um colete de explosivos, pensei que talvez fosse melhor ler uma crítica antes de ir ver o filme.

Hoje, deparei com a crítica de um senhor chamado Vasco Câmara, no suplemento Ipsilon, do Público.

Começa por dizer isto:

“Fazendo resistência passiva-agressiva ao template cinematográfico dos dias de hoje, No Coração da Escuridão, violenta os dados da cronologia e, sendo um filme realizado em 2017 por Paul Schrader, coloca-se ao lado de Blue Collar (1978), de Hardcore-A Rapariga da Zona Quente (1979) e de American Gigolo (1980), três títulos iniciais da filmografia do realizador.”

Ora, portanto, valerá a pena ir ver o filme, pergunto eu?

Por enquanto, não sabemos.

Mais à frente, o Sr. Câmara diz:

“É que o presente para Schrader, nesses anos, era o corpo. Apresentara-se-lhe quando aterrou em Los Angeles. Sobre as experiências do sensualista dar-nos-ia conta American Gigolo, o filme do Call Me de Blondie/Giorgio Moroder e do “visual” (via Ferdinando Scarfiotti, que estava ali por causa da art direction no Conformista de Bertolucci). Por estar indexado ao chic de um tempo, American Gigolo talvez não se tenha deixado ver convenientemente. Por exemplo, a forma como ao mesmo tempo se embriagava (Schrader transformava o corpo no ginásio; exercitava-se no contacto físico, que estivera ausente da família, nos clubes gay, o que não representava “perigo”, segundo ele, era coreografias), oferecia resistência, arredando os corpos de Richard Gere e de Lauren Hutton do espectáculo para, com a contenção, permitir uma deflagração final. Era uma subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema.”

Senti uma bofetada na cara.

Está claro que, apesar de ter um curso superior e de me considerar um tipo interessado por cinema, literatura, pintura e todas as artes em geral, não percebo porra nenhuma desta merda, ao contrário do Sr. Câmara.

Daquele parágrafo imperial, retiro a menção à Blondie e ao Giorgio Moroder, que conheço da música pop dos anos 80, mas reconheço a minha ignorância quanto ao senhor Ferdinando Scarfiotti.

No que respeita aos ginásios gay, reconheço que não percebi nada: Schrader é gay? Richard Gere é que é gay? Ou será Lauren Hutton, ou a Blondie?

E onde raio está a “subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema”?!

São demasiadas palavras em ão: contenção, deflagração, frustração, violentação!

Não li mais nada por que não!

Por favor, ajudem-me: hei de ir ver o filme, ou não?…

“A Vida é um Tango”, de Cristina Norton (2018)

July 12th, 2018

Cristina Norton nasceu na Argentina em 1948, mas vive em Portugal há 30 anos. Autora de romances, livros infantis e livros de contos, publicou este ano este A Vida é um Tango, uma colectânea de histórias mais ou menos trágico-cómicas.

As histórias são todas muito acessíveis e a autora conta-as de modo muito simples, o que não é um defeito, na minha opinião.

No entanto, a qualidade das histórias é um pouco irregular: algumas são bem esgalhadas, outras são fraquinhas, outras ainda têm um desfecho que se pretende surpreendente, mas que, no entanto, se desconfia logo desde o início.

Em resumo, um livro despreocupado, excelente para ler em voz alta.

“Don’t worry, he wont get far on foot”, de Gus Van Sant (2018)

July 6th, 2018

John Callahan (1951-2010) foi um cartunista norte-americano, sarcástico, politicamente incorrecto, que, devido ao seu alcoolismo, sofreu um acidente de viação que o deixou tetraplégico aos 21 anos.

Preso a uma cadeira de rodas, continuou a beber durante anos, até conseguir, graças ao clássico programa dos alcoólicos anónimos e à ajuda de uma espécie de guru, deixar o álcool e começar a desenhar.

Os seus cartoons são sarcásticos e altamente provocadores; num deles, um pedinte de raça negra e cego, estende o chapéu, pedindo trocos, dizendo “sou cego e negro e não tenho jeito para a música, ajude-me!”

Joaquin Phoenix é um excelente actor e faz um tetraplégico convincente e Gus Van Sant dirige o filme de forma escorreita.

Sabe bem ver uma história bem contada, sem rodriguinhos, nem “modernices”.

Gostei!

E foi o nosso primeiro filme com bilhetes sénior!

Bigre – mélo burlesque

July 5th, 2018

Assistimos ontem ao espectáculo de abertura do 35º Festival de Teatro de Almada.

