As reconversões (Crónicas do Solnado – 4.2.1985)

Entre dezembro de 1983 e março de 1985 escrevi mais de 30 crónicas que foram lidas e interpretadas pelo Raul Solnado, primeiro, no programa Fim de Semana, na RTP-1, depois no Programa da Manhã, da Rádio Comercial.

De uma coisa os portugueses se podem orgulhar: da sua capacidade de se desenrascarem.

A gente pode andar à nora, completamente tesos, õ-tio ó-tio, mas, mais tarde ou mais cedo, a malta desenrasca-se.

É uma característica da raça e pronto!…

Vejam lá se o Afonso Henriques não se desenrascou da mãe, e o Pedro Álvares Cabral, depois de andar perdido no Atlântico, lá se desenrascou e for parar ao Brasil.

Em termos técnicos, o desenrascanço é a reconversão.

Foi assim que se reconverteram os velhos cafés em agências bancárias, os bonitos prédios do século passado em torres estreitinhas só com janelas e, mais recentemente, os teatros em centros comerciais.

O que é preciso é estar a pau: quando um negócio começa a dar para o torto, a gente desenrasca-se, reconvertendo-o.

Nessa linha, a fábrica que montava frigoríficos e não os conseguia vender, passou a fazer geleiras para campismo; e a empresa que produzia amortecedores que ninguém comprava, passou a fabricar molas para esferográficas.

E a nível oficial, a coisa é semelhante…

Tínhamos uma agência noticiosa que dava prejuízo. Reconverteu-se em duas agências noticiosas que dão prejuízo. Temos duas companhias de navegação que dão prejuízo e já se fala em reconvertê-las noutras duas companhias de navegação.

Reconvertemos a Companhia das Águas em EPAL, a Companhia do Gás e Electricidade em EDP, a CUF em Quimigal. O que é preciso é reconverter, a ver se agente se desenrasca.

E até os governos utilizam esta técnica com os ministros.

Por exemplo: como o que a terra nos dá é essencial à vida, o dr. Sousa Tavares reconverteu-se de ministro da Agricultura em ministro da Qualidade de Vida; e como o trabalho dá saúde, Maldonado Gonelha reconverteu-se de ministro do Trabalho em ministro da Saúde.

Por isso, é natural que a Casa da Moeda vá ser reconvertida. De facto, aquilo é cada vez mais Casa e cada vez menos Moeda, e quase que só serve para vender papel selado e números atrasados do Diário da República. Nesse sentido, o ministro Eduardo Ferreira – que se reconverteu de ministro da Habitação em ministro da Administração Interna – anunciou que, a partir do mês que vem, as matrículas dos automóveis vão passar a ser feitas na Casa da Moeda.

Está tudo muito bem – a gente precisa é de se desenrascar.

O pior é se alguém troca as chapas e, às tantas, anda um tipo às aranhas à procura de troco de HE-01-47 e só arranja notas de LD-21-10. Ou, pelo contrário, começam a sair carros com a matrícula Mis Escudos Ouro e a gravura do D. Pedro V ao lado.

Mas a gente cá se há de de desenrascar…

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