Archive for the ‘Coisas Vistas’ Category

“Dor e Glória”, de Almodovar (2019)

Tuesday, September 10th, 2019

Almodovar continua a ser um dos meus realizadores preferidos e, mais uma vez, não me desiludiu.

Dor e Glória conta-nos a história de Salvador Mallo (um contido e excelente Antonio Banderas), um realizador sexagenário, com muito sucesso, que há alguns anos que não produz nada, sobretudo desde que foi operado à coluna lombar, mas, sobretudo, desde que a sua mãe morreu.

Salvador está deprimido e sofre de dor crónica, tomando diversos analgésicos opióides. Vive só, num apartamento luxuoso e passa os dias sem fazer nada.

A cinemateca decide fazer uma sessão especial com um filme que ele realizou há 30 anos, numa versão recuperada e convida-o para comentar a projecção do filme. Salvador hesita e decide entrar em contacto com o actor que protagonizou esse filme. Deixaram de se falar após a estreia do filme porque Salvador nunca perdoou a Alberto Crespo (outro excelente Asier Etxeandia) o facto de este continuar a consumir heroína durante as filmagens.

Ao longo do filme, Salvador vai recordando momentos da sua infância, pobre e dura, e o modo como a sua mãe (Penelope Cruz), conseguiu levar para a frente a sua educação.

E não digo mais nada.

Cinco estrelas, porque não há mais.

“Once Upon a Time in Hollywood”, de Quentin Tarantino (2019)

Wednesday, August 28th, 2019

Beethoven compôs nove sinfonias. Tarantino realizou nove filmes.

Não vou comparar Beethoven com Tarantino. Seria o mesmo que comparar grelos cozidos com laranjas.

Mas sempre direi que, no que respeita às sinfonias de Beethoven, é impossível dizer qual é a melhor. Será a famosa Quinta ou a Nona, conhecida como Coral? Será a Terceira, a Heróica, ou a Sexta, a Pastoral?

Já no que diz respeito aos nove filmes de Tarantino, o melhor é, sem dúvida, Pulp Fiction.

A este nono filme de Tarantino, falta-lhe alguma coisa para ser um Pulp Fiction.

Falta-lhe algum ritmo (há cenas intermináveis de Rick a conduzir pelas ruas e estradas de LA), faltam-lhe o monólogos de Keitel e de Cristopher Walken e falta-lhe uma personagem feminina como a de Uma Thurman.

Mas tem outros ingredientes muito bons: a dupla de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio iguala a de Travolta e Sammuel L. Jackson, os diálogos são dignos de Tarantino e a banda sonora é excelente (Joe Cocker, Mamas and Papas, José Feliciano, Easy Beats e muitos outros, em versões menos conhecidas de êxitos de finais dos anos 60).

E depois, há a homenagem aos filmes, a Hollywood, aos western spaguetti, às séries televisivas a preto e branco, aos cromos e aos tiques dos actores, realizadores e restante família.

DiCaprio faz um óptimo Rick Dalton, um actor de séries televisivas que está em declínio; muito bem acompanhado por Brad Pitt, o seu duplo e que, agora, faz de motorista e faz-tudo do actor.

Dalton mora mesmo ao lado da vivenda que Polanski partilha com Sharon Tate e, como a acção decorre em 1969, sabemos que estamos no ano em que Charlie Manson é o mentor dos assassínios brutais de Tate e dos seus amigos, na noite de 9 de agosto de 1969.

Por isso mesmo, o final do nono filme de Tarantino é surpreendente.

Embora não consiga atingir o nível de Pulp Fiction, Once Upon a Time in Hollywood garante um bom entretenimento durante três horas.

“Yesterday”, de Danny Boyle (2019)

Monday, July 8th, 2019

Um empregado de supermercado, Jack (Himesh Patel), vivendo numa parvónia britânica, pretende tornar-se um cantor de sucesso, mas tem apenas como fãs três ou quatro amigos e a sua agente (Lily James), uma despretensiosa professora de matemática.

