“O Infinito num Junco”, de Irene Vallejo (2019)

Irene Vallejo nasceu em Saragoça em 1979, tem pouco mais de 40 anos, estudou Filologia Clássica e é doutorada pelas Universidades de Saragoça e Florença; escreve no El País e no Heraldo de Aragon.

Este livro transformou-se num inesperado grande êxito de vendas – inesperado porque trata da história dos livros na Antiguidade Clássica, em Grécia e em Roma.

No entanto, num assunto que poderia ser uma chatice, a jovem autora conseguiu escrever uma história fascinante, que começa na grande Biblioteca de Alexandria e percorre todos aqueles séculos antes de Cristo, passando por Alexandre o Grande, Sócrates, Aristóteles, Homero, e todos os grandes autores gregos, do tempo em que os livros eram rolos de papiro (daí o junco), até a Roma e o seu extenso império, Ovídio, Marcial e muitos outros.

Um livro sobre a história dos livros, quando ainda não existiam propriamente livros, como hoje os conhecemos.

Ao longo da narrativa, Irene Vallejo socorre-se de muitos exemplos da actualidade para ilustrar as suas ideias e, por vezes, fala-nos dos pais, que viveram durante a ditadura de Franco.

Conta, por exemplo, que costumava acompanhar o pai nas visitas que ele gostava de fazer a um alfarrabista.

“Naquela manhã dos anos noventa em Madrid, o meu pai desenterrou uma curiosa pepita. Aparentemente, um D. Quixote. O fidalgo magro na capa de tecido, o primeiro capítulo, a adarga antiga, a panela com mais vaca do que carneiro, os duelos e as tristezas aos sábados. Mas em vez do segundo capítulo começava outra obra, O Capital. O meu sorriu com uma plenitude pouco habitual. Iluminou-se. A dupla de Cervantes e Marx não era um erro exótico de impressão, mas sim um livro clandestino, uma lembrança viva da juventude do meu pai.”

Irene Vallejo defende o livro com unhas e dentes e crê que ele vai sobreviver a todas as novidades.

“Quando comparamos algo velho e algo novo – como um livro e um tablet, ou uma freira sentada ao pé de um adolescente que está a falar num chat no metro -, acreditamos que o novo tem mais futuro. Na verdade, acontece o contrário. Quantos mais anos leva um objecto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século XXII existam freiras e livros do que Whatsapp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas plasmas ou telemóveis talvez não”.

De um modo simples e com uma escrita que nos prende do princípio ao fim, a autora fala-nos de Aristófanes e dos processos judiciais contra os humoristas, de Tito Lívio e do fenómeno dos fãs, de Sulpícia e da voz literária das mulheres, rara na Antiguidade, e de muitos outros.

Aconselho vivamente.

(Edição da Bertrand, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)

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