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“A Rainy Day in New York”, de Woody Allen (2019)

Tuesday, November 12th, 2019

Woody Allen nunca desilude. Os seus filmes são todos iguais, e todos diferentes. Claro que já não há aquela surpresa que causaram “Annie Hall” ou “Manhattan”, mas há sempre uma história bem contada, com diálogos inteligentes, algumas boas piadas e muito romantismo, sem ser piegas.

Desta vez, Allen escolheu novamente New York como cenário de fundo, embora o filme se passe, quase todo, em interiores. Imagino que fazer cenas tendo, como pano de fundo, a Brooklyn Bridge, o Empire State, o East River, a Broadway, deveria sair muito caro – portanto, temos a cena final no Central Park e já vamos com sorte.

Gatsby (Timothée Chalamet) é um jovem universitário que gosta muito de Manhattan e leva a sua namorada, Ashleigh (Elle Fanning) para um fim de semana em que lhe deveria mostrar a cidade. Ela vai fazer uma entrevista de uma hora a um realizador de cinema famoso, para ser publicada no jornal da Faculdade.

Só que, além da entrevista, ela se vê envolvida em diversas peripécias relacionadas com a fauna do cinema, acabando no apartamento de um actor mais ou menos famoso, e ele deambula pela cidade, sempre debaixo de uma chuva copiosa e, como vê todos os seus planos falhados, acaba por contratar uma prostituta para se fazer passar pela sua namorada numa festa organizada pela mãe dele.

E há, ainda, a irmã mais nova de uma antiga namorada de Gatsby.

Gostei de ver estes actores muito jovens; Timothée Chalamet tem todos os tiques de Woody Allen (por que será?).

Hora e meia de entretenimento garantido.

A Gaiola das Malucas

Thursday, October 10th, 2019

Morais Sarmento, o ex-boxeur do PSD, classificou o seu partido como uma gaiola das malucas.

Gaiola das Malucas – no original, La Cage aux Folles – é um filme italo-francês de 1978, realizado por Édouard Molinaro, com Ugo Tognazzi e outros.

O filme conta a história da chegada de Laurent Baldi à casa dos pais, um casal homossexual formado por Renato, o gerente de uma boate drag de Saint-Tropez, e Albin, a atracção principal do estabelecimento. Laurent volta para casa para anunciar que está noivo de Andrea, filha do político ultra-conservador Simon. Com a ocorrência de um escândalo sexual no seu partido político, Simon decide casar sua filha com Laurent para poder fazer os média esquecer tudo, sem imaginar como é a família do noivo.

Acho que não é preciso dizer mais nada sobre o PSD…

“Once Upon a Time in Hollywood”, de Quentin Tarantino (2019)

Wednesday, August 28th, 2019

Beethoven compôs nove sinfonias. Tarantino realizou nove filmes.

Não vou comparar Beethoven com Tarantino. Seria o mesmo que comparar grelos cozidos com laranjas.

Mas sempre direi que, no que respeita às sinfonias de Beethoven, é impossível dizer qual é a melhor. Será a famosa Quinta ou a Nona, conhecida como Coral? Será a Terceira, a Heróica, ou a Sexta, a Pastoral?

Já no que diz respeito aos nove filmes de Tarantino, o melhor é, sem dúvida, Pulp Fiction.

A este nono filme de Tarantino, falta-lhe alguma coisa para ser um Pulp Fiction.

Falta-lhe algum ritmo (há cenas intermináveis de Rick a conduzir pelas ruas e estradas de LA), faltam-lhe o monólogos de Keitel e de Cristopher Walken e falta-lhe uma personagem feminina como a de Uma Thurman.

Mas tem outros ingredientes muito bons: a dupla de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio iguala a de Travolta e Sammuel L. Jackson, os diálogos são dignos de Tarantino e a banda sonora é excelente (Joe Cocker, Mamas and Papas, José Feliciano, Easy Beats e muitos outros, em versões menos conhecidas de êxitos de finais dos anos 60).

E depois, há a homenagem aos filmes, a Hollywood, aos western spaguetti, às séries televisivas a preto e branco, aos cromos e aos tiques dos actores, realizadores e restante família.

DiCaprio faz um óptimo Rick Dalton, um actor de séries televisivas que está em declínio; muito bem acompanhado por Brad Pitt, o seu duplo e que, agora, faz de motorista e faz-tudo do actor.

