“A Mercearia do Mundo”, direção de Singaravélou e Venayre (2022)

Ora aqui está um livro muito curioso que, ao longo de quase 500 páginas, elenca numeras comidas e bebidas que, de algum modo, são icónicas de determinados lugares do Mundo.

E a escolha é muito diversificada, desde o vinho do Porto ao hambúrguer, passando pelo attiéké, o parmesão, o guacamole, o húmus e muitos mais.

Cada entrada desta espécie de dicionário tem o seu autor e não ocupa mais do que duas ou três páginas.

Algumas curiosidades:  

Acerca do caril: “Esta mistura de especiarias em pó transforma-se, assim, numa mercadoria para exportação: ao regressar a Inglaterra, os nababos – nome dado aos britânicos que tinham vivido e trabalhado na Índia – saudosos dos sabores indianos, são dela grandes consumidores.”

A propósito da baunilha: “A vanilina é uma molécula que está presente tanto na verdadeira baunilha como nos produtos de síntese com aroma de baunilha, e apenas algumas máquinas conseguem distinguir a diferença entre as duas. (…) o castóreo – a secreção das glândulas anais do castor – foi utilizado para obter um aroma de baunilha mais em conta para os produtores. (…) Mais recentemente, a cientista japonesa Mayu Yamamoto conseguiu produzir uma fragrância de baunilha a partir de estrume de vaca.”

Sobre a malagueta: “Esta substância (a capsaicina, que existe na malagueta) é também o principal ingrediente do Pepper-spray (erradamente traduzido por gás-pimenta, uma vez que o spray é feito com extracto de malagueta e não com pimenta, e esta não possui capsaicina).”

Sobre a charcutaria: “A Armour, em Chicago, é a maior fábrica de charcutaria do mundo, em 1900. Mais de 50 milhões de porcos são, então, processados todos os anos pelos matadouros dos Estados Unidos, que concentram 40 por cento dos porcos do planeta”

Sobre o spam: “Apesar do sucesso, o spam continua a ser objecto de troça. Em 1970, um famoso sketch dos Monty Python põe em cena dois clientes de um restaurante que só serve pratos de spam, incluindo um lagosta à Thermidor, com camarões ao molho mornay, servida à moda provençal, com chalotas e beringelas, guarnecida com patê de trufas, regada com aguardente e servida com ovo estrelado e spam (…). A palvara spam é dita 132 vezes em dois minutos.”

Sobre a pimenta: “A pimenta é também muito usada na medicina chinesa. É um remédio valioso para dores de estômago, problemas renais ou, misturada com rabanete, para crises epilépticas.”

Sobre o whisky: “valorizado, num primeiro momento, pelas suas virtudes medicinais, detalhadas cuidadosamente nas Crónicas, de Holinshed (1577): «Tomado com moderação, retarda o envelhecimento, fortalece a juventude, facilita a digestão,… afasta a melancolia, ilumina o coração, alivia a mente, restaura o ardor… Para dizer a verdade, é um licor soberano, se tomado de forma razoável»”

Sobre a carne de cão: “O fragmento 22 do Huang Di nei jing su wen – mcompilação médica atribuída ao mítico imperador Amarelo, que terá vivido no III milénio a.C. – aconselha, no caso de doença cardíaca, a ingestão de alimentos ácidos: feijão, ameixa, cebolinho e carne de cão”. O livro termina com um postfácio de Francisco José Viegas que sublinha a influência da nossa História em muitos dos alimentos listados, sobretudo graças aos navegadores