Archive for the ‘Coisas da Vida’ Category

O Juiz

Sunday, March 10th, 2019

Ficou mesmo satisfeito com aquela sentença.

Deu-lhe muito trabalho; obrigou-o a consultar a Bíblia e o Alcorão, mas fundamentou a sua decisão com frases elaboradas e certeiras. Pelo menos, era o que ele achava. O marido tinha dado uns socos na mulher, tinha-lhe partido a cana do nariz e deslocado a articulação temporo-maxilar, mas era compreensível: ele tinha-a apanhado em flagrante, a beijar o rapaz do talho, com língua e tudo!

Um homem não pode tolerar ser enganado assim pela própria mulher com quem está casado.

Mas enfim, se calhar, ele devia ter tido mais cuidado… os socos foram muitos e com força talvez excessiva. Condenou-o a seis meses de pena suspensa.

E voltou para casa com a sensação de ter feito justiça.

Quando entrou em casa, a Lurdes, sua esposa, estava sentada no sofá da sala, a ler o jornal e percebeu logo, pela sua cara, que ia haver discussão.

Isto é que são horas de chegar, gritou ela.

Desculpou-se com a complexidade da sentença, mas ela não quis saber.

Vai mas é fazer o jantar que estou cheia de fome! – vociferou a D. Lurdes, e atirou-lhe com o cinzeiro, não lhe acertando por pouco.

E não te esqueças de apanhar essas beatas do chão, ouviste?!

O juiz meteu a cabeça entre os ombros, colocou o avental e encaminhou-se para a cozinha, com uma lágrima ao canto do olho direito…

  • in “Histórias (ainda) Mais Desgraçadas”, a publicar este ano

Cozinho para as eleições

Friday, March 8th, 2019

Este título do Público fez-me espécie:

“Cataplana de Costa foi mais vista do que arroz de Cristas”

Conheço cataplanas de tamboril e de marisco e arroz de ervilhas ou de cenoura, mas nunca tinha ouvido falar de cataplana de Costa, muito menos de arroz de Cristas.

Fui investigar.

Parece que existe um programa de televisão, chamado Programa da Cristina, que tem muito sucesso. Descobri que essa tal Cristina, de apelido Ferreira, é uma mulher que subiu as pulso, tendo passado de feirante a apresentadora de televisão em poucos anos, auferindo agora um ordenado de jogador de futebol (gosto muito do verbo auferir…).

Descobri até que o próprio Presidente Marcelo telefonou à tal Cristina, a dar-lhe os parabéns pelo programa – coisa que nunca fez comigo, ao longo de todos estes anos de dedicação à escrita. Mas enfim, continua a haver filhos e enteados…

Esse tal Programa da Cristina é diário e há umas semanas foi lá a líder do CDS, Assunção Cristas, e cozinhou, em directo, um arroz de atum.

Fiquei mais descansado.

Afinal o arroz não era de Cristas, era de atum.

Dias depois, o primeiro-ministro, António Costa, também foi ao programa e cozinhou uma cataplana de peixe.

Tudo explicado!

Ora, o Público relatava na notícia com aquele título que, enquanto o arroz de Cristas foi visto por 493 mil pessoas, a cataplana do Costa foi vista por 745 mil pessoas.

Não chega à maioria absoluta, mas anda lá perto…

Se a Cristina for esperta, leva ao seu programa o Rui Rio, para cozinhar uma francesinha, o Jerónimo de Sousa, para fazer umas pataniscas e a Catarina Martins, para preparar um prato vegan, à escolha.

Quanto ao Santana Lopes, se fosse ao tal programa, teria que se contentar com restos…

País de cobardolas

Thursday, March 7th, 2019

O governo decidiu assinalar hoje um dia de luto nacional pelas mulheres vítimas de violência doméstica.

Foram 28 mulheres assassinadas no ano passado e nestes dois meses, já foram mortas 19 mulheres!

A GNR e a PSP recebeu 26.439 queixas de violência doméstica em 2018 e parece que o número até desceu ligeiramente, em relação a 2017.

Como é possível continuar a dizer que o povo português é bonzinho, que o povo é que sabe, que a sabedoria popular é que vale?

