Posts Tagged ‘américa’

Trump contribui para a paz mundial

Sunday, May 21st, 2017

Na sua primeira visita de Estado a um país estrangeiro, Donald Trump escolheu a democrática Arábia Saudita.

Enquanto a sua esposa, Melania, exibia os seus longos cabelos às mulheres sauditas que, como se sabe, sofrem de alopécia hereditária, Trump fechava negócio com os xeiques, vendendo-lhes armas no valor de 110 mil milhões de euros (dava para a malta pagar o resgate ao FMI e ainda sobravam uns trocos para fazer as 20 estações de metro propostas pela Dona Assunção).

Este é, sem dúvida, o primeiro grande contributo de Trump para a paz mundial.

O que vai a Arábia Saudita fazer a tantas armas se, praticamente, não tem inimigos?

Com sorte, algumas dessas armas ainda vão parar às mãos do Daesh que, como agradecimento, são muito capazes de atacar a Coreia do Norte.

Haverá maior infiel que Kim-Jong un?

“Quando Ela Era Boa”, de Philip Roth (1966)

Sunday, March 12th, 2017

Só no ano passado, 40 anos depois, a D. Quixote edita mais este romance de Roth, publicado em 1966.

Depois de ter lido mais de uma dúzia de obras de Philip Roth, confesso que este Whe She Was Good não me prendeu como os outros.

O livro conta a história de Lucy Nelson, do seu pai alcoólico e da sua mãe algo pateta, de como Lucy se deixa seduzir, aos 18 anos, por Roy, três anos mais velho, mas muito infantil, e traça o retrato de uma América provinciana e retrógrada; no entanto, o habitual sarcasmo de Roth está ausente, o que torna o livro um tanto incaracterístico.

Outros livros de Philip Roth: “Goodbye, Columbus“, “Némesis“, “A Humilhação“, “O Complexo de Portnoy“, “Indignação“, “O Fantasma Sai de Cena“, “O Animal Moribundo“, “Património“, “Todo-o-Mundo“, “Pastoral Americana“, “A Conspiração Contra a América“, “Casei com um Comunista“.

Entretanto, na Casa Branca…

Wednesday, March 1st, 2017

“Manual para Mulheres de Limpeza”, de Lucia Berlin (1977-1999)

Sunday, January 29th, 2017

Lucia Berlin nasceu no Alasca em 1936, publicou os seus primeiros contos aos 24 anos, foi enfermeira, telefonista, mulher da limpeza, professora de escrita criativa, viveu em várias cidades dos EUA, no México e no Chile, foi casada três vezes, teve quatro filhos, uma mãe e um avô alcoólicos, ela própria foi alcoólica e submeteu-se a várias desintoxicações, foi publicando os seus contos em diversas revistas, reuniu-os em vários livros que nunca tiveram grande aceitação, senão depois da sua morte, em 2004, no dia em que completava 68 anos.

Hoje em dia, é considerada uma das grandes escritoras norte-americanas, sobretudo de short stories e, de facto, este foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

As histórias de Lucia Berlin têm pessoas reais dentro e são retratos do dia-a-dia, enriquecidos pela experiência de uma mulher que trabalhou em hospitais, deu aulas na Universidade, atendeu telefonemas, trabalhou como mulher-a-dias e teve uma vida cheia.

Num dos contos, Lucia, enquanto enfermeira, fala nas mortes dos doentes e, no que respeita à morte de doentes ciganos, escreve algo que eu também já presenciei e que demonstra que os ciganos são iguais em toda a parte:

“Os ciganos são mortes boas. Eu acho… as outras enfermeiras não, e os seguranças também não. Há sempre dezenas deles que exigem estar com o moribundo, que o beijam e abraçam, a desligar e a estragar os televisores e os monitores e o resto dos aparelhos. A melhor coisa nas mortes ciganas é eles nunca mandarem calar os miúdos.

Os adultos clamam e choram, mas todas as crianças continuam a correr e a brincar e a rir, sem que lhes seja dito que devem estar tristes ou mostrar-se respeitosas.”

O presente volume, junta histórias de vários livros de Lucia (edição Alfaguara, com tradução cuidada de Rita Canas Mendes, com notas muito a propósito).

Aconselho vivamente.

His way

Monday, January 23rd, 2017

Não sei se repararam, mas a canção escolhida por Trump para aquela piroseira do baile inaugural foi “My Way” – original de Claude François (“Comme d’ habitude”), adaptado por Paul Anka para “americano” e tornada famosa por Frank Sinatra.

A canção começa com significativo “And now, the end is near”…

Premonitório…

As promessas de Trump

Friday, January 20th, 2017

Trump tomou posse.

Discursou durante 18 minutos e prometeu muitas coisas.

Que a América vai ser grande outra vez.

Que as fronteiras se fecharão para quem rouba a riqueza e os empregos aos americanos.

Que o Daesh será esmagado.

Que o Sporting será campeão ainda este ano.

Está tudo dito…

Preocupações

Thursday, November 10th, 2016

obama-e-trump

Donaldo Trampa

Wednesday, November 9th, 2016

Nunca leu um livro.
Tem desprezo pelos políticos.
Considera-se fora do sistema.
Não se engana.
Não tem dúvidas.

Onde é que eu já ouvi isto?

trump

“Música para aguardente”, de Charles Bukowski (1983)

Sunday, April 3rd, 2016

Ora aqui está um livro que deve ser lido aos poucos, já que, todo de seguida, de certeza que acaba por aborrecer.

charles-bukowskiCharles Bukowski (1920-1994) escreve sobre personagens desesperados, desiludidos da vida, mortos-vivos que se arrastam pelas noites de Los Angeles, de bar em bar, do motel andrajoso para a corrida de cavalos e daqui para outro bar com cheiro a mofo.

