“A Idade do Vício”, de Deepti Kapoor (2023)

Poucas informações se obtêm sobre esta escritora indiana que, neste momento, vive em Portugal. Consigo perceber que cresceu no norte da Índia e que trabalhou como jornalista durante algum tempo. Este livro, publicado em 2023, é o seu segundo romance – e que romance.

São 646 páginas com todos os ingredientes para fazer um grande filme de aventuras ou uma série de televisão – e parece que os direitos do livro foram comprados por uma produtora subsidiária da Disney.

A história deste calhamaço gira em torno de Ajai e de Sunny. Ajai é um miúdo pobre, cuja mãe acaba por vender a uns ricalhaços, depois de ficar viúva. Depois de muitas atribulações, Ajai vai tornar-se o servo de Sunny, o filho de um grande senhor do Uttar Pradesh, que enriqueceu graças à especulação.

Por um lado, vemos a luta que Sunny trava consigo próprio, tentando agradar ao pai, mas nunca conseguindo. Por outro, vemos a luta de Ajai que, ao mesmo tempo que se quer manter fiel a Sunny, se vê sempre subjugado por ele.

Lê-se com um grande livro de aventuras…

“Açúcar Queimado”, de Avni Doshi (2020)

Este é o romance de estreia de Avni Doshi, nascida em New Jersey em 1982, mas a viver no Dubai. Doshi é filha de emigrantes provenientes da Índia e este seu livro foi inicialmente publicado nesse país com o título “The Girl in White Cotton”. Posteriormente, já com o título actual, o romance foi publicado no Reino Unido e foi finalista do Booker de 2020.

A primeira frase do livro é esclarecedora:

“Mentiria se dissesse que a infelicidade da minha mãe nunca me deu prazer”

A narradora chama-se Antara e a sua mãe Tara, e o antagonismo destes dois nomes não é por acaso. Tara foi uma jovem leviana que pouco ligou à sua filha. Agora, apesar de ainda não ter chegado aos 60 anos, Tara está demente e a filha tem que cuidar dela.

Em relação à sua mãe, Antara tem sentimentos ambivalentes, com os quais tem dificuldade em lidar.

Para primeira obra, o livro está bem inscrito, mas penso que é um pouco irregular.

Algumas passagens curiosas.

Antara está casada com Dilip, que foi criado nos Estados Unidos. Vivem na Índia, onde toda a acção do livro decorre.

Sobre Dilip, diz a narradora:

“Era atraente e alto. E tudo nele mostrava que fora criado no estrangeiro. Bonés de basebol, boas maneiras e anos a consumir lacticínios americanos. estava a salvar-me, embora não o soubesse. A boca dele abriu-se num sorriso ante um comentário da minha mãe e eu vi-lhe os trinta e dois dentes, disciplinados por anos de aparelho na adolescência.”

Ainda sobre o marido, diz Antara:

“Quando me come, o Dilip roça o nariz na minha vulva e inspira.

«Não cheira a nada», declara. Orgulha-se dessa característica, diz que é invulgar e poderá ser uma das razões pelas quais consegue imaginar-nos juntos. A vida dele, agora, está repleta de cheiros intensos, no escritório e até quando apanha um elevador, e é um alívio eu não ter cheiro depois de um treino ou em situações de grande tensão. Cresceu no Milwaukee, onde os seus ouvidos só conheciam cotonetes macias e sossego suburbano.”

Sobre a demência da mãe, Antara pesquisa bibliografia e confronta o médico:

“- Também vi uns estudos que relacionam a saúde cognitiva com problemas nos intestinos.

Ele inclina-se para trás, como se sentisse um cheiro estranho. Talvez por eu dizer que na tripa se encontra a resposta para a nossa pergunta, uma profanação do dogma que lhe é tão caro. Os intelectuais franceses torceram o nariz quando Bataille sugeriu que se podia encontrar a iluminação na merda, ou Deus numa prostituta, e é provável que agora os neurologistas prefiram manter o biombo que separa o seu campo de intervenção do resto do corpo, a santidade da barreira sangue-cérebro, porque um cagalhão não pode ter nada a ver com os mistérios que eles investigam”.

