After Life, de Ricky Gervais (2019-2020)

Gervais encontrou, nesta série, o tom certo para “brincar com coisas sérias”.

Uma imagem com animal, exterior, sentado, mamíferoDescrição gerada automaticamenteAfter Life é uma série de apenas 12 episódios, divididos em duas temporadas, e que nos conta a história de um redactor de um jornal de província, Tony, que perdeu a mulher há pouco tempo, vítima de cancro. Tony está deprimido, suicida e, uma vez que acha que perdeu tudo na vida, diz e faz o que lhe apetece, sem remorsos, acabando por espalhar azedume à sua volta – mas com muita graça.

Ricky Gervais é um Tony convincente, sempre de rosto fechado, só sorrindo quando, de algum modo, goza com os seus estranhos colegas do jornal.

A série decorre numa vila de província, com as suas figuras estranhas, o carteiro, a prostituta, a cuidadora do Lar, o psiquiatra (talvez a personagem menos conseguida, porque demasiado caricaturada).

Gostámos muito.

“Ozark”, de Bill Dubuque (2017-2020)

Terminámos hoje o visionamento de Ozark, uma série da Netflix.

São três temporadas, cada uma com 10 episódios de uma hora e picos. Uma quarta e última temporada está quase pronta.

Ozark conta a história de um conselheiro financeiro de Chicago (Marty Byrde), que se muda com a mulher e os dois filhos para Ozark, depois do seu sócio ser assassinado pelo cartel mexicano dirigido por Navarro.

Byrde lava dinheiro para Navarro e acaba por envolver a mulher, Wendy, e os dois filhos, Charlotte e Jonah.

Marty Byrde é interpretado por um excelente Jason Bateman, que raramente se ri ao longo dos 30 episódios, consegue quase sempre manter a calma perante todas as adversidades, mesmo quando está quase a ser morto por vários tipos de diversas proveniências, quase sempre entalado entre o FBI, o cartel e vários mafiosos locais.

Wendy, interpretada por Laura Linney, a pouco e pouco vai entrando no negócio e, às tantas, parece querer rivalizar com o marido em manobras e artimanhas.

Destaque ainda para Ruth (Jluia Garner), uma miúda local que começa a trabalhar para Byrde e que se envolve cada vez mais nos negócios e nas suas desgraças e Marlene (Lisa Emery), uma sessentona local, dona de um vasto terreno onde cultiva papoilas para o fabrico de heroína e que se torna sócia de Byrde, mas sempre com a ameaça de o trair.

Toda a série envolve momentos de grande tensão e violência latente, a fotografia é óptima, sempre sombria e, logo a partir do terceiro episódio, estamos com a impressão de que Marty Byrde vai ser assassinado por alguém.

Não vai – pelo menos, até ao fim da terceira temporada…

Meet Vincent Van Gogh

Montaram uma enorme tenda no Terreiro das Missas, mesmo em frente ao Palácio de Belém, mas o ilustre inquilino não está lá. Marcelo decidiu colocar-se em quarentena voluntária na sua casa; há alguns dias, recebeu, em Belém, alunos de algumas turmas de uma escola de Felgueiras e, dias depois, soube-se que um desses alunos testou positivo para o novo coronavírus.

Como bom hipocondríaco, Marcelo recolheu-se a casa, até porque, tendo já feito um cateterismo, é um doente de risco.

Voltando à Exposição… não é uma coisa absolutamente espectacular e imperdível, mas não há dúvida que Meet Vincent Van Gogh é uma maneira inovadora de tomar contacto com a vida e obra do pintor.

Ao longo de várias salas, vamos percorrendo alguns locais por onde Van Gogh passou e viveu, um café, o quarto, o hospital psiquiátrico.

Podemos sentar-nos e tentar desenhar, como ele desenhou, sentir as camadas de tinta dos seus óleos, em reproduções 3D, entrar no seu quarto e tirar uma foto – aliás, tirar muitas fotos. Diversos écrans permitem-nos estudar algumas das suas pinturas e as técnicas que ele usou. As cartas que Van Gogh trocou com o irmão Theodor servem de pano de fundo à sua biografia

No final, um painel junta diversas homenagens ao pintor e um outro, muito maior, junta reproduções de todas as suas obras.

Vale a pena visitar.

“Parasitas”, de Bong Joon-ho (2019)

Não costumo ligar muito ao facto de um determinado filme ganhar o Óscar; já enfiei alguns barretes com filmes vencedores do prémio do melhor filme.

Desta vez, no entanto, fiquei curioso.

Quando o filme estreou, não lhe dei a devida atenção (aquele preconceito: filme coreano? deve ser uma seca…).

O facto de ter ganho o óscar, no entanto, acabou por me despertar a curiosidade.

Acresce o facto do Pedro ter dito que o viu três vezes – e eu confio no gosto cinematográfico do meu filho.

Mesmo assim, se, por qualquer motivo, eu não tivesse ido ver o filme, o facto do palerma do Trump ter dito, num comício, que não percebia por que raio é que “Parasitas” ganhou o óscar, teria sido suficiente para eu ir a correr vê-lo.