Dalton mora mesmo ao lado da vivenda que Polanski partilha com Sharon Tate e, como a acção decorre em 1969, sabemos que estamos no ano em que Charlie Manson é o mentor dos assassínios brutais de Tate e dos seus amigos, na noite de 9 de agosto de 1969.

Por isso mesmo, o final do nono filme de Tarantino é surpreendente.

Embora não consiga atingir o nível de Pulp Fiction, Once Upon a Time in Hollywood garante um bom entretenimento durante três horas.

“Yesterday”, de Danny Boyle (2019)

Monday, July 8th, 2019

Um empregado de supermercado, Jack (Himesh Patel), vivendo numa parvónia britânica, pretende tornar-se um cantor de sucesso, mas tem apenas como fãs três ou quatro amigos e a sua agente (Lily James), uma despretensiosa professora de matemática.

Prestes a desistir de tornar-se músico, Jack é atropelado por um autocarro, durante um estranho blackout que atingiu todo o planeta.

Depois de algum tempo no hospital, Jack tem alta e os amigos oferecem-lhe uma guitarra nova; ele pega na guitarra e canta o Yesterday, dos Beatles. Todos ficam atónitos com a canção. Jack descobre que ninguém sabe quem foram os Beatles, ninguém conhece nenhuma das canções dos quatro de Liverpool e todos pensam que todas são da autoria do próprio Jack.

O tal blackout fez desaparecer da História a maior banda pop-rock de sempre e todas as suas canções – e mais outras coisas, que vamos percebendo ao longo do filme, como a Coca Cola (só há Pepsi), os cigarros, etc.

É este o tema base deste filme despretensioso, realizado pelo mesmo realizador de outros filmes bem mais complexos, como o Trainspotting, por exemplo.

Os críticos, em Portugal (do Expresso e Público, pelo menos), não gostaram nada do filme.

Paciência.
O simples facto de poder ouvir, mais uma vez, Hey Jude, I Wanna Hold Your Hand, All You Need Is Love, The Long and Widing Road, Here Comes The Sun e muitas outras grandes canções dos Beatles, e imaginar o que seria o mundo sem elas, valeu a pena as duas horas que passei no cinema.

Se gostam da música dos Beatles, é imperdível.

“A Favorita”, de Yorgos Lanthimos (2018)

Saturday, March 9th, 2019

A rainha Ana, de Inglaterra, que reinou apenas entre 1702 e 1707, é interpretada por Olivia Colman e esse desempenho valeu-lhe o óscar por melhor actriz.

Ana foi uma rainha fraca e doente; consta que sofreu 17 abortos, pelo que não teve nenhum herdeiro e da sua fraca saúde se aproveitava Lady Sarah (Rachel Weisz) que, segundo o filme, acabava por tomar decisões pela rainha.

Além de lhe usurpar o poder, Lady Sarah também partilhava a cama da rainha. Só que entre ambas acaba por se intrometer Abigail (Emma Stone), uma ex-dama, caída em desgraça mas que, graças às suas manhas e, mais uma vez, às fraquezas da rainha, consegue subir de criada a Lady, passando, também, pela cama da rainha.

E é neste triângulo amoroso que se vai desenrolando a história, tendo, como pano de fundo, uma guerra com a França e a disputa entre os tories e os whigs.

O desempenho das três actrizes é óptimo, a história está bem contada, a decadência da corte inglesa está bem demonstrada e o realizador consegue fazer um filme histórico sem cair na produção BBC-like, como poderia ter acontecido.

Gostei.

“The Mule”, de Clint Eastwood (2018)

Tuesday, February 19th, 2019

Devo ter falhado poucos filmes do, e com o, velho Clint Eastwood. Segundo os meus registos, vi 36 filmes de e com o antigo mayor de Carmel. Não vi The Snipper e acho que nunca o irei ver.

Enfim, Clint está velhote (tem 88 anos), é um republicano empedernido e, de vez em quando, demasiado à direita para o meu gosto – mas que é um autor/actor do caraças, lá isso é!…

Desde os tempos em que fazia de cowboy nos western spaguetti do Sergio Leone, como The Good, The Bad and the Ugly, com aquele célebre trielo com o sol a pino e a música inconfundível de Morricone.

(Chiça, que até pareço um crítico de cinema – só me faltam alguns adjectivos e umas quantas frases indecifráveis!).

Fui hoje ver o último filme realizado e protagonizado pelo velho Clint.

