Provocações de Cesariny

De cigarrinho na mão e olhar atrevido, Mário Cesariny concedeu uma entrevista ao Sol.

Já passou dos 80, mas continua o mesmo provocador.

Apenas algumas citações:

Sobre os ingleses e os americanos:

“Estava farto de latinos e fiquei a gostar dos anglo-saxónicos. Chamam-lhes hipócritas, mas eles não são. São actores. Estão sempre a representar Shakespeare. Um vagabundo chega à tabacaria e pede “May I have a box of matches, please?” Isto é linguagem de príncipe. “may I have”… “poderei eu ter… uma caixa de fósforos”. Um vagabundo. Já os americanos são uma espécie de ingleses a quem tiraram a inquietação, a metafísica. De maneira que eles andam muito contentes, “How are you?”, “Fine thank you”. Com imensas dores de estômago porque a comida é muito má.”

Sobre Vieira da Silva:

“Escrevi um artigo a falar nela, porque ela era desconhecida por cá. Aconselhava-a a não se demorar muito, porque ainda ficava estragada.”

Sobre os surrealistas, os neo-realistas e o Estado Novo:

“Também não era tempo de andar a falar alto. Íamos para a choça, o que não nos agradava muito. Os neo-realistas ficavam muito honrados quando iam presos. Nós não achávamos graça nenhuma.”

Sobre os homossexuais e a Marinha:

“Portugal era o país mais homossexual do mundo. E não era só a Marinha. O 25 de Abril, com a libertação dos homossexuais, também libertou a Marinha desse hábito. Passaram a considerar-se uns homenzinhos que não fazem essas coisas. Agora fazem entre eles ou com um tenente qualquer.”

Sobre as manifestações de orgulho gay:

“Acho feio, porque em vez de aparecerem como pessoas normais, põem umas mamas, pintam-se, ficam uns verdadeiros abortos. Eu, que sou homossexual, se encontrasse aquilo na rua, passava para o outro passeio, porque em vez de angariarem simpatia, ofendem.”

Sobre a pintura e a poesia:

“A poesia morde mais o fígado: se odeia, odeia, se não odeia, não odeia. A pintura parece uma coisa mais objectiva, fora de nós. Suja as mãos, limpa-se o pincel, há o cavalete e a tela. A poesia não. É apenas entre a nossa cabeça e o papel.”

Sobre a morte:

“Não (penso) muito (na morte). Penso mais nas doenças.”

Vale a pena ler.

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