“Os Anos”, de Annie Ernaux (2008)

Annie Ernaux terá concluído este livro quando tinha 66 anos, após a sua aposentação. Já nas páginas finais deste livro, escreve:

“De um dia para o outro, as aulas redigidas, as notas de leitura para as preparar, deixavam de ter qualquer utilidade. Por falta de uso, os conceitos antes adquiridos para explicar os textos apagavam-se nela – e quando procurava em vão o nome de uma figura de estilo, era obrigada a confessar, como a sua mãe fazia a propósito de uma flor da qual lhe escapava o nome, «já soube»”.

E mais à frente:

“Já lhe acontece, quando tenta lembrar-se das colegas do liceu na montanha, onde deu aulas durante dois anos, ver algumas silhuetas, rostos, por vezes até com extrema precisão, mas é-lhe impossível «dar nome». Desespera para tentar encontrar o nome que falta, para fazer coincidir uma pessoa com um nome, como se conciliam duas metades separadas.”

Como eu a compreendo! Passa-se o mesmo quando vejo na rua um ex-doente meu, que reconheço imediatamente, mas cujo nome se perdeu algures no espaço e no tempo, ou quando tento lembrar-me do nome de um medicamento ou até de um síndroma.

Este livro de Annie Ernaux é uma espécie de diário; são pequenos fragmentos que contam pequenos episódios a partir de uma foto, ou de uma notícia de jornal, ou de um filme, de uma canção, de um jingle comercial. Começa nos anos 40, pouco depois da Segunda Guerra e vai caminhando ao longo dos anos (daí o titulo do livro), até 2006.

Logo na página 31, escreve:

“Não se deitava nada fora. Os baldes da noite serviam de estrume no jardim, o esterco apanhado na rua depois de passar um cavalo servia de adubo para os vasos das flores, o jornal servia para embrulhar legumes, secar por dentro os sapatos molhados, limpar o rabo na casa de banho.”

Mais à frente, página 40:

“O sexo era a grande suspeição no seio da sociedade, que via sinais dele por todo o lado: os decotes, as saias travadas, o verniz vermelho das unhas, a roupa interior preta, o biquíni, a mistura de sexos, a obscuridade das salas de cinema, as casas de banho públicas, os músculos do Tarzan, as mulheres que fumam e traçam a perna, o gesto de passar a mão pelos cabelos na sala de aula, etc.”

E muito mais à frente, como último exemplo do modo como Ernaux escreve este “diário” (página 140):

“Os filhos, sobretudo os rapazes, dificilmente largavam o ninho familiar, o frigorífico cheio, a roupa lavada, o ruído de fundo das coisas da infância. Faziam amor, com todo o à-vontade, no quarto ao lado do nosso. Instalavam-se numa juventude longa e duradoura, o mundo parecia não estar à sua espera. E nós, alimentando-os, continuando a cuidar deles, tínhamos a sensação de estarmos a viver, sem rutura, no mesmo tempo de sempre.”

Sem nunca se referir a ela própria especificamente, mas sim a um conjunto de pessoas que poderão ser a sua geração, Ernaux vai referindo os acontecimentos da política, a eleição de Mitterand, depois de Chirac, depois de Sarkozy, a evolução da tecnologia até ao telemóveis e os computadores, as modas, os programas de televisão, as canções, não esquecendo praticamente nada de importante, a não ser, talvez, o 25 de Abril – já que fala na queda da ditadura grega, por exemplo.

É um livro muito interessante, que foi finalista do Man Booker Internacional de 2009, e que poderia ainda ser mais interessante se não fosse “tão francês”, uma vez que a autora refere nomes de apresentadores de televisão e respectivos programas e outros acontecimentos (guerras da Indochina e da Argélia) que dizem respeito apenas aos franceses. Vale a pena ler.

“O Acontecimento”, de Annie Ernaux (2000)

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Annie Ernaux. Claro que o facto de esta escritora francesa , nascida na Normandia em 1940, ter ganho o Nobel deste ano, me despertou a curiosidade – sobretudo depois de ter lido uma entrevista sua que veio publicada no Expresso.

Comecei por ler este “O Acontecimento”, publicado há 22 anos. É um livrinho que se lê num par de horas porque não chega às 90 páginas.

Ernaux, que afirma que todos os seus livros são biográficos, tem a coragem de contar como, em 1963, se submeteu a um aborto clandestino, que a fez sentir-se humilhada, abandonada e em risco de vida. Afinal, ela era uma estudante universitária e, no entanto, no que respeita ao problema que enfrentava, tanto fazia.

Embora nunca tenhamos passado por nada de semelhante, sabemos muito bem o que era, uma década depois, continuar a basear a anticoncepção no famoso método Ogino e não ter ninguém que nos informasse melhor.

Annie Ernaux descreve os factos numa linguagem simples, mas emotiva e consegue transmitir-nos a angústia por que passou nesses tempos.

Vou já iniciar a leitura de mais um livro desta escritora francesa.