Prestes a desistir de tornar-se músico, Jack é atropelado por um autocarro, durante um estranho blackout que atingiu todo o planeta.

Depois de algum tempo no hospital, Jack tem alta e os amigos oferecem-lhe uma guitarra nova; ele pega na guitarra e canta o Yesterday, dos Beatles. Todos ficam atónitos com a canção. Jack descobre que ninguém sabe quem foram os Beatles, ninguém conhece nenhuma das canções dos quatro de Liverpool e todos pensam que todas são da autoria do próprio Jack.

O tal blackout fez desaparecer da História a maior banda pop-rock de sempre e todas as suas canções – e mais outras coisas, que vamos percebendo ao longo do filme, como a Coca Cola (só há Pepsi), os cigarros, etc.

É este o tema base deste filme despretensioso, realizado pelo mesmo realizador de outros filmes bem mais complexos, como o Trainspotting, por exemplo.

Os críticos, em Portugal (do Expresso e Público, pelo menos), não gostaram nada do filme.

Paciência.
O simples facto de poder ouvir, mais uma vez, Hey Jude, I Wanna Hold Your Hand, All You Need Is Love, The Long and Widing Road, Here Comes The Sun e muitas outras grandes canções dos Beatles, e imaginar o que seria o mundo sem elas, valeu a pena as duas horas que passei no cinema.

Se gostam da música dos Beatles, é imperdível.

Banksy na Cordoaria

Thursday, June 20th, 2019

Ninguém sabe quem é Banksy, mas os seus trabalhos são conhecidos e reconhecidos por todo o mundo.

Na Cordoaria de Lisboa, está patente até depois do Verão, uma Exposição intitulada “Banksy – Génio ou vândalo”, que já esteve em várias cidades europeias.

Dizem que o Banksy (seja lá ele quem for), não tem nada a ver com esta iniciativa, que não a autorizou e que não ganha nada com ela.

Paciência…

A Exposição é muito curiosa e podemos visitar as inúmeras obras deste artista inovador, espalhadas pelo mundo.

Posso dizer que a Exposição está muito apelativa, que é muito agradável deambular pelas diversas salas, e que o génio de Bansky consiste, ao fim ao cabo, em descontruir a realidade, dando-lhe outras leituras e outros significados.

Quanto ao facto de ele próprio não aprovar coisas deste género…

Se Bansky quer combater o capitalismo, parece que o dito cujo se quer apropriar dele, o que é uma inevitabilidade histórica…

World Press Photo – 2019

Friday, May 3rd, 2019

É sempre um prazer visitar esta exposição de fotos de todo o mundo, desta vez, patente no Museu de História Natural, na antiga Faculdade de Ciências, onde frequentei as cadeiras de Biologia e Física Médica, no longínquo ano de 1973.

Surpreendentes as fotos dos gémeos de um tribo da Nigéria, do combate de boxe feminino, das ex-guerrilheiras das FARC que, só agora, decidiram ser mães, dos pescadores do Lago Chade, que dificilmente encontram o que pescar, e muitas outras.

Também o português Mário Cruz conseguiu um prémio, graças à sua reportagem sobre o Rio Pasig e o seu lixo sobrenadante (exposição patente no Palácio Anjos).

A foto vencedora mostra uma criança das Honduras, chorando convulsivamente, enquanto a sua mãe é detida na fronteira entre o México e os EUA.

A foto é impressionante, mas ficámos muito mais impressionados com as fotos da guerra do Iémen (que nem sequer é falada na nossa comunicação social) e, sobretudo, da guerra da Síria (há uma foto de dois miúdos que nos deixa sem palavras: ambos aparentam 10-12 anos, um deles tem o rosto coberto de sangue e o outro, que o tenta ajudar, olha desesperadamente para a objectiva… difícil de suportar…)

Fotos de Mário Cruz no Palácio Anjos

Tuesday, April 30th, 2019

Mário Cruz é um fotojornalista português, de 32 anos, que ficou conhecido pela foto que ganhou o prémio de temas contemporâneos da World Press Photo de 2017.

