“Dias Exemplares”, de Michael Cunningham

diasexemplares.jpgDepois de ter lido os outros romances de Cunningham (“Uma Casa no fim do mundo”, 1990; “Sangue do meu sangue”, 1995; e “As Horas”, 1998), confesso que esperava mais deste “Dias Exemplares” (“Specimens Days”, 2005).

O livro está dividido em três partes: “Dentro da máquina”, passado nos finais do século XIX ou princípio do século XX, em plena Era Industrial; “A Cruzada das crianças”, que decorre na actualidade; e “Uma Espécie de beleza”, que se passa num futuro distante, após um qualquer holocausto.

Em comum, estas três histórias têm alguns pontos: todas têm Nova Iorque como cenário, os protagonistas são sempre um homem, uma mulher e um rapaz (embora não o mesmo homem, a mesma mulher e o mesmo rapaz), e os versos de Walt Whitman surgem nos três segmentos, com valor profético.

Qualquer destas três histórias poderia ter dado um bom romance independente. O autor também poderia ter optado por escrever três excelentes “short stories”. No entanto, optou por deixar cada um dos segmentos como que inacabado. Aliás, sobretudo no final da segunda e da terceira partes, fica-se com vontade de continuar a ler, fica-se com vontade de que a história continue.

“Dentro da máquina” foi o segmento que me despertou menos interesse. “A Cruzada das crianças” é uma história muito perturbadora e algo mística. Finalmente, “Uma Espécie de beleza” é um excelente conto de ficção científica, que me fez lembrar algumas coisas que li há muitos anos, na velhinha colecção Argonauta (Ray Bradbury, Philip K. Dick, por exemplo – se calhar, a comparação é blasfema…).

 

Cunningham tem uma escrita muito particular, poética e macia. Parece-me que escreve com ternura. Um exemplo: “Era pequena e bonita, infantil, embora tivesse pelo menos a idade de Catherine. Usava um roupão cor de tangerina. Tinha o aspecto de qualquer coisa que podia ser ganha numa rifa de feira.” Outro exemplo: “A cabeça redonda era demasiado grande para o seu corpo franzino. Assentava sobre os ombros da jaqueta como uma abóbora. Como um desenho da Lua num livro infantil.”

No entanto, repito, esperava mais deste novo livro de Cunningham.

3 thoughts on ““Dias Exemplares”, de Michael Cunningham

  1. Eu não li nem vi e nem comentei este texto. Nem vou dizer que costumava sentir-me deprimida quando entrava numa livraria e pensava nos livros que nunca ia ler. Com a idade passou-me. Ultimamente ando com os mesmos sintomas…

  2. Pois… eu também já passei por fases dessas. Agora, contento-me com a ideia de que, já que não posso ler tudo, posso ler alguma coisa e adoptei a técnica de ler 2 livros: um, mais “sério”, à cabeceira, antes de adormecer (quando adormeço…) e outro, mais ligeiro, junto ao sofá, para ler aos soluços. Está a resultar.

  3. Desde que comecei a trabalhar numa zona de Lisboa inestacionável que me desloco de Metro e consigo ler aprox.80 minutos por dia, nas viagens. É o tempo que me resta para ler uma vez que no sofá me sento pouco e à cabeceira não dá porque durmo num instantinho antes de me levantar novamente. :)

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