E chamo-lhe novamente velho porque, para além do homem ter 88 anos, interpreta o papel de um tipo com 90 anos! Portanto, bastou-lhe “act naturally”, como cantava o Ringo Starr.

Este The Mule, baseado numa história verdadeira, conta a aventura de um horticultor de 90 anos que, vendo-se na falência, cede à tentação de arranjar dinheiro fácil, transportando droga entre o Texas e Chicago. Quem ia suspeitar de um velhote, conduzindo uma camioneta de caixa aberta?

Durante cerca de um dúzia de viagens, Earl vai transportando cada vez maiores quantidades de cocaína, proveniente do México.

Earl esteve na guerra da Coreia e, embora muito popular e divertido junto das associações de horticultores e dos clubes de veteranos de guerra, é mal-visto pelos membros da sua família. A ex-mulher não lhe perdoa o abandono e a filha nem sequer lhe fala. Resta-lhe uma neta que, apesar de tudo, sente alguma ternura por ele.

No final, Earl vai ter que decidir entre entregar mais de 300 quilos de coca ou acompanhar os últimos dias de vida da ex-mulher, que sofre de cancro.

A história está bem contada, sem rodriguinhos nem cenas desnecessárias, Eastwood percorre todo o filme com aquele seu ar seco e de poucas falas e gostámos muito.

Recomendo.

“The Oldman and the Gun”, de David Lowery (2018)

Monday, January 14th, 2019

O filme conta-nos a história de Forrest Tucker (Robert Redford, 82 anos), um crónico assaltante de bancos que, apesar da idade avançada, continua a sua actividade criminosa, com a ajuda de dois cúmplices: Teddy (Dany Glover, 72 anos) e Waller (Tom Waits, 69 anos).

Baseado numa história verídica, é um filme tranquilo, de acordo com a idade dos actores.

Robert Redford compõe um excelente Tucker, um assaltante bem educado, que nunca levanta a voz, nunca usa a arma que traz consigo e tem sempre um cumprimento e um sorriso para os gerentes dos bancos que assalta.

Tom Waits tem um papel curto, mas conta uma história digna dele próprio.

Sissi Spacek (69 anos) é Jewel, uma viúva que acolhe Tucker durante algum tempo e Casey Affleck (o mais novo deles todos), é o polícia que devia prender o assaltante, mas que, no fundo, o admira.

Bom filme.

Valerá a pena ir ver este filme?

Friday, July 13th, 2018

Finalmente aposentado, tenho tempo e disponibilidade para voltar a ir ao cinema com regularidade. Nos últimos, digamos, dez anos, fiquei tão absorvido com a minha profissão que só episodicamente fui ao cinema, ao contrário do que acontecia quando tinha 20 ou 30 anos, em que era rara a semana em que não ia ao cinema.

Na semana passada fui ver o novo filme de Gus Van Sant, de que gostei, e vi a apresentação do novo filme de Paul Schrader.

O nome de Paul Schrader é bem conhecido.

Foi ele que escreveu os argumentos do estupendo Taxi Driver, de Scorcese, de Obsession, de Brian de Palma (ambos de 1976) e American Gigolo (1980), que também dirigiu; escreveu ainda o argumento de Raging Bull, que Scorcese também dirigiu, em 1980.

Vi todos.

E também vi Cat People, com a Natacha Kinski (1982), que realizou, e The Mosquito Coast (1986), com o Harrison Ford, cujo argumento escreveu.

Estes cartões de visita seriam suficientes para me convencer a ir ver o seu novo filme, First Reformed (título em português, No Coração da Escuridão, sei-lá-porquê!).

No entanto, como o senhor está com 71 anos e, no trailer, vi o protagonista, Ethan Hawke, vestido de padre e com um colete de explosivos, pensei que talvez fosse melhor ler uma crítica antes de ir ver o filme.

Hoje, deparei com a crítica de um senhor chamado Vasco Câmara, no suplemento Ipsilon, do Público.

Começa por dizer isto:

“Fazendo resistência passiva-agressiva ao template cinematográfico dos dias de hoje, No Coração da Escuridão, violenta os dados da cronologia e, sendo um filme realizado em 2017 por Paul Schrader, coloca-se ao lado de Blue Collar (1978), de Hardcore-A Rapariga da Zona Quente (1979) e de American Gigolo (1980), três títulos iniciais da filmografia do realizador.”

Ora, portanto, valerá a pena ir ver o filme, pergunto eu?