Somos um país de cobardes, que agredimos as nossas mulheres, violentamos as nossas crianças e incendiamos as nossas florestas.

Exagero?…

É tudo uma questão de educação – ou falta dela.

E todos temos a culpa: as famílias, a escola, a comunicação social, os governantes.

Uma depressão chamada Laura

Wednesday, March 6th, 2019

Agora as depressões têm nome.

Os serviços meteorológicos de Portugal, Espanha e França, decidiram dar nome às depressões, como já se faz há muito tempo com os ciclones e tufões, e mesmo com os bebés…

Assim, no princípio do ano faz-se uma lista, por ordem alfabética, alternando um nome feminino com um masculino.

Para 2019 ficou assim: Adrian, Beatriz, Carlos, Diana, Etienne, Flora, Gabriel, Helena, Isaias, Julia, Kyllian, Laura, Miguel, Nicole, Oscar, Patricia, Roberto, Sara, Teo, Vanessa e Walid.

Em primeiro lugar, acho mal não haver tempestades Quevedo, Ursula, Yuri e Zacarias.

Depois, espanta-me que os nomes que estão mais in não estejam representados, caso de Gonçalo, Carlota, Rodrigo, Mateus, Constança, sei lá!…

Neste momento, estamos à espera da Laura. Trata-se de uma depressão centrada a noroeste da Península Ibérica e em deslocamento para nordeste em direcção às Ilhas Britânicas. Espera-se vento forte e agitação marítima, há possibilidade de chuva intensa e persistente, com perigo de cheias.

Portanto, na minha opinião, estes fenómenos atmosféricos não se deviam chamar depressões.

Associamos depressão a um estado mais ou menos letárgico, em que a adinamia toma conta do corpo, só apetecendo estar quietinho, a um canto, esperando que a crise passe.

Ora, ventos fortes, chuva intensa, ondas enormes, árvores a cair, ruas alagadas, é agitação demais para uma depressão.

É por isso que o nome correcto para estes fenómenos deveria ser crises de pânico.

Assim sendo, tenham cuidado que vem aí a crise de pânico Laura!

Daqui a 10 anos…

Monday, March 4th, 2019

Quando eu ler isto daqui a 10 anos…

Os britânicos, em referendo, decidiram sair da União Europeia mas, na prática, não o estão a conseguir. Se calhar, queriam sair assim, sem mais nem menos, mas a UE não foi na conversa e foi aprovado um acordo, que teve a assinatura da primeira-ministra Theresa May, mas não teve a aprovação do Parlamento britânico. Conservadores e Trabalhistas dizem querer sair da UE, mas não assim – então como?

Ninguém sabe e, a 29 deste mês, acaba o prazo estabelecido e, ou o Reino Unido adia a saída ou sai sem acordo, o que parece ser catastrófico.

À beira da catástrofe está a Venezuela, dominada por um Presidente que veste fatos de treino coloridos e que se diz herdeiro de Símon Bolívar. Este é o Presidente que dizem ser usurpador, Nicolas Maduro, seguidor de Hugo Chávez, e que surge na TV rodeado de milhares de apoiantes, todos vestidos com cores garridas, as da bandeira da Venezuela. Mas há outro presidente, Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional e que se auto-proclamou presidente interino, e que se passeia pelo Brasil, Colômbia, Argentina e Equador, colhendo apoios. Num arremedo de Guerra Fria, em tempos de aquecimento global, os Estados Unidos apoiam Guaidó e a Rússia apoia Maduro. No meio, fica o povo, pelos vistos, cheio de fome.

Na Rússia manda o Putin, nos Estados Unidos, Donald Trump. Putin foi agente do KGB, deixa-se fotografar em tronco nu, a pescar ou a andar a cavalo, caminha com as pernas arqueadas, gingando o tronco, parece um vilão saído dos filmes do 007. Trump é um calmeirão bronco, com gravatas até à braguilha, cabelo oxigenado e preso com laca e pele bronzeada por solário. Nunca trabalhou na vida – especulou, sempre, e não acredita no aquecimento global, nem na evolução das espécies, julgo eu. Aliás, ele próprio é a prova de que Darwin, se calhar, estava errado – a espécie não está a evoluir, continuam a surgir gerações espontâneas de idiotas.