“Bigre – mélo burlesque”, é um espectáculo da Compagnie Le Fils du Grand Réseau (Brest/França), da autoria de Pierre Guillois, com a ajuda de Agathe L’Huiller e Olivier Martin-Salvan.

Em 2017, este espectáculo ganhou o prémio Moliére para Melhor Comédia e foi votada como o melhor espectáculo no 34º Festival de Almada, razão pela qual tivemos direito a mais uma representação.

Foi ontem, no palco grande da Escola António da Costa e já não me ria tanto há muito tempo.

No palco, três águas furtadas contíguas. Na primeira, vive um adepto das novas tecnologias, obcecado pela limpeza, na segunda, um acumulador de tralha que dorme numa rede e estende roupa numa corda improvisada, que implica com o candeeiro, e na terceira, uma inquilina desastrada, dada a biscates.

Os três vão protagonizar uma série de gags, qual deles o mais cómico.

Descrevê-los é impossível.

Parece incrível como é possível, ao vivo, e em directo, conseguir todos aqueles “efeitos especiais”, graças a um excelente trabalho de bastidores, a uma banda sonora óptima e um jogo de luzes impecável – porque não há texto, vivendo a acção disso mesmo, da acção dos três protagonistas, cujos nomes são: Bruno Fleury, Eleonore Auzou-Connes e Jonathan Pinto-Rocha.

Cinco estrelas.

O youtube tem pedaços do espectáculo, que vale a pena espreitar…

https://ctalmada.pt/bigre-melo-burlesque/

“Aqui Estou”, de Jonathan Safran Foer (2018)

June 14th, 2018

Quando li o anterior romance deste escritor norte-americano, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (2005), fiquei muito agradado, sobretudo com a novidade da narrativa de Foer, cheia de “truques” originais.

Esses “truques” continuam neste novo romance de quase 700 páginas: muito discurso directo, troca de sms, conversas ao telefone, etc – mas custou-me chegar ao fim do calhamaço.

Aqui Estou não conta propriamente uma história, mas vários episódios em torno da família de Jacob e de Júlia, que têm três filhos e que se vão divorciar.

O problema é que Aqui Estou foi o que Abraão disse a Deus, antes de ele lhe pedir para matar o seu filho e todo o livro é, digamos, demasiado judeu. As primeiras páginas estão cheias de referências a challá, bar mitzvá, taschlich, Rosh Hashaná, e muitos outros termos judeus.

Lá mais para a frente, fala-se de um terramoto que quase destrói Israel e de uma guerra que uma coligação entre a Jordânia e a Arábia Saudita desencadeia, aproveitando o caos que se vive na terra dos judeus.

O livro teve muito boa crítica mas, sinceramente, não me comoveu…

“O Amor de uma Boa Mulher”, de Alice Munro (1998)

June 13th, 2018

Depois de ter lido O Progresso do Amor, avancei para mais um livro de contos desta escritora canadiana, Prémio Nobel de 2013.

São mais oito contos muito descritivos, com personagens sempre muito bem caracterizadas, desde as roupas que usam aos traços fisionómicos. Mesmo os personagens secundários são minuciosamente descritos e ficamos sempre a saber as suas profissões e como usam o cabelo.

Cada uma destas histórias poderia ser desenvolvida e transformar-se num romance, mas a autora, pelos vistos, prefere este tipo de textos, já que publicou doze colectâneas de contos.

Uma leitura agradável, embora pouco estimulante.

A cimeira impossível

June 12th, 2018

G 6 + 1

June 11th, 2018

Sou pago para não trabalhar!

May 28th, 2018

Finalmente!

Desde 1974 que tive que trabalhar para me pagarem.

Agora, com a aposentação, cumpro o meu sonho de ser pago para não trabalhar.

Nos últimos tempos, aproveitei para anotar algumas coisas que os meus doentes diziam.

Parece divertido, mas ao fim de mais de 40 anos, não é…

Ora tomem lá.

 

O pai do L. morreu de repente, aos 60 e poucos anos; estava sentado num Café quando caiu para o lado. Tinha os dentes todos e lavava-os com carvão.

A M. A. também cai para o lado com muita frequência; sente uma música nos ouvidos, que vai aumentando de intensidade até que ela desmaia.

O J. arranjou uma namorada nova mas anda com disfunção eréctil; trabalha no Corte Inglês e informou-me que aquilo está minado de maricas.

A I. há 15 anos que vai a pé a Fátima; antes, faz um retiro e durante três semanas não pode ter sexo, beber álcool ou fumar – por isso, veio pedir receita de Champix.

