“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”, de Steven Spielberg

Quando se estreou o primeiro filme do Indiana Jones, eu e a Mila tínhamos 28 anos e Harrison Ford, 38. Fomos os três ao Mundial. Eu e a Mila rejubilámos. Há muito tempo que não nos divertíamos tanto a ver um filme.

Quando “Raiders of the Lost Arch” se estreou, em 1981, os meus amigos-intelectuais-de-esquerda torceram o nariz a tanto divertimento e acharam que o filme era mais um panfleto publicitário do imperialismo norte-americano. Se existisse um arqueólogo aventureiro como Indiana Jones, nunca poderia ser americano, que são todos uns toscos – teria que ser europeu. Mesmo os críticos de cinema – muitos dos quais, agora, consideram a trilogia de Indiana Jones como um clássico do cinema de aventuras – na altura, quando o filme se estreou, não lhe deram grande importância e criticaram-no com alguma dureza.

Para mim, Indiana Jones foi o primeiro herói de carne e osso que conheci “pessoalmente”. Antes dele, só James Bond, com quem travei conhecimento já na fase de Roger Moore, vendo, depois, em vídeo, os filmes com Sean Connery. E antes, ainda, só os heróis dos anos 30-40 (Tarzan, por exemplo), vistos a preto e branco, na televisão, nas sessões de cinema de domingo à tarde.

Por tudo isto – e por muito mais – não estava à espera que o quarto filme da saga Indy me trouxesse tanta emoção como “Os Salteadores”. Estou com 55 anos, o Harrison Ford está com 65 anos, muita água correu debaixo das pontes, estamos todos mais velhos e mais cínicos e, no que respeita ao cinema de aventura, o próprio Indiana, Spielberg e Lucas, abriram caminho a tantos produtos e subprodutos, que ninguém estava à espera que este “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” fosse algo de extraordinário.

O que já foi, não torna a ser.

E, no entanto, é um excelente filme de aventuras. As duas horas e picos que dura, passam sem darmos por isso.

E, afinal, o que distingue Indy dos outros filmes de aventuras?

As personagens têm substância, têm densidade, têm história – não são simples bonecos mal esboçados.

Existe um verdadeiro argumento, com diálogos longos e complexos, e não uma simples historiazinha mal escrita, que se limita a unir as diversas cenas de acção.

Além disso, o argumento tem credibilidade: no caso deste filme, a guerra fria, a bomba atómica, o interesse pelos dirigentes soviéticos dos anos 50 pelos fenómenos para-normais e parapsicologia, o dealbar do rock (duas das cenas mais divertidas do filme têm, como música de fundo, rock’n’roll de 1957), as linhas de Nasca e o estranho hábito das tribos índias locais, de amarrarem um pano à volta do crânio das crianças, o que fazia com o mesmo crescesse para trás, em direcção à nuca, etc.

Os efeitos especiais existem mas servem a história, e não o inverso, que é o que acontece na maior parte dos filmes de aventura, nomeadamente, na maior parte das adaptações cinematográficas de heróis de banda desenhada.

A constante referência a outros tipos de filmes de aventuras: a cena de pancadaria no bar, remete-nos para as coboiadas, o filho de Indiana e a militar soviética, esgrimindo em pé, cada um em cima do seu jipe, remetem-nos para os filmes de capa e espada, e, ainda, o filho de Indy, saltando de liana em liana, remete-nos para os filmes de Tarzan.

Os cenários credíveis. Mesmo que quase tudo tenha sido filmado num “plateau”, o que vemos, em fundo, existe e “reconhecemos” o Amazonas, as cataratas de Iguaçu, algo parecido com Machu Pichu ou o deserto do Nevada.

Resumindo: gostei do 4º Indiana; não me espantou, mas também não estava à espera que o fizesse; não me desiludiu e, confesso que não me espantaria se o fizesse.

Spielberg: por mim, podes fazer outro, que eu vou ver…

PS – O Público gostou deste texto e publicou parte dele na secção “blogues em papel”. É a segunda vez que o Público cita o Coiso, nesta secção. Isto é bom, ou mau? Tenho dúvidas… um jornal citar blogues parece-me estranho… ou será só falta de hábito?…

2 thoughts on ““Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”, de Steven Spielberg

  1. Por acaso a cena de pancadaria no bar fez-me pensar mais na luta entre Mods e Rockers, ao bom estilo de Quadrophenia, por exemplo. Cá fora até estavam estacionadas as Harleys dos rockers e as Scooters dos Mods.

    Mas tendo em conta que tudo isso é muito britânico, talvez tenha sido apenas impressão minha.

    E tive alguma pena que todas as grandes referências de que falas, tenham sido protagonizadas pelo puto ranhoso. Estão a preparar-se para filmar as aventuras de Mutt Jones? Ao menos deixavam o Indy ser a estrela do seu último filme…

  2. Mods e rockers em 1957, não me parece, para além do facto dos mods serem, de facto, algo de muito britânico. Quanto ao Mutt, parece que é claro que é tentada uma passagem de testemunho: no final, o chapéu do Indy voa com o vento e vai parar às mãos do ranhoso, mas o velho ainda fica com ele. Aliás, o Spielberg já disse que talvez faça mais um filme com o Ford…

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