“O Corpo – um guia para ocupantes”, de Bill Bryson (2019)

Mais um excelente livro deste autor norte-americano, a viver há muitos anos na Grã-Bretanha.

Desta vez, Bryson debruça-se sobre o corpo humano e fala-nos dele com abundância de estatísticas, notas históricas e bom humor, como é seu timbre.

Começando na pele e no cabelo, passando pelos diversos órgãos internos e terminando na morte, Bryson consegue uma obra honesta, sem falsas verdades, tão comuns em livros sobre temas médicos.

Bryson deve ser um verdadeiro rato de biblioteca, pesquisando tudo e mais alguma coisa e conseguindo, com esse trabalho de sapa, encontrar histórias curiosas; como esta, na página 89, sobre a “moda” das lobotomias, técnica inventada por Egas Moniz:

“Nos Estados Unidos, um médico chamado Walter Jackson Freeman ouviu falar do processo de Moniz e tornou-se o seu acólito mais entusiástico. Ao longo de quase 40 anos, Freeman percorreu o país a fazer lobotomias a praticamente todos os pacientes que lhe colocavam à frente. Numa dessas viagens, lobotomizou 225 pessoas em 12 dias.”

No capítulo dedicado aos microorganismos, Bryson cita um estudo curioso, na página 130:

“Num estudo chamado “Bacterial Transfer Associated with Blowing Out Candles on Birthday Cakes”, a equipa de Dawson descobriu que soprar para apagar as velas de um bolo aumentava a cobertura de bactérias em cima dele, em 1400%.”

Na página 316 Bryson cita o caso de outro cirurgião compulsivo:

“Henry Cotton convenceu-se de que os distúrbios psiquiátricos não se deviam a perturbações do cérebro, mas sim a intestinos com malformações congénitas, e embarcou num programa de cirurgias para o qual não tinha, aparentemente, qualquer aptidão. Conseguiu matar 30% dos seus pacientes e não curou nenhum – porque, na verdade, nenhum tinha algum problema que pudesse ser curado. Cotton entusiasmou-se também com a extracção de dentes e arrancou quase 6500 dentes (uma média de 10 por paciente), num único ano, 1921, sem recorrer a qualquer anestesia.”

Falar de coisas sérias com um toque de humor, sem ser idiota, não é nada fácil, mas Bryson consegue-o.

Um exemplo, na página 357, sobre reprodução:

“É um pouco difícil saber o que pensar sobre os espermatozóides. Por um lado, são heróicos: os astronautas da biologia humana, as únicas células concebidas para sair do nosso corpo e explorar outros mundos. Por outro lado, são idiotas desorientados. Quando vão parar ao útero, parecem curiosamente mal preparados para a única tarefa que a evolução lhes atribuiu”.

Depois de ter escrito livros de viagens, de ter dissertado sobre as peculiaridades dos ingleses e dos americanos, de ter abordado as várias divisões de uma casa, de ter escrito uma história de quase tudo – Bryson escreve agora, com brilhantismo, sobre o corpo humano.

Aconselho vivamente.

(Edição Bertand, tradução de Elsa T. S. Vieira)

Outros livros de Bill Bryson: Made in America, Notas Sobre um País Grande, Por Aqui e Por Ali, Crónicas de Uma Pequena Ilha, A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, Em Casa – Breve História da Vida Privada, 1927 – Aquele Verão, Regresso à Pequena Ilha.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.