País de opereta

Ontem, um doente meu, que faz o milagre de estar vivo, apesar de ter todos os factores de risco (é gordo, fuma, tem o colesterol alto, é hipertenso e diabético e não toma a medicação nem faz exercício físico, não faz qualquer tipo de restrição alimentar e tem uma profissão de stress), deu-me uma verdadeira lição sobre o modo como o jornalismo sensacionalista conseguiu tomar conta da vida das pessoas.

Perguntei-lhe eu: mas diga-me lá, ó Fulano, por que razão é que você não toma os comprimidos para a tensão? São genéricos! Uma caixa de 60 custa cerca de 2 euros! E os dos diabetes são à borla!

Responde-me o Fulano: ó doutor, 60%  do meu ordenado vai para pagar dívidas; nem tenho cabeça para pensar em comprimidos e doenças! Aliás, o Cavaco Silva vai hoje falar ao país!… Bom… eu acho que ele não deve demitir o governo mas até o chefe da casa civil disse que, se ele interrompe as férias para falar ao país, é porque é uma coisa muito importante! É que cada vez vemos mais pobreza envergonhada! Vivem melhor esses tipos que recebem o rendimento mínimo que as pessoas que têm cursos! Muitos dos sem abrigo que dormem na rua, têm cursos superiores e andam lá artistas e pessoas como o senhor doutor a dar-lhes comida! É a nova pobreza!

Depois, à noite, o Cavaco foi à televisão falar sobre o estatuto dos Açores!…

E os sem abrigo com cursos superiores não perceberam por que razão o Presidente da República não quer saber deles para nada!

Quanto ao meu doente, há-de continuar a desafiar as estatísticas dos acidentes cardiovasculares e a fazer parte daquela vasta maioria de portugueses que continuam à espera que alguém faça algo por eles.

Impunes, os jornalistas continuam a alimentar sensações.

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