Por enquanto, não sabemos.

Mais à frente, o Sr. Câmara diz:

“É que o presente para Schrader, nesses anos, era o corpo. Apresentara-se-lhe quando aterrou em Los Angeles. Sobre as experiências do sensualista dar-nos-ia conta American Gigolo, o filme do Call Me de Blondie/Giorgio Moroder e do “visual” (via Ferdinando Scarfiotti, que estava ali por causa da art direction no Conformista de Bertolucci). Por estar indexado ao chic de um tempo, American Gigolo talvez não se tenha deixado ver convenientemente. Por exemplo, a forma como ao mesmo tempo se embriagava (Schrader transformava o corpo no ginásio; exercitava-se no contacto físico, que estivera ausente da família, nos clubes gay, o que não representava “perigo”, segundo ele, era coreografias), oferecia resistência, arredando os corpos de Richard Gere e de Lauren Hutton do espectáculo para, com a contenção, permitir uma deflagração final. Era uma subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema.”

Senti uma bofetada na cara.

Está claro que, apesar de ter um curso superior e de me considerar um tipo interessado por cinema, literatura, pintura e todas as artes em geral, não percebo porra nenhuma desta merda, ao contrário do Sr. Câmara.

Daquele parágrafo imperial, retiro a menção à Blondie e ao Giorgio Moroder, que conheço da música pop dos anos 80, mas reconheço a minha ignorância quanto ao senhor Ferdinando Scarfiotti.

No que respeita aos ginásios gay, reconheço que não percebi nada: Schrader é gay? Richard Gere é que é gay? Ou será Lauren Hutton, ou a Blondie?

E onde raio está a “subtil frustração ou mesmo violentação da natureza empática do cinema”?!

São demasiadas palavras em ão: contenção, deflagração, frustração, violentação!

Não li mais nada por que não!

Por favor, ajudem-me: hei de ir ver o filme, ou não?…

“Don’t worry, he wont get far on foot”, de Gus Van Sant (2018)

Friday, July 6th, 2018

John Callahan (1951-2010) foi um cartunista norte-americano, sarcástico, politicamente incorrecto, que, devido ao seu alcoolismo, sofreu um acidente de viação que o deixou tetraplégico aos 21 anos.

Preso a uma cadeira de rodas, continuou a beber durante anos, até conseguir, graças ao clássico programa dos alcoólicos anónimos e à ajuda de uma espécie de guru, deixar o álcool e começar a desenhar.

Os seus cartoons são sarcásticos e altamente provocadores; num deles, um pedinte de raça negra e cego, estende o chapéu, pedindo trocos, dizendo “sou cego e negro e não tenho jeito para a música, ajude-me!”

Joaquin Phoenix é um excelente actor e faz um tetraplégico convincente e Gus Van Sant dirige o filme de forma escorreita.

Sabe bem ver uma história bem contada, sem rodriguinhos, nem “modernices”.

Gostei!

E foi o nosso primeiro filme com bilhetes sénior!

“Blue Jasmine”, de Woody Allen

Friday, September 27th, 2013

A tradição ainda é o que era: nas minhas férias há sempre um novo filme de Woody Allen para ver.

blue jasmineDepois de um período menos bom (não gostei muito da “fase Barcelona” de Allen), o realizador parece que reencontrou a sua verve e os últimos filmes têm estado à altura do seu status (Midnight in Paris, 2011 e To Rome With Love, 2012).

Este Blue Jasmine também é um bom filme.

Woody Allen mantém-se atrás das câmaras (disse que, se fosse o protagonista, o filme passaria a ser uma comédia) e Cate Blanchett domina todo o filme, fazendo o papel de uma mulher da alta sociedade de Nova Iorque, cujo marido (Alec Baldwin) dirige negócios especulativos, que permitem, ao casal, levar uma vida de fausto.

Entretanto, as fraudes são expostas, o marido é preso e, na prisão, suicida-se e Jasmine vai viver para San Francisco, para casa da sua irmã (Sally Hawkins), uma simples empregada de supermercado.

Jasmine não está habituada a viver numa casa tão modesta, tem que aturar o  bronco do namorado da irmã (Bobby Cannavale), vai ter de arranjar um emprego e tirar um curso de computadores.

Sempre à beira de um ataque de pânico, recorrendo constantemente ao Xanax, Jasmine não consegue deixar de ser quem era.

Hora e meia bem passada.