Não só na América. Por cá, também.

Agora surgiu um juiz, chamado Neto Moura, que acha que o facto de um homem rebentar o tímpano da sua companheira com um soco, não é violência extrema, porque não foi usada nenhuma arma. O mesmo juiz também escreveu que, segundo a Bíblia, uma das piores ofensas que podem ser feitas a um homem, será o adultério – e por isso mesmo, foi benevolente na condenação do ex-companheiro e do amante que sovaram uma mulher, usando uma moca de pregos.

Muitos comentadores ficaram indignados com estas decisões do juiz e chamaram-lhe nomes; em resposta, ele avisou que os vai processar por injúria. Espero bem que o juiz não lhes rebente os tímpanos, nem os sove com a moca de pregos porque, entre os que vai processar estão duas moças, duas Joanas, a Amaral Dias e a Mortágua que, coitadas, não merecem tal sorte.

Quem também não merece tal sorte são os clientes do Novo Banco, ex-Banco Espírito Santo.

Quando foi anunciado que o BES estava na fossa, tanto o Governo do Passos Coelho, como o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, apresentaram uma solução que – garantiram eles – ia salvar o Banco. Criaram um Banco bom e um Banco mau e, para o Banco bom, supostamente, só passaram as coisas boas.

O pequenino Marques Mendes, em 2014, dizia que o Banco bom nunca precisaria do dinheiro do Estado (ver aqui), mas agora vem dizer que Mário Centeno enganou a malta porque, afinal, vai ser preciso meter lá mais mil e tal milhões de euros. Mas, espera lá, quem era ministro das Finanças em 2014?… Então não era a pê-ésse-dê Maria Luís Albuquerque?…

Mas já estamos habituados a estas mudanças de opinião: quando se está no Governo, diz-se preto, quando se está na oposição, diz-se branco, ou vice-versa.

Um bom exemplo é a Dona Assunção Cristas. Quem a oiça hoje falar – o que acontece todos os dias, em todos os telejornais – pensará que ela nasceu este ano para a política, que nunca esteve no Governo, que nunca tomou nenhuma decisão em Conselho de Ministros, sobre as rendas de casa, sobre o SNS, sobre o Novo Banco, sobre tudo e mais alguma coisa. Cristas é pura, inocente e virgem – salvo seja!…

Enquanto isto, o Costa, com aquele seu ar de Buda satisfeito, tenta passar entre os pingos da chuva – que, aliás, está escassa – mas vai ter vários fogos para apagar até às eleições, em outubro.

A começar pelos professores, que querem que lhes seja contado o tempo de progressão na carreira, que foi congelado, os tais 9 anos e alguns meses. O problema é que, ao descongelar esse tempo para os professores, o Governo tem que fazer o mesmo para todas as restantes carreiras da Função Pública.

Depois, há os enfermeiros, que querem começar a carreira a ganhar 1600 euros e, aos 57 anos, reformarem-se sem penalizações. Para isso, seria preciso aumentar todas as carreiras que exigem licenciatura (técnicos superiores, psicólogos, fisioterapeutas, etc) e considerar muitas outras carreiras como sendo de risco. Em breve estaríamos como na Grécia, em que a única carreira que não era de risco era a de guarda-livros (seria?…)

E há ainda os magistrados, os guardas-prisionais, os auxiliares de toda a espécie, os bombeiros, os sapadores, os das fronteiras, os estivadores, camionistas, guardas-florestais, funileiros, pintores e ofícios correlativos.

Se fosse ao Costa, dava tudo a todos e entregava o Governo ao Rui Rio, ao Santana Lopes ou até ao Conan Osíris que, pelos vistos, tem, agora, a aprovação de todos porque é moderno e bué da giro.

Vão mas é dar banho ao cão!…

Assunção Cristas é contra a igualdade entre sexos

Friday, March 1st, 2019

No seio do CDS, existe uma tendência chamada TEM, que significa Tendência Esperança em Movimento (TEM).