É um grande filme – atrevo-me a dizer, Tarantino style, com as devidas e enormes diferenças, a começar por ser feito por coreanos.

O filme conta-nos a história de uma família de pai, mãe, filho e filha, todos desempregados e a viver numa cave de um bairro muito degradado.

Um amigo do filho arranja-lhe um trabalho: dar explicações de inglês a uma adolescente, filha de um casal bem instalado na vida, com casa desenhada por arquitecto famoso, com governanta e tudo.

O rapaz é um sucesso como explicador e, com manhas e artimanhas, toda a sua família acaba a trabalhar para os ricalhaços: a sua irmã, como professora de arte, o pai, como motorista e a mãe, como governanta.

O filme está cheio de situações hilariantes, diálogos e cenas bizarras. Lembrei-me do Tarantino por causa desses diálogos, digamos, deslocados (o rapaz diz, como alguma frequência, “isto é muito metafórico!”) e por algumas cenas, como aquela em que a governanta e o marido dançam, ao som de um disco de um cantor italiano dos anos 70.

O final, é apoteótico, com quatro mortes e uma lição de moral.

Muito bom!

“A Rainy Day in New York”, de Woody Allen (2019)

Woody Allen nunca desilude. Os seus filmes são todos iguais, e todos diferentes. Claro que já não há aquela surpresa que causaram “Annie Hall” ou “Manhattan”, mas há sempre uma história bem contada, com diálogos inteligentes, algumas boas piadas e muito romantismo, sem ser piegas.

Desta vez, Allen escolheu novamente New York como cenário de fundo, embora o filme se passe, quase todo, em interiores. Imagino que fazer cenas tendo, como pano de fundo, a Brooklyn Bridge, o Empire State, o East River, a Broadway, deveria sair muito caro – portanto, temos a cena final no Central Park e já vamos com sorte.

Gatsby (Timothée Chalamet) é um jovem universitário que gosta muito de Manhattan e leva a sua namorada, Ashleigh (Elle Fanning) para um fim de semana em que lhe deveria mostrar a cidade. Ela vai fazer uma entrevista de uma hora a um realizador de cinema famoso, para ser publicada no jornal da Faculdade.

Só que, além da entrevista, ela se vê envolvida em diversas peripécias relacionadas com a fauna do cinema, acabando no apartamento de um actor mais ou menos famoso, e ele deambula pela cidade, sempre debaixo de uma chuva copiosa e, como vê todos os seus planos falhados, acaba por contratar uma prostituta para se fazer passar pela sua namorada numa festa organizada pela mãe dele.

E há, ainda, a irmã mais nova de uma antiga namorada de Gatsby.

Gostei de ver estes actores muito jovens; Timothée Chalamet tem todos os tiques de Woody Allen (por que será?).

Hora e meia de entretenimento garantido.

Exposição de Miguel Palma no CCB

Chama-se “(Ainda) O Moderno Desconforto” e mostra muitas obras deste artista-performer, nascido em Lisboa há 55 anos.

Para um leigo como eu, a Exposição reúne uma série de engenhocas (não digo geringonças, porque o termo está estafado) muito curiosas.

Logo à entrada, temos uma ambulância verdadeira; olhando lá para dentro, como os mirones fazem nos acidentes, podemos ver o simulacro de um acidente, com automóveis miniatura; mais à frente, um tanque de guerra projecta uma série de imagens coladas aleatoriamente. Depois, nas duas salas da Exposição, encontramos diversas peças que merecem referência.

Ao acaso, falo na mesa de pingue-pongue com buracos que parecem ter sido causados por obuses, ou a barra de ferro com um pequeno televisor na extremidade, onde podemos ver uma ginasta romena evoluindo na barra olímpica (a peça chama-se Barra Comaneci!).

A ironia aliada à tecnologia. Mas há muito mais: uma máquina que tritura diversos electrodomésticos, um Google Plane que, na sua base, tem o céu estampado e que, em cima, tem fotos da Terra, e ainda a viatura em que o autor se fez transportar há uns anos e que é um verdadeiro bólide feito à mão (na foto).

Gostei e recomendo.

As Obras Completas de W. Shakespeare em 97 minutos

No Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa, assistimos a esta peça de 1987, da autoria de Adam Long, Daniel Singer e Jess Borgeson, encenada por António Pires e interpretada por Pedro Pernas, Ruben Madureira e Telmo Ramalho.

Esta peça esteve muito tempo em cena no S. Luiz e eu sempre senti curiosidade em vê-la, mas, por uma razão ou outra, nunca se proporcionou.

Quando vi um cartaz na rua a anunciar a sua reposição, comprei os bilhetes on line e fomos hoje vê-la.

Divertimo-nos à grande.

A peça está muito bem esgalhada e os actores são óptimos. As soluções cénicas são excelentes e a participação do público acaba por criar uma empatia com os actores. A parte final, com o Hamlet a ser resumido em menos de um minuto e, depois, a ser declamada de trás para a frente, é hilariante.

Claro que o texto é excelente, mas a performance dos três actores não lhe fica atrás. E são todos igualmente bons.

