O Ricardo da papelaria

O negócio está cada vez pior, pensava o Sr. Ricardo, encostado ao balcão da sua papelaria. Desde que haviam inaugurado o Centro Comercial que os clientes escasseavam e a sua loja estava quase sempre vazia.
Alguém lhe tinha sugerido que vendesse jogo, totoloto, euromilhões, raspadinhas, mas o Sr. Ricardo era contra o jogo, achava que era um vício pior que o álcool e sempre se recusara a ter disso na sua papelaria.

De modo, que se limitava a vender jornais e revistas, algum material escolar, agendas e outros artigos de escritório.

Mal dá para comer, costumava dizer, e a sorte é que não pagava renda porque a loja era sua.

O Sr. Ricardo era conhecido pelo seu mau humor; diziam que vivia sozinho porque a mulher e a filha já não o podiam aturar e tinham ido embora há anos.

Com a idade, o seu mau humor foi-se refinando. Sempre com cara de poucos amigos, atendia os (poucos) clientes com duas pedras na mão e chegava a ser indelicado quando, por exemplo, alguém entrava na papelaria para comprar apenas um lápis.

Por isso, era natural que a escassez de clientes não se devesse apenas à abertura do Centro Comercial.

Há algum tempo, o Sr. Ricardo viu-se obrigado a vender a sua casa para fazer face às dívidas aos fornecedores e passou a viver na sobreloja da papelaria, que deveria servir de armazém.

Quando o clima deixava, o Sr. Ricardo levava uma cadeira para a rua e lá ficava sentado, a ver o movimento, os carros que subiam e desciam a avenida e os transeuntes, para um lado e para outro, sempre na esperança que algum entrasse e lhe comprasse qualquer coisita.

À medida que o tempo foi passando e os clientes foram diminuindo, o Sr. Ricardo começou a comprar menos coisas aos fornecedores.

Para que haveria ele de comprar lápis e borrachas, esquadros e transferidores, cadernos e dossiers se nenhum estudante se ia abastecer na sua papelaria, preferindo as grandes superfícies?

Pensando bem, para que haveria de encomendar e comprar agendas, papel vegetal, envelopes, canetas?
Em breve, a papelaria do Sr. Ricardo apenas vendia jornais e revistas.

Com tanto tempo livre, o homem não tinha outro remédio senão entreter-se com esses mesmos jornais e revistas.

Foi assim que começou a ficar enojado com as revistas de mexericos, que enchiam as páginas com os divórcios, os romances secretos, as traições, as doenças, os azares e as sortes das chamadas figuras públicas.

Um nojo!

Deixou de vender revistas.

Depois, começou também a implicar com os jornais desportivos que, no fundo, eram parecidos com as revistas de mexericos.

Deixou de vender jornais desportivos.

Claro que não tardou a irritar-se também com os jornais diários e semanários, que achava pouco sérios e sensacionalistas.

Acabou por recusar vender fosse o que fosse e fechou a papelaria.

Quem passa agora na rua e, por curiosidade, olha para o interior da loja, vê o Sr. Ricardo lá dentro, sentado na única cadeira que resta, no meio de uma loja completamente vazia.

E pode ter a certeza que ele responderá com um manguito.

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