Morte solidária

Continuando a remexer no baú das minhas recordações, que comecei a juntar com alguma ordem, a partir dos meus 18 anos, encontrei este recorte do Diário de Notícias que é, simultaneamente, delicioso e assustador.

Trata-se de uma pequena notícia sobre uma sessão solene na então Assembleia Nacional, realizada a 28 de Julho de 1971.

Nessa sessão, foi evocada a memória de Augusto de Castro, que foi director do DN durante muitos anos e que falecera dias antes.

O último parágrafo da notícia diz:

«(Augusto de Castro) Quis estar junto de Salazar, o seu amigo de sempre, no dia em que a Nação assinala o primeiro aniversário da sua morte. Maior homenagem não lhe podia prestar».

Por outras palavras, a dedicação à causa salazarista era tanta, que Augusto de Castro, fez um esforço para falecer naquele exacto dia, de modo a poder ir festejar o primeiro aniversário da morte do ditador, sentadinho ao lado dele – presume-se que no Outro Mundo, ou melhor, no Céu, porque Salazar era tão bonzinho que só podia estar no Céu.

À primeira vista, este texto pode parecer inocente, beato e até infantil, mas revela bem a fantasia em que Portugal estava mergulhado: toda uma nação dependente de um homem providencial, que zelou por nós durante 40 anos – e continuava a zelar, lá de cima, do Céu e, agora, tendo por companhia, o director do Diário de Notícias.

Era de ter medo. Muito medo…

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