Em 2018, conseguiu também o prémio da WPP, nos temas ambientais, com uma foto tirada no Rio Pasig, nos arrabaldes de Manila, capital das Filipinas.

Essa foto faz parte de uma fotoreportagem sobre esse incrível rio cheio de lixo, e nas margens do qual vive uma população, em barracas decrépitas, que se sustenta a partir do lixo que jaz nesse mesmo rio.

No Palácio Anjos, em Algés, podemos ver 40 fotos de Mário Cruz e todas são tremendas (adjectivo muito em voga…). Estes filipinos migraram do interior do país para a capital, em busca de uma vida melhor, e acabaram nesta espécie de bairro post-apocalipse, onde resgatam lixo, que depois vendem, para sobreviver.

Procol Harum no Coliseu

Saturday, April 27th, 2019

Um Coliseu praticamente cheio de cabelos brancos e muitas carecas assistiu ontem a um concerto memorável da banda britânica denominada Procol Harum (descobri ontem que era o nome de um gato de um amigo dos fundadores da banda, Gary Brooker e Keith Reed).

Hoje, 52 anos depois da estreia da banda com o inesquecível A Wither Shade of Pale, só Brooker (73 anos) se mantém.

A acompanhá-lo: Geoff Witehorn (68 anos), na guitarra solo, Matt Pegg (47 anos), no baixo, Josh hillips (59 anos), nas teclas e Geoff Dunn (58 anos), na bateria.

Gary Brooker mantém a voz ligeiramente rouca e bem colocada e a banda conseguiu recriar os grandes clássicos dos Procol Harum: Conquistador, Homburg, Shine on Brightly, Fires (wich burns brightly), Grand Hotel, Salty Dog e, claro, A Wither Shade of Pale, que vendeu mais de 10 milhões de discos.

Para além dos clássicos, a banda tocou também vários temas do novo disco, Novum, saído no ano passado. Uma dessas músicas dá o nome à digressão: Still There’ll be More – e, de facto, embora Brooker pareça mesmo um ancião (cabelos brancos e, pareceu-me, alguma hesitação na marcha), a banda ainda está ali para as curvas!

No final, uma sala cheia de saudosistas pelos gloriosos anos 60 e 70 do século passado estava rendida e regressou a casa com lágrimas nos olhos.

Nõs também regressámos de papo cheio!

Saudade de Pedra, fotos de Jorge Guerra

Monday, April 22nd, 2019

Exposição patente no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, na Rua da Palma (entrada livre).

Jorge Guerra nasceu em 1936 e vive no Canadá; fotografa desde sempre e fez diversas exposições, um pouco por toda a Europa, e não só.

Esta Exposição reúne cerca de uma centena de fotos, todas a preto e branco, feitas em 1966 e 1967.

São fotos de pessoas, fotografadas sem o saberem, em vários locais de Lisboa, Feira da Ladra, Terreiro do Paço, Jardim 9 de Abril, Rocha de Conde de Óbidos, etc.

Todas as pessoas aparentam estar tristes, macambúzias, zangadas com a vida. As mulheres, invariavelmente, usam lenço na cabeça; os homens, boné ou chapéu. Nos jardins, os reformados parecem esperar a morte em pé. Diz o Jorge Guerra, no texto distribuído: “o México pode ser pobre, mas não é tão triste”.

Claro que as fotos são datadas. Em 1966/67, vivíamos sob um ditadura e o país era triste e cinzento, como estas fotos de Jorge Guerra. Hoje, pelo contrário, ao passearmos pelos locais fotografados por Guerra, só vemos gente feliz, alegre, com roupas coloridas… é verdade que a maioria não são portugueses, mas, mesmo assim, a diferença é notória.

