“Epidemias e Sociedade”, de Frank M. Snowden (2019)

Aqui está um livro oportuno e que todos os “especialistas” televisivos deviam ler, antes de fazerem os seus comentários alarves sobre a pandemia do coronavírus.

Frank M, Snowden é o pseudónimo do professor de História da Medicina da Faculdade de Yale, de seu nome Andrew Downey Orrick (N. 1946).

O livro começou como um curso de licenciatura na Universidade de Yale, tentando responder às preocupações sobre as epidemias emergentes, caso do ébola, gripe das aves e SARS. As aulas destinavam-se a alunos de Medicina e a cientistas em post-graduação.

Snowden pegou nessas aulas e transformou-as neste excelente calhamaço de quase 700 páginas, abordando as três epidemias da peste, a varíola, a influência da febre amarela, da disenteria e do tifo nas grandes derrotas de Napoleão, as correntes médicas de Paris, o movimento sanitário e a teoria dos germes, as epidemias de cólera, a tuberculose, a malária na Sardenha, a poliomielite, o VIH/sida, a SARS e o ébola.

Apesar do livro ter sido lançado antes do aparecimento do novo coronavírus, Snowden, de certo modo, já previa o aparecimento de uma nova pandemia e alertava para o facto de o mundo, apesar de todos os ensinamentos do passado, não estar preparado para a enfrentar.

Uma imagem com texto, livroDescrição gerada automaticamenteO autor acrescentou uma pequena introdução, já este ano, onde diz, nomeadamente que “como todas as pandemias, a do covid 19 não é um acontecimento acidental e aleatório”.

Snowden faz questão de contextualizar todas as pandemias, mostrando-nos que todas têm contornos sociológicos bem definidos, atacando, quase sempre, as classes mais pobres. Por outro lado, a luta contra as pandemias tem sido, quase sempre, titubeante, por razões económicas, ideológicas e políticas.

Cito apenas três ou quatro passagens do livro, apenas para mostrar o tom do texto.

Sobre a varíola nos Estados Unidos:

“Devemos acrescentar aqui o facto de que as mortes espontâneas dos americanos nativos foram às vezes reforçadas por genocídios intencionais. O precedente foi estabelecido pelo oficial do exército britânico, Sir Jeffery Amherst, que introduziu o genocídio na América do Norte quando deu deliberadamente cobertores infectados com varíola aos nativos americanos, para os «reduzir».

Sobre a tuberculose e o medo que ela provocou, quando a epidemia se espalhou no final do século 19:

“os bancos esterilizavam as moedas e o Departamento do Tesouro retirava as notas antigas e emitia substitutas não contaminadas. De acordo com o Laboratório de Pesquisa de Nova Iorque, os testes determinaram que as moedas de penny sujas apresentavam uma média de vinte e seis bactérias vivas cada uma e as notas sujas, setenta e três mil.

As barbas e os bigodes deixaram de ser preferência, depois de terem estado na moda durante a maior parte da segunda metade do século XIX. As bactérias poderiam aninhar-se entre os bigodes e cair no prato de outra pessoa, ou passar de lábios durante um beijo”.

Com a erradicação da varíola e o quase desaparecimento da poliomielite, mais o advento dos antibióticos, as autoridades de saúde de todo o mundo pensaram que tinham ganho a guerra contra as doenças infecciosas:

“em 1992, o governo federal dos Estados Unidos atribuiu apenas 74 milhões de dólares para a vigilância das doenças infecciosas, enquanto os funcionários da saúde pública davam prioridade a outras preocupações, como as doenças crónicas, u usio do tabaco, a geriatria e a degradação do ambiente.”

Quanto à recente epidemia do ébola e a falta de preparação dos países africanos para a enfrentar, Snowden dá uma valente chapada nos liberais:

“Um tal grau de falta de preparação resultou de uma combinação de circunstâncias, que ainda se verificam hoje. Uma é o tratamento da saúde como uma mercadoria no mercado, em vez de ser um direito humano. Bem antes da erupção do ébola, as decisões do mercado evitaram que a África Ocidental tivesse as ferramentas para enfrentar a emergência. As farmacêuticas priorizaram o tratamento das doenças crónicas das nações industrializadas, onde se pode ter lucros, em detrimento do desenvolvimento de drogas e vacinas para as doenças infecciosas dos pobres.”

Portanto, estamos perante uma obra fundamental para perceber as pandemias, incluindo a do coronavírus.

O livro foi editado por cá em outubro passado, pelas Edições 70. A tradução é de Alexandra Cardoso, Pedro Vidal e Rui Santos. A este triunvirato apenas tenho de chamar a atenção para a página 470, onde se diz “esplenomegália, um doloroso inchaço do pâncreas”.

Não é. Esplenomegália é o aumento do volume do baço…

A epidemia! Finalmente, a epidemia!

A gripe das aves passou-nos a perna. Armazenámos tamiflu às toneladas, reunimos as mais altas instâncias da OMS, enviámos repórteres aos hospitais dotados de quartos especialmente preparados para receber os infectados – e, da gripe, nem rasto.

O tamiflu ficou a ganhar bolor nas caves da Direcção Geral da Saúde.

Mas eis que os porcos dão uma ajuda: aí está a gripe suína!

Hoje, 6 dias depois de dado o alerta, já se fizeram, em Portuga, 10 análises 10 para tentar detectar o vírus H1N1, o que dá uma estonteante média de menos de duas análises por dia!

Hoje, 6 dias depois do alerta, não há um único caso confirmado, nem sequer um caso suspeito para amostra, mas já se põe em causa a capacidade de resposta das autoridades de saúde, nomeadamente da linha de Saúde 24.

Quem ouvir as notícias das televisões portuguesas, pensa que está no México e que há pessoas a morrer de gripe suína em cada esquina.

Mesmo no México, parece que o número de mortes que podem, comprovadamente ser atribuídas ao H1N1, são apenas sete.

Exagero, como de costume.

Nesse caso, não se deve informar? não se deve prevenir?

Claro que sim, mas sejam um pouco menos histéricos, por favor!

Ontem, no telejornal da RTP-1, uma jornalista que tem a mania que é engraçadinha, andou pela rua, em reportagem para conhecer a reacção das pessoas à gripe suína.

E, apesar de ter a obrigação de informar correctamente, a jornalista perguntou a um homem, qualquer coisa como isto: “então vai comprar carne de porco? Não tem medo?”

Ela estava a brincar… claro que a carne de porco não tem nada a ver com a gripe suína – ou terá?

Aguardemos os próximos desenvolvimentos da coisa, mas cheira-me que estamos perante mais uma coisa semelhante à da pneumonia atípica que, em 2003 ia matando milhões de pessoas em todo o mundo. E quem já não se lembra dessa epidemia brutal, pode clicar aqui, por exemplo.