O nome, só por si, faz-nos sentir ligeiramente indispostos. Por que raio é que a Esperança tem que estar em Movimento e por que razão isso é uma Tendência? Será que a Esperança tem Tendência a estar Imobilizada?

A Dra. Joana Bento Rodrigues é médica desde 2007, ortopedista desde 2016 (certificar aqui) e está especialmente interessada em ombro e cotovelo.

Talvez o Freud explique por que razão uma especialista em cotovelo ingressa num movimento como o TEM. Será dor de cotovelo?…

A Dra. Joana assina um artigo publicado no Observador que é digno de um daqueles textos publicados no jornal Época, no tempo do Dr. Salazar.

Não vou incluir aqui um link para esse artigo, porque isso seria dar publicidade a uma coisa que dá náuseas. Quem quiser, que procure no Google. Vai encontrar, certamente.

Limito-me a transcrever uma parte do texto incrível que a ortopedista escreveu. Ela critica as feministas e acha que a igualdade entre sexos é uma treta, porque a mulher deve sentir-se orgulhosa pelo facto do seu marido ganhar mais do que ela!

Ora leiam…

“O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de “ter casado bem”, como se fosse este também um ponto de honra. Naturalmente que o contrário não pode ser visto como menos meritório, em particular quando as oportunidades não são equivalentes. Assim, o casal, enquanto um só e actuando em uníssono, pode optar pela inversão destes papéis, que em nada diminuiu qualquer dos elementos, desde que movidos por objectivos comuns e focados no Amor.”

Ora, como esta Tendência faz parte do CDS, chegamos à conclusão que a líder do Partido, a Dra. Cristas, está de acordo com esta filosofia que não está muito longe da burka: a mulher, submissa, em casa, escondendo o seu rosto, enquanto o marido, lá fora, ganha o sustento da família.

A Dra. Cristas, no entanto, anda por aí, à solta, sempre rodeada de homens, falando às televisões todos os dias. Onde estão os seus quatro filhos? Onde está o seu pobre marido? Em casa, a lavar a loiça, de avental e chinelos?…

Muita coisa vai mal na Direita portuguesa!…

Há greves e greves…

Tuesday, February 26th, 2019

Nunca estive muito de acordo com o facto de a minha classe profissional fazer greve. Sempre achei que os médicos, ao fazerem greve, só estavam a prejudicar os doentes.

Sempre vi as greves como uma manifestação da luta de classes.

Os operários de um fábrica, ao fazerem greve, estão a lutar contra os patrões. Operários versus burguesia. Tipos que vão de transportes para o trabalho contra tipos que se deslocam de Mercedes.

Pelo contrário, no caso das greves dos médicos, é ver os tipos que vão de transportes para a consulta do Centro de Saúde, terem que voltar para trás porque os tipos que se deslocam em viatura própria, estão de greve.

Além disso, é muito difícil considerar os médicos como proletariado e os doentes como burguesia.

Dirão que os médicos não estão a fazer greve contra os doentes, mas para obterem qualquer coisa do Governo – no entanto, temos que concordar que quem é imediatamente prejudicado são os doentes.

Mais confusão me faz a greve dos magistrados. Como único órgão de soberania, não entendo como é possível fazerem greve. Acaso o Presidente da República também pode fazer greve?

Claro que isto é uma caricatura, mas é assim que eu vejo as greves.

Compreendo-as e apoio-as quando os prejudicados são os patrões.

No entanto, quando os prejudicados são os doentes, os alunos, os utentes dos transportes públicos, penso que poderiam ser escolhidas outras formas de luta, digamos, mais imaginativas.

Vem isto a propósito das catadupas de greves que estamos e vamos enfrentar, neste ano de eleições.

Não há grupo profissional que não tenha entrado ou vá entrar em greve.

Dizem que há mais greves este ano do que nos anos da troika, o que é espantoso – até parece que os sindicatos tiveram medo da troika, ou estavam de acordo com a política de austeridade imposta naqueles quatro anos.

Das greves recentes, dois grupos profissionais se destacam: os professores e os enfermeiros.