Vale a pena ler.

“O Ministério da Felicidade Suprema”, de Arundhati Roy (2017)

Vinte anos depois de O Deus das Pequenas Coisas, esta escritora indiana publica o seu segundo romance, recebido com aplauso generalizado.

Não posso dizer que não me agradou, mas confesso que estava à espera de algo diferente.

A primeira parte do romance, aquela que se centra sobre a personagem de Anjum, um(a) hijra, um homem que se sente mulher e se comporta como tal, é avassaladora. Alguém diz que faz lembrar os Cem Anos de Solidão. Não há dúvida que é uma escrita torrencial, com descrições arrepiantes da Índia. Estive em Nova Delhi e Agra durante dois dias, há quase 15 anos mas, pelas descrições de Roy, as coisas parece que continuam na mesma.

Depois, o romance centra-se muito nos problemas de Caxemira e na sua luta pela independência, pelos ódios entre muçulmanos e hindus, e penso que perde gás.

Roy traça um retrato nada simpático da Índia, dos seus ódios internos, do sistema de castas, da degradação, da porcaria.

Nas páginas 113 e 114, da corrupção:

“O verão da ressurreição da cidade, tinha sido também o verão das fraudes – fraudes do carvão, fraudes do ferro, fraudes de habitação, fraudes de seguro, fraudes postais, fraudes de licenças telefónicas, fraudes imobiliárias, fraudes das barragens, fraudes de irrigação, fraudes de armas e munições, fraudes de bombas de gasolina, fraudes de vacinas contra a poliomielite, fraudes das contas da electricidade, fraudes dos manuais escolares, fraudes dos profetas, fraudes de auxílio à seca, fraudes de matrículas de automóveis, fraudes de listas de eleitores, fraudes de cartões de identificação – nas quais políticos, homens de negócios, homens de negócios-políticos e políticos-homens de negócios tinham arrebatado quantias inimagináveis de dinheiros públicos”.

A Índia é um subcontinente e a bagunça de etnias, castas, interesses políticos e económicos, é de tal ordem, que admira que, sendo também uma potência nuclear, ainda não se tenha desencadeado nenhum conflito à escala universal.

Sobre Caxemira, escreve Roy:

“Que nenhum de nós, os que lutavam por ela (Caxemira) – caxemirenses, indianos, paquistaneses, chineses (também têm um pedaço dela: Aksai Chin, que fazia parte do velho reino de Jammu e Caxemira), ou, na verdade, panhadis, gujjars, dogras, pastós, shins, ladakhis, baltis, gilgitis, purikis, wakhis, yashkuns, tibetanos, mongóis, tártaros, mon. kowars – nenhum de nós, santo ou soldado, tinha o direito de reclamar para si a beleza verdadeiramente celestial daquele lugar”.

Na minha curta visita a Nova Delhi, numa alucinante viagem de autocarro até Agra, vi centenas de pessoas vivendo nas bermas da estrada, lavando-se, defecando, comendo, com barracas feitas de plásticos e estacas. Pelos vistos, tudo continua na mesma.

Página 273:

“A alguns quilómetros do sítio onde estava deitada, sem conseguir dormir, três homens tinham morrido esmagados na noite anterior, depois de um camião se ter despistado na estrada. Talvez o condutor tivesse adormecido. Na televisão diziam que os sem-abrigo, no verão, estavam agora a dormir à beira de estradas com muito trânsito. Tinham descoberto que os vapores dos escapes dos camiões e autocarros que passavam eram um repelente de mosquitos eficaz e os protegiam do surto de dengue que já matara várias centenas de pessoas na cidade.”

É esta a ideia com que fiquei da Índia, se é que se pode ficar com uma ideia de uma nação tão imensa como a Índia em apenas dois dias.

Em resumo, Arundhati Roy escreveu outro grande romance, mas não me tocou muito.