Vale a pena visitar esta Exposição.

Schostakovich e a morte de Estaline

Monday, April 8th, 2019

Foi este o título genérico escolhido para o concerto de ontem da Orquestra Metropolitana de Lisboa, na Reitoria da Aula Magna da Universidade de Lisboa.

Dois autores em foco: um, que não esteve para aturar o Estaline e emigrou para os States – Rachmaninov; e outro, que aguentou, ficou na União Soviética e encaixou as críticas, nomeadamente as do Congresso Nacional de Compositores soviéticos, que considerou, em 1948, a sua música formalista e adversa aos desígnios da Revolução.

Rachamninov, nos Estados Unidos, deu largas ao seu romantismo e ontem assistimos à execução do seu concerto para piano nº4, com António Rosado ao piano. Irrepreensível.

No final, como encore, Rosado tocou uma composição de Debussy, autor de que é especialista.

Mas, para mim, o melhor do concerto foi a segunda parte: a 10ª Sinfonia de Schostakovich.

Já a tinha visto, ao vivo, no Teatro São Luiz, nos anos 70 do século passado. Lembro-me que, nessa altura, sentados no 2º balcão, ficámos estarrecidos com a energia desta sinfonia. Mesmo no final, o músico encarregado da tarola, no frenesim de atacar o instrumento, perdeu uma baguete.

Ontem, também um segundo violino viu uma das suas cordas não aguentar a refrega a que é sujeita no último andamento e rebentar!

Segundo o folheto distribuído na aula magna, o segundo tema melódico do terceiro andamento, deriva do nome do compositor (D-S-C-H, isto é Ré, Mi bemol, Dó, Si). Mais à frente, a trompa irrompe com outro tema melódico, que terá sido inspirado pelo nome da sua aluna, porque quem estava apaixonado – E-Lá-Mi-Ré-A, isto é, Elmira (Nazirova).

Individualismo? Onde está o povo? – diria Estaline. Só que o ditador já estava morto quando Schostakovich compôs esta sinfonia.

O mesmo texto distribuído acrescenta que as sinfonias deste compositor “são propensas a uma obstinação que se afunda em angústia e resiliência, mas também são capazes de exaltações épicas, ou de embalarem no doce encanto da afectação melódica” (texto de Rui Campos Leitão).

Estou totalmente de acordo. Ao escutar esta 10ª Sinfonia de Schostakovich senti exaltação, angústia, raiva, opressão, libertação, alegria e, sinceramente, emocionei-me, como já tinha acontecido há 40 anos!

A Orquestra Metropolitana de Lisboa foi muito competente, sob a batuta do enérgico Pedro Neves.

Cinco estrelas!

“A Favorita”, de Yorgos Lanthimos (2018)

Saturday, March 9th, 2019

A rainha Ana, de Inglaterra, que reinou apenas entre 1702 e 1707, é interpretada por Olivia Colman e esse desempenho valeu-lhe o óscar por melhor actriz.

Ana foi uma rainha fraca e doente; consta que sofreu 17 abortos, pelo que não teve nenhum herdeiro e da sua fraca saúde se aproveitava Lady Sarah (Rachel Weisz) que, segundo o filme, acabava por tomar decisões pela rainha.

Além de lhe usurpar o poder, Lady Sarah também partilhava a cama da rainha. Só que entre ambas acaba por se intrometer Abigail (Emma Stone), uma ex-dama, caída em desgraça mas que, graças às suas manhas e, mais uma vez, às fraquezas da rainha, consegue subir de criada a Lady, passando, também, pela cama da rainha.

E é neste triângulo amoroso que se vai desenrolando a história, tendo, como pano de fundo, uma guerra com a França e a disputa entre os tories e os whigs.

O desempenho das três actrizes é óptimo, a história está bem contada, a decadência da corte inglesa está bem demonstrada e o realizador consegue fazer um filme histórico sem cair na produção BBC-like, como poderia ter acontecido.

Gostei.