Nestes conflitos, as posições, quer dos sindicatos, quer do Governo, extremaram-se de tal modo, que não será possível qualquer tipo de acordo, a não ser por decreto.

Não vi os professores exigirem o descongelamento das carreiras e a contagem do tempo congelado com tanto vigor, no tempo do Passos Coelho e não vi os enfermeiros fazerem greve quando o mesmo Passos sugeriu que os licenciados procurassem emprego lá fora, e desse modo, temos, neste momento, mais de 15 mil enfermeiros emigrados (números da Ordem dos Enfermeiros).

Talvez fosse o momento dos sindicatos inventarem outras formas de luta que, simultaneamente, não prejudicassem os utentes, mas tivessem a mesma dimensão mediática, que é, no fundo, o que se pretende com estas greves burguesas.

Venezuela, quem tem razão?

Sunday, February 24th, 2019

A pergunta é quase insultuosa.

Ao vermos as notícias das televisões e dos jornais, parece óbvio que Nicolas Maduro é um ditador sádico, que impede a ajuda humanitária entrar num país depauperado, com pessoas a morrer à fome e por falta de medicamentos, enquanto Juan Guaidó é um democrata do caraças que, apesar de se ter autoproclamado Presidente interino, tem toda a legitimidade para dirigir esta República das Bananas.

A RTP tem um enviado especial, Helder Silva, que está há vários dias na Venezuela, fazendo um excelente trabalho jornalístico, todo baseado nas coisas más que Maduro faz à sua população e nas coisas boas que Guaidó quer fazer.

Por mero acaso, vi uma reportagem da BBC, noutro canal, em que o repórter entrevista gente do povo, a viver em bairros miseráveis, com frigoríficos ridiculamente vazios, mas que continua a apoiar Nicolás Maduro e a sua chamada revolução bolivariana, que já vem de Hugo Chávez.

As coisas nunca são pretas ou brancas.

Nem apoiar indefectivelmente Maduro, como faz o PCP, nem apoiar sem reservas Guaidó, como faz a comunicação social em bloco, para além do PSD, por exemplo. O cabeça de lista às eleições europeias pelo PSD, Paulo Rangel, viajou até à fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, integrado numa delegação do Partido Popular Europeu, para apoiar a entrada da ajuda humanitária proveniente dos Estados Unidos.

E aqui entra o Trump que, ao mesmo tempo que prende os mexicanos que tentam entrar no território dos EUA e quer construir um muro que os impeça de imigrar, está a enviar camiões cheios de comida e medicamentos para ajudar os venezuelanos, desde que sejam contra o Maduro.

Nada disto é branco, nem preto – há por aí muitos cinzentos que, no entanto, não fazem parte da nossa comunicação social.

Enquanto isto, no Iémen, muitas crianças morrem à fome, vítimas de uma guerra interminável, para a qual contribui a Arábia Saudita que, como sabemos, é alimentada pelo armamento americano.

Enfim, o Iémen parece que é mais longe, são todos muçulmanos e, pelos vistos, têm menos valor que os venezuelanos, segundo a comunicação social…

Ramalho, o enfermeiro mártir

Wednesday, February 20th, 2019

Para memória futura, relembro os factos.

Há alguns meses, dois sindicatos dos enfermeiros iniciaram uma luta a favor daquilo que consideram justas reivindicações dos enfermeiros.

Entre essas reivindicações destacam-se o aumento salarial de 400 euros (de 1200 para 1600) para todos os enfermeiros em início de carreira e a reforma aos 57 anos (neste momento, a reforma é aos 66 anos e 5 meses).

Como o Governo não cedeu, o Sindicato Democrático dos Enfermeiros e a Associação Sindical dos Enfermeiros (ambos formados recentemente), declararam greves prolongadas em novembro e dezembro do ano passado e todo o mês de fevereiro deste ano.

Em resposta, o Governo pediu um parecer ao Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República sobre esta greve e a PGR considerou que a greve era ilícita, por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque o pré-aviso de greve indicava que ela seria total e, afinal, só os enfermeiros dos blocos operatórios fizeram greve e, mesmo assim, em regime rotativo. Graças a esta artimanha, bastava que um enfermeiro fizesse greve para que o bloco não pudesse funcionar. No dia seguinte, outro enfermeiro faria greve e o bloco continuava parado. Deste modo, milhares de cirurgias tiveram que ser adiadas. Entretanto, os restantes enfermeiros, quer os hospitalares, quer os dos Centros de Saúde, não faziam greve.