A O. pediu uma cadeira de rodas emprestada para ir à junta médica para atribuição de ajuda de terceira pessoa. Anda perfeitamente.

A P. perguntou-me se a bruxa tem vindo à consulta, referindo-se à mãe e informou-me que o irmão emprenhou uma preta.

O J. P. irritou-se na fila da Ponte com outro automobilista e, quando chegou a Lisboa, picou o dedo e tinha 140 de glicémia.

O marido da C. foi entregar uma consola de jogos que o filho vendera através da OLX por 240 euros, dinheiro que ia servir para pagar as propinas da Faculdade; quando chegou a casa, verificaram que as notas eram todas falsas.

A C. começou a deitar pus verde do ouvido esquerdo e, depois, começaram a sair umas areias; deitou também areias pelos olhos.

A C. está preocupada com a sua falta de memória; diz que até se esqueceu que tinha tido sexo com o companheiro.

A E. diz que o marido tem a pila torta e só conseguem ter relações assim, pela frente (e faz o gesto explicativo); já tentaram por trás, mas ela fica toda torcida.

A D. F. diz que não tem cheiro nem sabor desde que se constipou e parece que tem rapé no nariz.

A L. está muito zangada com a namorada do filho porque está de baixa há um mês e passa o dia lá em casa, metida na cama; a L. está de baixa vai para três anos.

O C., que é diabético, diz que anda melhor desde que a mulher deixou de por batata na sopa e agora põe georgete.

A J., 70 anos, confessou-me que nunca comeu tomates na vida; não lhe faz confusão olhar para eles e arranjar a salada com eles, mas comê-los – nunca!

A C. contou-me que teve uma forte dor no peito e ficou com a língua azul…

A L. quer uns comprimidos para a sua bexiga, que é muito hiperactiva, porque vai para as marchas do S. João e não quer andar sempre a correr para aquelas casas de banho portáteis.

O V. é capaz de comer bolos de canela mas não suporta ver canela em cima do arroz doce, fica mal-disposto.

O R. acabou de ser pai e hoje disse-me que devia ser obrigatório fazer testes psico-técnicos para saber se se tem condições para ser pai.

A D. Z. estava na paragem do autocarro quando ouviu uma senhora queixar-se de dores na mão, e que estava a tomar uns comprimidos receitados pelo Dr. Artur mas como agora ele se vai embora… vai daí, a D. Z. hoje veio para a porta do Centro de Saúde às 7 da manhã para ser a primeira a ser consultada, antes que eu me vá embora!

O R. tem andado com os pés inchados e pergunta-me se não será da picardia que ele tem no coração…

A C., 88 anos, foi tomar duche sem tirar os aparelhos auditivos e deixou de ouvir. Foi à loja e limparam-lhe os aparelhos, mas agora ouve um zumbido toda a noite.

O I., 28 anos, sofreu já três episódios de desmaio com convulsões, quando mistura canábis com álcool e quer saber se poderá ser epilepsia…

A I. deixou cair lixívia em cima dos pés e está cheia de ardor; diz que, à noite, abre a porta do frigorífico e põe os pés lá dentro, para aliviar o ardor.

A C. ouviu dizer que o limão tira as inflamações mas, quando colocou uma rodela de limão junto ao nariz, por causa da sinusite, ia morrendo.

O B., 82 anos, tem próteses dentárias mas está com dificuldade em habituar-se a elas; a comida fica presa nas próteses e ele tem que a lavar sempre que acaba de comer. Diz-me que, antes de arrancar os dentes, era capaz de estar sem os lavar mais de um mês!

A P. diz que foi ao otorrino com uma infecção no ouvido e ele receitou-lhe gotas de ácido bucólico.

A T. vem pedir uma nova credencial para a colonoscopia; diz que estava muito vento e a credencial que eu lhe passei voou para cima do telhado.

A C. diz-me que a nora está muito aflita com vertigens porque tem os “fiscais” dos ouvidos alterados.

O L. veio pedir nova credencial para ecografia porque a anterior “inspirou” o prazo…

A A. S. veio pedir uma declaração para entregar na escola do filho, de 5 anos, a dizer que ele precisa de lavar os dentes depois das refeições.

A C. diz que tem a velocidade de cimentação muito alta.

A H. comeu uvas e engoliu uma grainha; sentiu uma picada no ânus e saiu logo sangue.

O A., de 73 anos, vem pedir ajuda porque não tem potência sexual mas a F., sentada ao lado dele, diz que não vale a pena ele tomar nada porque ela não é viciada.