As  cerca de trinta histórias reunidas neste volume, datado de 1983, cheiram a álcool e a tabaco e a linguagem explícita torna-as ainda mais cruas e feias e porcas e más.

Exemplo (página 184):

musica para aguardente“Os cães corriam de um lado para o outro e a Honeysuckle continuava de pé, no meio do quarto, com o papagaio ao ombro. Ela era morena, talvez italiana ou grega, muito magra, com papos debaixo dos olhos; tinha um ar trágico, gentil e perigoso, acima de tudo trágico. Pousei o whiskey e a cerveja na mesa e todos avançaram na sua direcção. O H.R. começou a sacar as caricas das garrafas de cerveja e eu comecei a sacar o lacre ao whiskey. Uns copos poeirentos apareceram por ali, juntamente com vários cinzeiros. Através da parede à nossa esquerda ribombou subitamente uma voz masculina: «Sua puta do caralho, quero que comas a minha merda!».

Sentámo-nos e eu distribuí o whiskey. O H.R. passou-me um charuto. Eu tirei-o da embalagem, mordi a ponta e acendi-o. 

– Que achas da literatura moderna? – perguntou-me o H.R.

– Não gosto muito dela.”

Outro exemplo (página 225):

“Leslie sentou-se com um scotch com água. Na rádio estava a passar Copeland. Bem, Copeland não era grande coisa, mas era melhor do que Sinatra. Temos de aceitar o que a vida nos dá e temos que tentar fazer com ela o melhor que pudermos. Era o que velho dele lhe dizia. Que se foda o velho dele. Que se fodam todos os fanáticos por Jesus. Que se foda Billy Graham e que vá levar no pacote.

Bateram à porta. Era Sonny, o puto louro que vivia do outro lado do pátio. Sonny era meio homem e meio pila e estava baralhado. A maior parte dos tipos com pilas grandes tinham problemas quando a foda acabava. Mas Sonny era mais simpático do que a maioria; era meigo, era gentil e tinha alguma inteligência.”

E é este o tom de todas as histórias que, na sua grande maioria não têm propriamente um fim, mas são apenas descrições de bebedeiras, engates e coisas que acontecem a esta malta.

No mínimo, curioso…

“O Filho”, de Philipp Meyer (2013)

Sunday, September 20th, 2015

philipp meyerPhilipp Meyer nasceu em New York em 1974, estudou em Baltimore, foi mecânico de bicicletas e paramédico, entre outras coisas, até que, em 2009, publicou Ferrugem Americana.

Quatro anos depois, publicou este The Son, um verdadeiro épico sobre o Oeste americano, um romance que te agarra do princípio ao fim, contando a história de uma família de colonos, os McCullough.

A história, que começa nos finais do século 19, quando os colonos dizimam os índios, e acaba nos nossos dias, é-nos contada por três elementos da família, um de cada geração.

o filhoSem dúvida que os relatos mais interessantes são de Eli McCullough. Numa noite, a casa onde vivia com os pais, a irmão e o irmão, junto à fronteira com as terras dos índios, é atacada pelos comanches. Todos são mortos violentamente e ele é tomado como escravo, vivendo os anos seguintes com os índios, aprendendo os seus usos e costumes. Mais tarde, quando os comanches são praticamente dizimados, regressa ao convívios dos brancos e torna-se ranger, combate depois no exército sulista, na guerra da sucessão e, finalmente, estabelece-se com um rancho, que há-de tornar-se num verdadeiro império quando se descobre petróleo no Texas.

Gostei bastante de ficar a conhecer muitas coisas sobre os comanches de que nunca tinha ouvido falar, apesar de tantos filmes de cowboys e revistas do Mundo de Aventuras.

Por exemplo: para os comanches, o bisonte era como o porco é para nós – aproveitava-se tudo.

«Os bisontes abatidos eram desmanchados onde caíam, embora “desmanchados” não seja a palavra certa; os Comanches eram como cirurgiões. A pele era cortada cuidadosamente ao longo da coluna, pois a melhor carne e os tendões mais compridos ficavam mesmo por baixo, e depois era tirada ao animal. (…) O estômago era removido, a erva tirada lá de dentro e o restante suco de imediato bebido como tónico, ou aplicado no rosto por aqueles que tinham furúnculos ou erupções cutâneas. O conteúdo dos intestinos era espremido entre os dedos e os próprios intestinos assados ou comidos crus. Os rins, o sebo dos rins e o sebo ao longo dos lombos também eram comidos crus enquanto o animal continuava a ser desmanchado, embora por vezes fossem ligeiramente assados, juntamente com os testículos do macho. (…) Se houvesse pouca água, as veias do animal eram abertas e o sangue bebido antes de ter tempo para coagular. O crânio era fendido, os miolos mexidos numa pele não curtida e igualmente ingeridos… (…) O estômago era lavado, seco e usado como reservatório de água. (…) A língua, a bossa, as costelas laterais e as costelas da bossa eram todas cortes de eleição e eram guardadas para churrasco. (…)»… e assim continua por mais alguns parágrafos, com uso para os ossos, a bexiga, o pericárdio, etc.

Para além de muito bem escrito, este calhamaço de 636 páginas (edição Bertrand, tradução de Fernanda Oliveira), ajuda-nos a perceber como foi a chacina dos índios, a expulsão dos mexicanos e até a explicar como o petróleo mudou a face da América e do mundo.

Aconselho vivamente.