“Dor e Glória”, de Almodovar (2019)

Almodovar continua a ser um dos meus realizadores preferidos e, mais uma vez, não me desiludiu.

Dor e Glória conta-nos a história de Salvador Mallo (um contido e excelente Antonio Banderas), um realizador sexagenário, com muito sucesso, que há alguns anos que não produz nada, sobretudo desde que foi operado à coluna lombar, mas, sobretudo, desde que a sua mãe morreu.

Salvador está deprimido e sofre de dor crónica, tomando diversos analgésicos opióides. Vive só, num apartamento luxuoso e passa os dias sem fazer nada.

A cinemateca decide fazer uma sessão especial com um filme que ele realizou há 30 anos, numa versão recuperada e convida-o para comentar a projecção do filme. Salvador hesita e decide entrar em contacto com o actor que protagonizou esse filme. Deixaram de se falar após a estreia do filme porque Salvador nunca perdoou a Alberto Crespo (outro excelente Asier Etxeandia) o facto de este continuar a consumir heroína durante as filmagens.

Ao longo do filme, Salvador vai recordando momentos da sua infância, pobre e dura, e o modo como a sua mãe (Penelope Cruz), conseguiu levar para a frente a sua educação.

E não digo mais nada.

Cinco estrelas, porque não há mais.

“Once Upon a Time in Hollywood”, de Quentin Tarantino (2019)

Beethoven compôs nove sinfonias. Tarantino realizou nove filmes.

Não vou comparar Beethoven com Tarantino. Seria o mesmo que comparar grelos cozidos com laranjas.

Mas sempre direi que, no que respeita às sinfonias de Beethoven, é impossível dizer qual é a melhor. Será a famosa Quinta ou a Nona, conhecida como Coral? Será a Terceira, a Heróica, ou a Sexta, a Pastoral?

Já no que diz respeito aos nove filmes de Tarantino, o melhor é, sem dúvida, Pulp Fiction.

A este nono filme de Tarantino, falta-lhe alguma coisa para ser um Pulp Fiction.

Falta-lhe algum ritmo (há cenas intermináveis de Rick a conduzir pelas ruas e estradas de LA), faltam-lhe o monólogos de Keitel e de Cristopher Walken e falta-lhe uma personagem feminina como a de Uma Thurman.

Mas tem outros ingredientes muito bons: a dupla de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio iguala a de Travolta e Sammuel L. Jackson, os diálogos são dignos de Tarantino e a banda sonora é excelente (Joe Cocker, Mamas and Papas, José Feliciano, Easy Beats e muitos outros, em versões menos conhecidas de êxitos de finais dos anos 60).

E depois, há a homenagem aos filmes, a Hollywood, aos western spaguetti, às séries televisivas a preto e branco, aos cromos e aos tiques dos actores, realizadores e restante família.

DiCaprio faz um óptimo Rick Dalton, um actor de séries televisivas que está em declínio; muito bem acompanhado por Brad Pitt, o seu duplo e que, agora, faz de motorista e faz-tudo do actor.

Dalton mora mesmo ao lado da vivenda que Polanski partilha com Sharon Tate e, como a acção decorre em 1969, sabemos que estamos no ano em que Charlie Manson é o mentor dos assassínios brutais de Tate e dos seus amigos, na noite de 9 de agosto de 1969.

Por isso mesmo, o final do nono filme de Tarantino é surpreendente.

Embora não consiga atingir o nível de Pulp Fiction, Once Upon a Time in Hollywood garante um bom entretenimento durante três horas.

“Yesterday”, de Danny Boyle (2019)

Um empregado de supermercado, Jack (Himesh Patel), vivendo numa parvónia britânica, pretende tornar-se um cantor de sucesso, mas tem apenas como fãs três ou quatro amigos e a sua agente (Lily James), uma despretensiosa professora de matemática.

Prestes a desistir de tornar-se músico, Jack é atropelado por um autocarro, durante um estranho blackout que atingiu todo o planeta.

Depois de algum tempo no hospital, Jack tem alta e os amigos oferecem-lhe uma guitarra nova; ele pega na guitarra e canta o Yesterday, dos Beatles. Todos ficam atónitos com a canção. Jack descobre que ninguém sabe quem foram os Beatles, ninguém conhece nenhuma das canções dos quatro de Liverpool e todos pensam que todas são da autoria do próprio Jack.

O tal blackout fez desaparecer da História a maior banda pop-rock de sempre e todas as suas canções – e mais outras coisas, que vamos percebendo ao longo do filme, como a Coca Cola (só há Pepsi), os cigarros, etc.

É este o tema base deste filme despretensioso, realizado pelo mesmo realizador de outros filmes bem mais complexos, como o Trainspotting, por exemplo.

Os críticos, em Portugal (do Expresso e Público, pelo menos), não gostaram nada do filme.

Paciência.
O simples facto de poder ouvir, mais uma vez, Hey Jude, I Wanna Hold Your Hand, All You Need Is Love, The Long and Widing Road, Here Comes The Sun e muitas outras grandes canções dos Beatles, e imaginar o que seria o mundo sem elas, valeu a pena as duas horas que passei no cinema.

Se gostam da música dos Beatles, é imperdível.