Em segundo lugar, a PGR considerou ser ilícito o financiamento dos grevistas por um crowdfunding, angariado no Facebook, e que era gerido por uma empresa e não pelo sindicato.

Após este parecer da PGR, a Associação recuou e desconvocou a greve, mas o Sindicato reagiu, através do seu presidente, e levou a luta para novos patamares.

Carlos Ramalho, o presidente do Sindicato Democrático dos Enfermeiros, criado em 2017 e cujos estatutos foram alterados e republicados no final do mês passado, afirmou aos jornalistas:

“Se era necessário um mártir, ele está aqui, sou eu, Carlos Ramalho, presidente do Sindepor”.

E, por esse motivo, iniciou hoje uma greve de fome à porta do Palácio de Belém.

Acho pouco.

Considerando as reivindicações – aumento salarial de 400 euros e reforma 9 anos antes dos restantes trabalhadores – Carlos Ramalho deveria, pelo menos, imolar-se pelo fogo, em frente ao Ministério da Saúde.

Só assim o nome de Carlos Ramalho poderia figurar no monumento patente no Campo Mártires da Pátria!

Sãozinha, estuda os dossiers!

Thursday, February 14th, 2019

Os factos são estes:

A ADSE contratualizou com os privados uma determinada maneira de pagar os cuidados de saúde.

Exemplo: uma prótese da anca custa, no Hospital da Luz, 100, na Cruz Vermelha, 150 e, nos Lusíadas, 250. A ADSE só paga uma média destes preços.

Acontece que os prestadores privados, com contrato com a ADSE, estavam habituados a sobrefacturar determinados cuidados de saúde, para compensar outros cuidados que eles achavam estar muito baratos, nomeadamente, as consultas, que não chegam aos 5 euros cada.

Só que os contratos dizem, explicitamente, que a ADSE só paga uma média do cobrado pelos vários prestadores e que, ao fim do ano, os privados terão que devolver dinheiro, se tiverem sobrefacturado.

É o que está a acontecer agora: a ADSE exige a devolução de 38 milhões de euros que terão sido cobrados a mais pelos diversos hospitais privados.

Claro que os privados, em resposta, ameaçam denunciar o contrato com a ADSE.

Perante isto, a candidata a primeira-ministra, Assunção Cristas, veio logo dizer que a culpa era do Governo, porque não paga atempadamente aos privados.

Disse a Sãozinha:

“Neste momento o que nós sabemos é que há um conjunto de situações graves que se vêm arrastando, de o Estado não pagar aos prestadores de serviços que têm acordo com a própria ADSE, e portanto, lamentamos mas entendemos que o Governo também nesta área tem estado particularmente mal e está a destruir a saúde dos portugueses”, referiu.

Ora, não é nada disto que está em causa e a Cristas, se quer vir a ser primeira-ministra, nem que seja daqui a 30 anos, tem que estudar os dossiers – não pode limitar-se a dizer, como aquele mexicano anarquista – “se hay gobierno, soy contra!”

No entanto – e apesar de só continuar a representar menos de 7% do eleitorado – a Sãozinha continua a ter lugar em todos os telejornais, dando opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, sem que ninguém a questione.

Neste caso particular da ADSE, é óbvio que os jornalistas também não estavam informado sobre o verdadeiro cerne do conflito e, por conseguinte, ninguém disse à líder do CDS-PP que, no que respeita à ADSE, não se trata do não pagamento por parte da entidade estatal, mas sim, pelo contrário, pelo não cumprimento do contrato por parte dos privados.

Acresce que, desde há alguns anos, a ADSE é autónoma financeiramente, sendo paga pelos funcionários do Estado e que, portanto, o Governo tem pouco a ver com isso.

Mas, enfim, a Cristas só quer vir a ser primeira-ministra – o resto é música.

Sacra…